“Um não sei quê, que nasce não sei onde,/Vem não sei como, e dói não sei porquê.” Luís de Camões

"Na dor lida sentem bem,/Não as duas que êle teve,/Mas só a que êles não têm." Fernando Pessoa

"Lividos astros,/Soidões lacustres.../Lemes e mastros.../E os alabastros/Dos balaustres!" Camilo Pessanha

"E eu estou feliz ainda./Mas faz-se tarde/e sei que é tempo de continuar." Helder Macedo

"Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos..." Camilo Pessanha

“Vem, vagamente,/Vem, levemente,/Vem sozinha, solene, com as mãos caídas/Ao teu lado, vem” Álvaro de Campos

"Chove nela graça tanta/que dá graça à fermosura;/vai fermosa, e não segura." Luís de Camões

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Aos meus amores

        Há muitos anos, Godard dizia que o cinema é "a verdade a 24 imagens por segundo", ao que Fassbinder respondia que o cinema é... "a mentira a 24 imagens por segundo". Algures, Truffaut escreveu que o cinema "é a arte de fazer fazer coisas belas a belas mulheres". Por mim não sei ("não me peçam definições"), mas estas são ideias sobre o cinema que me acompanham ainda hoje, quando o cinema vive uma revolução digital em fase muito avançada, porque me ajudam a pensá-lo. Permito-me sempre questionar "o que é a verdade?", "o que é a mentira?", e se elas interessam ainda hoje - questão que me tem sido colocada - e mais, se elas interessam no cinema em especial. Quanto à beleza, embora tente manter-me fiel à perspectiva antiquíssima que identifica a verdade, a beleza e a bondade, não me surpreende nada que ela seja exibida como bem único e supremo, dissociado de qualquer outro atributo - a quem interessam ainda a verdade e a bondade? Revejo-me, porém, sempre renovadamente na ideia de Truffaut das "mulheres belas a fazerem coisas belas", e aí o que me ocorre perguntar, jogando com os conceitos de Godard e de Fassbinder, é se a beleza das "coisas belas feitas por belas mulheres" é verdade ou mentira, questão que a ele penso não o ter preocupado. A mulher, a sua beleza e a beleza do que ela faz é uma questão que ainda hoje me deixa interdito, que tem a sua verdade própria, embora pense que como definição do cinema é curto, por muito justo que fosse para François. Por sua vez, e muito justamente, Serge Daney considerava que no cinema estava envolvida, pelo menos no travelling, uma questão de moral.
        A ideia que tenho, e tenho tentado fazer passar, sobre o cinema é de que ao longo do século XX os estúdios de cinema foram o equivalente dos grandes mecenas do Renascimento, o que penso ter sido mesmo a hipótese sobre a qual trabalhou Gilles Deleuze. Eu sei que o contexto foi outro, que as artes são diferentes, mas esta foi a ideia fundamentada que encontrei para tentar compreender o meu duradouro interesse pelo cinema, pelo que mais amo no cinema. Sei também, como aqueles que citei sabiam, que há coisas menoríssimas no cinema, que nem sequer valem a pena, da mesma maneira que sei que passaram por menores no cinema coisas efectivamente magníficas - veja-se a série B norte-americana -, tal como sei que hoje em dia poucos conhecem a fundo e a sério a história do cinema - e aí, como Daney, tento ver-me a mim próprio como um "passeur".
                                   Murmúrio do Mundo (O)
        Tem sido usado contra o cinema o argumento da "sociedade do espectáculo", de que ele participaria, entendido assim, ele também, como um mero meio escapista, um entretenimento inconsequente. Embora já o tenha usado, este argumento no fundo não me satisfaz, pois sei bem como todos nós precisamos de consolação, de alguma consolação, que uns encontram na filosofia, outros na religião, quase todos no espectáculo da própria sociedade, de que participam. Não tenho dúvidas em o conceder, apesar de compreender os inconsoláveis  e me contar, aliás em boa companhia, entre os que não procuram a consolação  Por isso não me fecho, ou tento não me fechar, no cinema mais indiscutivelmente artístico e permaneço, ou tento permanecer aberto às lições do século XX também nessa matéria, sabendo embora que os tempos não vão de feição para conceitos antigos, por muito interesse que possa ter, e efectivamente tem a ideia de inactualidade, anacronismo no contemporâneo (1), e que a chamada revolução digital, por alguns temida e anatemizada, tem dado frutos muito interessantes no cinema em prejuízo de virtudes antigas deste.
        O que tem então o cinema que mais amo, que não só não me impede de pensar, como dizia Artaud no seu tempo, mas me ajuda a pensar? Tem esta coisa simples, em que me fez pensar o último livro de Almeida Faria, "O Murmúrio do Mundo - A Índia Revisitada" - um livro mágico de um escritor prodigioso: faz-me ouvir o murmúrio do mundo. Talvez isto aconteça comigo por ser muito dado ao meu próprio rumor interior, o que me torna especialmente receptivo aos estímulos que me chegam filtrados pela arte dos grandes artistas que amo em qualquer sector artístico. No fundo, somos nós que reconhecemos (ou não) aquilo que é digno de apreço, porque nos fala, no mundo e na arte, sendo certo, contudo, que cada um de nós conhece só uma parte e alguma coisa inevitavelmente nos escapa sempre, embora com o tempo vamos conhecendo cada vez mais e melhor - o importante é não perdermos a memória nem desprezarmos o presente por princípio - e vamos desenvolvendo as indispensáveis relações. Mas também é certo que cada um de nós procura em cada obra de arte, incluindo no cinema, ou alguma coisa que nos conforte - o que, repito, acho legítimo - ou alguma coisa que nos inquiete, nos desafie. No que me diz respeito, seduz-me o que me permite aceder ao múltiplo e variegado murmúrio do mundo, sem conflituar com o meu rumor interior, independentemente da consolação que às vezes também me proporciona e a que não sou indiferente.
                                                                              
         Mas, dir-me-ão, hoje em dia ninguém se preocupa com essas questões. O que se procura é mesmo o convívio, o divertimento, a evasão, a interactividade. Sobre a tal beleza de que falei no início, discute-se agora a estética do feio (2), que o explica, enquadra e reabilita. Mas não quero ir tão longe, ou então quero mesmo ir mais longe para dizer que a arte e a beleza não são um exclusivo das boas consciências, um refúgio e um abrigo para elas, mas algo de eminentemente partilhável, apesar de, na arte como na vida, no cinema como na literatura, na música como na pintura os gostos se discutirem, contrariamente ao que diz um antigo adágio português.
         Assim, cada um de nós tem um núcleo essencial de preferências, artísticas e do mundo da vida, que vai desenvolvendo e aperfeiçoando ao longo da vida e que é capaz de expôr e defender, em que se revê a si próprio no que considera mais importante. Aqui deixo, por isso, a lista dos dez melhores filmes da história do cinema que fiz por ocasião do centenário do dito, em 1995:
1. Aurora ("Sunrise"), de Friedrich W. Murnau (1927);
2. A Regra do Jogo ("La Règle du Jeu"), de Jean Renoir (1939);
3. A Mulher Que Viveu Duas Vezes ("Vertigo"), de Alfred Hitchcock (1958);
4. O Mundo a Seus Pés ("Citizen Kane"), de Orson Welles (1941);
5. Gertrud ("Gertrud"), de Carl Th. Dreyer (1964);
6. O Atalante ("L'Atalante"), de Jean Vigo (1934);
7. Os Contos da Lua Vaga ("Ugetsu Monogatari"), de Kenji Mizoguchi (1953);
8. A Terra ("Zemlia"), de Alexandr Dovjenko (1930);
9. Aves de Rapina ("Greed"), de Eric von Stroheim (1924);
10. Libertação ("Paisà"), de Roberto Rossellini (1946).  
      Nunca a publiquei, rarissimas vezes a partilhei e sei que hoje não faria uma lista de preferências idêntica a esta. Mas porque a fiz com data, aqui a deixo. Devo, contudo, esclarecer que estes eram os dez melhores de três listas de cem - portanto, de uma lista de trezentos - filmes, e que o 11º nessa lista, hoje talvez o 1º, era 
11. A Desaparecida ("The Searchers"), de John Ford (1956).                                                                   http://www.coffeecoffeeandmorecoffee.com/archives/deuxieme%20souffle%202.jpg                               
         Mais esclareço que me lembro muito bem de quando vi esses (e muitos outros) filmes pela primeira vez e que o de Ford foi mesmo o primeiro filme que me lembro de ter visto - portanto primeiro até neste sentido. E também esclareço que ainda hoje me vejo como uma personagem de Jean-Pierre Melville - o Gu Minda de "O Segundo Fôlego"/"Le Deuxième Souffle" (1966), por exemplo -, cineasta que, recordo, morreu cedo (1917-1973) e se confessava influenciado pelas suas primeiras leituras: Edgar Allan Poe, Jack London, Herman Melville. Por sua vez, os anos 60 foram uma década prodigiosa no cinema, durante a qual conviveram com a "nouvelle vague" e os cinemas novos os últimos filmes de grandes clássicos vindos do tempo do mudo e do início do sonoro, dos melhores filmes dos modernos do pós-guerra e os primórdios do que viria a ser a Nova Hollywood. 
       Ninguém tem que concordar comigo, como eu não tenho que concordar com mais alguém, nem nisto nem em considerar, como considero, "O Murmúrio do Mundo" o melhor romance (a palavra pode ser limitadora) português desde o início do século XXI, pela escrita brilhante, serena e depurada, que trata muito inteligentemente a coincidência no mesmo espaço e tempo de diferentes figuras e figurinhas da História de Portugal a partir do que delas permaneceu, numa construção literária vária e superior que é também um regresso em prosa a Camilo Pessanha ("E a vista sonda, reconstrui, compara,/Tantos naufrágios, perdições, destroços!") e que foi o motivo próximo de ter escrito isto
        Eu sei que há a arquitectura nos filmes da trilogia de Antonioni, o acelerador de partículas do CERN, uma poética do desejo em Ingmar Bergman, alguns filmes com interesse feitos em 3D (embora os óculos me incomodem). Sei que há a world wide web, a globalização, Charlize Theron, "O Cavalo de Turim" e "Ultrage", o último filme de Takeshi Kitano que tem tido a sua estreia em Portugal sucessivamente adiada. Mas qualquer que seja a vossa atitude perante estas e outras coisas, devem ler este livro para compreender, a partir de uma escrita literária superior, o que é a vida, o que são o espaço e o tempo declinados em português, e que de grandes acontecimentos transformadores pouco permanece após cinco séculos de história para além de dispersas ruínas, de vagas marcas, da memória e da consciência do ser no tempo, em especial na criação literária e artística, que essa sim, continua a ser essencial.                              Charlize Theron
     Mas chamo também, e muito vivamente, a atenção para "O Efeito Pigmalião - Para uma antropologia histórica dos simulacros"/"The Pygmalian Effect. From Ovid to Hitchcock", de Victor Stoichita, uma edição portuguesa KKYM de 2011 de uma edição original da Chicago University Press de 2008, que é uma excelente surpresa no mercado editorial português. De uma grande erudição, este livro vem dar razão a Truffaut sobre o cinema.
      Não quero, contudo, deixar de reproduzir aqui a melhor definição do cinema que conheço: "Os filmes são como um campo de batalha: amor, ódio, acção, violência, morte. Numa palavra: emoção." (Samuel Fuller em "Pedro, o Louco"/"Pierrot le fou", de Jean-Luc Godard, 1965)

Notas
(1) Cf. Giorgio Agamben, "Che cos'è il contemporaneo?", Nottetempo, 2008 - edição francesa "Qu'est-ce que le contemporain?", Rivages, Paris, 2008. 
(2) Cf. "O feio para além do belo", Adriana Veríssimo Serrão et alii (organização), Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, 2012

Um mito das origens

        Inglês de nascimento, Ridley Scott não é um grande cineasta, embora tenha sido na ficção científica que ganhou essa fama, especialmente em "Blade Runner - Perigo Iminente"/"Blade Runner" (1982), que é efectivamente um filme notável, e em "Alien - O 8º Passageiro"/"Alien" (1979), talvez o seu filme mais famoso ainda hoje, com várias sequelas. De resto, os seus filmes fora desse género não têm, em geral, nada de especial, cumprem com correcção e competência, por vezes com interesse localizado, o que significa que ele é um realizador médio de Hollywood com filmes de grande sucesso, como "Gladiador"/"Gladiator" (2000), "Hannibal" e "Cercados"/"Black Hawk Down" (2001), que chamaram a atenção para o seu nome pelos temas respectivos, pela boa realização e pelo sucesso que tiveram. As expectativas subiram com "Prometheus" (2012), falsa prequela de "Alien" e, portanto, filme de ficção científica, ainda para mais em 3D. O resultado é francamente desanimador.
             
       Partindo do mito de Prometeu que, segundo a mitologia grega, depois de ter enganado Zeus lhe terá roubado o fogo, enfrenta um novo mito da ficção científica: o de uma raça extra-terrestre (e obviamente superior), que teria, ela sim, criado o homem. Uma expedição terrestre parte para os encontrar, o que é ponto de partida comum no género. Ora o filme agarra no lado pior de "Alien" e transforma a expedição científica numa experiência paredes-meias com o filme de terror, de que assume o lado mais repulsivo, o que não tem nada de especial, e mais histérico, o que se torna francamente desagradável, até porque é destituído de características humanas e utilizado como mais um ingrediente de um receituário de sucesso, talvez hoje em dia popular.
     Se o início e pretexto narrativo, as gravuras rupestres com 35.000 anos, é promissor, os desenvolvimentos vão de dificuldade em perigo, de problemas no interior da expedição aos problemas com a raça fundadora (e o meio em que ela se move), que depois de ter criado os humanos pretenderá agora (anos 90 do século XXI) destruí-los. Não quero discutir a teoria de base subjacente ao filme, mas o próprio filme, que me surge falso como judas, falso nas emoções que pretende criar e nos meios perfeitamente gratuitos, no limite do grotesco, que utiliza para as criar. Não vou utilizar meias-tintas: há muito mais verdade e emoção no computador HAL 9000 de "2001: Uma Odisseia do Espaço"/"2001 - A Space Odissey", de Stanley Kubrick (1968), do que em qualquer dos humanos deste filme, sempre à beira do risível; o pior filme de John Carpenter (escolham) é sempre infinitamente melhor em termos cinematográficos e éticos do que esta coisa que brinca de maneira rasteira com os sentimentos, as crenças e a eventual boa-fé dos espectadores. Roman Polanski ia muito mais longe de uma maneira muito mais elegante em "A Semente do Diabo"/"Rosemary's Baby" (1968).
                    'Prometheus': Ridley Scott paints corners of 'Alien' canvas
         Não quero especular excessivamente, mas talvez a tentação do 3D convide a que filmes como este sejam feitos e tenham, eventualmente, sucesso, passando como bom divertimento e, se calhar, até como divertimento adulto junto de um público pouco exigente. Percebe-se, aliás, que o cinema americano continua a experimentar esta nova tecnologia, talvez como resposta à crise do próprio cinema originada pela concorrência, aliás desleal, da internet, e que são feitos filmes com esse pretexto para testar as suas possibilidades e limites. Mas mesmo entendido como tal, como mais uma experiência em 3D, "Prometheus" não cumpre um programa narrativo minimamente consistente e coerente, sempre à beira da exploração rasteira dos medos mais primitivos dos espectadores, com permanente recurso a uma exacerbação chocante dos motivos narrativos e visuais que raia a simples demagogia grosseira. Nenhum filme se ganha apenas pelos valores de produção ou pelos efeitos visuais, e este também não. É preciso alguma coisa mais, que este não tem porque rejeita, para evidenciar o aparente arrojo visual, com desprezo e prejuízo de regras elementares que me basta qualificar como de bom senso e bom gosto numa época que tudo se julga  permitido.
          Repito: Ridley Scott não é um grande cineasta, é um realizador de sucesso. O seu melhor filme continua a ser "Blade Runner" e o pior filme de John Carpenter será sempre melhor do que "Prometheus". Ponto final.

Mais do que experimental

         O cinema tem trabalho recentemente as suas proximidades com a pintura, quer com o aparecimento dos meios digitais, como foi o caso, notável, de "A Inglesa e o Duque"/"L'anglaise et le duc", de Eric Rohmer (2001), quer sem recurso ostensivo a eles, como aconteceu com "A Ronda da Noite"/"Nightwatching", de Peter Greenaway (2007).
         Surge agora "O Moinho e a Cruz"/"The Mill and the Cross" (2011), filme do polaco Lech Majewski que visa explicitamente recriar um quadro de Pieter Bruegel, "Subida ao Calvário"/"The Procession to Calvary" (1564), a partir de uma investigação séria de Michael Francis Gibson e com largo recurso aos cenários pintados e aos meios digitais. Para isso acompanha o pintor/Rutger Hauer durante a criação do quadro e 12 personagens deste, para o que recria a Flandres numa época, o século XVI, em que era dominada pelos espanhóis. O resultado é um filme invulgar, que permite divulgar os resultados dessa investigação de maneira séria e reconstituir a criação artística e a vida numa época de graves conflitos religiosos e políticos. Aqui reside mesmo o melhor do filme, pois não é apenas a vida na Flandres que é reconstituída, é a própria cena do Calvário que é revivida nessa época, com o invasor espanhol/católico a fazer o papel dos romanos em terra de protestantismo - a reforma protestante iniciara-se no princípio do mesmo século XVI. Assim, o mistério reconstituído da cena figurada por Pieter Bruegel torna-se, ele próprio, o mistério construído pelo filme, de que o momento mais alto é a crucificação do Filho dada do ponto de vista da Mãe/Charlotte Rampling, embora tudo o que diz respeito aos conflitos, nomeadamente religiosos, da época, e à releitura visual, plástica e pictórica, da obra pelo cinema seja muito bom.
                                  
          Este um filme que interessa em termos de história da arte e de investigação sobre ela, bem como em termos de experimentação dos meios digitais no cinema. Em termos de história da arte existe, contudo, há vários anos uma série muito interessante do canal franco-alemão Arte, "Palettes", de Alain Jaubert, que tem uma ambição muito mais vasta, a de cobrir os principais episódios da história da arte a partir do estudo aprofundado de quadros exemplares, sem o recurso à reconstituição e com o mesmo propósito de divulgação de uma investigação séria e muito bem documentada - uma série neste momento disponível em DVD -, o que aqui refiro para mostrar de novo que a televisão, no seu melhor, vai à frente do cinema.
                        Lech Majewski's The Mill and The Cross
         Cumprindo o que se propôs, "O Moinho e a Cruz" é quase insusceptível de crítica, tem o seu encanto próprio, o seu interesse certo, não se propõe ser o que não é e atinge com brio o seu propósito. De facto, por baixo da interpretação fria de um quadro, surgem-nos intactos o mistério da criação artística a partir da perspectiva do pintor e o mistério da cruz a partir de uma época posterior, dois motivos fortes que, além dos conflitos de época, justificam este filme para além do seu lado experimental. 

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Uma questão familiar


         “Uma Separação”/”Jodaeiye Nader az Simin” é a quinta longa-metragem de Asghar Farhadi, realizador, produtor e argumentista, mais um filme iraniano muito bom - recebeu este ano o Óscar para o melhor filme estrangeiro - que vem chamar a atenção para uma cinematografia importante que nunca se resumiu a Abbas Kiarostami, e hoje menos do que nunca. Conhecem-se mesmo os problemas de cineastas iranianos com o actual regime de Teerão, que levaram à prisão de alguns deles, o que suscitou um vasto movimento internacional de indignação, solidariedade e protesto.
         O filme começa por um argumento muito bem imaginado a partir do quotidiano de um casal em vias de separação, Simin/Leila Hatami e Nader/Peyman Moadi, de que nos é dado mais o ponto de vista dele, um casal dividido pela atitude face ao futuro: emigrar, como por causa da filha, Termeh/Sarina Farhadi, pretende Simin, ou ficar, como pretende Nader por causa do pai doente e de idade avançada. A situação torna-se melindrosa e equívoca quando a empregada contratada para tomar conta do idoso dependente, Razieh/Sareh Bayat, é acusada de incúria e acusa Nader de, ao empurrá-la, a ter feito cair e perder o filho de que estava grávida.
                      
       Quando a acção do filme passa para a audição por um inquiridor, tendente a apurar responsabilidades e tentar, por isso, saber o que de facto aconteceu, o drama leva a que se confrontem duas famílias, já que Hodjat/Shahab Hosseini, o marido de Razieh, resolve intervir para pedir satisfações, sem que o espectador saiba do que aconteceu senão a parte que lhe foi mostrada – e a reconstituição com os intervenientes do que aconteceu, e vimos, é muito bem dada. Momento forte, decisivo, vai ser, contudo, aquele em que Razieh recusa jurar que as coisas se passaram como ela diz, momento muito bem tratado em termos fílmicos, que põe à prova as crenças religiosas arreigadas da personagem.
           Ora esta trama, muito bem urdida a nível de argumento, é muito bem encenada a nível de realização, que constrói muito bem o filme em termos de exploração dos espaços e do trabalho dos actores. E é mesmo a realização superior, que inscreve as personagens no espaço para depois delas questionar o que sabemos, que transforma “Uma Separação” num filme que excede as suas simples premissas narrativas e acaba por ser um muito interessante questionamento sobre a verdade e a mentira, as melhores intenções à parte. De facto, com meios escassos e em espaços limitados Asghar Farhadi consegue apresentar as personagens e os conflitos de maneira inteiramente convincente e sustentada em termos fílmicos, o que torna o filme num pequeno-grande achado, perfeito em termos dramáticos e em termos formais, com uma resolução plena de interesse, novidade e frescura, segundo a qual nem tudo o que parece é como parece ser, porque os indivíduos são, em si mesmos, seres complexos e não os simples desenhos  convencionais que querem aparentar ser. Por isso a verdade advém da parte da única personagem que, em toda a sua complexidade, a podia fazer aparecer, posto o que a última palavra do filme caberá à filha do casal em separação.
                     
            Deste modo, trabalhando sobre o cliché e contra o cliché, “Uma Separação” cumpre com um brio inesperado, invulgar, um programa narrativo simples, com uma realização superior sem arrebiques e actores notáveis mas com um segundo grau de leitura muito importante, já que encena de modo muito feliz as diferentes concepções da vida das diferentes personagens, representativas de diferentes atitudes relevantes presentes numa sociedade fechada como é na actualidade a iraniana, o que merece especial atenção e torna este filme ainda mais interessante e recomendável. Assim se demonstra mais uma vez como o cinema pode ser, tal como a arte, a consciência de uma sociedade, a consciência do mundo e do tempo.

Perdidos


         De Kelly Reichardt, de quem conhecíamos “Old Joy” (2006) e “Wendy & Lucy” (2008), estrou entre nós “O Atalho”/”Meek’s Cutoff” (2010), que é um filme extremamente interessante e muito bom.
            Com argumento de Jonathan Raymond, situa-se nas terras perdidas do Oregon durante o século XIX e acompanha uma caravana de pioneiros perdida no deserto, entregue primeiro nas mãos de um guia de que os seus membros desconfiam, Stephen Meek/Bruce Greenwood, depois nas de um índio/Rod Rodeaux. Para tomarem decisões, os Tetherow, os Galety e os White têm que discutir entre si e uns com os outros para decidir que rumo tomar, em quem confiar.
                               
         Situado em terras desabitadas, agrestes e inóspitas, o filme explora muito bem esse mesmo espaço, em que as personagens surgem frequentemente a grande distância, numa linha predominantemente horizontal durante a primeira parte do filme, que se torna mais irregular, montanhosa e rochosa, na segunda parte. Mas Kelly Reichardt é uma cineasta de grande sabedoria, que explora a distância a que filma em planos muito gerais com grande acerto, para dar com precisão o desnorte da caravana, explora o espaço do plano e o espaço fora de campo, utiliza movimentos de câmara apropriados e elegantes e tem uma grande precisão na iluminação diurna, que dá lugar a planos de elevada composição visual e pictórica, e nocturna, em que, à luz da lareira, do candeeiro ou da lua, surpreende com noites primordiais.
            Os conflitos que se repetem, primeiro com o guia, depois com ele e com o índio, entre ele e o índio, são sempre muito bem encenados em termos fílmicos, enquanto as personagens estão caracterizadas com grande rigor nos rostos, no vestuário, nos gestos e movimentos. E são essas personagens que, ora aproximando-se, ora afastando-se, ora correndo lateralmente vão definir o quadro humano de um filme de estranha beleza, que nos prende no seu movimento mínimo desde o primeiro encontro com o índio, na captura dele, que não é mostrada, na queda pela encosta da carroça que se solta, no confronto de Emily Tetherow/Michelle Williams com o guia quando este quer matar o índio.
                        
           Sabendo sempre o que e quem filmar, e de onde filmar, Kelly Reichardt constrói o seu filme com base em pequenos apontamentos reveladores, em diálogos esclarecedores, como o que discute as diferenças entre os homens e as mulheres, e em diálogos impossíveis, como os que são tentados com o índio. Por sua vez, a presença de ruídos, como o das rodas das carroças, e da escassa mas muito bem utilizada música vem aumentar o clima de isolamento e solidão de um grupo humano à deriva mas que não deixa de se mostrar fiel às suas crenças, aos lugares civilizados de que partiu e ao destino que pretende alcançar.
            Produzido num quadro de cinema independente, “O Atalho” de Kelly Reichardt é um filme de uma enorme beleza na sua austera gestão dos meios disponíveis e de uma enorme expressividade, que além do mais reúne os quatro elementos, a terra, o ar, a água, que a caravana procura, e o fogo, o jovem Jimmy White/Tommy Nelson, os animais e a prodigiosa paisagem desértica do Oregon. Com um grupo permanentemente ameaçado de um desnorte que não consegue ultrapassar, apesar de mantidos a maior parte do tempo à distância da caravana, e por isso mesmo, somos levados a, mantendo sempre a noção do espaço, apreciar o esforço épico daqueles pioneiros na sua luta elementar com a natureza e as adversidades, pela sua própria sobrevivência.
                      
            Deixados à deriva no final, com a partida do índio, é o vazio da solidão que os acolhe, e aí somos deixados, na vasta terra desértica, num muito bem medido movimento de abandono, pessimismo e sem qualquer comentário, já que as imagens falam por si mesmas. O desespero e a solidão dados plenamente e em surdina.
           No final aberto de "O Atalho" de Kelly Reichardt ressoa o final de "Procurem Abrigo"/"Take Shelter", de Bill Nichols (2011), o que diz bem do enorme interesse destes dois novos nomes maiores do novo cinema independente americano, em cujos filmes a incerteza é um ponto comum de enorme significado (ver " A tempestade", 24 de Maio).

sábado, 30 de junho de 2012

As Luzes

       O documentário em duas partes "Le siècle des Lumières", realizado por Sheila Hayman (2012), produzido pela ZDF e difundido pelo canal cultural franco-alemão Arte, é um trabalho fílmico notável pelo seu rigor histórico e científico. Contando em pouco mais de 100 minutos uma história que foi fundamental para a modernização da Europa e da América, e na qual Portugal esteve envolvido, uma história que não foi simples nem fácil mas que conformou o mundo futuro e cujos frutos são ainda hoje fundamentais para a Europa, a América e o mundo, tem a participação de prestigiados professores universitários e mostra peças raras, em certos casos guardadas a sete chaves na maior segurança. 
                                         Le siècle des Lumières - La diffusion du savoir
        Construído permanentemente com o recurso a imagens de época, de monumentos, edifícios, espaços, quadros, documentos, que alternam com imagens da actualidade, permite fazer uma ideia muito precisa sobre aquilo que se decidiu em termos científicos mas também políticos entre a segunda metade do século XVII e o século XVIII e que permanece como as raízes próximas das sociedades modernas de hoje. Com o rigor e a ousadia que se impõem, de modo muito claro e sem qualquer tipo de meias-tintas, diz e mostra aquilo que foi descoberto e criado então de novo, na ciência, na literatura, na filosofia e na política, contra uma tradição secular. Fala das figuras, das descobertas, dos acontecimentos, dos livros, das ideias então novas e das dificuldades que tiveram para se afirmar e iniciar o seu curso. Newton, Voltaire, Diderot ou o Marquês de Pombal na primeira parte, "La diffusion du savoir", Frederico II da Prússia, Thomas Jefferson e Condorcet na segunda, "La transformation de la société", são postos a falar na actualidade através do que escreveram, do que fizeram, do que hoje se sabe sobre eles, sem qualquer cumplicidade para com as figuras que se lhes opuseram e as ideias que defendiam, nem qualquer condescendência para com os eventuais limites e excessos de cada um deles.  
         Claro que muitas coisas aconteceram em todo o mundo nestes mais de dois séculos, mas é muito importante que esta história seja mostrada agora para que todos, em todo o lado a possam conhecer desde cedo, em especial num momento em que o regresso do integrismo religioso e da superstição ameaça os fundamentos que as Luzes lançaram.  
                                        Le siècle des Lumières - La transformation de la société
        O canal cultural Arte (www.arte.tv/de e www.arte.tv/fr) tem 20 anos e é um canal da maior importância cultural na Europa e no mundo, que permanece fiel a si próprio na programação, exigente e diversificada, inclusive de filmes para cinema, mas também na produção de filmes de grande qualidade, em especial na área do documentário, e no apoio à produção cinematográfica europeia.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Uma cidade americana


          Foi considerada a melhor série televisiva de sempre por razões que me surgem como inteiramente justificadas. Intitula-se “The Wire” (em português, “A Escuta”) e está neste momento disponível em DVD nas suas 5 épocas.                                               
            Vários motivos notabilizam esta série, policial e dramática. Um dos mais importantes é a sua construção visual, em que a criação do espaço explora todas as dimensões visuais do plano, diversos pontos de vista, escalas diferentes com uso de profundidade de campo, uma montagem rápida que respeita as pausas da acção sem deixar que se criem tempos mortos. Ora isto não joga no vazio, já que um dos outros grandes motivos (o maior motivo) de interesse desta série é a sua narrativa centrar-se nos habitantes, bairros, instituições da cidade de Baltimore, ficcionalmente surpreendidos e acompanhados de forma realista nos dramas da sua vida comum, o que confere a “The Wire” um carácter realista que não surge como forçado nem melodramático, antes como eminentemente humano e contemporâneo. Nas interpretações reside outro dos seus motivos especiais de interesse, pois estão a cargo de nomes por enquanto de segundo plano, todas eles com desempenhos notáveis de naturalidade exemplar nas figuras permanentes e nas figuras transitórias de toda a série, todas elas de grande realismo e algumas interpretadas pela própria população local.
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            Nas suas 5 épocas, entre 2002 e 2008, “The Wire” é uma série que merece ser vista pela sua qualidade invulgar, acima da média numa área em que a televisão norte-americana é em geral muito exigente. Uma qualidade tal que permite que se diga, sem a menor hesitação, que está muito acima de muitos filmes feitos todos os anos para cinema, em termos fílmicos e em termos dramáticos e humanos.
            Criado e escrito por David Simon, com a participação de escritores tão importantes como George Pelecanos e Dennis Lehane, e produzido pela HBO, “The Wire” não se detém perante temas, zonas da cidade, personagens, espaços, edifícios, situações, nem se limita a seguir no rasto do já feito, já conhecido, mesmo quando de muito boa qualidade. Não, esta série é outra coisa, no seu realismo que acolhe e completa muito bem em termos fílmicos o que foi escrito por um jornalista com larga experiência no terreno. Um realismo como este não tem precedentes em séries televisivas dramáticas, um tão perfeito e completo trabalho fílmico feito para a televisão também não. Vale, por isso, a pena ver e aprender sobre o mundo - o mundo tal como ele é, feito por gente como todos e cada um de nós - com “The Wire”, sobre o nosso mundo de hoje na bela cidade de Baltimore, Maryland, USA.                         
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           "The Wire" foi considerada a melhor série televisiva de sempre, e não serei eu a dizer o contrário.