“Um não sei quê, que nasce não sei onde,/Vem não sei como, e dói não sei porquê.” Luís de Camões

"Na dor lida sentem bem,/Não as duas que êle teve,/Mas só a que êles não têm." Fernando Pessoa

"Lividos astros,/Soidões lacustres.../Lemes e mastros.../E os alabastros/Dos balaustres!" Camilo Pessanha

"E eu estou feliz ainda./Mas faz-se tarde/e sei que é tempo de continuar." Helder Macedo

"Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos..." Camilo Pessanha

“Vem, vagamente,/Vem, levemente,/Vem sozinha, solene, com as mãos caídas/Ao teu lado, vem” Álvaro de Campos

"Chove nela graça tanta/que dá graça à fermosura;/vai fermosa, e não segura." Luís de Camões

domingo, 19 de outubro de 2014

Agora completo

   Composto de quatro curtas-metragens de 25 minutos cada uma, o filme "Quatro", de João Botelho (2014), apresenta uma outra ambição que a de cada uma delas isoladamente (ver "Elogio do sensível", de 30 de Maio de 2013). Pensado em função de pares de irmãos artistas, João e Jorge Queiroz, Pedro e Francisco Tropa, que se contam entre os mais importantes artistas contemporâneos portugueses, o filme completo, que passou fora de competição no Doclisboa 2014, dedica um trabalho fílmico próprio e diferente a cada um deles.
    O segmento 1, dedicado a João Queiroz, surge na montagem final mais compacto e apurado, evidenciando a presença elementar sobretudo da Terra - e é excelente o plano sequência muito longo que acompanha o artista a caminhar pela serra, como são muito bons os seus textos ditos por dois actores. O segmento 2, dedicado a Jorge Queiroz, é mais centrado no espaço expositivo, por isso mais de interior, mas não se dispensa de fazer ouvir o som da Água, que se vira no anterior, agora a pretexto da sua exposição "Debaixo das pedras da calçada, a praia!" (2012/2013), que deu origem ao livro com o mesmo título (Fundação Carmona e Costa/Documenta, 2012) de que são lidos por uma presença feminina excertos do texto de João Miguel Fernandes Jorge. No primeiro a música, no segundo uma cantora que se vê e é pretexto para um contracampo muito saboroso com o artista.17182263_yg6zA.jpeg
    Se em todo o filme João Botelho interroga e mostra a criação artística, é no segmento 3, sobre Pedro Tropa, pintor e fotógrafo, em que com a subida à montanha e o vento o elemento central é o Ar, que ao deter-se na revelação da fotografia seguida da passagem para uma pintura ele mais interroga o seu próprio meio, a sua própria arte: o cinema. E aqui ouvem-se várias vozes a cantar. Mas talvez que o segmento 4, dedicado a Francisco Tropa, escultor, em que o elemento central é o Fogo e na música surgem sonoridades diversificadas, da percussão a sons mais estridentes, seja o mais difícil. Com a passagem por Veneza e a composição da escultura de ossos no final, é toda a memória do cinema neo-realista italiano que é convocada, de Roberto Rossellini a Luchino Visconti.
  "Quatro" de João Botelho é, assim, um filme conseguido e muito bom sobre algo muito importante e mal conhecido na arte: a criação. Muito bem o cineasta não se põe a dissertar sobre a arte e a criação artística, antes mostra o acto de criação a acontecer, comentado por textos e música, e no final de cada segmento algumas das obras de cada um dos quatro artistas, com o que presta uma excelente homenagem aos artistas mostrados e à arte em si mesma, incluindo a arte do cinema (sobre João Botelho ver também  "Grande fôlego", de 19 de Setembro de 2014).

Tudo tem o seu tempo

    Depois de uma trilogia sob a forma de mini-séries para televisão, aliás muito boas, o alemão Edgar Reitz, um dos nomes mais destacados do cinema novo alemão dos anos 60, regressa ao tema e ao título num filme de longa-metragem muito longo, dividido em duas partes na sua exibição comercial, que como filme autónomo coroa o projecto de forma superior: "Heimat - Crónica de Uma Nostalgia"/"Die andere Heimat - Chronik einer Sehnsucht" (2013).
    Situado no século XIX, entre 1842 e 1844, numa aldeia da Renânia Palatinato, Schabbach de seu nome imaginário, o filme constrói-se a partir do diário escrito por Jakob Simon/Jan Dieter Schneider sobre os seus sonhos de um novo mundo nas Américas, proveniente das suas leituras, em contraste com a realidade em que vive: vida difícil, privações, fome, morte. Com dois irmãos, Gustav Simon/Maximilian Scheidt e Lena Zeitz/Mélanie Fouché, casada e com uma filha, o nosso sonhador vê-se apanhado na trama da realidade, que o faz trabalhar como ferreiro com o pai. 
                     Die andere Heimat - Chronik einer Sehnsucht
     Para fazer frente aos dois irmãos, o mais velho, Gustav, muito desembaraçado, o mais novo, Jakob, pouco habilidoso mas capaz de corrigir as invenções do outro, surgem duas amigas: Jettchen Niem/Antonia Bill e Florinchen/Philine Lembeck. Com grande atenção aos detalhes sociológicos e antropológicos de época, o cineasta estabelece todas as diferenças e proximidades sociais, sexuais e etárias, com plena individualização de cada personagem, de forma que este novo "Heimat", cronologicamente o primeiro, surge com grande vivacidade e pleno de contrastes no seu preto e branco que poucas imagens a cores, a maior parte delas localizadas, vêm pontuar.
    A intensidade dramática cresce na segunda parte, com o encontro de Simon com Franz Olm/Christoph Luser, que leva o primeiro a abrir-se mais para o mundo exterior. Começam então a desenhar-se planos para emigrarem para o Novo Mundo, simultaneamente com periódicas doenças da mãe dos três irmãos, Margarethe Simon/Marita Breuer, que durante as suas "ausências" tem sonhos de passado (os filhos mortos) e de futuro.
                                                  
    Edgar Reitz recupera aqui o melhor do cinema alemão num filme ambicioso, que demorou vários anos de filmagens e implicou a reconstrução inteira de uma aldeia, sobre uma época crucial da Alemanha do século XIX. Sem assomos de super-produção histórica, sempre rente às personagens e ao meio, com uma mise en scéne de grande precisão e de enorme beleza o cineasta constrói o passado próximo da Alemanha do Século XX, a que dedicara as anteriores mini-séries televisivas.
     Quase a finalizar o filme, a assombrosa sequência da partida de Gustav e Jettchen na carroça conduzida por Jakob, que não vai partir com eles, com o travelling para trás tirado da traseira sobre aqueles que ficam. Depois, enquanto esperam notícias dos emigrantes, a visita a Simon do senhor Alexander von Humboldt/Werner Herzog vem ligar tudo, todos os tempos, cada um no seu: o passado e o presente.
                             Die Andere Heimat Home From Home Still - H 2013
      É para que se façam também filmes como este que o cinema existe. Entre as histórias individuais dadas a partir do exterior e a saga de uma época, talvez aqui, nos rostos, nas situações, no quotidiano de uma aldeia imaginária, elucidativos também sobre a interioridade de cada uma das personagens, Edgar Reitz tenha ido mais longe do que alguma vez antes fora na tentativa de compreender e explicar a história do seu pais.

domingo, 12 de outubro de 2014

Um regresso desejado

   Iniciou-se na passada sexta-feira a continuação do ciclo "Harvard na Gulbenkian - diálogos sobre o cinema português e o cinema do mundo" que, com curadoria de Haden Guest e Joaquim Sapinho, teve a sua primeira série, dividida em seis capítulos, entre Novembro de 2013 e Março deste ano (ver "Cinema capital", de 24 de Novembro de 2013).  
    Neste seus novos seis capítulos, até Janeiro de 2015 esta importante inciativa propõe filmes de Joaquim Pinto e Nuno Leonel, Agnès Varda, Matthew Porterfield, Catherine Breillat, Bruce LaBruce, Joaquim Sapinho, João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata, Tsai Ming-Liang, Claire Denis, Vítor Gonçalves, José Luis Guerín, Manoel de Oliveira e Aki Kaurismäki, mas também de João César Monteiro, Robert Bresson, António Reis e Margarida Cordeiro, entre outros.                       
                   
    Numa ideia de programação e debate muito importante, os filmes e os cineastas seleccionados são a garantia de que esta é uma iniciativa que merece prosseguir, de que é sem dúvida muito recomendável e, por isso, a seguir atentamente.
  Apenas pude ver um filme, "Putty Hill", de Matthew Porterfield (2010), um novo cineasta independente de Baltimore que aí apresenta uma boa ideia, a da morte de alguém novo, Cory, para o funeral do qual convergem família e amigos, que são ouvidos sobre a sua memória do falecido, uma ideia muito bem explorada em termos visuais e sonoros (o fora de campo, a música), com os depoimentos provocados por um entrevistador invisível e a exploração de espaços comuns (muito boa a festa de despedida) e de espaços pessoais (muito bom o final).
                   
  Matthew Porterfield é, pois, mais um nome a juntar ao novíssimo cinema independente americano, com um outro filme anterior a este, "Hamilton" (2006), e um outro posterior ,"I Used to Be Darker" (2013), que sempre com o realizador como argumentista ou co-argumentista (na autoria da história com Jordan Mintzer em "Putty Hill") significam o início de uma obra que vale a pena  acompanhar e só graças a esta iniciativa pudemos começar a conhecer.
    Daqui saúdo Haden Guest e Joaquim Sapinho por esta nova série de "Harvard na Gulbenkian", a segunda de um ciclo de programação que vem demonstrar que o que há a fazer em Portugal sobre o cinema e fora do país sobre o cinema português está a ser feito e muito bem feito (ver também "Como artista", de 9 de Março de 2014).

domingo, 5 de outubro de 2014

A vida moderna

    Cada vez mais um produto da cultura de massas e cada vez menos uma arte, o cinema reserva-nos ainda algumas surpresas que as reúnem, cultura de massas e arte. É o caso do novo filme do americano David Fincher, "Em Parte Incerta"/"Gone Girl" (2014), que procede a uma escalpelização da América actual semelhante à de David Lynch em "Twin Peaks", há mais de 20 anos.                     
                     Best: Rosamund Pike has arrived
    Este é um filme superior porque reúne em si o olhar desapiedado sobre a actualidade e uma narrativa com ecos da narrativa do cinema clássico americano, sem as cedências de género mas com o acréscimo de lucidês sobre a sociedade actual. Poderia passar por um woman's film mas excede-o, poderia passar por um filme policial mas contorna-o para se decidir por mais um filme pessoal que sai do receituário comum de Hollywood para se situar ao nível do grande cinema.
    Nick/Ben Affleck e Amy Dunne/Rosamund Pike são um casal comum, moderno dos nossos dias, que vai de New York para o Missouri onde ela subitamente desaparece, deixando que a suspeita sobre a responsabilidade do que lhe aconteceu recaia sobre o marido. A arte de David Fincher está em agarrar numa narrativa aparentemente banal pelo melhor lado, o da sua construção segundo dois pontos de vista diacrónicos, o de Nick e o do diário de Amy, passando inteiramente o odioso da situação para ele a partir do final da primeira hora.
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     O esclarecimento surge no final, deixando, porém, intacta a crítica do meio e dos media numa sociedade liberal em que tudo, até o impensável, é possível, sem para isso anular a individualidade de cada personagem. Baseado no romance de Gillian Flynn (edição portuguesa Bertrand, 2013), também autor do argumento, "Em Parte Incerta" define-se com a indefinição das personagens: Nick, comprometido com uma outra ligação, em permanente jogo com a imagem que dele a televisão dá; Amy voltada sobre si própria, o seu passado, em que esteve presente um seu antigo apaixonado, e o seu problemático futuro.
     Se a questão do cineasta continua a ser o tempo (ver "É o tempo, estúpido!", de 29 de Janeiro de 2012, e "O tempo outra vez", de 22 de Abril de 2012) é-o agora triplamente: porque o tempo é o presente, porque a montagem é em geral curta (como é habitual nos filmes de Fincher) e por isso abrevia, e porque a construção temporal do filme duplica as mesmas datas contadas do desaparecimento de Amy de perspectivas diferentes, como em "A Rede Social"/"The Social Network" (2010) já acontecia. Mas a perspectiva de David Fincher é a de que a vida é assim, a sociedade é assim, e, embora mantendo um olhar aceradamente crítico, de que é preciso conhecê-la nos seus próprios mecanismos sociais e aprender a lidar com eles.
                   
      "Em Parte Incerta" é um filme notável e terrível a que há que estar atento, muito bem construído mas sem que a sua construção faça esquecer as personagens e a narrativa que a justificam. E com ele, depois dos dois primeiros episódios de "House of Cards" (2013) o cineasta refirme-se como um dos nomes mais importantes do actual cinema americano.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

O sonho completo

      Desde cedo no cinema (os anos 10 e 20) o produtor adquiriu má reputação por, nos Estados Unidos, se opôr ao realizador, o criador do filme. Desde os anos 60 que tal foi desmentido em vários pontos do mundo, nomeadamente em Portugal graças a um grande produtor: António da Cunha Telles.
     Homem de invulgar cultura cinematográfica e sensibilidade para o cinema, o que o levou a fundar as Produções Cunha Telles que estiveram na origem da primeira fase da recuperação da dignidade do cinema português num momento decisivo para o país, ele foi, de facto, a eminência parda do Novo Cinema Português dos anos 60, que tornou possível.
                   
   Além de produtor também realizador, Cunha Telles foi a personalidade indispensável para que Paulo Rocha, Fernando Lopes e António de Macedo, mas também Faria de Almeida e Manuel Guimarães, dessem um moderno decisivo passo em frente no cinema portugês, num movimento em que os seus próprios filmes, "O Cerco" (1970) e "Meus Amigos" (1973), vieram mais tarde a ocupar lugar central. Mas desde cedo ele dedicou-se também à co-produção internacional (em filmes de Pierre Kast e François Truffaut, nomeadamente), conferindo uma outra dimensão à sua actividade.
    Ele continuou a ser uma personalidade muito importante como distribuidor com a Animatógrafo, que fez chegar a Portugal Sergei Eisenstein, Jean Vigo, Jean Renoir, Roberto Rossellini, Robert Bresson, André Malraux entre muitos outros. Depois do 25 de Abril um homem do cinema raro e muito influente, quer como produtor, co-produtor e produtor executivo, quer como realizador ("As Armas e o Povo", 1975, "Continuar a Viver ou Os Índios da Meia-Praia", 1976), quer como distribuidor. Mas foi ainda responsável do Instituto Português de Cinema (IPC) e da Tobis portuguesa. Já nos anos 90, enquanto continuava a trabalhar em pleno, mesmo como realizador (depois de "Vidas", 1984, "Pandora", 1993), produziu uma notável série de tele-filmes para um canal privado de televisão
                   
    Um bom filme não pode existir sem um produtor inteligente como António da Cunha Telles contra todas as adversidades foi e continua a ser, pelo que se existe uma poética da produção (e existe) ela passa por permitir fazer o que vale a pena ser feito por quem é capaz de o fazer no momento próprio, mesmo se misturada com a ingenuidade proveniente do entusiasmo pelo cinema e sobretudo quando associada ao propósito de fazer chegar os filmes aos espectadores, o que é o sonho completo do filme. Foi por isso inteiramente justificada a retrospectiva que, misturadas todas as funções, lhe dedicou este ano a Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema.
     Quem quiser estudar seriamente o cinema português e o cinema em Portugal nos últimos 50 anos tem de, forçosamente, passar pelo nome dele. Homem inteligente, culto e afável, que nunca pactuou com a mediocridade e com o seu exemplo criou escola, o António foi e continua a ser o grande senhor do cinema português, que daqui saúdo cordialmente, a quem agradeço o muito que todos, em gerações sucessivas, lhe devemos e a quem desejo mais filmes seus depois de "Kiss Me" (2004).

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Domínio absoluto

    Três anos depois de "J. Edgar" (ver "Controverso", de 17 de Março de 2013) Clint Eastwood apresenta agora "Jersey Boys" (2014), aparentemente um filme insignificante sobre um grupo de músicos dos anos 50, baseado num musical da Broadway. E digo insignificante porque, comparado com os seus outros filmes, esta espécie de musical serôdio parece carecer de dimensão. Mas digo aparentemente porque com um cineasta da dimensão dele deve estar-se precavido contra aparentes facilidades. 
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       A maneira como vejo este "Jersey Boys" é como uma homenagem do cineasta ao cinema americano dos anos 50, quer pelo seu tema, quer pela sua forma, quer pelas citações cinematográficas e televisivas que envolve (há dois planos na escadaria do barco que citam expressamente Douglas Sirk), o que faz com que seja tudo menos um filme inocente. Trabalhando sobre argumento de Marshall Brickman e Rick Elice, Clint Eastwood não se dispensa de apresentar uma história americana exemplar, com cada um dos membros dos "The Four Seasons" inteiramente tipificados e com um meio circundante, musical e extra-musical, ele também típico e de época.
      Com muitas "piscadelas de olho" para o interior do cinema americano, nomeadamente as suscitadas pela presença de Christopher Walken no elenco, este é um filme que se impõe, e impõe o seu realizador, pelo domínio total de todos os seus mecanismos, formais e narrativos. É, além disso, um filme que usa muito bem a fotografia insaturada (de Tom Stern) e a música omnipresente, terminando com um número musical dançado sobre o genérico de fim - um filme que na sua ingenuidade faz sentido na obra do cineasta. Mas tem de se reconhecer que ele aqui joga sem risco, como que para definir de forma mais clara o seu lugar na história do cinema, usando para o efeito alguma auto-complacência que se compreende.
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    Não me dispensarei, contudo, de dizer que em "Jersey Boys" Clint Eastwood pretende apresentar de si próprio uma imagem política e cinematograficamente correcta, o que, pese embora toda a admiração que o filme provoca, não deve impedir de identificar uma imagem conservadora da América, que o próprio filme suscita pela época em que decorre, longe de todas as suas polémicas passadas e presentes e até dos filmes anteriores do cineasta, o que resulta de, sendo um filme de época, como musical se pretender situar fora do tempo.
    Mesmo assim, para cobrir todo o espectro dos géneros o cineasta fez o musical que formalmente faltava na sua carreira (onde contudo havia já "A Última Canção"/"Honkytonk Man", 1982, "Bird - Fim do Sonho"/"Bird", 1988, e o episódio "Piano Blues" para a série televisiva "The Blues", 2003, que revelavam o seu amor pela música) e dá uma lição de serenidade e de domínio formal e narrativo. Com votos de que arrisque mais, como fez em "A Troca"/"Changeling", um outro filme de época, e "Gran Torino" (2008), por exemplo, continuo evidentemente à espera do seu filme seguinte (sobre Clint Eastwood, ver também "Sabedoria", de 11 de Fevereiro de 2012).

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Faz sentido

    Tendo-se estreado promissoramente no cinema com "O Último Combate"/"Le dernier combat" (1983) e "Subterrâneo"/"Subway" (1985), o francês Luc Besson tem prosseguido desde os anos 90 uma carreira internacional em que o seu melhor filme é "O Quinto Elemento"/"The Fifth Element" (1997), um filme de ficção científica, género pelo qual tem manifestado preferência.
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     Não surpreende, pois, que o seu mais recente filme, "Lucy" (2014), seja mais um filme de ficção científica, em que ele cruza o género com a personagem solitária que vem dos seus filmes iniciais, nomeadamente "Nikita - Dura de Matar"/"Nikita" (1990) e "Léon, o Profissional"Léon" (1994). Para mais, este é um filme que encara audaciosamente a ficção científica (o grau de exploração da capacidade cerebral humana), não mostrando medo do conhecimento.
      Com a protagonista, interpretada por Scarlett Johansson, perseguida por um gang taiwanês e disposta a experimentar em si própria possibilidades desconhecidas do cérebro humano, "Lucy" faz uma viagem arrojada pela história da humanidade e pelo seu futuro com recurso a efeitos especiais justificados e bem utilizados, procurando uma caução científica na figura do Professor Norman/Morgam Freeman. 
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    A partir de argumento seu, o cineasta mostra-se inteiramente consistente com a sua obra anterior, perante a qual "Lucy" faz sentido. A intromissão de sequências de humor, em Paris (a perseguição automóvel, o hospital), justifica-se, e o filme mantém até ao fim o mistério que contrói, sem preocupações de verosimilhança mas chamando a atenção para questões pertinentes: a investigação científica, o tráfico de drogas.
    Não sou um admirador incondicional de Luc Besson mas reconheço a sua marca pessoal neste seu novo filme, uma marca pessoal que existe e é de saudar. E juntar Scarlett Johansson e Morgan Freeman é uma boa ideia, que se mostra inteirmente justificada.