“Um não sei quê, que nasce não sei onde,/Vem não sei como, e dói não sei porquê.” Luís de Camões

"Na dor lida sentem bem,/Não as duas que êle teve,/Mas só a que êles não têm." Fernando Pessoa

"Lividos astros,/Soidões lacustres.../Lemes e mastros.../E os alabastros/Dos balaustres!" Camilo Pessanha

"E eu estou feliz ainda./Mas faz-se tarde/e sei que é tempo de continuar." Helder Macedo

"Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos..." Camilo Pessanha

“Vem, vagamente,/Vem, levemente,/Vem sozinha, solene, com as mãos caídas/Ao teu lado, vem” Álvaro de Campos

"Chove nela graça tanta/que dá graça à fermosura;/vai fermosa, e não segura." Luís de Camões

domingo, 5 de janeiro de 2014

Mestria ainda

    Claro que também eu estava à espera do regresso de Wong Kar-Wai à longa-metragem depois da sua incursão americana para fazer "My Blueberry Nights - O Sabor do Amor"/"My Blueberry Nights" (2007), que a meu ver nada de muito substancial adiantou ao seu grande díptico "Disponível para Amar"/"In the Mood for Love"/"Fa yeung nin wa" (2000) e "2046" (2004), em que definida e verdadeiramente confirmou o seu grande talento de cineasta. Vi agora o filme que assinala o seu regresso a Hong Kong, "O Grande Mestre"/"Yi dai zong shi" (2013), que não sendo nada de extraordinário permite ter um novo vislumbre desse talento.  
                   
    Embora conheça alguns, nunca fui adepto dos filmes de artes marciais, e a minha atenção foi despertada por estar em causa um filme sobre kung fu feito por um grande cineasta. Com o pretexto biográfico de Ip Man/Tony Leung e do seu encontro com a filha do anterior grande mestre, Gong Er/Ziyi Zhang, que acaba por conseguir vencê-lo, o filme traça um percurso do kung fu e do seu código de honra da China dos anos 30 aos anos 50, mas é a forma como está visualmente construído que encerra o seu principal motivo de interesse.
    De facto, Wong Kar-Wai tem a audácia de construir "O Grande Mestre" com base em grandes-planos, que apenas por momentos troca por planos médios ou planos americanos nas cenas de combate - o plano geral só surge muito esporadicamente. Daí resulta uma grande proximidade dos rostos dos actores, das personagens, o que cria um efeito muito curioso, de afecção, contra o mais comum nos filmes de kung fu, que é a acção. Sem se preocupar com isso, o cineasta procura recuperar no contexto do kung fu a estilização e o ritmo de montagem de "Disponível Para Amar", mas nem o assunto é o mesmo, apesar do aceno final ao melodrama, nem aquela forma de construir o filme permite o mesmo tratamento do espaço (aqui disperso por espaços diversificados), do tempo e das personagens.
                    O Grande Mestre 2 e1382273883939 37º Mostra Internacional de Cinema de São Paulo    Ciclo de Filmes Chineses
   Apesar de tudo se passar com grande domínio formal, com grande precisão que permite demonstrar a mestria no kung fu e a mestria do cineasta, a mestria de Wong Kar-Wai surge aqui numa versão atenuada e algo conformista, embora com assinatura pessoal. Misturar num mesmo filme o kung fu com a biografia, a história e o melodrama origina uma obra ambiciosa, ritmada mas mista, didáctica e no limite fastidiosa.
    Eu sei que não é fácil regressar ao passado, mas como é dito no filme é preciso saber olhar para trás para identificar o melhor de um cineasta que desde "As Tears Go By"/"Wong gok ka moon" (1988), "Days of Being Wild"/"A Fei zheng zhuan" (1990), "Chungking Express"/"Chung Hing sam lam"  e "As Cinzas do Tempo"/"Ashes of Time"/"Dung che sai duk" (1994) é reconhecido como um nome de referência do cinema chinês. Saudando o seu regresso, a esse nível, que ele culminou no mencionado díptico e aqui de maneira nenhuma atinge, o continuo a esperar.             
                   
    Mesmo assim ficamos a conhecer o homem que foi o mentor do famoso Bruce Lee, o que sempre atrairá muitos. Por sua vez, a estilização do filme e a qualidade do olhar, distante e próximo, do cineasta permitem continuar a esperar o melhor de Wong Kar-Wai.
     Mas hoje curvo-me perante um outro mestre, Eusébio da Silva Ferreira (1942-2014), futebolista excepcional a cuja memória aqui presto sentida homenagem.

Ser ou não ser pai

     O mais recente filme do japonês Hirokazu Koreeda, "Tal Pai, Tal Filho"/"Soshite chichi ni naru" (2013), fez-me lembrar Yasujiro Ozu. Irresistivelmente porque, como nos filmes do grande mestre, trata de questões familiares entre pais e filhos, passam comboios e, surpreendentemente, surge a câmara em posição baixa. Não acredito no acaso (sobre Koreeda, ver "Um desejo", 19 de Agosto de 2012).  
                      Fotogaleria do filme «Tal Pai, Tal Filho»
    Na verdade, este filme sobre recém-nascidos trocados na maternidade a partir do momento em que a troca é descoberta, contra o que seria de esperar é mais sobre os pais, em especial um dos pais, Ryota Nonomiya/Masaharu Fukuyama, com muito trabalho e uma boa posição na vida, que se questiona, do que sobre as mães, discretas e secundárias.
    Direi mesmo que ao centrar-se em Ryota e Yudai Saiki/Rirî Furankî, o outro pai, comerciante, que não quer ser enganado e pensa mesmo tirar o possível proveito da situação, "Tal Pai, Tal Filho" enfrenta a solidão masculina mesmo e em especial quando reveste a figura paterna. De facto, aquilo que esclarece, do lado do primeiro, o desencontro com o filho é sobretudo a visita ao seu próprio pai, enquanto o que sobressai do lado do segundo é a sua habilidade em ser pai para os seus filhos e o culto da sua própria mãe, já morta. 
                      Fotogaleria do filme «Tal Pai, Tal Filho»
    O filme avança gradualmente, com grande segurança e acerto, até à cena do tribunal, em que se esclarece a razão da troca - não é a felicidade mas a infelicidade que é contagiosa -, a partir da qual enfrenta de modo mais imediato a reposição da ordem natural, biológica - a partir da fotografia em que todos sorriem, como lhes é pedido. O que não se revela fácil.
    E é justamente por não procurar o lugar-comum nem a facilidade que este é mais um filme notável do seu realizador, também argumentista, que nos permite perceber melhor tudo o que de novo se passa no cinema japonês. Analisadas, escalpelizadas, as ideias de casal e de paternidade, embora não rejeitadas, levam um valente abanão contra o conformismo instalado. E a banda musical é absolutamente surpreendente. 
                                     Fotogaleria do filme «Tal Pai, Tal Filho»
    Hirokazu Koreeda enfrenta e faz-nos enfrentar com uma serenidade japonesa, com assombrosa secura e sobriedade mas também com a perfeita noção do pormenor e da subtileza, uma situação propícia à especulação sem esboçar qualquer movimento na direcção dela, já que o que lhe interessa é a situação pessoal de cada um dos intervenientes, incluindo os filhos - em especial Keita Nonomiya/Keita Ninomiya, que se apercebe das limitações do seu pai e dele se desencontra. 
    Recuperando com grande felicidade a pontuação clássica (o encadeado a negro) e recorrendo a pequenos e justos movimentos de câmara, enquanto se encaminha para uma conclusão complexa, em que o espectador tem a sua parte a desempenhar, "Tal Pai, Tal Filho" é um filme admirável.

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Os melhores do ano

    O ano do 105º aniversário de Manoel de Oliveira, assinalado em Portugal pela morte do poeta António Ramos Rosa (1924-2013), foi também negativamente marcado entre nós pelo encerramento de 5 (cinco) salas de cinema em Lisboa. 
     Os filmes estreados ficaram, em geral, aquém das expectativas, apesar de algumas surpresas e excepções, que se concentraram no final do ano. Desse modo, aqui proponho os 10 melhores filmes do ano, avisando que não vi tudo o que estreou (longe disso), até porque, para piorar a situação já de si lastimável, filmes houve que estiveram uma ou duas semanas em cartaz - outros, e dos melhores, nem sequer isso. São eles os seguintes:
1. A Propósito de Llewyn Davis/Inside Llewyn Davis, de Joel e Ethan Coen (2013);
2. Fausto/Faust, de Alexandr Sokurov (2011);
3. Like Someone in Love, de Abbas Kiarostami (2012);
4. China - Um Toque de Pecado/Tian zhu ding, de Jia Zhang-ke (2013);
5. Django Libertado/Django Unchained, de Quentin Tarantino (2012);
6. Venus de Vison/La venus à la fourrure, de Roman Polanski (2013);
7. Hannah Arendt, de Margaretta von Trotta (2012);
8. Noutro País/Da-reun na-ra-e-seo/In Another Country, de Hong Sang-soo, (2012); 
9. A Rapariga de Parte Nenhuma/La fille de nulle part, de Jean-Claude Brisseau (2012);  
10. Blue Jasmine, de Woody Allen (2013).
                    
    O ano cinematográfico acabou por ser salvo pela reposição em sala de dois filmes fundamentais do japonês Yasujiro Ozu (1903-1963), "Viagem a Tóquio"/"Tôkiô Monogatari" (1953) e "O Gosto do Saké"/"Sanma no aji" (1962), e pelo acontecimento que é o lançamento de "A História do Cinema - Uma Odisseia"/"The Story of Film - An Odissey", do crítico, historiador e realizador irlandês Mark Cousins (2011), que trabalha muito bem, para todas as audiências, cronologicamente e com as boas ligações para a história e dentro do cinema, uma área antes explorada criativamente por Jean-Luc Godard. Com omissões evidentes que o ponto de vista adoptado e a escassa duração com que lida (15 horas) explicam, este é um trabalho notável, pelo qual felicito o seu autor e que aconselho a todos.
       Tendo deixado passar os principais festivais de cinema portugueses (IndieLisboa, DocLisboa, Lisbon & Estoril Film Festival) por absoluta falta de tempo livre mesmo para eles, consegui apenas ver alguma coisa do que de mais interessante estreou e recuperar em dvd alguns filmes que não tiveram estreia comercial, o que já não foi mau. Espero que também para o cinema português o próximo ano seja melhor.
                                              Votos de Feliz Ano Novo para 2014.

A vida e a morte

     O mais recente filme de Asghar Farhadi, "O Passado"/"Le passé" (2013), rodado em França onde a sua narrativa decorre, vem confirmar plenamente as qualidades reveladas em "Uma Separação"/"Jodaeiye Nader az Simin", 2011 (ver "Uma questão familiar", 5 de Julho de 2012). De novo também autor do argumento, o cineasta volta a dar muito boa conta de si a esse nível, com uma narrativa bem construída, que é o que em primeiro lugar para este seu filme chama a atenção. 
                     
       Mais uma vez está em causa o que poderei voltar a chamar "uma questão familiar", só que desta vez tudo gira em volta de uma mulher, Marie Brisson/Bérénice Bejo, que se quer divorciar do anterior marido, Ahmad/Ali Mosaffa, para poder dispor de si - eventualmente casar com o seu namorado actual, o pai do filho que ela traz consigo, Samir/Tahar Rahim. Cada um deles tem filhos de anteriores casamentos, mas Samir tem ainda viva a anterior mulher, Céline/Aleksandra Klebanska, que devido a uma tentativa de suicídio se encontra nos hospital, ligada à vida por máquinas.
       Vai ser a personagem de Ahmad que, chegando para o divórcio, nos vai conduzir ao interior da teia de relações estabelecida, ele que é alheio ao que no presente decorre já que nem sequer um filho de Marie tem, vendo-se obrigado a lidar com as filhas do primeiro casamento dela e com o filho de Samir. Não vou contar a história, apenas acrescento que se Ahmad é, naquelas circunstâncias, o revelador, de Céline vai ser exigida no final a contraprova: do que se passou, se sobreviver, do que se virá a passar em qualquer caso.  
                      le-passe_Lucie
            A construção do mistério do filme, com os seus diferentes segredos, é muto bem feita em termos fílmicos e muito bem defendida pelos actores. Há sobretudo uma sequência, a que começa com o ponto de vista se Samir enquanto muda uma lâmpada, que, filmada em continuidade, lança os segredos manifestos e ocultos da narrativa em termos cinematograficamente perfeitos. Essa sequência, que implica a mudança do ponto de vista do filme de Ahmad para Samir, segue-se à revelação por Lucie/Pauline Burlet, a filha mais velha de Marie, a Ahmad do papel que anteriormente teve no desenrolar dos acontecimentos, e decorre na noite em que ela não regressa a casa e é desesperadamente procurada.
       Fosse outro o meio e aquelas questões provavelmente não se colocariam da mesma maneira, mas em "O Passado" estão em causa, para além da origem de cada personagem, um homem que regressa para se divorciar e entende em cada mulher a mesma mulher e um outro homem que não sabe decidir-se entre duas mulheres, tanto mais quanto outras interferem no seu juízo. Os pequenos passos com que o filme avança vão precisamente no sentido de que ali, entre masculino e feminino alguma coisa de mais profundo se joga entre a verdade e a mentira à volta de uma mancha numa peça de roupa. 
                       Le passe - Asghar Farhadi
       Desse ponto de vista o filme de Asghar Farhadi torna-se mesmo transparente, com o envolvimento de uma outra mulher, Naïma/Sabrina Ouazani, e o estabelecimento da dúvida no espírito de Samir, uma dúvida que só Céline poderá esclarecer se... Jogando muito bem com o lugar-comum e com a personagem de Ahmad como intermediário, o cineasta faz descascar cada camada de verdade para chegar a uma dúvida, não a uma conclusão, que deixa em suspenso, dependente da reacção ao sensível: o perfume.
         Não é por acaso que, logo desde a chegada de Ahmad um vidro impede-o de comunicar com Marie, não obstante o que eles se entendem, e é a este nível de subtileza cinematográfica, entre o visível e o sensível, em que a transparência, aparentemente espessa e opaca, não se torna obstáculo, que este filme muito dialogado, que se joga no final entre a vida e a morte, deve ser entendido. Não há aqui mistérios inexplicáveis. O que é preciso é perceber a que nível, para além ou aquém das palavras, aquela teia de relações se processa e define.

domingo, 29 de dezembro de 2013

Alguns livros e o mais

    Durante o ano que agora finda foram dados à estampa alguns livros sobre cinema em português, alguns deles de autores portugueses ou sobre autores portugueses ou sobre cinema português.
       Ainda com data de 2012, a Imprensa Nacional - Casa da Moeda e a Sociedade Portuguesa de Autores editaram "Fernando Lopes - Um Rapaz de Lisboa" de Jorge Leitão Ramos, que cumpre com brio e eficácia o projecto biográfico, que se impunha, de um nome fundamental do cinema português. Sempre em cima da sua vida e da sua obra, que acompanha detidamente, incluindo muitas declarações do cineasta e uma filmografia muito completa, é um livro de referência.
                            
       No prosseguimento de um projecto editorial muito importante, a Orfeu Negro editou com a Midas Filmes "Um Melro Dourado, Um Ramo de Flores, Uma Colher de Prata - No Quarto da Vanda - Conversa com Pedro Costa", do próprio cineasta, Cyril Neyrat e Andy Rector, livro muito importante de conversa, imagens e textos acompanhado pela edição dvd desse mesmo filme. Além disso, de Pedro Costa foi ainda apresentado o livro "Casa de Lava - Caderno" (Pierre von Kleist editions, 2013), diário do cineasta durante a rodagem desse filme, acompanhado por um caderno com nova entrevista a Nuno Crespo e um ensaio de Philippe Azoury. Para estes dois livros chamei aqui a atenção em devido tempo (ver "Uma excelente notícia", 31 de Janeiro de 2013, e "A criação no cinema", 21 de Setembro de 2013).     
       Ainda a Orfeu Negro publicou "Béla Tarr - O Tempo do Depois", de Jacques Rancière, obra importante de um filósofo francês de referência, que a mesma editora tem publicado em português, sobre um cineasta húngaro muito destacado que diz ter-se retirado da prática do cinema para se dedicar o seu ensino.
        Já quase no fecho do ano, com Coordenação de Luis Urbano saiu "Revoluções - Arquitectura e Cinema nos Anos 60/70" que reúne um conjunto de reflexões produzidas no Curso promovido no âmbito do Projecto de Investigação Ruptura Silenciosa, da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, coordenado por Alexandre Alves Costa e Luis Urbano (edição AMDJAC, Porto, 2013). Ocupando-se de uma área sensível, muito importante e pouco explorada entre nós, a das intersecções entre a arquitectura e o cinema, este livro inclui ensaios valiosos e tem o mérito especial de privilegiar o cinema português. No âmbito do mesmo projecto saiu também o nº 1 da revista "JACK - Journal on Architecture and Cinema".
                                    
        A propósito deste livro importante e oportuno quero chamar a atenção para o mais recente documentário de João Mário Grilo, "A Vossa Casa" (2012), sobre o arquitecto Raul Lino (1879-1974). Homenageando o conhecido e influente arquitecto português, o realizador assume nesse filme o risco de tentar filmar as suas obras arquitectónicas de forma nova, no que esboça um passo importante no esclarecimento das relações entre as duas artes. Esse é, por isso, um filme que, acompanhado pelos comentários do próprio cineasta, merece maior divulgação (sobre o documentário anterior de João Mário Grilo, "O Tapete Voador", 2008, ver "Voar sem asas", 18 de Janeiro de 2012).
       O cineasta Edgar Pêra publicou "Hollywood - Estórias de glamour e miséria no império do cinema", que recolhe curiosidades e segredos sobre nomes famosos do cinema, um livro que saiu em A Esfera dos Livros. Pedro Mexia publicou uma recolha de textos sobre cinema, "Cinemateca", que saiu na Tinta da China, em que transparece uma cinefilia apaixonada e muito pessoal. Destaco e aconselho ambos pelas diferentes perspectivas que sobre o cinema proporcionam.       
     Na área da fotografia, é muito bom o livro "Os rostos de Jesus - Uma revelação", com fotografias de Duarte Belo e ensaios de José Tolentino Mendonça e seu (Temas e Debates/Círculo de Leitores, Lisboa, 2013), para que aqui já chamei a atenção (ver "Mais 3 rostos", 29 de Novembro de 2013).
                              
        Também com o ano a acabar, saiu "Ensaios Sobre Fotografia - de Niépce a Krauss", uma antologia de textos fundamentais com Introdução, Selecção e Organização de Alan Trachtenberg e Notas de Amy Meyers, cuja edição original americana data de 1980 e que só agora tem edição portuguesa, mas com actualizações sugeridas pela editora portuguesa (mais uma vez a Orfeu Negro), que se concretizam na inclusão de novos textos e na actualização das Notas. Pelo seu mérito, que se relaciona com a qualidade dos ensaios incluídos, a diversidade de autores e épocas abrangidos, este é para mim o livro mais importante de 2013 na área do cinema e da fotografia.    
       Pelo seu grande e feliz recurso à imagem, termino com uma chamada de atenção para o último livro de Gonçalo M. Tavares, "Atlas do Corpo e da Imaginação - Teoria, Fragmentos e Imagens" (Caminho, Lisboa, 2013), um livro cujas imagens são de "Os Espacialistas", colectivo de artistas plásticos, mas que merece especial atenção pela articulação do discurso visual, paralelo e por vezes comentado, com o discurso escrito de uma forma original, nova e muito interessante - as fotografias são todas a preto e branco.

Uma lista antiga

     Recolho de um ficheiro antigo uma lista de preferências relativa a 2008 que, tendo-me sido pedida, não foi então divulgada e aqui não divulguei ainda. Chamei-lhe quando a elaborei "Filmes memoráveis de 2008" e é a seguinte:
1. O segredo de um cuscuz/La graine et le mulet, de Abdellatif Kechiche (2007);
2. Este País Não É Para Velhos/No Contry for Old Men, de Joel e Ethan Coen (2007);
3. Haverá Sangue/There Will Be Blood, de Paul Thomas Anderson (2007);
4. A Fronteira do Amanhecer/La frontière de l'aube, de Philippe Garrel (2008);
5. Nós Controlamos a Noite/We Own the Night, de James Gray (2007);
6. Quatro Noites com Anna/Cztery noce z Anna, de Jerzy Skolimowski (2008);
7. Gomorra, de Matteo Garrone (2008);
8. A Turma/Entre les murs, de Laurent Cantet (2008);
9. Os Amores de Astrea e Celadon/Les amours d'Astrée et de Céladon, de Eric Rohmer (2007);
10. Alexandra/Aleksandra, de Alexandr Sokurov (2007).  
                     
         Encontrei-a sem comentários, que agora também não faço.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Uma boa surpresa

      Foi preciso esperar pelo final do ano para aparecerem os melhores filmes. É especialmente o caso do último de Joel e Ethan Coen, "A Propósito de Llewyn Davis"/"Inside Llewyn Davis" (2013), um filme surpreendente em que os dois irmãos regressam ao seu melhor.
     Digo surpreendente porque, a meu ver, nada a não ser o tom faria prever este filme na obra deles, assinalada por filmes notáveis que vão contra uma corrente de geral conformismo prevalecente no cinema americano. Mais uma vez o caso ficcional deles apresenta-se neste filme com um loser, Llewyn Davis/Oscar Isaac, que no início dos anos 60, entre New York e Chicago, tenta impor a sua música folk a solo em Greenwich Village. 
                     irmãos coen inside llewyn davis
         Funcionando no seu tom depressivo como um anúncio da chegada da geração Bob Dylan, este último filme dos Coen tem ironia, elegância, desencanto na abordagem da sua personagem, tornada um épico melancólico e sombrio do quotidiano cinza-negro num filme que se desenvolve em perda e se resolve contra sentimentos exaltantes. Nada mais real do que a vida real quando abordada como um sonho, um  pesadelo, filmada de perto e de longe de modo a dar a proximidade, o quadro e a distância justa.
       Equacionadas as coisas nestes termos, "A Propósito de Llewyn Davis" surpreende pela perfeição formal com que aborda uma personagem secundária, aparentementemente sem futuro, construindo-se sobre ela e a partir dela como um tipo de musical que raramente aparece no cinema americano: o que está dissociado da Broadway. De peripécias da sua vida privada, com surpresas, em actuações espontâneas, geralmente rejeitadas, com uma atribulada viagem de automóvel pelo caminho, Llewyn é uma imagem terrena e humana de um mundo em mudança que, com critérios do passado, escolhe aqueles que vai acolher e lançar.   
                    
       Partindo da vida, das músicas e canções de Dave Van Ronk (1936-2002), que publicou um album intitulado "Inside Dave Van Ronk", e servindo-se de novas composições de T-Bone Burnett (que já trabalhara com eles em "Irmão, Onde Estás?"/"Oh Brother, Where Art Thou?", 2000) e Marcus Mumford, os Coen coreografam a época e o meio, centrado em Greenwich Village, como se fosse um verdadeiro musical, imprimindo ao filme uma dinâmica repetitiva e circular (de percurso, de personagens, de situações) em que para o protagonista, como num sonho, não há saídas e o aparente despertar se dá mesmo, em repetição, num beco: sovado e sem saída. Com fotografia assombrosa de Bruno Delbonnel, que anteriormente trabalhou com Alexander Sokurov ("Fausto/"Faust", 2011) e Tim Burton ("Sombras da Escuridão"/"Dark Shadows", 2012), e montagem dos próprios cineastas, este é um dos melhores filmes dos Coen, sem qualquer concessão ao gosto fácil ou ao espectáculo: o espectáculo é o próprio filme.
     Irrepreensível como filme de época, "A Propósito de Llewyn Davis" tem actores justos e precisos em papéis todos eles secundários, pois o próprio filme é sobre gente secundária num meio secundário, então em transformação. Sem precisarem de outras referências que a própria América, especialmente as referências musicais e mesmo cinematográficas, sem contemporizar os irmãos Coen continuam a olhar para ela impiedosamente mas com a compreensão e o imenso carinho que os americanos lhe dedicam.  
                     Inside Llewyn Davis
         Construindo o seu fascínio sobre o seu mistério baseado em vidas comuns, banais, este é um filme mais que perfeito, feito para nos surpreender com boas razões e que por elas nos fascina e prende. E Oscar Isaac é uma bela surpresa, ele também, como actor e como cantor.

        Chamem-lhe "revivalismo" ou o que quiserem, mas pelos filmes de Joel e Ethan Coen, cuja obra é um notável work in progress, por vezes cruel e corrosivo, nos últimos 30 anos, passa uma parte muito importante do melhor do cinema actual, pelo que o Grande Prémio do Festival de Cannes deste ano sabe a pouco (sobre os Coen ver "Encontro fatal", 20 de Janeiro de 2012, e "À maneira antiga", 4 de Março de 2012).