“Um não sei quê, que nasce não sei onde,/Vem não sei como, e dói não sei porquê.” Luís de Camões

"Na dor lida sentem bem,/Não as duas que êle teve,/Mas só a que êles não têm." Fernando Pessoa

"Lividos astros,/Soidões lacustres.../Lemes e mastros.../E os alabastros/Dos balaustres!" Camilo Pessanha

"E eu estou feliz ainda./Mas faz-se tarde/e sei que é tempo de continuar." Helder Macedo

"Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos..." Camilo Pessanha

“Vem, vagamente,/Vem, levemente,/Vem sozinha, solene, com as mãos caídas/Ao teu lado, vem” Álvaro de Campos

"Chove nela graça tanta/que dá graça à fermosura;/vai fermosa, e não segura." Luís de Camões

sábado, 20 de dezembro de 2014

Uma outra dimensão

     "Duran Duran - Unstaged" (2011) é a primeira loga-metragem de David Lynch depois de "Inland Empire" (2006) que conheço e é um filme extraordinário, feito a partir da transmissão em directo para a internet de um espectáculo musical. 
                      Gerard Way, Simon Le Bon
     Havia o filme de Jean-Luc Godard "Simpathy for the Devil" (1968) e o filme de Martin Scorsese "Shine a Light" (2008), ambos com os Rolling Stones, mas nenhum deles se compara com esta extraordinária experiência em que o experimental se alia ao abstracto numa fantástica montagem audiovisual, que se entende todo o sentido que faz na obra do cineasta.
    Aqui Lynch is on fire, sem as entrevistas habituais neste tipo de documentário e com uma prodigiosa montagem de números completos durante um espectáculo no Mayan Theater, em downtown LA, em 2011, com recurso a sobreimpressões diversas, de formas geométricas e objectos vários (de um helicóptero a pequenos bonecos), e uma diversidade de outras formas e meios. A partir de um preto e branco de base o cineasta constrói o seu documentário com colorizações parciais que o enriquecem e tornam mais apelativo e misterioso.
                      Duran Duran: Unstaged
     Numa outra dimensão para que, como de costume, nos arrasta, David Lynch surpeende de novo e volta a fascinar sem o recurso ao cinema narrativo, das peripécias. Sempre a abrir ao ritmo da música, com grande imaginação ele coordena imagens acrescentadas com esta, de forma a tornar o documentário "Duran Duran - Unstaged" uma experiência sensorial extraordinária.
   Não sei quem como ele... É difícil descrever o que se sente durante este filme, um extraordinário documentário musical que marca uma época e como inventiva visual faz lembrar os surrealistas (sobre David Lynch ver "Tudo é ilusão", de 27 de Fevereiro de 2012).

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Eu hei-de amar uma pedra

    Apresentado com outras três curtas-metragens de Manoel de Oliveira, "O Velho do Restelo" (2014) passa melhor como reflexão sobre a história. Fundamentalmente uma colagem de textos, de filmes e de composições musicais, o último filme em data do centenário cineasta português surge como um novo culminar de uma obra muito rica e diversificada, e por isso penso que devia ser o último a ser apresentado nesta sessão. Porque explica os outros, grandes filmes aí exibidos: "Douro, Faina Fluvial", na versão de 1994 com a montagem de 1999, "O Pintor e a Cidade" (1956), fabuloso documentário em cores exuberantes, e "Painéis de São Vicente de Fora - Visão Poética" (2010).
                     O Velho do Restelo : Foto     
   Conto-me entre aqueles que acreditam que o génio não tem idade e por isso não tenho objecções nem condições a colocar a "O Velho do Restelo", que vale pelo seu discurso próprio, construído pelo cineasta sobre o de quatro grandes escritores - Luís de Camões/Luís Miguel Cintra com "Os Lusíadas", Miguel de Cervantes com o seu D. Quixote/Ricardo Trêpa, Camilo Castelo Branco/Mário Barroso e Teixeira de Pascoaes/Diogo Dória -, e sobre quatro dos seus filmes - "Amor de Perdição" (1978),  "Non ou A Vã Glória de Mandar" (1990), "O Dia do Desespero" (1992) e "O Quinto Império - Ontem como Hoje" (2004) - mais o "Dom Quixote" de Grigori Kozintsev (1957), e vale pela sua lição de montagem. 
                     O Pintor e a Cidade
    Pensar nunca fez mal ao cinema e Manoel de Oliveira continua a pensar admiravelmente em cinema, com grande lucidês, desassombro e brio. Juntar a este os outros três grandes filmes de curta-metragem foi uma boa ideia, pois aí ele pensa também em cinema num formato que sempre dominou na perfeição - "Douro Faina Fluvial" a preto e branco e em terceira versão, "O Pintor e a Cidade" o filme decisivo sobre a criação pictórica no espaço e no tempo em que acontece, com o pintor António Cruz (1907-1983), "Painéis de São Vicente de Fora - Visão Poética" uma grande reflexão sobre um quadro histórico e enigmático (sobre o cineasta, ver "Sob o mesmo signo", de 12 de Fevereiro de 2012, "Regresso às origens", de 27 de Fevereiro de 2012, "A morte do fotógrafo", de 14 de Abril de 2012, "Oliveira filosófico", de 28 de Outubro de 2012, e "Um filme histórico", de 15 de Março de 2014).
     Aproveito para deixar aqui uma palavra de muito apreço pelo livro de Júlia Buisel "Antes Que Me Esqueça" (Il Sorpasso/Guimarães 2012 - Capital Europeia da Cultura), um depoimento fundamental e muito esclarecedor, que faz todo o sentido da parte fiel colaboradora de Oliveira, testemunha privilegiada dos últimos 50 anos do cinema português.

domingo, 14 de dezembro de 2014

O fogo e a água

      O mais recente filme de David Cronenberg, "Mapas Para as Estrelas"/"Maps to the Stars" (2014), com argumento de Bruce Wagner, é um filme magnífico sobre Hollywood e o cinema, ao nível do que anterioremnte fizeram, depois de Billy Wilder ("O Crepúsculo dos Deuses"/"Sunset Boulevard", 1950), Robert Altman ("O Jogador"/"The Player", 1992) e David Lynch ("Mulholland Drive", 2001).
                    An unexpected link: Dr. Stafford Weiss (John Cusack) is a psychologist to the stars, with one of his main clients being fading Hollywood actress Havana Segrand (Julianne Moore)
     Sem nostalgia nem fantasmas do passado, o grande cineasta canadiano enfrenta os tabus por trás do sistema que falam dele e por ele, com o incesto como ponto de partida e de chegada, para nos dar um retrato impiedoso da "fábrica dos sonhos" à altura do que ela merece para ser compreendida. Das "crianças prodígio" às grandes estrelas em segunda geração nada é poupado, e o que é mais curioso é que o ponto de partida para os irmãos Benjie/Evan Bird e Agatha Weiss/Mia Wasikowska é um poema outrora célebre do francês Paul Éluard sobre a liberdade e o seu nome.
     Compreendo a prudência da profissão cinematográfica, dos festivais internacionais de cinema à crítica mais abalizada, perante tal objecto estranho proveniente de um cineasta que tinha já dado largas ao seu espírito crítico em "Cosmopolis" (ver «"Cosmopolis" e o céu de perugia», de 10 de Junho de 2012). E aqui de novo ele não poupa em glamour e atractivos sexuais para, no percurso e na chegada, deixar expresso na narrativa fílmica um pensamento crítico original sobre o cinema e aqueles que em Hollywood o fazem.
                    
       Tudo humano, demasiado humano entre Havana Segrand/Julianne Moore e a mãe, que ela quer representar num filme, entre ela e a filha, cuja memória a não abandona. Tudo humano, demasiado humano, entre Benjie e Agatha e os seus pais, Stafford/John Cusack e Christina Weiss/Olivia Williams, entre Agatha e o irmão, entre ela e Havana, entre ela e o motorista Jerome Fontana/Robert Pattinson. Mas o humano extravasa do comum até o ponto de fuga não poder, entre pais e filhos como entre irmãos, deixar de ser a morte.
       Sem constrangimentos de qualquer espécie, jogando com os lugares-comuns do cinema e do mundo do espectáculo mesmo na cumplicidade rival que os une, David Cronenberg não poupa nem o sistema nem as suas diversas peças. E o libelo é implacável, para quem o quiser ver descomprometidamente. Haverá quem pense em exagero, em má-vontade, mas não se pode ignorar o escalpelizar detido da sociedade do espectáculo em que a própria América se transformou. 
                     Actor Robert Pattinson locks lips with Mia Wasikowska as they film a scene for their new film 'Maps to the Stars' in an abandoned lot on August 21, 2013 in Los Angeles, California. Between takes, director David Cronenberg spoke to the pair about the scene.
      Sem ignorar os outros, em especial os mais novos, manifesto especial apreço por Julianne Moore e John Cusack, dois grandes actores em entrega completa a papéis ingratos de que dão conta com grande desembaraço e enorme talento. De resto é a equipa do costume, com Peter Suschitzky na direcção da fotografia, Howard Shore na música discreta, Ronald Sanders na montagem e a fiel Denise Cronenberg no guarda-roupa.
      Este é sem dúvida um dos melhores filmes do ano e o resto é conversa fiada. O fogo e a água. Sobretudo depois da sua fase de cinema fantástico, David Cronenberg é um dos maiores cineastas contemporâneos. E aqui nem a "atracção do abismo", com a psicanálise à mistura, vos vale (sobre o cineasta ver também "Uma tragédia clássica", de 28 de Janeiro de 2012, e "Os sótãos da memória", de 4 de Março de 2012).  

Idosa e despachada

      "La douce empoisonneuse" é um filme baseado no romance homónimo do finlandês Arto Paasilinna feito para a televisão pelo francês Bernard Stora (2014). Para além de uma boa adaptação, o filme distingue-se por uma realização sóbria mas muito expressiva e por interpretações muito boas, com destaque para Line Renaud como Clémence.
     Acossada pelo seu sobrinho Charlie/Nicolas Lumbreras e os seus amigos, depois de experimentar nos pombos a velha senhora vai-os eliminando um a um sem deixar traços, enquanto toma conhecimento da verdadeira origem desse estranho sobrinho.             
                      
      Aparentemente despretensioso, este é um filme que, em tom de comédia negra, dá conta de si de forma desenvolta e justa, jogando com a elipse de forma eloquente e deixando uma imagem no limite do burlesco dos seus jovens meliantes, impotentes perante a malícia de Clémence.
     Sem que quase se dê por isso, fazem-se hoje em dia filmes para televisão que não ficam a dever nada ao cinema, o que tem mesmo precedentes de vulto como Alfred Hitchcock e Claude Chabrol, que teriam adorado este filme. E para ver isto não há como o Arte, actualmente melhor do que nunca, com corcertos live on-line e tudo.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Duplicações

     "Saint Laurent" de Bertrand Bonello (2014) é um filme que me interessa por causa do seu tema, o famoso costureiro Yves Sain Laurent (1936-2008), e por causa do seu realizador, em cuja obra surge como perfeitamente consistente com o anterior "Apollonide - Memórias de um Bordel"/"Apollonide" (ver "As cativas", de 23 de Julho de 2012).
                    
      De facto, no seu novo filme, dividido claramente em duas partes, antes e depois de 1974, o cineasta começa por regressar a um cinema do corpo, sem a concentração espacial do filme anterior mas com características suficientes que permitem a sua identificação. Claro que aqui está em causa primacialmente a vida, privada e pública, do próprio Yves Saint Laurent/Gaspard Ulliel, que sofre um incremento com a chegada de Jacques de Bascher/Louis Garrel, mas todo o filme se dedica à criação de alta-costura e, portanto, também a outros corpos.
      Sem justificação aparente, as cenas de discussão sobre as linhas de modelos e a empresa vêm recordar o lugar que Saint Laurent ocupou no sistema económico, enquanto a recapitulação ano a ano entre 1967 e 1974 permite um resumo de época que nem sequer é difícil de fazer, incluindo as referências artísticas pessoais do protagonista, de Piet Mondrian a Andy Warhol passando por Marcel Proust.
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     Nessa primeira parte o jogo com os espelhos, sempre justificado e bem resolvido, implica a duplicação e o narcisismo de uma personagem bem defendida em termos históricos e de interpretação. A segunda parte do filme, depois de 1974, é mais forçada, embora ela também bem resolvida pela intromissão de um Yves envelhecido/Helmut Berger, em 1989 presa dos seus fantasmas e que, numa outra duplicação, desdobrando-se no tempo comenta o seu próprio passado e a sua carreira.
     A cena da segunda parte em que duas modelos comentam Saint Laurent, fora de campo, durante uma sessão de fotografia em exteriores sintetiza de forma feliz uma reflexão sobre o corpo e o modo de o entender, mostrando mesmo na reciprocidade do olhar que o filme é sobretudo sobre o olhar. Com grande aprumo e acerto, em "Saint Laurent" Bertrand Bonello, de novo responsável pelo argumento, desta feita com Thomas Bidegain, volta a dar muito boa conta de si e do seu trabalho, com inventiva cinematográfica e narrativa, mostrando que é um dos nomes com quem se deve contar no actual cinema francês.               
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      Movendo-se neste filme num terreno mais reconhecido, ele consegue não só não estragar o seu tema como fazer uma obra limpa e atraente, sem cedências e com boas soluções visuais, narrativas e também musicais. E está lá tudo o que interessa, do olhar sobre os corpos das mulheres e dos homens ao olhar delas e deles sobre os corpos uns dos outros - e aqui o que mais interessa é o olhar do próprio Saint Laurent visto pelo olhar, cúmplice mas irreverente e cáustico, e por isso justo, do cineasta, que não se coíbe de jogar com a lenda e os seus escândalos nem de mostrar os bastidores da moda, bem como modelos e manequins sempre que justificado, sobretudo no final.
       Com bem vistas referências cinéfilas a preto e branco, "Saint Laurent" destaca-se ainda pela presença de Léa Seydoux como Loulou de la Falaise, Valeria Bruni Tedeschi como Mme Duzer e especialmente Dominique Sanda como Lucienne Saint Laurent.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Assombradas, as sombras

    Assombrado no tempo é como Ventura nos aparece em "Cavalo Dinheiro", o mais recente filme de Pedro Costa (2014). Conhecido de filmes anteriores, ele encontra a sua origem remota em Leão/Isaach De Bankolé de "Casa de Lava" (1994), o filme que, ainda antes da "trilogia das Fontainhas", levou pela primeira vez o cineasta ao contacto com os cabo-verdeanos. Agora doente dos nervos, Ventura encontra-se hospitalizado, e é pela sua identificação perante o médico, logo a seguir às fotografias de Jacob Riis (1849-1914) que estabelecem a linha de rumo (ou o fio de prumo) para o que se vai seguir, que o filme se inicia.
   É mesmo neste filme que, depois das curtas-metragens "The Rabbit Hunters" e "Tarrafal" (2007), se percebe melhor a sempre falada influência de Jacques Tourneur nos filmes do cineasta, pois é um assombrado, espectral Ventura que recorda o seu passado e faz Vitalina recordar o dela. Ele é mesmo uma personagem tíípica dos filmes de Pedro Costa, alguém que vive à margem, esquecido pela liberdade e pela democracia, presa da sua miséria e do seu abandono, entregue às suas memórias que por vezes o levam a situar-se em 1974-75.
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    A escolha de personagens fora dos circuitos habituais no cinema e na televisão permite ao cineasta mais uma vez deambular com elas e a partir delas, desta feita não apenas pelos espaços físicos presentes mas também pelos espaços mentais - e é justamente isso que faz com que "Cavalo Dinheiro" seja o filme de Pedro Costa que mais directamente mostra a influência de António Reis.                 
    Os diálogos, nomeadamente com Vitalina, tornam-se monólogos cofessionais que algumas obsessões atravessam - ela lê os documentos que contam a história da sua vida e os percursos de Ventura desdobram-se por espaços labirínticos em que ele emerge do escuro, das sombras, para uma luz que o assombra mais. Tudo se esclarece melhor com a canção que fala de "contratado", "explorado", "enganado", e então é todo o percurso dele, deles que se ilumina.
                    
     Com um estilo pouco atraente no imediato, pois não trabalha uma beleza luminosa, directa, este é um filme de sombras - de sombras que emergem do negro - que a iluminação precisa entre-mostra na sua angustiada caminhada pelo vazio do presente e do passado. Até ao momento em que, no elevador do hospital, Ventura se desdobra num diálogo imaginário com um soldado do 25 de Abril, em que as promessas do passado se confrontam com as realidades do presente até ao paradoxo temporal - um excerto desta sequência integrara já "Sweet Exorcism", o segmento de Pedro Costa para o filme "Centro Histórico" (2012) - ver "Um filme histórico", de 15 de Março de 2014.              
     O que torna este "Cavalo Dinheiro" um filme muito importante é o facto de o realizador se manter apegado a personagens marginais enquanto estas percorrem os espaços em que explicam terem sido abandonadas (impressionante a conversa de Ventura a um telefone abandonado num espaço há muito desactivado) ou quando elas se entregam ao sonho, ao devaneio da memória imprecisa mas sempre justa na sua própria imprecisão. E ao falarem um com o outro, ela com memória de um Joaquim, ele alimentando ainda a esperança de uma Zulmira, a partir de um espeço-tempo imaginário Vitalina e Ventura estão a falar connosco e estão a falar também de nós - mesmo quando convocam a memória da violência e do abandono.
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    Enquanto estão fora do tempo, perdidas no tempo e no que dele recordam, as personagens deste filme vivem também assombradas por alguma coisa que, não mostrada, as excede e delas faz seus títeres, como que espectrais - a doença de Ventura, que lhe faz tremerem as mãos e vacilar a cabeça, o abandono de todos. Como zombies, todos cumprem um destino que não escolheram em obediência a forças estranhas que os escolheram a eles. E é no excesso de abandono, de solidão, de exasperada impotência que as personagens deste filme, estáticas, se movem e nos comovem com a força, o poder do seu ser-sombras - as cicatrizes na cabeça de Ventura e as suas mil mortes.            
     No final, depois de ter dado a sopa a um companheiro de infortúnio a quem diz "ter tido alta", Ventura sai para a noite enquanto o médico, enquadrado de cima, da porta do hospital o vê afastar-se. Como numa atitude de esperança, mas também numa promessa de espera no caso de regresso.     
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   Com uma excelente composição visual em termos espaciais, temporais e de contraste luz/sombras, como é costume nos filmes de Pedro Costa, convocando constantemente um fora de campo que, como espectadores, nos envolve, "Cavalo Dinheiro" integra alguns ruídos cavos e sobretudo a música, actual e clássica (no final), que interrompe os silêncios, os comenta e esclarece. 
    Como Ventura, Vitalina e os outros, estamos todos tão sós. O que nos distingue deles é alimentarmo-nos de satisfações ligeiras e efémeras, ilusões que eles não têm. (Compreensível embora, a comparação com o João de Deus de João César Monteiro, adiantada por Vasco Câmara no Ípsilon do Público da passada sexta-feira, surge-me como apressada e insuficiente, mesmo redutora, pois Ventura transporta consigo outras forças, outro passado, e sem transfiguração é movido pelo que o excede.) E, já agora, não tomemos este filme admirável como mero "divertimento" que ele, na sua exigente proposta artística, não é nem quer ser (sobre Pedro Costa ver "Da vida dos espectros", de 12 de Fevereiro de 2012, e "Um filme histórico", de 15 de Março de 2014).   

domingo, 30 de novembro de 2014

Crescer

   O mais recente filme do americano Richard Linklater, "Boyhood: Momentos de Uma Vida"/"Boyhood" (2014), é um filme surpreendente pois acompanha o crescimento de uma criança, Mason/Ellar Coltrane, desde a escola primária até à sua entrada na Universidade em tempo real, isto é, filmando sempre com os mesmos actores à medida que o tempo vai passando por eles e eles vão passando pelo tempo.
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     Esta questão da passagem do tempo e pelo tempo torna indissociáveis personagens e actores, tanto os mais novos - além de Mason a sua irmã Samantha/Lorelei Linklater e os respectivos amigos - como os mais velhos - a mãe/Patricia Arquette e o pai/Ethan Hawk entre outros da sua idade ou mais velhos do que eles -, já que o filme foi rodado à medida que o tempo corria, desde os 5 aos 18 anos de Mason.
     Esse simples facto impõe em "Boyhood: Momentos de Uma Vida" um lado de verdade documental, sem o recurso de envelhecer as personagens graças a actores mais velhos, como costuma acontecer no cinema. Trabalhando em tempo real ao longo do tempo de acordo com argumento da sua autoria, Richard Linklater consegue tirar o melhor partido do seu ponto de partida narrativa, pois acompanhar o crescimento de uma criança é uma experiência fascinante (especialmente se nos lembrarmos de quem nos viu crescer), que ele sabe captar e transmitir da melhor maneira, deixando o crescimento de uns e o envelhecimento de outros falarem por si próprios a linguagem do seu corpo, do seu tempo e lugar.
                    
      Sem constrangimentos formais, o cineasta leva aqui a bom termo um projecto que já animara em filmes anteriores (ver "A viagem no tempo", de 19 de Junho de 2013) de forma original e muito feliz. Tornado quase um filme de família, "Boyhood: Momentos de Uma Vida" percorre o contexto social e político da América durante o tempo em que decorre, e o retrato que traça da geração mais nova acompanha o que faz das gerações anteriores.
      Esta é uma excelente ideia excelentemente concretizada e desenvolvida com recurso a todos os elementos físicos e imaginários envolvidos, sem perder tempo e sem deixar nada ao acaso - os sucessivos casamentos da mãe e do pai em paralelo com as consecutivas experiências de Mason, que o pai desajeitadamente tenta orientar, a experiência escolar de uns e a experiência social de todos -, com a inclusão muito pertinente alguns dos temas maiores, mais importantes e significativos, da sociedade e da vivência americana: a família, a escola, a política, a guerra, a religião, a imigração, o convívio, o divertimento comum, a cultura pop & rock.
                     Meet the cast: Dad (Ethan Hawke),  Mason (Ellar Coltrane), Mom (Patricia Arquette), Grandma (Libby Villari), and Samantha (Lorelei Linklater).
    A música e as referências musicais são muito boas e justas, por forma a explicitar um contexto que não é apenas social mas também cultural, e torna-se um verdadeiro prazer ver o tempo passar por todos e em todos, individualmente e relacionalmente, deixar as suas marcas. Porque não é preciso apanhar o momento perfeito mas deixá-lo apanhar-nos enquanto é tempo, este é sem dúvida um dos melhores filmes este ano estreados em Portugal.
      Sem chamar especialmente a atenção sobre si, pelas melhores razões Richard Linklater, que é texano de nascimento e por isso filma admiravelmente o Texas, é hoje em dia um dos melhores cineastas americanos em actividade que, com a cumplicidade de todos os actores envolvidos, em "Boyhood: Momentos de Uma Vida" vai mais longe em termos de cinema, e de grande cinema, do que a televisão costuma ir termos de séries televisivas.