“Um não sei quê, que nasce não sei onde,/Vem não sei como, e dói não sei porquê.” Luís de Camões

"Na dor lida sentem bem,/Não as duas que êle teve,/Mas só a que êles não têm." Fernando Pessoa

"Lividos astros,/Soidões lacustres.../Lemes e mastros.../E os alabastros/Dos balaustres!" Camilo Pessanha

"E eu estou feliz ainda./Mas faz-se tarde/e sei que é tempo de continuar." Helder Macedo

"Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos..." Camilo Pessanha

“Vem, vagamente,/Vem, levemente,/Vem sozinha, solene, com as mãos caídas/Ao teu lado, vem” Álvaro de Campos

"Chove nela graça tanta/que dá graça à fermosura;/vai fermosa, e não segura." Luís de Camões

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Um outro samurai

        Johnnie To é o actual grande mestre do filme de gangsters no cinema de Hong Kong. Mal conhecido em Portugal, o Indie Lisboa 2008 dedicou-lhe uma boa retrospectiva, que permitiu ficar a conhecer quase todos os seus principais filmes e descobrir que ele é, no seu melhor, também devedor de uma inspiração em Akira Kurosawa.          
        "Vingança"/"Vengeance"/"Fuk sau" (2009) é talvez o ponto mais alto da sua obra até agora, o filme em que ele faz desembarcar no seu universo peculiar, em Macau, um francês, Francis Costello/Johnny Hallyday, que consigo para o filme e o universo do cineasta traz a memória de Jean-Pierre Melville, via nomeadamente "O Ofício de Matar"/"Le Samuraï" (1967), filme que em certos momentos e em certos aspectos cita expressamente e em que já Jim  Jarmush se inspirara para "Ghost Dog - O Método do Samurai"/"Ghost Dog: The Way of the Samurai" (1999) - no filme de Melville, Alain Delon interpretava Jeff Costello, embora aqui Johnny Hallyday faça lembrar mais Yves Montand, nomeadamenet em "O Círculo Vermelho"/"Le Cercle rouge" (1970) do mesmo grande cineasta francês.
                      
        E que estranho filme é este, em que o protagonista, querendo vingar o grave ferimento da  sua filha, Irene Thompson/Sylvie Testud, e a morte dos seus netos e do marido dela, vai desencadear uma guerra entre tríades, de Macau e Hong-Kong, para, em pleno combate, ele próprio, que tem uma bala alojada no cérebro, perder a memória e não saber já sequer o que quer dizer vingar-se. O combate entre as tríades prossegue sem ele, até que, graças ao nome do responsável pelo que aconteceu à filha, George Fang/Simon Yam, escrito na sua arma, e ao efeito de uma série de choques de automóveis que, em fuga, provoca, recupera o suficiente a tempo do embate final. 
                     Vengeance
         O que faz de Johnnie To um cineasta notável é o facto de ele ser um estilista do cinema, da mise en scène e da montagem, o que se manifesta neste filme por uma câmara ora fixa, em diferentes escalas mas com um uso notável do grande-plano e do plano de pormenor, ora em movimento mas num movimento inteligente, que abre espaços para se deter sobre alguém ou alguma coisa relevante, criando assim uma geometria do plano que a montagem se encarrega de ligar de forma ritmada e tensa. Desse modo o seu estilo integra um género clássico de que, em termos modernos, se apropria, faz seu com características narrativas e formais próprias, com a sua assinatura - "Triângulo"/"Triangle"/"Tie saam gok" (2007), filme co-dirigido com  Ringo Lam e Tsui Hark, tinha sido um interregno interessante.
          Mas "Vingança" é um filme notável, com diversos momentos muito bons, como o encontro de Frank com o trio que o vai ajudar, nos corredores do hotel, a ideia de fotografar os seus membros para os identificar, o duelo entre as tríades no meio do vento, da poeira e dos papéis que voam, que decorre já sem ele, a noite de lua cheia em que o mesmo Frank ajoelha na areia e pede a ajuda de Deus, enquanto os fantasmas dos ausentes vêm ter com ele, o duelo final entre ele e Fang, com pormenores muito bem achados - os colantes.
         Longe dos caminhos mais frequentados pelo cinema do género de  Hong Kong, muito importante desde os anos 80 do século XX, embora colhendo dele códigos e maneiras, mas depurando-os, o cineasta tem traçado um percurso original e pessoal que faz dele o melhor cineasta de Hong-Kong e do filme de gangsters actual, ombreando quando não excedendo os melhores cineastas americanos que se lhe dedicam - James Gray, Michael Mann. E ele filma a um ritmo de vários filmes por ano, o que, tendo-se estreado em 1980, faz dele um cineasta com uma obra já muito vasta e apreciável.   
                    An Official Website for Johnnie To's Vengeance! 
          É claro que se justifica uma maior divulgação do cinema de Johnnie To em Portugal, já que ele é um dos grandes cineastas contemporâneos a nível mundial, que por isso não merece em caso algum ser tratado como mais um exotismo asiático, mesmo num país periférico com o nosso, que não se pode dar ao luxo de ignorá-lo ou de minimizá-lo.

A fuga

             O mais recente filme do alemão Christian Petzold, "Barbara" (2012), com argumento do próprio cineasta e de Harun Farocki, trata de uma maneira subtil de um assunto delicado, situado na antiga Alemanha de Leste, que existiu no pós-guerra até à queda do muro de Berlim, dividindo a Alemanha, a Europa e o mundo. Essa é uma memória delicada que o cinema alemão tem sabido tratar com inteligência, de modo a contribuir para cicatrizar feridas em vez de as agravar.
                     
         Petzold é um bom  cineasta, seguro e ciente das histórias que quer contar, das personagens de que se ocupa, dos meios cinematográficos ao seu dispor, de modo que não toma este seu último filme como pretexto para um libelo acusatório contundente, antes assume-o como um meio de compreensão do que, a nível humano, esteve em causa numa Alemanha dividida. Assim, a personagem que dá o nome ao filme é uma mulher que tenta fugir, como muitos outros tiveram de fazer, do apregoado "paraíso", e para tal estabelece os contactos necessários sem abandonar a sua vida profissional como médica.  
                     Barbara - Directed by Christian Petzold      
          Com uma planificação simples e segura e actores no seu melhor, o cineasta consegue, sem carregar as tintas, dar conta de um universo concentracionário, em que todos estão sob vigilância do estado policial, a partir da sua terrífica e omnisciente polícia política. Assim, as inevitáveis cumplicidades como as instaladas resistências mostram como foi possível viver sob um tal estado de coisas, de que os aspectos mais terríficos são apenas sugeridos. Aí reside mesmo a subtileza deste filme, que o torna mais contundente sem o querer parecer.
          Ao longo do filme, Barbara/Nina Hoss descreve em dois tempos um percurso até ao mar, primeiro frustrando a proposta de passeio de André/Ronald Zehrfeld, o médico com quem trabalha, depois seguindo até ao fim, mas acompanhada pela jovem fugitiva de um campo de concentração, então dito "de reeducção e de trabalho", a quem dá o seu lugar na fuga preparada. Tudo se torna claro com este final, em que alguém se sacrifica – é sempre preciso que alguém se sacrifique – para que quem está pior possa beneficiar do esquema montado. Quem fica regressa inevitavelmente ao mundo de compromissos e humilhações, em que se vivia e foi necessário viver até ao fim. Pequenos sacrifícios e pequenas humilhações? Com a sua actriz Christian Petzold assume com brio um julgamento sereno do que então esteve em causa, sem complacência mas também sem evitar o lado humano do outro lado, com o qual era preciso conviver.
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         Senhor de uma mise en scène elegante, que explora os espaços exteriores em profundidade e na horizontal, o cineasta fecha o filme em espaços clausurais sempre que narrativamente necessário – a casa, o hospital –, jogando para isso com a desfocagem do fundo do plano sempre que entende, sem perder o sentido da arte como meio de expressão e de evasão – a pintura, a música -, com o que aproxima as personagens em vez de as afastar. Sem estardalhaço mas em trabalho claro sobre os dados mais evidentes, Christian Petzold cria um filme que, quase em surdina, se impõe por si mesmo, pelas suas personagens, pelas situações que encena e recria mas também pela sua forma cinematográfica. E Nina Hoss é uma actriz extraordinária (ver "O encenador", 21 de Setembro de 2012).

Glacial



      “O Dia Antes do Fim”/”Margin Call” (2011), a primeira longa-metragem de J. C. Chandor, realizador e argumentista, é um filme fundamental sobre a eclosão da crise em que a América mergulhou em 2008. 
      Construído sobre o espaço fechado de uma grande empresa financeira, entre as suas personagens, que em diferentes níveis de responsabilidade e decisão trabalham para ela, vemos chegarem os sinais que anunciam um colapso iminente, assistimos aos esforços para, aos diferentes níveis, lhe fazer frente, às tomadas de decisão, à passagem à execução, tudo perfeitamente orquestrado para que o filme funcione com a precisão de um thriller. Há responsáveis? Há vítimas? Como somos prevenidos em dado momento por uma personagem, "a gente real”, “the real people” está lá fora, e como percebemos bem não há espaço ou lugar para o factor humano - os avisos da aproximação do problema tinham sido feitos e tinham sido ignorados.
                    
            Tudo apreciado perante os dados disponíveis, a decisão tem de ser tomada em nome dos interesses da empresa, sem lugar a outras considerações, por gente que é como nós, que embora não nos represente é parecida connosco ao ponto de podermos pensar que, não fossem eles mas outros, não fossem nem uns nem outros mas nós, as decisões teriam de ser tomadas. Responsáveis? Vítimas? Àquele nível, em que a crise surgiu e rebentou, a questão é sistémica e repete-se, com maior ou menor regularidade, com maiores ou menores consequências dentro do sistema.
      Eric Dale/Stanley Tucci, que detectou o problema, afasta-se enquanto pode. Sam Rogers/Kevin Spacey, o veterano director executivo, sabe que não pode impedir a máquina de funcionar e quando, no final, tenta sair, não consegue porque precisa do dinheiro. Frio e fleumático, John Tuld/Jeremy Irons toma aquela que considera a melhor decisão e espera ser obedecido. São todos tão sábios, tão senhores das regras e dos mecanismos do sistema, que não têm espaço para protestar, barafustar, opor-se, e é nessa medida que o filme funciona como um thriller: frio e implacável.
                     Penn Badgley as Seth Bregman, Zachary Quinto as PeterSullivan, and Paul Bettany as Will Emerson in MARGIN CALL,written and directed by J.C. Chandor.
          O factor humano torna-se negligenciável, quantas pessoas vão sofrer com esta crise também – Eric Dale conta a história da ponte que construiu, quantas pessoas passaram a poupar quanto tempo por causa dela. Não há, naquele caso, uma obra a mostrar, os números de um lado e do outro são sempre aleatórios e contabilizáveis de diferentes maneiras. Há sempre vencedores e vencidos nas crises periódicas do sistema, desde que ele existe, como John Tuld diz a Sam Rogers.
          Todos ganham muito dinheiro, e mais ganharão aqueles que ficaram com a resolução satisfatória do problema, além do que a saída da crise trará muito mais oportunidades. É assim mesmo, como todos sabemos. Ora o mérito do filme está em não procurar escapatórias, desculpas para ninguém, e encarar friamente os homens que friamente se debatem naquele espaço fechado em que, passada uma hora do filme, surge a bandeira americana nas paredes de uma sala de comando.
                    Jeremy Irons as John Tuld in MARGIN CALL, written anddirected by J.C. Chandor.            
            Assim vai a América, criando novos problemas para depois os resolver, assim ela faz andar o mundo. Podemos perguntar-nos se o sistema, o sistema capitalista em que esta crise ocorre, é justo, mas essa é outra questão. Todos percebemos que, para as personagens do filme, a questão não é essa, mas sobreviver à crise enfrentando os problemas. São como máquinas que decidem friamente o que têm a decidir, doa a quem doer, faça as vítimas que fizer, e J. C. Chandor não faz do seu filme um libelo acusatório, nem contra as suas personagens nem contra o sistema, preferindo mostrar como este funciona/funcionou com aquelas personagens, que agem de acordo com os seus próprios interesses e com os seus próprios códigos de comportamento. E não podemos deixar de admirar lógica, a fria racionalidade que no próprio sistema, apesar de tudo, se esconde e lhe permite funcionar.
         O único toque humano é dado pelo final, com Sam Rogers a cavar no jardim da sua ex-mulher a cova em que vai enterrar a sua cadela, o único ser a que estava afectivamente ligado – e Kevin Spacey é de novo extraordinário a interpretar a personagem com um lado mais humanamente reconhecível do filme, ao nível que antes dele era o de Jack Lemmon.  
                    Demi Moore & Simon Baker
              Claro que há também os outros filmes, que procuram tratar a crise e os problemas que dela derivam do lado humano daqueles que com ela mais sofrem, e que são sempre muito importantes (ver “A tempestade", 24 de Maio de 2012). Mas ser capaz de fazer este “O Dia Antes do Fim” e ser capaz de vê-lo friamente, como ele se oferece, é decididamente uma prova de fogo para o novo cineasta e para o espectador.
            Com um justo tratamento do espaço, com a câmara sempre muito próxima dos rostos dos actores, todos eles perfeitos no registo de fria sobriedade e de fria consciência do perigo e da responsabilidade de cada personagem (com fotografia, ela também glacial, de Frank DeMarco), com uma montagem seca e precisa (de Pete Beaudreau) e na quase total ausência de música (de Nathan Larson), este é um excelente primeiro filme que olha de frente o que tem para mostrar, diz o que tem para dizer sem rodeios nem contemplações. A cada um de nós fica atribuído o papel, indeclinável, de julgar os acontecimentos e eu, pelo menos, penso que não devemos alimentar injustificados complexos de superioridade, mas perguntarmo-nos o que faríamos no lugar daquelas personagens. E, claro, devemos também julgar o sistema, acresentando aquilo que cada um de nós dele sabe da sua própria experiência. A tomada de consciência, para que o filme contribui, é muito importante. De resto, o mundo continuou a girar, àquele nível uns ganham e outros perdem, muitos são sacrificados entre "a gente real" mas é sempre preciso continuar, nas condições que existirem, sem esmorecer. E estamos todos tão terrivelmente sós!

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Uma excelente notícia

    A edição portuguesa de "Um Melro Dourado, Um Ramo de Flores, Uma Colher de Prata", a acompanhar a edição DVD de "No Quarto da Vanda", de Pedro Costa, é um acontecimento editorial que deve ser aqui devidamente assinalado e saudado.
     Da responsabilidade da Orfeu Negro e da Midas Filmes (2012) na sua edição portuguesa, este é um livro, no original francês datado de 2008 (Paris, Capricci), construído sobre o modelo de entrevista com o cineasta, que tantos e tão bons frutos tem dado, e é acompanhado por uma montagem de imagens e texto do americano Andy Rector. A entrevista, conduzida por Cyril Neyrat, é motivo para que Pedro Costa, que fez também a selecção das fotografias, se explique sobre as origens dos seus filmes e da sua visão do cinema e do mundo, o que se torna pretexto para revelações muito curiosas, e até agora inéditas em português, que são muito esclarecedoras e podem surgir como inesperadas. De entre essas revelações destaco a referência circunstanciada do cineasta às suas principais influências, cinematográficas e extra-cinematográficas, ao seu método de trabalho, ao cinema clássico americano. Momento fundamental, decisivo mesmo, para desfazer especulações, este livro é aproveitado para estabelecer a verdade sobre Pedro Costa e os seus filmes e, simultaneamente, para alimentar a sua própria mitologia pessoal.
                                
      Não devo aqui omitir duas coisas. Primeiro, que o livro original sobre este importante cineasta português contemporâneo é francês, e não português, como poderia parecer óbvio. Segundo, que para o futuro não vai ser possível estudar o cinema de Pedro Costa em Portugal sem conhecer este livro - nem em Portugal nem nos países de língua oficial portuguesa.
     Resta-me felicitar a Orfeu Negro, que ao cineasta já dedicara o muito importante "Cem Mil Cigarros - Os Filmes de Pedro Costa", com coordenação de Ricardo Matos Cabo (2009), por mais este muito relevante contributo para o estudo e o conhecimento do cinema, e obviamente aconselhar a todos que leiam este livro e vejam ou revejam o filme, fundamental, que o acompanha. Sem qualquer hesitação ou restrição, pois Pedro Costa é um dos mais importantes cineastas contemporâneos a nível mundial e, no fundo, este livro, que é além do mais um belo livro, é dele. A editora está, muito justamente, no primeiro lugar da edição portuguesa mais exigente sobre cinema.

Isto também não é importante

     O documentário televisivo pode assumir diversas formas, mais ou menos desenvolvidas, mais ou menos atraentes.
   O canal cultural franco-alemão Arte transmite semanalmente, nas tardes de Sábado, o programa Arte Reportage, em que apresenta todas as semanas três documentários desenvolvidos sobre questões humanas, económicas, sociais e políticas sensíveis em todos os quadrantes. São documentários desenvolvidos, que tratam em profundidade questões importantes e, normalmente, mal conhecidas de uma perspectiva original e muito esclarecedora. Neste programa se faz, semanalmente, uma pedagogia do documentário, da divulgação, da informação e do conhecimento, ouvindo sempre os interessados envolvidos em cada questão e respeitando um ponto de vista claro.
               Zeinab Badawi                              
       Num modelo diferente, a BBC World News tem, ao fim de semana, o programa mais curto Reporters, em que são apresentadas reportagens mais actuais e mais sintéticas sobre algumas das questões mais recentes que foram objecto de tratamento jornalístico durante a semana anterior nos noticiários diários daquele mesmo canal, para os quais são feitas todos os dias pelos seus correspondentes em todo o mundo. Menos desenvolvidas, mas sobre as mais inesperadas questões nos mais inesperados locais, algumas das reportagens aí apresentadas são modelares do ponto de vista do filme e do documentário. E aqui penso que a tradição inglesa do documentarismo não explica tudo.                       
                     
       Espectador habitual destes dois programas, considero-me particularmente esclarecido sobre algumas das questões mais candentes do actual panorama internacional pelas peças que eles apresentam com uma qualidade, uma seriedade e um rigor que permitem respirar um pouco melhor, porque permitem saber mais e compreender melhor como vai realmente, a nível local, este mundo globalizado em que todos vivemos. Numa perspectiva mais em cima da actualidade, Reporters, apresentado por Zeinab Badawi (ver "Why Poverty?", 30 de Novembro de 2012), vale muito a pena pelo resumo dos acontecimentos de uma semana que permite e pela diversidade dos assuntos que trata. Numa perspectiva de inquérito mais desenvolvido, mais longo e detalhado, implicando uma maior e mais longa investigação e um mais porfiado trabalho fílmico, Arte-Reportage, apresentado rotativamente por Andrea Fies e William Irigoyen, é um programa exemplar do que de melhor se faz, sistematicamente, na televisão na área do documentário.
                                            
     Aliás, ao Sábado à noite o Arte costuma apresentar também documentários culturais, frequentemente de carácter histórico, com imagens inéditas, outras vezes com recurso à reconstituição, e quase sempre com a inclusão de comentários de reputados especialistas, que têm igualmente o maior interesse e contribuem para a justa reputação de que este canal goza, em especial na área do documentário. Por sua vez, a BBC World News apresenta ao fim-de-semana o programa Dateline London, em que jornalistas britânicos e correspondentes em Londres dos grandes jornais de todo o mundo discutem com Gavin Esler e uns com os outros a actualidade da semana de maneira muito viva e interessante, com pontos de vista muitas vezes divergentes, o que permite ter acesso a perspectivas autorizadas muito diferentes sobre as grandes questões da actualidade internacional.   
                    
        Eu, que não vejo televisão portuguesa (nem lhe sinto a falta) desde o século passado (o século XX), posso recomendar-vos estes dois programas, Arte Reportage e Reporters, perfeitamente exemplares, em que o documentário, segundo filosofias diferentes, trabalha questões importantes, actuais e geralmente menos conhecidas, em benefício do nosso maior conhecimento, de uma maior, mais diversificada e mais precisa informação a que sem eles não teríamos acesso. Falo, portanto, do que vejo e do que gosto. Sei que tenho bom gosto e estou permanentemente bem informado - e também bem acompanhado. Se me quiserem encontrar, procurem-me aí.  
      Mas também devo dizer que me encontram, abismado e encantado, perante a "Poesia Reunida" de Maria do Rosário Pedreira (1), vencedor do Prémio Literário Fundação Inês de Castro 2012, que é um livro de rara qualidade poética, de uma enorme intensidade de sentimentos que, para se revelarem em todos os seus matizes, são ditos por um trabalho poético de grande expressividade e rigor. É sem dúvida o melhor livro de poesia que me foi dado ler nos últimos tempos, a descoberta de uma voz pessoal e emocionada perante a simples dádiva da existência, que não é algo a malbaratar em caso algum, mas a descobrir e acrescentar sempre. A expressão "...parece deslocada no tempo e assume todos os riscos «intempestivos» de um aparente confessionalismo sentimental", com que, no prefácio, Pedro Mexia qualifica a poética da autora, é uma expressão feliz que identifica muito bem o processo poético de Maria do Rosário Pedreira.
                                         
        Li-o numa noite, de encantamento e fascínio comovido, e enquanto o li permaneci presa da poesia da autora, dos sentidos e dos sentimentos dela - e dos meus. Mas talvez tivesse sido preferível não o ter lido, o que por outras palavras quer dizer que assumo como obrigação grata lê-lo pelo menos mais uma vez por ano e querer fazê-lo sempre como se cada vez fosse a primeira.

Nota
(1) Quetzal, Lisboa, 2012. Mesmo que neste local e com este pretexto, quero chamar a atenção para esta editora, que tem apresentado nos últimos anos um catálogo muito importante, do maior interesse quer na ficção, portuguesa e estrangeira, quer na poesia. 

Puro Tarantino

      
      O aguardado "Django Libertado"/"Django Unchained", o último filme de Quentin Tarantino (2012), é uma excelente filme, que recupera a memória do western, via o spaghetti western e a personagem de "Django", de Sergio Corbucci (1965), com Sergio Leone um dos mestres deste género, e se erige em forma de desforra negra sobre a escravatura. É um filme indispensável por mostrar sem preconceitos a realidade da escravatura nas vésperas da eclosão da Guerra Civil americana (1861-1865), e em termos de Tarantino-film faz todo o sentido pelo estilo, pelo género, pelo propósito e pelo resultado, que faz dele um super-Tarantino. 
     Com argumento do próprio cineasta, este é um filme que procura o lugar-comum para o exacerbar e sobre ele trabalhar, um tanto como fez o spaghetti western mas em termos que contêm a pessoal e inconfundível marca do realizador. Porque não é ingénuo, Tarantino põe um alemão em papel importante, o Dr. King Schulz/Christopher Waltz, um caçador de prémios, o que impõe um primeiro elemento de distanciamento, ele que vai ser o responsável pela libertação de Django/Jammie Fox. Com este arvorado em ajudante daquele, prosseguem a sua campanha durante um Inverno, até rumarem ao Mississipi, onde em cativeiro está a mulher de Django, Broomhilda/Kerry Washington, às mãos de um senhor sulista, Calvin Candie/Leonardo DiCaprio, na sua Candyland. Como já foi observado e é muito evidente, os paralelos com "A Desaparecida"/"The Searchers", de John Ford (1956), são claros e mostram bem como o cineasta visou alto.
                                            
        Ora é depois de chegar à plantação sulista que "Django Libertado" atinge o seu melhor, e progressivamente cada vez melhor, a partir das lutas de negros, o "mandingo", até à soberba penúltima sequência, em que Schulz e Django defrontam todo o gang de fazendeiro e em que o primeiro morre, depois do que Django só, com Broomhilda libertada, enfrenta o irmão de raça que passou para o outro lado, Stephan/Samuel L. Jackson, na sequência final.
         Mais do que um filme de actores este é um filme de Quentin Tarantino, para o qual, com os devidos ajustes, cada actor transporta o seu carisma pessoal, que é posto a funcionar além dos seus próprios limites. Nestas condições, quem verdadeiramente surpreende e toma conta do filme é Samuel L. Jackson como Stephen, o negro que é o braço direito do seu dono branco, a que o actor confere um tom e uma espessura muito pessoal numa interpretação notável. Dito isto, há que reconhecer e ressalvar o tom de paródia que o cineasta imprime ao seu filme, que o coloca decididamente do lado da inspiração no spaghetti western, que já trabalhava filmes anteriores seus. 
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        De facto, como Tarantino-film, e para mais western, este é um filme de retardador, de banhos de sangue, de falso, em que os óculos escuros de Django libertado funcionam como elemento de distanciamento e em que a lenda germânica de  Brünhilde, que Schulz conta a Django, se cruza com a personagem de banda-desenhada norte-americana Broom-Hilda para, juntamente com a referência a "Os Três Mosqueteiros", de Alexandre Dumas, conferir reconhecíveis e apropriadas referências, demonstrando que não foi em vão que o cineasta fez na Europa "Sacanas Sem Lei"/"Inglorious Basterds", o seu filme anterior (2009).
       Maneirista como sempre, Quentin Tarantino consegue voltar aqui ao seu melhor de histórias de crime e vingança, aproveitando para de caminho revisitar um género de há muito defunto, e que não vai ser por isto que vai ressuscitar. O lado de artifício não resulta apenas das personagens e das interpretações, já que a própria fotografia, de Robert Richardson, tem transições e contrastes de artifício que funcionam muito bem. Por sua parte, a música, com abundantes pilhagens no spaghetti western e uma belíssima nova canção de Ennio Morricone, contribui de forma significativa para conferir ao filme um carácter inequivocamente moderno, ou devo dizer pós-moderno, apesar de inusitadas mas compreensíveis referências clássicas, que funcionam muito bem. E a mise ern scène do final é puro Quentin Tarantino no seu melhor, com ele próprio num pequeno papel, pelo que a dedicatória final a Sergio Corbucci, Sergio Leone, Gordon Parks e Sam Peckinpah faz todo o sentido.
                     django unchained samuel l jackson
         Quentin Tarantino é, sem dúvida, um grande, um enorme cineasta, mas enquanto não sair deste registo, conhecido mesmo por tarantinesco, será mais um eterno adolescente, mesmo se sobredotado, no cinema americano, o que está no seu pleno direito querer continuar a ser, para nosso gáudio e divertimento inteligente. Como puro Tarantino, "Django Libertado" é um filme superior e perfeito, mas devo confessar que começo a ficar um tanto farto do registo pessoal deste puro cineasta americano, reconhecendo embora que ele ocupa um lugar muito especial no cinema contemporâneo enquanto continuo a esperá-lo do lado de "Pulp Fiction" (1994), que ainda hoje considero o seu melhor filme (ver "Devastador", 21 de Fevereiro de 2012).

sábado, 26 de janeiro de 2013

Gente comum

      Cristian Mungiu é um dos nomes mais importantes no novo "cinema novo" romeno que nos tem impressionado com filmes novos e diferentes, reveladores de uma nova atitude perante a vida, o passado e o cinema. Depois de "4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias"/"4 luni, 3 saptamâni si 2 zile" (2007), ele esteve na origem de "Histórias da Idade de Ouro"/"Amintiri din epoca de aur" (2009), filme em episódios de que escreveu o argumento e que co-realizou com Hanno Höfer, Razvan Marculescu, Constantin Popescu e Ioana Uricaru (todos eles a trabalharem na sua primeira longa-metragem de ficção), o que permite ter uma ideia da sua importância e do seu relevo no actual cinema romeno.
       Neste filme estão em causa histórias de pequena gente que, durante os anos 80 na Roménia (a dita "Idade de Ouro") fez o que pôde por si própria, por sua conta e risco, com as autoridades ou à revelia delas, para poder seguir em frente apesar de tudo. O que impressiona em "Histórias da Idade de Ouro" é a atenção aos pormenores do quotidiano, às pequenas questões que saíam dos esquemas oficiais e nas quais as pessoas se confrontavam com um quotidiano difícil e sem nada a ver com as promessas oficiais.
        Nessas pequenas histórias de pequena gente sem importância às voltas com os seus pequenos, quotidianos problemas, surpreende sobretudo o calor humano que emana de uma ironia, de um humor muito particular, caloroso e sereno, que releva de uma ternura especial pelas personagens. São as histórias, baseadas em factos reais, da visita oficial, do retoque da fotografia do ditador, da morte do porco por gás, das amostras de ar e do transportador de galinhas, cada uma delas com as suas personagens que, nas pequenas coisas comportamentais, sociais e comuns, fogem do estabelecido, do previsto, da regra oficial, enquanto são elas próprias, humanas e verdadeiras.
         Não são histórias de resistência, nem sequer de oposição, são histórias banais mas cada uma delas com o seu inequívoco toque humano que as torna simultaneamente divertidas e comoventes. Ora uma parte muito importante do filme resulta do trabalho de Cristian Mangiu como argumentista, e também como realizador, em tudo o que diz respeito às pequenas questões das pequenas gentes em que o detalhe, o pormenor, é o mais importante e revelador, até pelos efeitos que desencadeia. Este filme assume, pois, um relevo muito particular pelo modo como foi feito e pelo respectivo contexto, o que o faz surgir quase como um manifesto em forma de filme
           Cristian Mungiu confirma, assim, ser um novo e importante nome a reter e a acompanhar num novo "cinema novo" que mantém relações sólidas e seguras com a história do cinema e começa a criar e impor a sua própria história. Não creio que seja hoje possível fazer a crítica do regime ditatorial de Ceausescu e/ou compreender o povo romeno sem passar pela crítica do quotidiano feita pelos filmes deste "cinema novo" romeno (ver "Percurso exemplar", 14 de Abril de 2012).