“Um não sei quê, que nasce não sei onde,/Vem não sei como, e dói não sei porquê.” Luís de Camões

"Na dor lida sentem bem,/Não as duas que êle teve,/Mas só a que êles não têm." Fernando Pessoa

"Lividos astros,/Soidões lacustres.../Lemes e mastros.../E os alabastros/Dos balaustres!" Camilo Pessanha

"E eu estou feliz ainda./Mas faz-se tarde/e sei que é tempo de continuar." Helder Macedo

"Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos..." Camilo Pessanha

“Vem, vagamente,/Vem, levemente,/Vem sozinha, solene, com as mãos caídas/Ao teu lado, vem” Álvaro de Campos

"Chove nela graça tanta/que dá graça à fermosura;/vai fermosa, e não segura." Luís de Camões

sábado, 17 de agosto de 2013

África, naturalmente

       Integradas na programação Próximo Futuro/Next Future, estão neste momento na Fundação Calouste Gulbenkian duas importantes exposições de fotografia que têm em comum serem ambas sobre África.
        A primeira é a 9ª Edição dos Encontros de Fotografia de Bamako, com curadoria de Michket Krifa e Laura Serani, que são um acontecimento muito importante porque marca bianualmente uma selecção do melhor que se faz em África na área da fotografia. Com o tema "Para um mundo sustentável", é uma exposição muito boa, com fotografias que captam contrastes que relevam das problemáticas originadas pelo desenvolvimento do continente africano, das consequências paradoxais e dos obstáculos imprevistos que o próprio desenvolvimento provoca, e dão conta de um elevado grau de autoconsciência por parte de um continente normalmente considerado atrasado e pobre, que aqui se mostra e desvenda sem exotismo.
                      
     Há, de facto, grandes fotógrafos africanos na actualidade, que no seu trabalho artístico desenvolvem uma reflexão sobre os actuais conflitos africanos, nomeadamente os originados pelo desenvolvimento. Nesta exposição, através da fotografia e do vídeo somos convidados a tomar contacto com realidades diversificadas e contrastantes, apresentadas de forma crítica, mesmo política. E aí existem fotografias a cores lado a lado com fotografias a preto e branco, revelando a especificidade e utilidade própria de cada um dos processos.
      A segunda exposição, Present Tense. Fotografias do sul de África, patente na galeria de Exposições Temporárias, tem um carácter mais artístico e institucional, e volta-se por isso mais para o lado mais vistoso do continente africano, que o pode tornar mais parecido com o mundo desenvolvido, sem perder o carácter documental, que nos Encontros de Fotografia de Bamako é fundamental. Comissariada por António Pinto Ribeiro, esta é uma exposição de fotografia exigente e muito boa, que também trabalha sobre a tensão entre o preto e branco e a cor.         
                       Foto: Zeinab Badawi talks to Zimbabwe's Finance Minister Tendai Biti about the reality of being in power. With Senegalese human rights activist Alioune Tine and Kenyan environmental campaigner Ikal Angelei, they discuss whether African leaders are at last being held to account by their people.
        A Fundação Calouste Gulbenkian, que tem um longo historial no apoio e na divulgação das artes, tem sido responsável por esta programação anual, Próximo Futuro/Next Future, este ano na sua 13ª edição, que representa uma lufada de ar fresco em termos políticos, culturais e artísticos num país sombrio. Apenas uma parte dessa iniciativa, estas duas exposições de fotografia marcam-na e nela assinalam um momento artístico importante, obviamente muito recomendável.
         Mas sobre África é fundamental também o que, a partir de um ponto de vista diferente, fiquei a conhecer na BBC Word News durante vários fins de semana consecutivos no programa Rendez Vous with Zeinab Badawi, em que esta excepcional jornalista entrevistou figuras destacadas da política, da finança e da cultura africana. Aí, graças a uma mulher de beleza invulgar, de inteligência superior e de um enorme espírito de iniciativa, ela própria nascida no Sudão, fiquei a saber melhor como os africanos vêem o seu presente e o seu futuro de uma maneira que não está ao alcance de qualquer um esclarecer e divulgar (ver "Why Poverty?", 30 de Novembro de 2012, e "Isto também não é importante", 31 de Janeiro de 2013).

sábado, 10 de agosto de 2013

A melhor maneira

       O último filme de Sofia Coppola, "Bling Ring: O Gangue de Hollywood"/"The Bling Ring" (2013) faz inteiramente sentido na obra da cineasta. Enquanto acompanha o gang informal que assalta as mansões das celebridades do mundo do espectáculo e cada um dos seus membros, ela nunca perde de vista que trabalha sobre um fait-divers (o filme parte de um artigo sobre factos reais publicado na Vanity Fair), que, como no seu filme de estreia, "As Virgens Suicidas"/"The Virgin Suicides" (1999), a questão que se lhe coloca é como melhor "montar o cerco" às personagens em termos fílmicos para as mostrar tal como elas são. Para tentar compreender.
                     Watson takes a walk on the wild side for her role in  "The Bling Ring."
     Claro que o gang e a sua história são sintomáticos da Hollywood de hoje (que é a manifestação actual da Hollywood de sempre), mas o que mais interessa à cineasta é mostrar secamente como as suas personagens jovens e bonitas se entretêm como num passatempo, misto de afirmação, curiosidade e inconformismo. Há neles crueldade, mesmo maldade? Há sobretudo espírito de aventura (limitada aventura), vontade de fazer o que mais ninguém fez e de quebrar o interdito para chegar aos famosos.
       Percebe-se o gosto de Sofia Coppola em falar sobre aquilo que conhece, um meio que conhece, tal como se percebe que ela escolheu este assunto não por se ter deixado seduzir pela fama fácil, tão fácil de Hollywood, mas para tentar identificar nele aquilo que de relevante uma fama hollywoodiana também arrasta consigo, com Paris Hilton e Kirsten Dunst representando-se a si próprias e Emma Watson, a Hermione Granger dos filmes de Harry Potter, tomando conta das operações e do filme em muito boa companhia. Não tenhamos dúvidas: como os últimos de David Lynch, "Mulholland Drive" (2001) e "Inland Empire" (2006), este é um filme sobre o próprio cinema.
                    
      Tudo se resolve de forma amável e serena com o funcionamento dos meios que o sistema proporciona, como se ninguém tivesse sido ofendido e tudo não tivesse passado de uma brincadeira, guardando-se a última palavra sobre o assunto para a internet, que tinha sido utilizada na preparação dos assaltos, e ao mostrá-lo como tal a cineasta guarda a justa distância crítica, que transmite intacta ao espectador. Em termos visuais e espaciais "Bling Ring: O Gangue de Hollywood" está muito bem construído em interiores e em exteriores - notável o assalto a uma casa filmado à distância, a partir do exterior. A música, de Daniel Lopatin e Brian Reitzell, e as canções, muito bem escolhidas e utilizadas, acentuam o tom "nativo americano" do filme. 
                     The-Bling-Ring
       Sofia Coppola é uma grande cineasta, inteligente e sensível, que não falha um filme, como se acolhesse em si a herança artística das gerações anteriores da sua família. Como sempre está presente também no argumento e o filme é dedicado ao grande director de fotografia Harry Savides (1957-2012), que trabalhara com ela em "Somewhere - Algures"/"Somewhere" (2010) - mas também trabalhou com David Fincher, James Gray, Gus Van Sant, Ridley Scott e  Woody Allen -, de quem este foi o último filme.

A natureza nos sentimentos

   Há múltiplas versões cinematográficas de "O Monte dos Vendavais"/"Wuthering Heighs", o romance de Emily Brontë (1818-1848) que marcou uma época na literatura inglesa do Século XIX. Assim de repente, há os filmes de William Wyler (1939), de Luís Buñuel (1953), de Jacque Rivette (1984-85), que são filmes de referência. Mas a partir de agora há também o filme da inglesa Andrea Arnold (2011), de quem é a terceira longa-metragem, que é um filme muito apreciável, feito a seguir ao notável "Aquário"/"Fish Tank" (2009)
                    
    Sendo este um daqueles casos em que se pode falar de um repertório cinematográfica de raiz literária, anteriormente trabalhado por grandes cineastas, há que começar por dizer que o filme de Andrea Arnold está inteiramente à altura dos seus antecessores, até pelo tom pessoal que ela lhe imprime. Para além de um Heathcliff negro, Solomon Glave quando jovem, James Howson quando adulto, o filme destaca-se por um trabalho aturado sobre o plano, as suas linhas de força, o seu enquadramento - com apontamentos preciosos da natureza turbulenta, na primeira parte, da natureza mais apaziguada, mas entre a água da chuva e o fogo da lareira, na segunda -, e um trabalho rigoroso sobre a iluminação, o grande-plano, insistente até ao muito grande-plano, a desfocagem sempre oportuna e justificada do fundo ou do primeiro plano, os movimentos de câmara, que direi excessivos.
     Os apontamentos esparsos que recortam a natureza assumem uma importância muito grande numa história marcada por uma paixão primitiva e precoce, que acaba por se frustrar, e esse lado do amor que passa ao lado do casamento e do casamento - de Cathy, Shannon Beer quando jovem, Kaya Scodelario quando adulta - que passa ao lado do amor está muito bem restituído pelo filme. Além disso, há as pancadas brutais que atingem Heathcliff, na segunda parte a bota da própria Cathy sobre o seu rosto, a fuga dele depois da não-escolha dela entre ele e o marido, Edgar/James Northcote, o que exprime a presença de uma violência ela também primitiva - sem esquecer a perturbadora Isabella, Eve Coverley quando jovem, Nichola Burley quando adulta, que funciona como testemunha não-indiferente.
                    
      Embora não seja especialmente apreciador dos movimentos rápidos com a câmara ao ombro, entendo que os travellings conferem a Heathcliff e à sua paixão um sentimento de premência, mas também de tormento, que os justifica. Juntamente com o acima referido, nomeadamente a presença de uma natureza elementar, por vezes vazia, que contamina o filme e as suas personagens, eles conferem ao filme de Andrea Arnold um sentido de natureza primitiva e selvagem, de destino imparável. Ora tudo isto faz com que este filme se afaste da teatralidade televisiva e do academismo das produções habituais da BBC, mesmo e especialmente quando baseadas em clássicos da literatura inglesa, por mérito da própria realizadora que assim nele deixa a sua marca pessoal.
                    
      Andrea Arnold, participante no argumento como nos seus filmes anteriores, confirma-se assim como um nome muito interessante, a seguir atentamente no actual panorama do cinema inglês. Este seu "O Monte dos Vendavais" é um filme original e pessoal, o que aqui deve ser devidamente reconhecido e assinalado. Não se compara, evidentemente, com "Vale Abraão", de Manoel de Oliveira (1993), mas aí penso mesmo que só ao próprio Manoel de Oliveira podemos exigir que faça filmes como os dele.

Viagem de autocarro

     O francês Michel Gondry é ainda hoje sobretudo conhecido por "O Despertar da Mente"/"Eternal Sunshine of the Spotless Mind" (2004), a sua segunda longa-metragem, com argumento de Charlie Kaufman, que para o seu nome chamou a atenção, embora ele sempre se tenha movido preferencialmente no campo da imaginação e da fantasia. A sua mais recente longa-metragem, "A Malta e Eu"/"The We and the I" (2012), decorre no interior de um autocarro que atravessa New York com adolescentes que regressam do seu último dia de aulas, antes das férias, e tira bem partido desse ponto de partida que funciona como dispositivo básico, de que raramente sai.
                     The We and the I
      Com o tom descontraído que adopta, o filme deixa-se ver como um objecto agradável e consciente de si, sobre um tempo de juventude vivido na actualidade. A pouco e pouco vamos identificando cada uma das personagens, com as suas especificidades próprias, e somos levados a aceitá-las assim mesmo, tal como cada uma delas é e se comporta quando em grupo, naquele grupo em concreto, o que as torna específico motivo de interesse.
        O tom descontraído do filme, que inclui flashes do passado, nomeadamente de imagens de telemóvel, dá-lhe um carácter próprio, mas "A Malta e Eu" acaba por incluir um espisódio dramático, que implica gravidade e se insere bem na lógica criada depois do convívio ter mudado de tom com a única saída com regresso do autocarro, permitida por um engarrafamento, e sobretudo com o episódio do par gay desavindo. Também gradualmente, em especial a partir daí cada um vai revelando mais de si próprio, de quem verdadeiramente é, como se este episódio se tornasse contagioso, precedendo as sucessivas saídas do autocarro no destino de cada um.
                     A Malta e Eu
         Michel Gondry faz bem em não adoptar um tom sério e sizudo para tratar de personagens que vivem descomprometidamente a sua juventude, com a ligeireza, a crueldade feliz própria da idade e do meio. De novo com participação no argumento, sem pretenciosismo nem falso moralismo, antes como quem olha com atenção uma realidade que como tal respeita e quer mostrar, com desenvoltura o cineasta faz-nos embarcar nesta viagem de autocarro com as suas personagens e segui-la até ao fim. Não há grandes questões? Não, não há, mas é assim mesmo que se vive naquela idade, se descobre a vida e o mundo, e os actores que se representam a si próprios estão todos muito bem, sempre no tom certo e no registo justo.
                    
       A grande questão de "A Malta e Eu" é o próprio filme, a sua criação e construção, que implica imaginação, esforço e empenhamento pessoal de todos, e conduz a um resultado final coerente e feliz, em que a revelação do Eu do título surge, inesperada, no momento próprio. 

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Poesia maior

        Portugal é por vezes qualificado como "um país de poetas", o que poderá ser considerado um elogio se pensarmos em poetas maiores - e só nesse caso. Mas são sempre necessárias as boas traduções para todos sabermos como foi a poesia antes, num tempo em que nem sequer existiam a actual divisão política da Europa ou as línguas actuais, como foi e é a poesia, antiga ou moderna, de povos e idiomas diferentes, que não dominemos. 
         A "Antologia da Poesia Grega Clássica", com tradução e notas complementares de Albano Martins, um dos poetas maiores de língua portuguesa da sua geração, cumpre de forma mais que perfeita o encargo que assumiu de verter para português a poesia de uma época e de uma sociedade absolutamente fundamental porque fundadora da cultura europeia e ocidental. Editada, em 2ª edição, pela Afrontamento (2011), ela recolhe e verte para português o cruzamento que nessa poesia se verifica entre a epopeia, a lírica e a tragédia - e com a filosofia (1) -, em geral por recurso a fragmentos, ou porque eles foram o que dessa poesia nos chegou ou então porque selecciona excertos de poemas longos.
                                      
            Nesta "Antologia da Poesia Grega Clássica" o tradutor aproveita bem as antologia que lhe foram dedicadas em França na segunda metade do Século XX, de Robert Brasillach (1964) e Marguerite Yourcenar (1981), utilizando a apresentação de cada autor feita nessas edições, embora tenha moldado a sua tradução sobre o texto grego, ao que acrescenta, no final, notas complementares. Ao lê-la somos remetidos, no caso da epopeia e do teatro para os textos completos, e sempre para uma cultura fundadora em todos os aspectos, na poesia e no teatro, na política e na filosofia, do que de mais importante veio a suceder depois, até à actualidade, no pensamento e nas artes da Europa e do mundo ocidental, de forma a nela reconhecermos uma radical modernidade e um radical fundamento de todas as modernidades que a conheceram (2). Erudito e vertiginoso.
      Aliás, também da responsabilidade de Albano Martins saiu na mesma editora "Três momentos da poesia europeia (De Safo e Píndaro a Ungaretti e Salinas)", com selecção, tradução e notas suas, um volume que recobre parcialmente a mesma época mas também inclui poesia italiana e espanhola recente menos conhecida, tudo traduzido de forma primorosa, modelar (2012). E a Afrontamento, que publicou a poesia completa deste poeta maior, "As Escarpas do Dia (Poesia 1950-2010)", com Prefácio de Vítor Aguiar e Silva, publicou em 2012 o seu novo livro de poesia, "Estão agora floridas as magnólias", em que a depuração da sua escrita poética o faz aproximar-se do hai-ku japonês.
                                             Estão Floridas As Magnólias - Ampliar Imagem             
         A tradução de poesia não está ao alcance de um qualquer tradutor, de qualquer um que domine bem várias línguas, pois exige o saber e a sensibilidade de um poeta, de preferência de um grande poeta, que a saiba sopesar, avaliar e recriar no seu próprio idioma poético, o que com Albano Martins, poeta da sensibilidade e do sensível, do silêncio e da memória, sem dúvida acontece (3). Sobretudo num momento em que as livrarias mais antigas de Lisboa encerram, ou estão em risco de encerrar, umas a seguir às outras, penso que no tal "país de poetas" devo chamar a atenção para aquilo que de mais invulgarmente importante tem sido publicado em poesia. "Espaço/em branco: a porta/de acesso ao vazio." (Albano Martins)
          Mas a propósito de traduções e de poetas, recomendo também vivamente a última edição portuguesa de "Em Busca do Tempo Perdido"/"À la recherche du temps perdu", de Marcel Proust, editada pela Relógio D'Água com tradução de Pedro Tamen. Ainda hoje o considero um dos romances mais importantes de todo o Século XX, com o qual apenas o "Ulysses" de James Joyce e William Faulkner rivalizam. Embora não tenha qualquer dúvida em recomendar, e até oferecer aos meus amigos esta última edição portuguesa da "Recherche", já decidi que, se para ela tiver tempo, a terceira e última leitura dos seus sete volumes vou fazê-la na edição original, que era por onde devia ter começado como fiz com Joyce (ver "Obsessões", 27 de Fevereiro de 2012).    

Notas
(1) Cf. sobre esta questão "A Descoberta do Espírito - As Origens do Pensamento Europeu na Grécia", de Bruno Snell (edição portuguesa Edições 70, Lisboa, 1992, 2003).
(2) Cf. "A Poesia do Pensamento - Do Helenismo a Celan", de George Steiner (edição portuguesa Relógio D'Água, Lisboa, 2012).
(3) Albano Martins, que teve a sua poesia completa reunida pela primeira vez em "Vocação do Silêncio - Poesia (1950-1985)", com Prefácio de Eduardo Lourenço, publicado pela Imprensa Nacional - Casa da Moeda em 1990, traduziu antes destas duas antologias Pablo Neruda, Rafael Alberti, Nicolás Guillén, Giacomo Leopardi, entre outros, e a presente não é sua primeira tradução da poesia grega clássica.

Um profundo desejo

        François Ozon é um cineasta voyeur, que cria dispositivos visuais e narrativos a partir dos quais observa o comportamento daqueles que escolhe filmar, como escreveu no seu blog Serge Toubiana. "Dentro de Casa"/"Dans la maison" (2012) não foge a essa regra, com que trabalha de forma particularmente feliz e interessante no prosseguimento de uma obra já extensa.
                     dentro de casa Estréias da Semana   29 de Março
       Há dois casais, um sem filhos, Germain/Fabrice Luchini e Jeanne/Kristin Scott Thomas, o outro, Rapha Artole/Denis Ménochet e Esther/Emmanuelle Seigner, com um filho, Rapha/Bastien Ughetto, e há um rapaz novo e dotado, Claude Garcia/Ernst Umhauer, que se infiltra no meio familiar do segundo casal através do filho, seu colega de turma que ele ajuda em Matemática, e estabelece uma relação de cumplicidade com o seu professor de francês, Germain - o filme inspira-se livremente na peça "O Rapaz da Última Fila", de  Juan Mayorga, já levada à cena em Portugal pelos Artistas Unidos de Jorge Silva Melo.
     O que em primeiro lugar atrai e mais prende a atenção nem sequer é cada uma das personagens individualmente, mas o princípio de instabilidade que o intruso vai levar junto daqueles com os quais passa a conviver - se quisermos, é o princípio de "Teorema" de Pier Paolo Pasolini (1968), sem o lado místico ou "sagrado" que a respeito do cineasta Gilles Deleuze assinala. Pelo contrário, neste filme François Ozon move-se ao nível do quotidiano, mantendo-se muito próximo de uma expressão teatral nos interiores. Mas, em segundo lugar, é-nos dada uma bem elaborada relação mestre-discípulo, "pai-filho", que de forma convincente faz passar o saber, filtrado pela frustração criativa do primeiro como ensinamento e estímulo para o segundo.
                     dentro da casa 2013 600x399 Dentro da Casa – Um filme francês que me lembra João Kleber
      Claro que o discípulo excede o mestre, as instruções que dele recebe, e parte de uma experiência de consentida violação da privacidade naquilo que escreve para ele. Neste contexto, em que se descobre o profundo desejo necessário à escrita como à vida, e a necessidade de o dominar e trabalhar, o cineasta usa duas instâncias narrativas na criação dos seus dois dispositivos: o do mestre, entre a sua casa e o liceu onde ensina, com passagem pela ameaçada galeria que a sua mulher dirige, e o do discípulo, entre o mesmo liceu e a casa do seu colega, com passagem pelo recinto desportivo em que os Rapha se encontram ao fim de semana, dispositivos que no final se reúnem na invasão pelo segundo da casa do primeiro. O dispositivo voyeurista do filme desdobra-se assim entre um olhar que pretende comandar um outro olhar, que contudo lhe escapa.
         O lado mais simpático de Ozon, de quem este será o melhor filme até agora, como sempre muito bem servido pelos actores, é que uma vez instalado o seu dispositivo, no caso duplo, ele não se perde com grandes artifícios de uso na linguagem do cinema, preferindo ir direito às suas personagens e ao seu assunto, sem se distrair nem nos distrair escusadamente. Será mesmo o que o distingue de João Canijo, de cujo "Sangue do Meu Sangue" (2011) este filme está, até sociologicamente, próximo. Assim, a parábola de "Dentro de Casa" funciona como um bloco, inteiro e perturbador, que abertamente questiona e inquieta.
                      dentro da casa François Ozon 600x400 Dentro da Casa – Um filme francês que me lembra João Kleber
          É agora que François Ozon passa de um cineasta promissor a um cineasta a seguir com muita atenção, mostrando também ele que, no seu melhor, o cinema francês está em movimento. Quando um cineasta como ele começa a juntar várias referências de forma pessoal, como aqui acontece, é sinal de que alguma coisa de novo nasceu e cresce (ver "Uma inglesa no continente", 17 de Março de 2012)
          A morte de Bernardette Laffont (1938-2013), actriz mítica da "nouvelle vague" francesa em filmes de Chabrol, Truffaut e Eustache, nomeadamente, vem confirmar que o cinema francês não pode continuar a ser visto em função do que foi nos anos sessenta, embora compreensivelmente lhe seja difícil dissociar-se da "nouvelle vague" - pelo menos tão difícil como ao cinema italiano foi fazê-lo em relação ao neo-realismo. No fundo, momentos tão importantes como esses foram não se ultrapassam, absorvem-se e integram-se. François Ozon ainda não está ao nível nem dos melhores nomes da "nouvelle vague" nem de Pier Paolo Pasolini, mas para lá caminha enquanto define o seu caminho (o que lhe interessa fazer), apura o seu uso dos dispositivos criativos (como lhe interessa fazer), e é isso que importa assinalar neste momento.

O regresso da Hammer

     A Hammer Films fez história no cinema inglês pela sua produção de filmes de terror, que assinalaram uma época entre os anos 50 e o início dos 70 do Século XX e nele deixaram uma das suas marcas mais originais. Depois de nas décadas de 80 e 90 se ter dedicado à produção de séries de televisão, a Hammer está de regresso à produção cinematográfica, no género em que se celebrizou, desde 2010, com o excelente "Deixa-me Entrar"/""Let Me In", de Matt Reeves", baseado no surpreendente filme homónimo de 2008 do sueco Tomas Alfredson, e agora com "A Mulher de Negro"/"The Woman in Black", o segundo filme do inglês James Watkins (2012), com argumento de Jane Goldman baseado em romance de Susan Hill.
                    
    Saúdo este regresso, que considero muito oportuno e auspicioso, pois do seu tratamento inglês o filme de terror, manifestamente desgastado nos Estados Unidos num trabalho moderno entre living deads e evil deads, pode colher grande benefício, como mais este filme demonstra ao recuperar muito bem o estilo dos melhores filmes da Hammer dos anos 50 e 60, nomeadamente o dos dirigidos por Terence Fisher (1904-1980) - tem mesmo um casal que se chama Fisher -, interpretados por Peter Cushing e Christopher Lee. A mansão assombrada, a aldeia aterrada, tudo está muito bem recriado e filmado, com um perfeito domínio formal. A narrativa em si mesma tem uma marca feminina muito forte, pois trata de uma mulher a quem morreu o filho, que lhe tinha sido tirado por incapacidade mental para dele cuidar e entregue a uma família de adopção. Depois da sua morte, ela passa a assombrar a mansão, agora abandonada.
       A marca feminina do filme vem, naturalmente, das duas mulheres que estiveram na origem da narrativa, mas o que chamará mais a atenção é o facto de o protagonista, Arthur Kipps, ser interpretado por Daniel Radcliff, o famoso intérprete de Harry Potter, o que não será alheio ao sucesso do filme - aliás ele está muito bem num papel que lhe assenta bem, o de um jovem advogado, viúvo e com um filho, que é enviado pela firma para que trabalha com a missão de vender a mansão assombrada. Mas o que considero mais importante é a elegância do estilo que o filme assume e recupera, dos cenários aos movimentos de câmara, com o qual nos faz revisitar alguns dos lugares-comuns do filme de terror clássico na paisagem magnífica do countryside inglês.
                    
        De facto, "A Mulher de Negro" tem tudo o que é suposto ter: a mansão assombrada, a aldeia aterrada e revoltada, a maldição, velhas fotografias e gravuras, corredores escuros, portas que se abrem por si ou por si se negam a abrir, ruídos estranhos, velas, um companheiro local do herói (Jerome/Tim McMullan), o cemitério, um pântano, objectos que se movem por si próprios. Mas mais do que isso, e incluindo-o, na sua serena elegância formal o filme tem ritmo, duração dos planos - composição formal, cinematográfica, não apenas de cada plano mas no seu todo. 
       Num momento em que o cinema atravessa a crise, até de credibilidade, que se conhece, é natural que ele se volte para o passado, e a Hammer é uma das referências maiores do cinema inglês. "A Mulher de Negro" é um filme muito bom, que cumpre com inteligência e desembaraço o programa que para si mesmo traçou, confirmando assim que essa foi uma boa ideia.  
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        O que pode haver de aparentemente "fora de moda", de contracorrente em recuperar os filmes da Hammer é muito bem compensado pelo tom feminino, moderno, e pelo grande apuro formal que marca o filme e o singulariza de maneira eficiente e convincente. O filme de terror inglês está, pois, de regresso no seu melhor, e há que contar com ele. E a mulher como fantasma tem antecedentes notáveis no cinema, pelo menos desde "Rebecca" (1940), o primeiro filme feito na América pelo inglês Alfred Hitchcock, responsável pelo melhor filme de terror de sempre, "Psico"/"Psycho" (1960), um filme como este assombrado pela figura materna.