“Um não sei quê, que nasce não sei onde,/Vem não sei como, e dói não sei porquê.” Luís de Camões

"Na dor lida sentem bem,/Não as duas que êle teve,/Mas só a que êles não têm." Fernando Pessoa

"Lividos astros,/Soidões lacustres.../Lemes e mastros.../E os alabastros/Dos balaustres!" Camilo Pessanha

"E eu estou feliz ainda./Mas faz-se tarde/e sei que é tempo de continuar." Helder Macedo

"Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos..." Camilo Pessanha

“Vem, vagamente,/Vem, levemente,/Vem sozinha, solene, com as mãos caídas/Ao teu lado, vem” Álvaro de Campos

"Chove nela graça tanta/que dá graça à fermosura;/vai fermosa, e não segura." Luís de Camões

domingo, 17 de novembro de 2013

O verdadeiro e o falso

      Com uma vasta obra atrás de si, Roman Polanski afoitou-se a realizar "Vénus de Vison"/"La Vénus à la fourrure" (2013), com argumento seu e de David Ives baseado na peça de teatro deste "Venus in Fur", por sua vez baseada no clássico do Século XIX de Leopold von Sacher-Masoch.
     Começo por dizer que este filme faz todo o sentido na obra de Polanski, pois toda ela se baseia em jogos de poder, como os seus filmes anteriores "O Escritor Fantasma"/"The Ghost Writer" (2010) e "O Deus da Carnificina"/Carnage" (2011) exemplarmente mostram e este filme confirma e demonstra, embora a questão do poder atravesse toda a sua obra desde o início - ainda há pouco tempo revi "Por Favor Não Me Morda o Pescoço"/"Pardon me, But Your Teeth are in My Neck"/"Dance of the Vampires" (1967), que definitivamente o impôs no cinema depois da sua saída da Polónia e antes da sua ida para os Estados Unidos (onde teve a vida atribulada que se conhece, que o fez regressar à Europa), um filme que mantém toda a sua graça e frescura satírica original, e em que essa era já, compreensivelmente, a questão.
                    
     Integralmente passado num teatro, em que classicamente entramos no início e do qual saímos no final, "Vénus de Vison" decorre exclusivamente entre um autor/encenador/actor, Thomas/Mathieu Amalric, e uma candidata a actriz, Vanda/Emmannuelle Seigner, que ensaiam a peça, o que faz com que funcione como prova de actores de que os dois se saem na perfeição. É que o trabalho dos actores atinge, na criação daquelas personagens de teatro, aquele ponto de desdobramento essencial entre o actor e a personagem de que Fernando Pessoa escreveu em Autopsicografia: "Finge tão completamente/que chega a fingir que é dor/a dor que deveras sente", o que torna o filme uma obra siderante centrada no jogo da representação teatral duplicado pela representação cinematográfica.
    Chegando ao pulsional e ao fetichismo, Roman Polanski atinge aqui o pleno domínio e a plena mestria que a sua obra anterior preludiava e anunciava, com um uso preciso das palavras ditas com absoluto a propósito e em todas as nuances que um ensaio convoca. Assim ele volta a mostrar a que ponto o seu nome é indissociável do melhor do cinema dos últimos 50 anos, contra todas as adversidades e todos os reveses da fortuna.  
                    
    Quem conhecer bem a obra do realizador reconhecerá em "Vénus de Vison" um grande cineasta no melhor do seu talento, num concentrado prodigioso: tudo decorre no espaço de um palco, com saídas para a plateia, vazia e tornada lugar de passagem, ligações de telemóvel com o exterior - uma outra mulher, um outro homem (ou mulher, ou ninguém) -, uma saída para os bastidores, num filme em que todos os espaços duma sala de teatro, assim como todos os aspectos da encenação teatral, são convocados. Aliás, esta é uma obra cinematográfica a toda a prova, de humanidade, de ironia e de talento, quer do realizador, quer dos actores, do director de fotografia Pawel Edelman e (sobretudo) do compositor Alexandre Desplat, um filme que se define e joga entre simulação e dissimulação, com um fabuloso genérico de fim com as diferentes representações de Vénus na pintura presentes nos grandes museus de todo o mundo, prova final e definida de homenagem à mulher.
   Claro que Roman Polanski não é Thomas, como Mathieu Amalric não o é, tal como Emmanuelle Seigner não é Vanda, mas na distância e na transição entre o ser e o representar das personagens na criação da peça dentro do filme, entre o verdadeiro e o falso, o falso e o verdadeiro, entre o poder próprio e a consciência do poder do outro que se jogam entre o autor/encenador/actor e a actriz reside um dos méritos maiores deste filme fascinante e imprescindível, em que no essencial confronto homem-mulher o cineasta, ao erguer-se à dimensão do mito, mostra estar inteiramente à altura do melhor de Luis Buñuel ou Ingmar Bergman.

Duas exposições valiosas

      Estão neste momento patentes em Lisboa duas importantes exposições comemorativas, para as quais me permito aqui chamar a atenção.
    Para comemorar os seus 30 anos de existência, o Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian organizou no seu espaço a exposição "Sob o Signo de Amadeo. Um Século de Arte". Com curadoria de Isabel Carlos, Ana Vasconcelos, Leonor Nazaré, Patrícia Rosas e Rita Fabiana, aí estão em exibição obras de um grande número de artistas modernos portugueses e de alguns estrangeiros, o que torna esta exposição representativa do melhor da arte moderna e contemporânea portuguesa, e também internacional. 
                     título desconhecido (Clown, Cavalo, Salamandra)
       O valioso catálogo "100 Obras da Colecção do CAM" (2010), com a participação de uma nova geração de investigadores de História da Arte, permite, para já, um melhor acesso a uma mostra muito significativa, sobretudo enriquecida pela vasta secção dedicada à obra de Amadeo de Souza-Cardoso, muito completa, variada e modelar, apresentada mesmo como o seu acervo completo, que permite avaliar com justeza e em toda a sua extensão o seu papel fundador no modernismo português e o seu lugar de destaque na arte do Século XX. Um importante ciclo de conferências completa esta exposição, patente até 19 de Janeiro de 2014.
      Por sua vez, para a comemoração dos seus 20 anos, a Culturgest organizou a exposição "O sentido da deriva", em que apresenta obras de arte moderna de diversos tipos e em diferentes suportes pertença da Colecção da Caixa Geral de Depósitos. Nesta exposição que, com curadoria de Bruno Marchand, inclui obras de nomes muito significativos da arte pós-moderna, destaco, ao fundo do espaço à esquerda do visitante quando entra, uma série de 10 fotografias a preto e branco de Jorge Molder intitulada "Inox", provas de gelatina sal de prata, de 1995, que por si só justifica a visita.
                     Jorge Molder
       Esta exposição, patente na Culturgest até 11 de Janeiro de 2014, tem muitos outros grandes nomes da arte contemporânea portuguesa e inclui um núcleo expositivo no Porto. Além disso, a Livraria da Culturgest em Lisboa merece também uma visita atenta.
     Pela sua variedade e pertinência, estas são duas exposições muito recomendáveis, que assinalam neste momento de maneira especial um panorama museográfico habitualmente interessante como é o lisboeta. Pelas efemérides respectivas e pela qualidade da respectiva comemoração felicito o CAM e a Culturgest. (Créditos fotográficos Colecção do CAM/FCG e Soraia Silva.)

Violência em espiral

      O canal cultural franco-alemão Arte transmitiu esta semana "Dog Pound", de Kim Chapiron (2009), que, comercialmente inédito em Portugal, é um filme de raro dramatismo e grande violência que decorre numa prisão para jovens delinquentes em Enola Vale, no Montana. Esta terceira longa-metragem do realizador, também co-argumentista com Jeremie Delon, é uma obre seca e dura, que implicou um longo trabalho de preparação e envolve como actores alguns dos jovens detidos em papéis secundários.
                   
    A espiral de violência a que nos é dado assistir, a partir da chega de três novos detidos, entre jovens delinquentes que na prisão se batem por uma supremacia, tráficos, jogos de influência e poder, está soberbamente realizada e interpretada, quase sem sair de um espaço prisional de que não há saída. Naturalmente permeáveis à recordação, ao devaneio e aos projectos de futuro, eles não perdem, porém, uma fundamental hostilidade para com os que os vigiam e lhes constrangem os movimentos, um antagonismo que acaba por os unir na revolta final, fruto duma acumulação de revoltas e de dois caso gravíssimos acontecidos com dois deles.
     Seco e duro, "Dog Pound" mantém sempre a distância justa, que vai até à grande proximidade do grande-plano, e um ritmo marcado por uma montagem curta, que segue a violência do quotidiano e impede que retomemos o fôlego - um fôlego que não é permitido aos jovens detidos e que eles não se permitem a si próprios. Acompanhado por uma música sincopada, áspera e moderna, o filme arrasta-nos no turbilhão daquelas vidas no cárcere, não se dispensando de prestar especial atenção a um dos guardas prisionais. 
                    
     Sempre justo, tenso e preciso, este filme descobre e revela fundamentais fragilidades num sistema prisional que tem de lidar com delinquentes especialmente violentos provenientes de uma sociedade especialmente violenta, de tal modo que a prisão, em vez de contribuir para reeducar e recuperar os jovens detidos, serve apenas para ecoar e aumentar uma violência latente, sempre pronta a explodir. Sem pretender dar lições de moral, Kim Chapiron procura mostrar de forma clara a situação lamentável de um estado de coisas instalado, o que faz de "Dog Pound" um poderoso libelo acusatório.
      Quando encarado seriamente, o cinema pode servir também para isto, e seria uma pena que passássemos ao lado desta bela obra violenta e muito bem feita, que nos leva a olhar de outro modo quer para a violência da sociedade em que vivemos, quer para o sistema em que ela se insere e que é suposto regulá-la para melhor, o que também aqui não faz.
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      O Arte tem destas vantagens que nenhum outro canal televisivo, mesmo os de cinema, tem: mostrar sistematicamente o mais relevante e às vezes menos conhecido da produção cinematográfica e televisiva recente de todo o mundo - e "Dog Pound" foi justamente premiado no Tribeca Film Festival de 2010. Influenciado por "Scum", do inglês Alan Clarke (1979), no seu realismo e no seu dramatismo este primeiro filme americano de Kim Chapiron não deixa ninguém indiferente, tanto mais quanto percebemos que a violência que encena e mostra no microcosmos em que decorre é uma amostra significativa do lado mais predador e negro da própria América, que ali se encontra também retratado.

sábado, 9 de novembro de 2013

Duelo no mar

       Além dos melhores filmes de Jason Bourne interpretados por Matt Damon, Paul Greengrass é conhecido desde "Domingo Sangrento"/"Bloody Sunday" (2002) e "Voo 93"/"United 93" (2006) como realizador de filmes realistas sobre situações extremas. "Capitão Phillips"/"Captain Phillips" (2013) é o seu mais recente trabalho para cinema e nele o cineasta confirma tudo aquilo que já sabíamos dele de uma forma esmagadora e superior. 
                     930353 - Captain Phillips
           Baseando-se num episódio verídico de pirataria ocorrido em 2009 ao largo da costa da Somália, de que foi vítima um navio mercante americano, o filme acompanha essencialmente o seu comandante, o Capitão Phillips/Tom Hanks, e a sua tripulação, o que nos coloca desde o início do lado do protagonista, que acaba por ter de fazer frente aos piratas que o tomam como refém. Sem prejuízo desse sistemático ponto de vista estabelecido sobre o protagonista, o filme contém apontamentos sobre os piratas que permitem dar conta de uma mentalidade infantil e ingénua mas também do ponto de vista deles, habitantes de um país pobre e atrasado, onde a fome e a grande privação continuam a campear.
           A experiência vivida pela tripulação, em especial pelo Capitão Phillips, é extremamente violenta e como tal nos é devolvida por uma realização precisa e sem contrapontos exteriores que não sejam a progressiva aproximação de socorros. Depois de tomado como refém, não abandonamos o Capitão no interior do salva-vidas em que fica enclausurado com os seus captores, e a extraordinária interpretação de Tom Hanks, muito bem replicada por Barkhad Abdi como Muse, o chefe do grupo de captores, contribui decisivamente para a credibilidade das personagens e da situação e o sucesso o filme. 
                     tom hanks one
          Da parte de Paul Greengrass é tudo uma questão de adoptar sempre o ponto de vista justo e uma montagem rápida, acelerada, que dá conta de forma clara do perigo crescente. Sem qualquer concessão ao mau gosto nem à tranquilidade do espectador, o filme resulta seco e violento, como uma reportagem, de forma a, sem tréguas, transmitir ao espectador todo o dramatismo e toda a verdade do episódio. Embora saibamos desde o início como o filme vai acabar, pois guardamos memória da cobertura mediática do acontecimento narrado, enquanto ele progride como espectadores acompanhamos os esforços heróicos do protagonista para escapar e para sobreviver.
          Acompanhado por uma música que enfaticamente sublinha os momentos mais dramáticos, "Capitão Phillips" confirma plenamente o talento de Paul Greengrass e dá a Tom Hanks uma oportunidade rara de dar de novo conta do melhor do seu enorme talento como o mais contido, expressivo e carismático actor da sua geração no cinema americano. O puro horror paroxístico do final dá para apreciar plenamente uma coisa e a outra.
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          Demasiado preciso, demasiado eficaz, poderá pensar-se do realismo clínico deste filme, mas haverá que atender a que os tempos vão de feição para um uso propagandístico do cinema nos Estados Unidos, o que estabelece o programa para uma edificante visão da capacidade de intervenção armada americana em qualquer ponto do mundo, que funciona de forma manifesta. Se a desproporção de meios e a inferioridade em todos os aspectos de uma das partes chocam, mais claro se torna o dilema dum conflito de civilizações em que lógicas e condições de vida separadas por um abismo se confrontam, sem vitórias que não sejam casuísticas e sem fim à vista.
           Que quase tudo, salvo o início, decorra no mar dá ao filme um carácter desterritorializado, como se decorresse no vazio, o que a realização de Paul Greengrass, na sua precisão e concisão extremas, torna por vezes quase abstracto, sem de maneira nenhuma fazer esquecer que Tom Hanks representa uma personagem real numa situação real - o argumento de Billy Ray baseia-se no relato do episódio que narra pelo próprio Richard Phillips e Stephen Talty.

Filmar o amor

     A edição deste ano do Doclisboa, 11º Festival Internacional de Cinema, teve uma programação excepcional, mostrando de forma clara a actual vitalidade do documentário cinematográfico. Entre as retrospectivas que organizou destaco a que dedicou ao realizador francês Alain Cavalier, que permitiu ficar a conhecer, com a presença do próprio cineasta, a sua obra, ficção e documentário.
    Tendo já escrito aqui sobre ele ("A construção da memória", 14 de Setembro de 2013), a ele e aos seus filmes regresso agora, embora me tenha limitado a ver "La rencontre" (1996), que a vários títulos antecipa "Irène" (2009), que continuo a considerar o seu melhor filme de entre os que dele conheço. De facto, aqui ele filma um amor presente, filma de um amor presente aquilo que é possível filmar para memória futura, enquanto em "Irène" filmava, baseando-se em vestígios e memórias, um amor passado. 
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     Ora ao filmar Françoise Widhoff, assumindo já todas as funções técnicas - além da realização, a captação da imagem e do som -, Alain Cavalier opta sistematicamente pelo plano de pormenor dos objectos que a rodearam durante o início da sua relação, do que resulta uma forte presença dos objectos materiais e dos lugares, deixando dela planos de pormenor de partes do rosto e do corpo, uma imagem fugaz deitada com o gato, uma imagem rápida avançando para a câmara, e de si próprio uma imagem com a câmara de filmar reflectida num vidro.
    Deste modo, fragmentariamente o cineasta constrói a memória do amor a partir do momento em que ele acontece, deixando uma parte muito importante para as palavras, suas e dela, que comentam os objectos e as circunstâncias. Mas não se limita a isso, já que filma também os seus próprios pais, muito velhos e próximos da morte. Assim ele constrói a memória a partir do presente, a própria formação da memória, em vez de a procurar no passado e reconstruir a partir do passado, atingindo alguma coisa da intimidade do amor através de animais, frutos, flores, simples objectos, locais de passagem, mas também através da inquietação, da preocupação e da partilha de memórias pessoais de cada um. Mas filma igualmente a vista a partir da janela da sua casa num plano excepcional, captando a estreita passagem entre prédios em perspectiva, evocativamente comentado.
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        Habituados no cinema por filmes que pretendem, sempre pretenderam declinar o amor em todas as suas facetas e circunstâncias, podemos considerar grata surpresa um filme que vai tão longe quanto é possível ir para que de tudo o que marca um amor como sentimento e relação fique um rasto, um registo visível e audível, sem excessos líricos ou passionais. Ainda sem assumir visualmente o papel que veio a reservar-se em filmes posteriores, em "La rencontre" Alain Cavalier dá uma autêntica lição do melhor do cinema, mantendo Françoise e mantendo-se a si próprio a maior parte do tempo fora de campo, o que justamente os torna aos dois, especialmente a ela, tanto mais presentes através das partes do corpo mostradas - as mãos, em especial - e das palavras ditas. 
         A Cinemateca Portuguesa dedica a Alain Cavalier a conclusão duma retrospectiva completa durante este mês de Novembro, iniciativa muito louvável para a qual chamo vivamente a atenção. É uma oportunidade única de ficar a conhecer um cineasta excepcional, em actividade há mais de 50 anos e com uma importante inflexão técnica e estética no sentido da autobiografia e ao encontro da realidade, consistente com a sua obra anterior, nos últimos 25 anos.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Um mito adolescente

      Um ano depois de "Procurem Abrigo"/"Take Shelter" (ver "A tempestade, 24 de Maio de 2012), Jeff Nichols dirigiu a sua terceira longa-metragem, "Fuga"/"Mud" (2012), que agora estreou entre nós. Trata-se de um filme muito diferente dos seus filmes precedentes, salvo no final mais distendido e sereno, que encena um imaginário adolescente como fábula verista.
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       Passado de novo no mítico sul dos Estados Unidos, no Arkansas, este filme materializa numa personagem em fuga, solitária e precisando de ajuda, Mud/Matthew McConaughey, os afectos, as carências e os sonhos de dois adolescentes de 14 anos, Ellis/Tye Sheridan e Neckbone/Jacob Lofland. No desconhecido ambos concentram um imaginário que procura um futuro exaltante e romântico como catalisador de um presente banal, embora com os seus problemas - os pais de Ellis vão separar-se e a "namorada" dele, May Pearl/Bonnie Sturdivant, complica-lhe especialmente a vida, enquanto Neck vive com um tio, Galen/Michael Shannon.
         O fascínio romântico de Mud resulta de ele lhes dizer querer fugir, no barco que lhes pede o ajudem a recuperar numa ilha no Rio Mississippi, onde eles o descobriram, com a sua namorada, Juniper/Reese Witherspoon, a qual, por sua vez, é utilizada por aqueles que querem matar Mud para tentarem encontrá-lo. Uma segunda figura misteriosa, Tom/Sam Shepard, vem duplicar a figura misteriosa de Mud para o proteger no final.
                     Mud
          Grande parte do interesse deste filme advém do tratamento do espaço na horizontal, a partir de figuras humanas centradas ou descentradas, em termos filmicamente muito interessantes que permanentemente rasgam horizontes ao mesmo tempo que encerram as personagens em espaços fechados - a ilha, as casas, o motel. Com um conseguido balancear entre exteriores e interiores, "Fuga" adquire um novo fôlego e um novo rumo primeiro com a revelação dos perseguidores do protagonista, depois com a ausência de Juniper do local onde Ellis ficara de a recolher para se juntar ao namorado.
      Mas a arte de Jeff Nichols, como sempre também autor do argumento, revela-se especialmente na manutenção da intriga e do filme entre um registo realista e um registo de fábula, o que permite construir o seu mistério e resolvê-lo em (e entre) ambos os registos. Aliás, e como se compreende, por aqui passa a memória dos romances de iniciação de Mark Twain (ver "A vida é assim", 20 de Abril de 2013), num filme em que o cineasta reafirma, quer visualmente, quer pelo uso parcimonioso da música, que ocupa um lugar de relevo, indispensável, no panorama do novo cinema independente americano.

Fresca e encalhada

    De Noah Baumbach, realizador nomeadamente de "A Lula e a Baleia"/"The Squid and the Whale" (2005), chegou-nos agora "Frances Ha" (2012), com argumento seu e de Greta Gerwig, que interpreta a protagonista que dá o nome ao filme. Filmado a preto e branco principalmente em New York, onde decorre a maior parte do tempo, a partir do facto de Frances/Greta Gerwig querer ser bailarina o filme dança ao ritmo das desatinadas correrias dela pela cidade.
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     Despretensioso mas muito preciso, este é um filme que, ao acompanhar Frances, uma mulher de 27 anos encalhada embora plena de vivacidade, se desdobra em companhias e encontros em que ganha corpo uma nova geração de jovens sonhadores habitantes da grande e mítica metrólope. Palavroso e construído sobre encontros falhados, como os filmes iniciais de Woody Allen, "Frances Ha" não se demora demasiado em cada questão, como se tivesse pressa em dizer tudo o que é relevante sobre ela e as suas relações.
     As suas sucessivas companhias de apartamento, que começam com Sophie Levee/Mickey Sumner, como ela heterossexual, como ela fresca e encalhada, as suas esperanças e desilusões profissionais, os seus percursos para fora da cidade, primeiro até Sacramento, Califórnia, ao encontro dos pais, depois até Paris para uma viagem relâmpago, são dados por Noah Baumbach com grande economia de meios, o que lhe permite dizer tudo o que tem a dizer em pouco tempo, tirando todo o partido de uma actriz, Greta Gerwig, que entre um corpo excessivo mas dominado e uma grande expressividade física e fisionómica marca a destravada mas muito compenetrada protagonista.
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    Se o preto e branco, com fotografia de Sam Levy, funciona muito bem, marcando a originalidade do filme, a música contém escolhas felizes que muito apropriadamente sublinham o tom leve de "Frances Ha", que depois de um longo e variado percurso termina com a protagonista definindo por subtração o seu apelido em Washington Heights.
   Com descontração e leveza, humor e sabedoria, Noah Baumbach constrói um filme sólido e apetecível, com uma musicalidade própria a assinalar a sua vitalidade juvenil, que vem confirmar que continuam a fazer-se filmes muito interessantes em New York, que valem por si mesmos e tornam esta cidade uma verdadeira capital do cinema americano.