“Um não sei quê, que nasce não sei onde,/Vem não sei como, e dói não sei porquê.” Luís de Camões

"Na dor lida sentem bem,/Não as duas que êle teve,/Mas só a que êles não têm." Fernando Pessoa

"Lividos astros,/Soidões lacustres.../Lemes e mastros.../E os alabastros/Dos balaustres!" Camilo Pessanha

"E eu estou feliz ainda./Mas faz-se tarde/e sei que é tempo de continuar." Helder Macedo

"Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos..." Camilo Pessanha

“Vem, vagamente,/Vem, levemente,/Vem sozinha, solene, com as mãos caídas/Ao teu lado, vem” Álvaro de Campos

"Chove nela graça tanta/que dá graça à fermosura;/vai fermosa, e não segura." Luís de Camões

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Grandes actores

      Fui ver "Last Vegas - Despedida de Arromba"/"Last Vegas", de John Turtelbaub (2013), por ser uma comédia e por causa dos actores: Robert De Niro, Michael Douglas, Morgan Freeman e Kevin Kline. Não fiquei desiludido, embora considere que a grande época da screwball comedy e dos grandes actores e cineastas americanos do género (Frank Tashlin, Jerry Lewis, Blake Edwards, Peter Falk) não tem neste momento continuadores à sua altura. 
                     Last Vegas Trailer Screengrab - H 2013
     O tom ligeiro mas sentimental do filme fica-lhe bem e é bem defendido pelos actores - além dos mencionados "cabeças de cartaz", Mary Steenburgen. Amigos de infância, Paddy/De Niro, Archie/Freeman e Sam/Kline embarcam num fim de semana em Las Vegas para a despedida do único solteiro do grupo, Billy/Douglas, com o qual o primeiro está muito zangado. Metem-se pelo meio incidentes de percurso, como Diana/Steenburger, uma história passada entre Paddy e Billy revela-se em episódios antigos e recentes com consequências no presente e tudo acaba por se esclarecer, dadas as circunstâncias da melhor maneira.
      O que "Last Vegas - Despedida de Arromba" me fez lembrar foi "Maridos"/"Husbands, de John Cassavetes (1970), bem melhor do que este, mas Cassavetes impunha, como actor e sobretudo como realizador, a originalidade, a frescura e a grande qualidade em tudo o que fazia. Mesmo assim, com actores todos eles notáveis John Turtelbaub faz um bom trabalho, aproveitando-se bem do lugar que Las Vegas ocupa no imaginário americano. 
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       Demasiado bem comportado apesar de tudo, este é um filme que faz lembrar outras épocas e outros filmes (Cary Grant e Katharine Hepburn nas comédias de Howard Hawks, Jack Lemmon e Shirley MacLaine nas de Billy Wilder), assumindo com brio um género hoje em dia maioritariamente entregue a patetices adolescentes. Com momentos bem achados e bem resolvidos em termos de cinema e de interpretações, incluindo o final, "Last Vegas - Despedida de Arromba" pelo menos não envergonha.
      Jogando inteligentemente com a memória e com o mito, este é um filme que, com grandes actores (sempre indispensáveis na comédia) utilizando a sua própria imagem no cinema, recupera um género contrariamente ao que se possa pensar muito difícil e com uma larga e importante tradição no cinema americano. John Turtelbaub mostra estar aqui no bom caminho.

O ardil do caçador

      O que despertou a minha atenção para "Diário Secreto de um Caçador de Vampiros"/"Abraham Lincoln: Vampire Hunter", de Timur Bekmambetov (2012), foi o aparecimento do nome de Tim Burton na produção. Uma vez o filme visto, entende-se bem que aquele, embora não seja o típico Tim Burton film, tem muitas marcas que o ligam ao seu imaginário visual.
             A ideia de agarrar no famoso Presidente americano do tempo da Guerra Civil para, a partir da sua infância, fazer dele um caçador de vampiros é original e está bem desenvolvida ao acompanhá-lo ao longo da sua vida, antes e depois de se ter tornado o 16º Presidente do seu país. A parte visual do filme está muito bem construída e desenvolvida, com vampiros bem caracterizados e a apropriada inclusão de momentos de animação sobre a história da humanidade.Abraham Lincoln: Vampire Hunter
           Recapitulando a história e a lenda até Gettysburg e à fatídica partida para o teatro naquele fim de tarde de Abril de 1865, "Diário Secreto de um Caçador de Vampiros" aguenta-se do ponto de vista histórico o suficiente para sobre ele ser construído como filme de vampiros, vampiros esses que acabam por se aliar aos confederados. Com momentos de acção (os ataques dos vampiros) e momentos dramáticos (o final, com a caminhada de comboio para a frente) muito bem resolvidos, o filme consegue ser inovador e original onde menos se esperaria.
         O Tim Burton touch, embora presente não se torna impositivo, deixando margem criativa para o realizador que a sabe aproveitar. Com actores sóbrios e seguros, nomeadamente Benjamin Walker como Abe Lincoln, Dominic Cooper como Henry Sturges (pleno de ambiguidade), Anthony Mackee como Will Johnson (o fiel amigo de infância), Mary Elizabeth Winstead como Mary Todd Lincoln, Rufus Sewell como Adam (o vampiro-chefe), Erin Wasson como Vandoma, sem ofender a história, antes respeitando-a até onde pode, este filme joga com a lenda de maneira desinibida e feliz. Como é absolutamente necessário num filme de vampiros, os vampiros estão muito bem caracterizados e interpretados.        Claro que, nas condições actuais, "Diário de um Caçador de Vampiros" joga com a "construção do inimigo", o que se compreende. Mas, típico filme de vampiros, joga também com a ambiguidade de Henry, o mentor de Abe, e com a astúcia do caçador. O final vem confirmá-lo, num jogo também ele astuto com o espectador. E o filme anterior para que este remete é "A Grande Esperança"/"Young Mr. Lincoln", de John Ford (1939).  
             A este nível, o do divertimento inteligente, o cinema americano continua a ser muito bom.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Mais 3 rostos

    José Tolentino Mendonça é um dos grandes poetas portugueses da actualidade, com vários livros publicados também em prosa. Conheço melhor a sua obra poética, que aprecio. Publicou agora "A Papoila e o Monge" (Lisboa, Assírio & Alvim, 2013), livro em que dá conta de uma extrema depuração da sua linguagem poética, reduzida à expressão do haiku.
     Esta "redução" significa, de facto, a demonstração de um pleno domínio da linguagem poética e, consequentemente, a passagem para um grau diferente de expressão poética, o que, tratando-se de alguém com muito boas provas dadas em poesia, aqui devo assinalar.    
                   
      Mas simultaneamente o seu nome surge associado ao último livro de fotografia de Duarte Belo, um dos maiores fotógrafo portugueses de exterior, de fotografia documental da actualidade. Trata-se de "Os rostos de Jesus - Uma revelação" (Lisboa, Temas & Debates/Círculo de Leitores, 2013), em que o conhecido fotógrafo se dedica a fotografar exaustivamente as figuras de Cristo abundantemente representadas em esculturas em altos de Cruzeiro ao longo de Portugal, sobretudo no Norte do país e com especial concentração no Alto Minho.
                    Il Vangelo secondo Matteo
      Não surpreende que a este projecto aparentemente insensato (107 fotografias a cores, a diferentes distâncias e com diferentes ângulos) surja associado o nome do autor de "A construção de Jesus" (Lisboa, Assírio & Alvim, 2004), que no estudo "Hipóteses para um rosto" - que replica o de Duarte Belo, "A escultura de uma fotografia", revelador de grande auto-consciência do seu trabalho e do contexto em que ele se insere -, com pertinência e argúcia trata da questão das representações de Jesus Cristo.
       Questão muito interessante também no cinema, sobretudo a partir da reflexão fundamental de André Bazin que inclui o Santo Sudário de Turim no seu fundamental "Ontologia da Imagem Fotográfica"/"Onthologie de l'image photographique" (1945) - uma abordagem a que recentemente noutra perspectiva Georges Didi-Huberman regressou mais desenvolvidamente em "La ressemblance par contact" (Paris, Les Éditions de Minut, 2008) -, a representação de Cristo apresenta um vasto historial em História da Arte, a que as fotografias deste excelente livro, o ensaio de Duarte Belo e o bem informado estudo de Tolentino Mendonça se vêm agora acrescentar.
                               
       Como esta é uma questão ainda hoje muito interessante, que me leva a chamar a atenção também para este segundo livro, permito-me, com a devida vénia, juntar aqui mais três rostos de Cristo no cinema: o de "Acto da Primavera", de Manoel de Oliveira (1963), o de "O Evangelho Segundo São Mateus"/"Il vangilo secondo Matteo", de Pier Paolo Pasolini (1964), e o de "A Última Tentação de Cristo"/"The Last Temptation of Christ", de Martin Scorsese (1988), três grandes filmes de três grandes cineastas. Há outras figurações crísticas no cinema? Evidentemente que sim, mas na sua modernidade para estas três chamo neste momento especial atenção: o popular de Oliveira, o estilizado de Pasolini, o torturado de Scorsese.             
       Por mim, olhem para onde quiserem, mas, mesmo se de passagem, não deixem de olhar também para aqui. E, uma vez que deles falo, quando puderem vejam esses filmes - e também o didáctico "Il Messia", de Roberto Rossellini (1975), hoje em dia muito difícil de encontrar - que "tateiam" mais do que um rosto na mesma perspectiva fragmentária e inominável. A questão da representação/figuração pode, apesar de tudo, surgir de modo diferente no cinema por ele, contrariamente à escultura e à fotografia, ser imagem em movimento, especialmente quando a querela iconoclastas-iconólatras, de que dão conta detalhadamente Martine Joly ("A Imagem e os Signos"/"L'image et les Signes", 2000 - edição portuguesa Edições 70, Lisboa, 2005) e Hans Belting ("A Verdadeira Imagem"/"Das echte Bild. Bildfragen", 2006 - edição portuguesa Dafne Editora, Porto, 2011), nos surge como um desatino de um tempo que hoje temos tanta dificuldade em entender como necessidade de compreender. "Vive como quem constrói uma imagem/uma imagem/que desaparece" (José Tolentino Mendonça).

Déjà-vu

    Era inevitável que Hollywood fizesse um filme sobre a caça e a morte de Osama bin Laden, o tristementre célebre líder da al-Qaeda. Os próprios acontecimentos, desde os ataques terroristas de 11 de Setembro de 2001 até esse momento de punição, funcionaram, eles próprios, como um filme, pelo que fazer o filme era trabalhar sobre um déjà-vu em termos mediáticos.
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     Assim, o filme de Kathryn Bigelow "00:30 A Hora Negra"/"Zero Dark Thirty" (2012), embora obrigatório torna-se inteiramente previsível. Filmado por uma cineasta com provas dadas, nomeadamente o galardoado "Estado de Guerra"/"The Hurt Locker" (2008), repete um percurso balizado por acontecimentos que todos conhecemos, recordando e recriando em filme episódios crus do conhecimento público que como tal interessaram e ao cinema interessa reter para a história no "filme oficial".
     A invenção deste filme reside na colocação como protagonista de uma agente dos serviços secretos americanos, Maya, interpretada por uma Jessica Chastain sempre mais do que simplesmente correcta, mas ele fica na história por ter sido um dos últimos filmes em que, já notoriamente muito gordo, participou James Gandolfini (ver "Poética dos Actores", 22 de Junho de 2013), que interpreta o Director da C.I.A. em duas breves aparições. De resto, a competência e superioridade dos S.E.A.L. é demonstrada sem qualquer sombra de dúvida num filme que preenche cabalmente as funções de propaganda que o motivaram.
                      Zero Dark Thirty 011 Zero Dark Thirty Blu Ray Review
      Agora o filme que a realidade faz continua, aí como em muitos outros campos, e estranho muito que onde ele mais incomoda na actualidade, a recessão provocada pela crise resultante do mais recente crash bolsista, ainda não tenha merecido ao cinema americano a atenção que lhe mereceram, nos anos 30 do Século XX, a Grande Depressão e o New Deal. Além disso, partilho as apreensões sobre o não encerramento da prisão de Guantanamo Bay e pelo grave prolongamento de um estado de excepção absolutamente indesejável - só quando ele acabar esta guerra poderá ser dada como ganha.
      Lamentáveis embora as circunstâncias que desde o início o motivaram, com a competência de Kathy Bigelow e de toda a equipa "00:30 A Hora Negra" cumpre com eficácia os objectivos visados. Colocam-se agora, como frequentemente acontece no cinema e o próprio cinema americano parece expressamente procurar, questões relativas à veracidade deste relato fílmico. Mas atenção aos outros pontos em que a realidade preocupantemente faz cinema, faz filme neste momento.

JFK - 50 anos

        Cumpriram-se no passado dia 22 de Novembro 50 anos sobre o assassinato do Presidente americano John Kennedy, episódio trágico de que guardo viva memória emocional coetânea. O seu bárbaro e cobarde assassinato transformou o jovem e carismático Presidente em mártir, forçando a sua substituição pelo seu vice-presidente, Lyndon Johnson, cuja presidência é hoje considerada como especialmente marcante em tempos muito difíceis.
     O aniversário foi condignamente celebrado nos Estados Unidos e a BBC World News transmitiu no passado fim de semana um documentário recente, "The Lost JFK Tapes: The Assassination" (2009), que pela primeira vez recolhe os registos audiovisuais desse dia, até há poucos anos mantidos inacessíveis. Impressionante de rigor, este documentário muito oportuno permite-nos conhecer, por ordem cronológica, todos os acontecimentos relevantes desse fatídico 22 de Novembro de 1963 em Dallas, Texas, através de gravações televisivas e radiofónicas.
                     Image for The Lost JFK Tapes: The Assassination
      Ao assistir a este documentário e recordar a entrada de John Kennedy no campo do mito pela mesma porta pela qual, 100 anos antes, a ele acedera Abraham Lincoln, recordei o filme de Oliver Stone "JFK" (1991), que pretende averiguar da verdade sobre o assassinato do Presidente, ainda hoje com "Wall Street" (1987) o seu melhor filme (a partir do qual o continuo a esperar e só o voltei a encontrar em "World Trade Center", 2006 - mas isto digo eu, que sou muito exigente), e também o que as imagens do assassinato representaram para o imaginário colectivo e o próprio cinema americano (1).
     Com conhecidas ligações ao mundo do cinema (Frank Sinatra e o rat pack, Marilyn Monroe), que contribuíram para lhe moldar a figura pública e o mito, John Fitzgerald Kennedy merece indubitavelmente ser lembrado por todos nós, que merecíamos este excelente documento audiovisual sobre as circunstâncias precisas que rodearam, antecederam e seguiram, o disparo fatal. Aqui deste modo o recordo e lhe presto a minha sentida homenagem.

Notas
(1) Cf. Jean-Baptiste Thoret, "26 secondes: L'Amérique éclaboussée - L'assassinat de JFK et le cinéma américain", Pertuis, Rouge Profond, 2003.

domingo, 24 de novembro de 2013

Cinema capital

      Iniciou-se este fim de semana no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian a importante programação "Harvard na Gulbenkian - Diálogos sobre o cinema português e o cinema do mundo" que, com curadoria de Haden Guest e Joaquim Sapinho, vai apresentar nos próximos meses, para já até Março de 2014 com a secção "Depois de Vanda", um conjunto de obras muito importantes do cinema contemporâneo.
     Arrancando com o mítico "Trás-os-Montes", de António Reis e Margarida Cordeiro (1976), e com a previsão de algumas sessões surpresa, este ciclo é tanto mais importante quanto cada sessão é seguida de debate com nomes de referência do cinema actual, entre os quais realizadores como o húngaro Béla Tarr, o brasileiro Nelson Pereira dos Santos, o chileno Patricio Guzmán, a sul-coreana Soon-Mi Yoo, os portugueses Susana Sousa Dias e Manuel Mozos, a argentina Lucrecia Martel, o canadiano Denis Côté  e o espanhol Albert Serra, que apresentam e debatem os seus filmes e filmes de outros - por exemplo, "Mudar de Vida", de Paulo Rocha (1966), já em Dezembro
                    
       Numa altura em que em Lisboa continuam a fechar salas de cinema, um sintoma sempre preocupante da degradação de um estado de coisas, esta é uma iniciativa muito importante por mostrar filmes muito bons, alguns dos quais desconhecidos ou raramente vistos na actualidade, e por, além de pôr os filmes a falar por si próprios, pôr os cineastas e outros convidados - entre os quais Dennis Lim, crítico do New York Times - a falar também sobre os filmes.
        Pouco habituados já a este tipo de tratamento do cinema, salvo na Cinemateca Portuguesa e nos diferentes festivais de cinema, pela sua programação e intenção esta nova iniciativa da Fundação Calouste Gulbenkian vem repor o cinema no seu justo lugar para todos os verdadeiros interessados, num grau de qualidade e exigência de saudar. Será muito importante assistir e participar.  
                    
        Por mim, tive ontem, Sábado a revelação de Ben Rivers, autor de cinema esperimental de quem me impressionou sobretudo "Two Years at See" (2011), um filme a preto e branco, com grão visível, que segue um homem solitário (com um gato) em interiores e na natureza, e atinge a surpresa e o fascínio quando o apanha na água, primeiro em movimento e sobretudo quando pára, momento mágico em que o tempo se detém enquanto o tosca embarcação deriva para a direita, até ao extremo da imagem, quando ele retoma o remos e inverte o movimento. Com um sábio aproveitamento do fora de campo, nomeadamente dos ruídos, este filme volta a surpreender no seu final, com um plano longo do rosto da personagem do lado direito, iluminado apenas pelas chamas fora de campo de uma fogueira. Mas, além disso, "Two Years at See" tem um excelente tratamento dos espaços vazios e dos detritos, sobre os quais se constrói e constrói a sua personagem abandonada.
     Precisamos todos de assistir a estes filmes e de participar nestes debates. A seguir atentamente.

Saber esperar

     "Um Planeta Solitário"/"The Loneliest Planet" é o terceiro filme da russo-americana Julia Loktev (2011), centrado em três personagens, um par de namorados, Alex/Gael Garcia Bernal e Nica/Hani Furstenberg, e o guia Dato/Bidzina Gujabidze que os conduz numa excursão através das montanhas da Geórgia. Objecto dir-se-ia apátrida e sem destino definido, o filme apresenta uma narrativa minimalista, no limiar da deriva e do tédio, até ao momento em que Alex e Nica apanham um valente susto
                      The Lonliest Planet
       A partir de então a câmara afasta-se imediatamente, os planos tornam-se mais longos e os percursos abstractos, assinalando uma nova gravidade, até ao momento em que, depois de ela ter caído na água dum ribeiro, enquanto Alex dorme Nica trava com Dato um diálogo a sós em que ele lhe conta a sua vida passada e lhe diz que ali, nas imensas montanhas, encontra a verdadeira vida e a realidade, após o que a beija.
     O argumento da autoria da cineasta, baseado num conto de Tom Bissell e incluindo um excerto de "Um Herói do Nosso Tempo", de Mikhail Lermontov,  trabalha a incerteza que para o par reveste, sobretudo a partir de certo momento, a sua caminhada, até desembocar na história de um homem que foi casado como eles se aprestam para ser, que introduz uma circularidade muito especial. Toda a arte do filme e da sua autora reside no tratamento do espaço e do tempo, com actores a simplesmente animarem as suas personagens.  
                      Lonliestplanethand_body
       Mas de tal maneira os acontecimentos surgem escalonados e articulados no tempo e no espaço que percebemos que aquelas duas personagens, que se limitam a tentar passar o seu tempo de maneira agradável na natureza (e aqui a pista ecológica é uma falsa pista), aí vão encontrar o susto e uma delas uma verdade inesperada que a desperta.
       Inconclusivo no seu final definido, "Um Planeta Solitário" é um filme que cumpre de forma exemplar o seu projecto narrativo, espacial e temporal, a que, na sua desarmante arte da espera, é preciso estar atento. Sempre gostei de percursos que aparentemente não conduzem a lado nenhum, no fim dos quais, enquanto os outros dormem, acabamos por descobrir o que não esperávamos nem desejávamos.