“Um não sei quê, que nasce não sei onde,/Vem não sei como, e dói não sei porquê.” Luís de Camões

"Na dor lida sentem bem,/Não as duas que êle teve,/Mas só a que êles não têm." Fernando Pessoa

"Lividos astros,/Soidões lacustres.../Lemes e mastros.../E os alabastros/Dos balaustres!" Camilo Pessanha

"E eu estou feliz ainda./Mas faz-se tarde/e sei que é tempo de continuar." Helder Macedo

"Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos..." Camilo Pessanha

“Vem, vagamente,/Vem, levemente,/Vem sozinha, solene, com as mãos caídas/Ao teu lado, vem” Álvaro de Campos

"Chove nela graça tanta/que dá graça à fermosura;/vai fermosa, e não segura." Luís de Camões

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Um actor, um filme

     Com poucos dias de intervalo de Nelson Mandela (1918-2013) morreu o actor irlandês Peter O'Toole (1932-2013), um grande actor de teatro e de cinema que, educado em Inglaterra, ficou singularmente marcado pela personagem de T. E Lawrence que interpretou em "Lawrence da Arábia"/"Lawrence of Arabia", de David Lean (1962). Foi um grande actor mas a sua figura ficou emblematicamente ligada a este filme, que marcou uma época e o apogeu da arte do seu realizador.                   
      Poderia pensar noutros actores que ficaram associados a um determinado papel, mas o caso dele é especialmente notável porque a notoriedade que com esse filme alcançou, num papel com grande significado histórico, não a voltou a alcançar.com nenhum outro. O seu foi, pois, o caso de um filme feliz, mítico, e de uma grande interpretação que desde cedo definiram o seu lugar na história do cinema.
                    Lawrence of Arabia 18800
    Pode considerar-se que David Lean fez filmes melhores, mas foi de facto nesse que ele alcançou um enlace único entre a história do seu país e o cinema, centrando-se numa personagem ímpar e filmando o deserto e no deserto como talvez mais ninguém tenha feito. Em todo o caso, se há filmes cuja fama excede o seu realizador "Lawrence da Arábia" é um caso paradigmático, muito por causa dos actores, Peter O'Toole e Omar Sharif, mas também Alec Guiness e Anthony Quinn. E não tenho dúvida de que há actores mais famosos do que os cineastas com que trabalham, por muito destacados que eles sejam.  
       Houve outros actores britânicos mais importantes do que ele no Século XX? Sem dúvida. Mas o jovem O'Toole, cuja carreira no cinema viria a ser notável - logo em 1965 a interpretação do protagonista de "Lord Jim", de Richard Brooks, baseado na novela de Joseph Conrad, "Como Roubar Um Milhão"/"How to Steel a Million", de William Wyler (1966), em que contracenou com Audrey Hepburn, e "O Leão no Inverno"/"The Lion in Winter", de Anthony Harvey (1967), em que como Henrique II contracenou com Katharine Hepburn -, marcou em "Lawrence da Arábia" uma época e mais do que uma geração na história do cinema. Também por isso, sobretudo por isso, aqui o recordo e lhe presto a minha respeitosa homenagem.

Sobre os mortos

    Nascido na Malásia mas tendo feito a sua formação em Taiwan, onde tem trabalhado, Tsai Ming-Liang é um cineasta com provas dadas em filmes muito bons que captam de modo original o espírito do cinema e a sua memória. Tendo já feito um filme com referência a Paris e ao seu lugar no seu imaginário cinéfilo, "Et là-bas, quelle heure est-il?"/"Ni neibian jidian" (2001), à semelhança de outros afoitou-se a fazer o seu filme parisience, "Face"/"Visage" (2009), que é a sua penúltima longa-metragem.
    Os filmes franceses ou com influência francesa de cineastas do Extremo Oriente interessam por serem reveladores de uma influência, de uma marca da história do cinema, que manifesta consciência do meio que utilizam e de si próprios. No caso de Tsai Ming-Liang, a referência forte é François Truffaut, portanto uma referência maior. Sem isso, "Face" poderia passar por uma simples brincadeira cinéfila, mas com Truffaut em fotografia, em imagens de filmes, em actores (Jean-Pierre Léaud, Fanny Ardent, Jeanne Moreau) as coisas assumem um carácter mais sério.
                     Visage : Photo Fanny Ardant, Tsai Ming-liang
    Efectivamente, sob uma aparência minimalista este filme constitui-se como uma homenagem cinéfila feita de modo sentido, na procura de uma origem, de uma relação para o próprio cineasta, que assim procura definir-se e definir o seu lugar num quadro mais alargado. Há alguma coisa de formalista na démarche de Tsai, mas a presença dos actores de Truffaut e as imagens de "Os quatrocentos Golpes"/"Les quatre cents coups" (1959), inteligentemente utilizadas, além da lista de grandes nomes da história do cinema mundial debitada em diálogo, remetem, mais do que para uma filiação, para a procura uma legitimação cinematográfica, o que se compreende.
     Assim, Paris assume neste filme uma função de cenário fúnebre, em que o cemitério, o museu e a memória avultam, num contexto de jogos de espelhos em que a imagem devolvida por eles é reconhecível, surge de onde não se espera ou então procura-se anulá-la. Com a exacerbação do plano longo, fixo, há também como que uma homenagem cinéfila, que é também reiteração estética, que extravasa as figuras humanas para atingir uma actualidade esteticamente pregnante. Alguma coisa me faz pensar em "O Quarto Verde"/"La chambre verte" (1978), a obra-prima de Truffaut, como na construção de um pessoal "museu imaginário". 
                    
      De resto, "Face" tem lassidão, falta de acção (está em causa a rodagem de um filme dentro do filme), bonitas e sugestivas imagens, diálogos precisos, como é hábito em Tsai Ming-Liang, e permite rever actores conhecidos mesmo se em pequenos papéis: Nathalie Baye, Mathieu Amalric, Laetitia Casta. Foi para mim especialmente interessante ver Jean-Pierre Léaud disforme e inexpressivo, por isso mesmo transparente, e verificar que o cineasta se mantém fiel a uma temática e a uma estética minimalista muito pessoal. Como jogo de espelhos cinéfilo estamos entendidos: os vivos são um pobre reflexo dos mortos. 
       A última longa-metragem de Tsai Ming Liang, "Stray Dogs"/"Jiao you" (2013), ganhou o Grande Prémio do Júri no Festival de Veneza deste ano e acaba de ganhar o Golden Horse, o mais prestigiado prémio chinês de cinema, para o melhor realizador. O que significa que a vida e a obra do cineasta continua da melhor maneira. Esperemos pelo filme.

domingo, 15 de dezembro de 2013

O devir-violento

    O mais recente filme de Jia Zhang-ke a estrear em Portugal, "China - Um Toque de Pecado"/"Tian zhu ding" (2012), é mais uma obra extraordinária do grande cineasta chinês da actualidade. Extraordinária e inesperada, pois aqui ele enfrenta a violência no seu país.
       Em quatro episódios diferentes, diferentes personagens assistem ao advir da violência em si próprias, cada uma pelas suas próprias e pessoais razões, que somos convidados a compreender - mais uma vez, com o cineasta o convite é para compreendermos o que nos apresenta, por mais estranho, insólito que possa parecer. O percurso de Jia Zhang-ke continua a revelar-se exemplar na escolha dos aspectos mais sensíveis, mais difíceis de abordar da sua sociedade, que são aqueles que manifestamente mais o atraem, o interessam.
                      Imagem do filme 'Um Toque de Pecado'
         Naquele homem revoltado com a vulnerabilidade do poder que o rodeia, no jovem que convive mal com a sua própria família, na mulher que se surpreende vítima dos que a rodeiam depois da morte do homem que ama, no jovem que não encontra outra saída que no salto no vazio reencontramos a sociedade chinesa mas também as sociedades em que vivemos, e reconhecemo-nos na sua comum humanidade. Não se trata para Jia de julgar as suas personagens nem de convidar-nos a julgá-las, mas de mostrar vidas difíceis mas banais em toda a sua crueza.
         Tendo já tratado aqui de filmes do cineasta chinês (ver"Contra o esquecimento", 29 de Janeiro de 2012), não devo esconder o grande apreço em que tenho a sua obra, intransigente e de uma grande coerência ética e estética, o que o torna um dos grandes cineastas da actualidade a nível mundial. Em "China - Um toque de pecado" ele persegue e prossegue o melhor da sua inpiração fílmica, como quem persegue o desvendar de um sonho que está na própria realidade.    
                     um toque de pecado
         Mais móvel e livre, sem esquecer as temáticas (os "pobres diabos" entregues a si próprios) e as figuras de estilo (o plano longo com profundidade de campo, o teatro, os ecrãs) que o notabilizaram mas sem se deixar entravar por elas, Jia Zhang-ke não esconde a simpatia que sente pelas suas personagens, eivada de compreensão e compaixão, que o final sintetiza. Com actores sempre admiráveis, com destaque para Wu Jiang como Dahai e e Tao Zhao como Xiao Yu, o cineasta volta a encontrar o director de fotografia Yu Lik Wai e o compositor Lim Giong, com os quais, manifestamente, continua a dar-se muito bem para encontrar o seu tom pessoal, em que a continuidade do plano é comum e a música usada com parcimónia.
        Mas é de novo no encontrar o universal no local que reside a grandeza deste novo filme do cineasta chinês. Ao perseguir o devir-violento da impotência no primeiro episódio, a violência que resulta da desorientação no segundo, a que se mostra como a solução na falta de outras nos dois últimos ele toca os pontos sensíveis onde eles são gerais.
                      Imagem do filme 'Um Toque de Pecado'
       Claro que o filme também trata da corrupção na China, em especial no seu primeiro episódio, e talvez por isso se torne mais notado, mas mesmo aí trata-se de uma situação local bem observada mas de ressonância universal nos nossos dias.
       Pois é assim mesmo: entre Jia Zhang-ke, Abbas Kiarostami e alguns (poucos) outros se joga o melhor do cinema actual - estou lamentavelmente sem notícias do japonês Takeshi Kitano, cujo Office Kitano se encontra, contudo, por trás dos últimos filmes deles. O resto, salvaguardados eventuais novos cinemas novos, limita-se de modo geral a alimentar a competição, a publicidade e a conversa, a manter a tradição e tentar salvar o prestígio de uma arte que já conheceu melhores dias.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Grandes actores

      Fui ver "Last Vegas - Despedida de Arromba"/"Last Vegas", de John Turtelbaub (2013), por ser uma comédia e por causa dos actores: Robert De Niro, Michael Douglas, Morgan Freeman e Kevin Kline. Não fiquei desiludido, embora considere que a grande época da screwball comedy e dos grandes actores e cineastas americanos do género (Frank Tashlin, Jerry Lewis, Blake Edwards, Peter Falk) não tem neste momento continuadores à sua altura. 
                     Last Vegas Trailer Screengrab - H 2013
     O tom ligeiro mas sentimental do filme fica-lhe bem e é bem defendido pelos actores - além dos mencionados "cabeças de cartaz", Mary Steenburgen. Amigos de infância, Paddy/De Niro, Archie/Freeman e Sam/Kline embarcam num fim de semana em Las Vegas para a despedida do único solteiro do grupo, Billy/Douglas, com o qual o primeiro está muito zangado. Metem-se pelo meio incidentes de percurso, como Diana/Steenburger, uma história passada entre Paddy e Billy revela-se em episódios antigos e recentes com consequências no presente e tudo acaba por se esclarecer, dadas as circunstâncias da melhor maneira.
      O que "Last Vegas - Despedida de Arromba" me fez lembrar foi "Maridos"/"Husbands, de John Cassavetes (1970), bem melhor do que este, mas Cassavetes impunha, como actor e sobretudo como realizador, a originalidade, a frescura e a grande qualidade em tudo o que fazia. Mesmo assim, com actores todos eles notáveis John Turtelbaub faz um bom trabalho, aproveitando-se bem do lugar que Las Vegas ocupa no imaginário americano. 
                     last-vegas.jpg
       Demasiado bem comportado apesar de tudo, este é um filme que faz lembrar outras épocas e outros filmes (Cary Grant e Katharine Hepburn nas comédias de Howard Hawks, Jack Lemmon e Shirley MacLaine nas de Billy Wilder), assumindo com brio um género hoje em dia maioritariamente entregue a patetices adolescentes. Com momentos bem achados e bem resolvidos em termos de cinema e de interpretações, incluindo o final, "Last Vegas - Despedida de Arromba" pelo menos não envergonha.
      Jogando inteligentemente com a memória e com o mito, este é um filme que, com grandes actores (sempre indispensáveis na comédia) utilizando a sua própria imagem no cinema, recupera um género contrariamente ao que se possa pensar muito difícil e com uma larga e importante tradição no cinema americano. John Turtelbaub mostra estar aqui no bom caminho.

O ardil do caçador

      O que despertou a minha atenção para "Diário Secreto de um Caçador de Vampiros"/"Abraham Lincoln: Vampire Hunter", de Timur Bekmambetov (2012), foi o aparecimento do nome de Tim Burton na produção. Uma vez o filme visto, entende-se bem que aquele, embora não seja o típico Tim Burton film, tem muitas marcas que o ligam ao seu imaginário visual.
             A ideia de agarrar no famoso Presidente americano do tempo da Guerra Civil para, a partir da sua infância, fazer dele um caçador de vampiros é original e está bem desenvolvida ao acompanhá-lo ao longo da sua vida, antes e depois de se ter tornado o 16º Presidente do seu país. A parte visual do filme está muito bem construída e desenvolvida, com vampiros bem caracterizados e a apropriada inclusão de momentos de animação sobre a história da humanidade.Abraham Lincoln: Vampire Hunter
           Recapitulando a história e a lenda até Gettysburg e à fatídica partida para o teatro naquele fim de tarde de Abril de 1865, "Diário Secreto de um Caçador de Vampiros" aguenta-se do ponto de vista histórico o suficiente para sobre ele ser construído como filme de vampiros, vampiros esses que acabam por se aliar aos confederados. Com momentos de acção (os ataques dos vampiros) e momentos dramáticos (o final, com a caminhada de comboio para a frente) muito bem resolvidos, o filme consegue ser inovador e original onde menos se esperaria.
         O Tim Burton touch, embora presente não se torna impositivo, deixando margem criativa para o realizador que a sabe aproveitar. Com actores sóbrios e seguros, nomeadamente Benjamin Walker como Abe Lincoln, Dominic Cooper como Henry Sturges (pleno de ambiguidade), Anthony Mackee como Will Johnson (o fiel amigo de infância), Mary Elizabeth Winstead como Mary Todd Lincoln, Rufus Sewell como Adam (o vampiro-chefe), Erin Wasson como Vandoma, sem ofender a história, antes respeitando-a até onde pode, este filme joga com a lenda de maneira desinibida e feliz. Como é absolutamente necessário num filme de vampiros, os vampiros estão muito bem caracterizados e interpretados.        Claro que, nas condições actuais, "Diário de um Caçador de Vampiros" joga com a "construção do inimigo", o que se compreende. Mas, típico filme de vampiros, joga também com a ambiguidade de Henry, o mentor de Abe, e com a astúcia do caçador. O final vem confirmá-lo, num jogo também ele astuto com o espectador. E o filme anterior para que este remete é "A Grande Esperança"/"Young Mr. Lincoln", de John Ford (1939).  
             A este nível, o do divertimento inteligente, o cinema americano continua a ser muito bom.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Mais 3 rostos

    José Tolentino Mendonça é um dos grandes poetas portugueses da actualidade, com vários livros publicados também em prosa. Conheço melhor a sua obra poética, que aprecio. Publicou agora "A Papoila e o Monge" (Lisboa, Assírio & Alvim, 2013), livro em que dá conta de uma extrema depuração da sua linguagem poética, reduzida à expressão do haiku.
     Esta "redução" significa, de facto, a demonstração de um pleno domínio da linguagem poética e, consequentemente, a passagem para um grau diferente de expressão poética, o que, tratando-se de alguém com muito boas provas dadas em poesia, aqui devo assinalar.    
                   
      Mas simultaneamente o seu nome surge associado ao último livro de fotografia de Duarte Belo, um dos maiores fotógrafo portugueses de exterior, de fotografia documental da actualidade. Trata-se de "Os rostos de Jesus - Uma revelação" (Lisboa, Temas & Debates/Círculo de Leitores, 2013), em que o conhecido fotógrafo se dedica a fotografar exaustivamente as figuras de Cristo abundantemente representadas em esculturas em altos de Cruzeiro ao longo de Portugal, sobretudo no Norte do país e com especial concentração no Alto Minho.
                    Il Vangelo secondo Matteo
      Não surpreende que a este projecto aparentemente insensato (107 fotografias a cores, a diferentes distâncias e com diferentes ângulos) surja associado o nome do autor de "A construção de Jesus" (Lisboa, Assírio & Alvim, 2004), que no estudo "Hipóteses para um rosto" - que replica o de Duarte Belo, "A escultura de uma fotografia", revelador de grande auto-consciência do seu trabalho e do contexto em que ele se insere -, com pertinência e argúcia trata da questão das representações de Jesus Cristo.
       Questão muito interessante também no cinema, sobretudo a partir da reflexão fundamental de André Bazin que inclui o Santo Sudário de Turim no seu fundamental "Ontologia da Imagem Fotográfica"/"Onthologie de l'image photographique" (1945) - uma abordagem a que recentemente noutra perspectiva Georges Didi-Huberman regressou mais desenvolvidamente em "La ressemblance par contact" (Paris, Les Éditions de Minut, 2008) -, a representação de Cristo apresenta um vasto historial em História da Arte, a que as fotografias deste excelente livro, o ensaio de Duarte Belo e o bem informado estudo de Tolentino Mendonça se vêm agora acrescentar.
                               
       Como esta é uma questão ainda hoje muito interessante, que me leva a chamar a atenção também para este segundo livro, permito-me, com a devida vénia, juntar aqui mais três rostos de Cristo no cinema: o de "Acto da Primavera", de Manoel de Oliveira (1963), o de "O Evangelho Segundo São Mateus"/"Il vangilo secondo Matteo", de Pier Paolo Pasolini (1964), e o de "A Última Tentação de Cristo"/"The Last Temptation of Christ", de Martin Scorsese (1988), três grandes filmes de três grandes cineastas. Há outras figurações crísticas no cinema? Evidentemente que sim, mas na sua modernidade para estas três chamo neste momento especial atenção: o popular de Oliveira, o estilizado de Pasolini, o torturado de Scorsese.             
       Por mim, olhem para onde quiserem, mas, mesmo se de passagem, não deixem de olhar também para aqui. E, uma vez que deles falo, quando puderem vejam esses filmes - e também o didáctico "Il Messia", de Roberto Rossellini (1975), hoje em dia muito difícil de encontrar - que "tateiam" mais do que um rosto na mesma perspectiva fragmentária e inominável. A questão da representação/figuração pode, apesar de tudo, surgir de modo diferente no cinema por ele, contrariamente à escultura e à fotografia, ser imagem em movimento, especialmente quando a querela iconoclastas-iconólatras, de que dão conta detalhadamente Martine Joly ("A Imagem e os Signos"/"L'image et les Signes", 2000 - edição portuguesa Edições 70, Lisboa, 2005) e Hans Belting ("A Verdadeira Imagem"/"Das echte Bild. Bildfragen", 2006 - edição portuguesa Dafne Editora, Porto, 2011), nos surge como um desatino de um tempo que hoje temos tanta dificuldade em entender como necessidade de compreender. "Vive como quem constrói uma imagem/uma imagem/que desaparece" (José Tolentino Mendonça).

Déjà-vu

    Era inevitável que Hollywood fizesse um filme sobre a caça e a morte de Osama bin Laden, o tristementre célebre líder da al-Qaeda. Os próprios acontecimentos, desde os ataques terroristas de 11 de Setembro de 2001 até esse momento de punição, funcionaram, eles próprios, como um filme, pelo que fazer o filme era trabalhar sobre um déjà-vu em termos mediáticos.
                      zero-dark-Thirty-30-entertainment-news-Jessica-Chastain-719462581   
     Assim, o filme de Kathryn Bigelow "00:30 A Hora Negra"/"Zero Dark Thirty" (2012), embora obrigatório torna-se inteiramente previsível. Filmado por uma cineasta com provas dadas, nomeadamente o galardoado "Estado de Guerra"/"The Hurt Locker" (2008), repete um percurso balizado por acontecimentos que todos conhecemos, recordando e recriando em filme episódios crus do conhecimento público que como tal interessaram e ao cinema interessa reter para a história no "filme oficial".
     A invenção deste filme reside na colocação como protagonista de uma agente dos serviços secretos americanos, Maya, interpretada por uma Jessica Chastain sempre mais do que simplesmente correcta, mas ele fica na história por ter sido um dos últimos filmes em que, já notoriamente muito gordo, participou James Gandolfini (ver "Poética dos Actores", 22 de Junho de 2013), que interpreta o Director da C.I.A. em duas breves aparições. De resto, a competência e superioridade dos S.E.A.L. é demonstrada sem qualquer sombra de dúvida num filme que preenche cabalmente as funções de propaganda que o motivaram.
                      Zero Dark Thirty 011 Zero Dark Thirty Blu Ray Review
      Agora o filme que a realidade faz continua, aí como em muitos outros campos, e estranho muito que onde ele mais incomoda na actualidade, a recessão provocada pela crise resultante do mais recente crash bolsista, ainda não tenha merecido ao cinema americano a atenção que lhe mereceram, nos anos 30 do Século XX, a Grande Depressão e o New Deal. Além disso, partilho as apreensões sobre o não encerramento da prisão de Guantanamo Bay e pelo grave prolongamento de um estado de excepção absolutamente indesejável - só quando ele acabar esta guerra poderá ser dada como ganha.
      Lamentáveis embora as circunstâncias que desde o início o motivaram, com a competência de Kathy Bigelow e de toda a equipa "00:30 A Hora Negra" cumpre com eficácia os objectivos visados. Colocam-se agora, como frequentemente acontece no cinema e o próprio cinema americano parece expressamente procurar, questões relativas à veracidade deste relato fílmico. Mas atenção aos outros pontos em que a realidade preocupantemente faz cinema, faz filme neste momento.