“Um não sei quê, que nasce não sei onde,/Vem não sei como, e dói não sei porquê.” Luís de Camões

"Na dor lida sentem bem,/Não as duas que êle teve,/Mas só a que êles não têm." Fernando Pessoa

"Lividos astros,/Soidões lacustres.../Lemes e mastros.../E os alabastros/Dos balaustres!" Camilo Pessanha

"E eu estou feliz ainda./Mas faz-se tarde/e sei que é tempo de continuar." Helder Macedo

"Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos..." Camilo Pessanha

“Vem, vagamente,/Vem, levemente,/Vem sozinha, solene, com as mãos caídas/Ao teu lado, vem” Álvaro de Campos

"Chove nela graça tanta/que dá graça à fermosura;/vai fermosa, e não segura." Luís de Camões

domingo, 24 de maio de 2015

Toda uma vida

   O documetário de Manuel Mozos "João Bénard da Costa - Outros amarão as Coisas que eu amei" (2014) é um filme muito bom e importante em que, com apoio nos textos do João lidos pelo seu filho João Pedro, toda a vida dele é recordada.
    O João Bénard foi uma das grandes singularidades do primeiro século do cinema em Portugal e era importante que a sua memória fosse preservada e transmitida pelo cinema. A sua actividade de grande programador e grande crítico, a esse título grande autor e grande escritor, marcou mais do que uma geração, e urgia que pudesse ser recordada de forma fiel e sistemática pelo próprio cinema.
                    
   Ora Mozos não é um cineasta qualquer nem um documentarista acidental, tem muito boas provas dadas de persistência e amor ao cinema, o que a investigação investida neste filme e a forma como ele é construído confirma de forma exuberante. De facto, pelas imagens e palavras do próprio João Bénard da Costa é toda uma vida  apaixonada e todo um pensamento apaixonante que não se ficaram pelo cinema que nos são restituídos, com o comentário do belíssimo poema da Sophia dito pela Ana Maria.
    É urgente conhecer os escritos do João, que estão a ser sistemática embora parcialmente publicados postumamente, para bem compreender o cinema, de que ele foi um estudioso excepcional que este filme nos devolve íntegro e inteiro com imagens históricas e belas imagens, sobretudo da Arrábida e de Veneza, com a fotografia a cumprir a sua função de memória pessoal e os excertos dos filmes mais amados a entrarem no lugar certo, no momento certo.
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     Para quem, como eu, pensa que o documentário é mais impessoal do que a ficção no cinema, com a presença do próprio realizador no filme inculcando inteligentemente a ideia de diálogo "João Bénard da Costa - Outros amarão as Coisas que eu amei" de Manuel Mozos é o maior desmentido, da parte de quem conhece muito bem aquilo de que fala e ama o meio que utiliza (sobre João Bénard da Costa ver "Mestres de pensar", de 7 de Março de 2013; sobre Manuel Mozos ver "Tempo português", de 12 de Abril de 2015).
     É preciso continuar a amar o cinema e a poesia, porque a vida continua sempre. E o amor, a bondade e a beleza também.

domingo, 17 de maio de 2015

No fim o início

   O filme inédito póstumo de Paulo Rocha, "Se Eu Fosse Ladrão... Roubava" (2011), é o extraordinário testamento de um dos maiores cineastas portugueses de sempre.

                    Se Eu Fosse Ladrão, Roubava (2011) de Paulo Rocha
Aí ele reconstitui, com argumento e diálogos de Regina Guimarães, a vida de seu pai, Vitalino jovem a partir da morte dele (Chandra Malatitch e Luís Miguel Cintra), com um muito oportuno e justificado recurso a excertos de filmes seus, o que, embora ele já não tenha podido completar pessoalmente o filme, transforma este numa leitura final que o próprio Paulo Rocha propõe da sua obra.
    O mergulho no tempo assim proporcionado, com colagens fabulosas da Isabel Ruth de "Os Verdes Anos" (1963), a de "O Rio do Ouro" (1998) e a de agora, torna este um filme vertiginoso sobre o tempo e o cinema, sobre o tempo no cinema de Paulo Rocha, o tempo para os seus actores e espectadores. O diálogo castigado de Regina Guimarães, já sua cúmplice desde o filme de 1998, acrescenta um tom memorialista de época que enriquece "Se Eu Fosse Ladrão... Roubava" do lado de um verismo popular vagabundo, entre o rural e o urbano.
                   Foto 1
    Revermos os excertos escolhidos pelo cineasta de "Os Verdes Anos", "Pousada das Chagas" (1972), das duas Ilhas, a dos Amores e a de Morais (1982, 1984), de "Máscara de Aço contra Abismo Azul" (1989), "O Rio do Ouro", "A Raiz do Coração" (2000), constitui uma metaleitura com todas as ligações por ele propostas, de que destaco o recorrente "Leva-me daqui!", que rima bem com a personagem do jovem Vitalino, e a ligação de Isabel Ruth na actualidade com os bailes, o de "Os Verdes Anos" e o de "O Rio do Ouro", este com a canção que dá o título ao filme.
    Enriquecido também, e sobretudo, pelo momento em que Paulo Rocha se dirige ao espectador, "Se Eu Fosse Ladrão... Roubava" estabelece mesmo as ligações oportunas e pertinentes entre a vida do Vitalino passado e personagens e cenas-chave da obra de Paulo Rocha, que vista por ele e por ele comentada pode ser vista a uma outra luz: a da sua memória do passado familiar anterior ao seu próprio nascimento, muito bem documentada em fotografias de época.
                    pr dirigindo marcia breia
      Bem visto, este é um filme paralelo no seu propósito, embora não idêntico no seu resultado, a "Visita ou Memórias e Confissões" (1982), o filme de Manoel de Oliveira para ser mostrado apenas depois da sua morte. Em qualquer caso eloquente e esclarecedor, o que juntamente com a sua beleza visual, que alterna, mesmo na reconstituição, o preto e branco e a cor, constitui o seu mérito maior, na afirmação de uma pureza pessoal que Oliveira ali também para si reivindicava.
       A operação Paulo Rocha agora em curso (e já não era sem tempo), juntando o início e o final da sua obra, está apenas no princípio daquilo que lhe é devido: a sua obra toda disponibilizada em sala e em dvd. Às distribuídoras e editoras cabe cumprirem a sua obrigação (sobre o cineasta ver "Sob o mesmo signo", de 12 de Fevereiro de 2012, e "Dois cineastas maiores", de 31 de Dezembro de 2012).

sábado, 9 de maio de 2015

O ritmo de tudo

    "Éden"/"Eden" (2014), a quarta longa-metragem e o mais recente filme de Mia Hansen-Love, este ano homenageada no Indie Lisboa, é uma obra muito apreciável por, ao revisitar a geração francesa dos anos 90 e acompanhá-la durante 21 anos, conseguir captar de modo muito feliz a sua vitalidade e o seu entusiasmo, deixando-nos assim um retrato em movimento dela. Sem moralismo ou falsos pudores.
                    Eden, Mia Hansen-Løve
     Ocupando-se mais de DJs do que de músicos, o filme de Mia Hansen-Love trata em todo o caso de música e estilos musicais e consegue a façanha notável de criar um ritmo musical próprio, que é forte e envolvente sem minimizar as suas personagens, antes acompanhando-as na sua actividade e nos seus dramas comezinhos mas importantes do quotidiano, próprios da idade e da época. Compreensivo e empático embora, o olhar da cineasta sobre as suas personagens é também crítico.
     O maior limite de "Éden" é o de não afirmar uma diferença geracional própria além da que decorre dos factos da vida e dos ambientes, do ritmo musical e vital. Fora disso, esta juventude aqui mostrada é igual a qualquer outra em qualquer outro tempo e lugar. Mas o ritmo do filme, que lhe advém da música e da montagem, justifica plenamente a sua conclusão.
                     Eden
     Obtida a colaboração de grandes nomes da música contemporânea em pequenos apontamentos, a cineasta consegue, entre Paris e New York, onde decorre um segmento importante do filme, dar mais uma prova muito positiva do seu grande e original talento. E da falta de carisma dos actores retira o carisma do filme. 
       Com argumento co-escrito com o seu irmão Sven, "Éden" é um filme sobre o ritmo, da música, da vida e do filme, sobre o tempo que passa a correr e já passou, deixando como marca as suas sugestões próprias (sobre Mia Hansen-Love ver "Amanhã à mesma hora", de 29 de Agosto de 2013).    

quarta-feira, 6 de maio de 2015

A flor da magnólia

     Entra-se por um longo travelling para a frente em "Visita ou Memórias e Confissões" de Manoel de Oliveira (1982), o filme que ele rodou em 1981 e destinou a ser mostrado só após a sua morte, o que agora sucedeu. Visita à casa no Porto em que ele com a família habitou durante 40 anos até ter tido que a vender, entrado o portão, e sem corte, chega-se a uma magnólia e as vozes (Diogo Dória e Teresa Madruga) dizendo um belíssimo texto escrito por Agustina Bessa-Luís começam a tomar corpo no filme.
    Apresentada a casa em momentos de cinema que se contam entre o melhor que o cineasta fez, Manoel de Oliveira filma-se a si próprio falando para a câmara depois de surpreendido a escrever à máquina. Entre regressos recorrentes das duas vozes ele fala de si e dos seus, do seu trabalho, dos seus projectos. E há então algo de comovente em vê-lo e ouvi-lo falar de si, das suas memórias e confissões pessoais, sobre um dispositivo em que as fotografias antigas a preto e branco são visivelmente projectadas por ele contra a câmara num excelente exercício cinematográfico de quadro dentro do quadro. 
                    
     Mas há também a outra casa, a de sua mulher, Maria Isabel, no Douro, onde também viveu e trabalhou e que também visitamos, com a referência ao local em que trabalhava e a personalidades internacionais do cinema que aí o visitaram, assim como há a passagem pelas prisões do fascismo deste homem de cinema, reconstituída de forma muito feliz com a cumplicidade do escritor Urbano Tavares Rodrigues (1923-2013), seu companheiro de infortúnio nesses dias - são planos secos e rápidos, como num curto filme de reconstituição dentro do documentário.
      O filme inédito de Manoel de Oliveira feito para os que lhe sobrevivessem, para a posteridade, é uma obra absolutamente fascinante e superior, feita para o cinema sobre uma vida dedicada ao cinema. A entrada é assombrosa, as vozes que pairam cativantes, as palavras dele claras e precisas, sinceras e inéditas elas também, a presença e a palavra de Maria Isabel indispensável, a referência à sua amizade com Paulo Rocha imprescindível, as imagens a preto e branco que incluem fotografias e filmes um grande achado muito bem explorado. E Beethoven fica ali muito bem.
     Eu que nunca tinha querido ver "Visita ou Memórias e Confissões" vi-o agora e fiquei encantado, pois além de ser uma ideia original é um excelente filme que nos devolve vivo o imenso cineasta que ele foi, acrescentando-lhe surpreendentemente, de modo definido e definitivo, a obra (sobre o cineasta ver "Por Manoel de Oliveira", de 15 de Março de 2015, e "Poética de Manoel de Oliveira", de 5 de Abril de 2015).

domingo, 3 de maio de 2015

O tesouro da alvorada

   Passou no 12º Indie Lisboa o último filme de Eugène Green, "La Sapienza" (2014), um filme em que ele recupera em Itália do seu infeliz filme português, "A Religiosa Portuguesa"/"La Religieuse portuguaise" (2009), em que, forçando tudo, tentava enfrentar, num tom essencialmente turístico, o mito sebástico. Embora se compreendesse a intenção, o resultado era muito mau.
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   Ocupando-se agora da arquitectura do barroco italiano, Eugène Green consegue não desmerecer dos seus primeiros filmes, bastante bons, baseados no plano fixo frontal : "Toutes les nuits" (2001), "Le monde vivant" (2003), "Le pont des Arts" (2004). Com uma narrativa minimal mas decente - um arquitecto, Alexandre/Fabrizio Rongione, e a mulher, Aliénor/Christelle Prot, são um casal em crise que decide uma viagem a Itália onde conhece dois irmãos, Goffredo/Ludovico Succio e Lavinia/Arianna Nastro, esta sofrendo de um mal estranho -, "La Sapienza" desenrola o seu projecto com a filmagem de obras de referência da arquitectura barroca italiana, entre Borromini e Bernini, sem se afastar da sua proposta estética.
     Pode-se considerar irritante a insistência do cineasta não só no plano fixo frontal mas também na geometria dos planos e nos diálogos solenes, que parecem querer preencher algum vazio existencial. Pesem embora as ingenuidades em que voluntariamente cai, movendo-se na fronteira entre o excesso e o ridículo "La Spienza" consegue firmar-se na margem estreita que os separa para se impor como obra invulgar, exigente e conseguida, onde o seu filme anterior claudicava.
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     Com momentos de grande beleza visual, o filme consegue envolver-nos no seu dispositivo e no seu ritmo quase encantatório, deixando-nos entregues a uma experiência nos limites da beleza e da história, com a inversão de papéis entre mestre e discípulo em viagem - durante a qual visitam a famosa igreja romana que dá o título ao filme - enquanto Aliénor fica a fazer companhia a Lavinia que recupera, e, interpretada pelo próprio cineasta, a referência à antiquíssima cultura dos caldeus a chamar a atenção para a actualidade e a caducidade de tudo. Os actores são bressonianamente impassíveis mas os seus corpos e rostos falam, enquanto a câmara, sem evitar os planos mais aproximados, estabelece uma distância deles sempre justamente regulada. Eugène Green sai, assim, com "La Sapienza" do limbo em que a sua experiência portuguesa o tinha mergulhado para esta sua "viagem a Itália".
    Claudio Monteverdi é muito bem utilizado num ambiente que ressuma barroco por todos os póros. Um filme que ingenuamente acaba bem, o que é sempre uma variante bem-vinda em tempos confusos e pessimistas.

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Fala baixo

    "Phoenix", a última longa-metragem de Christian Petzold (2014), é mais um filme extraordinário daquele que é um dos melhores cineastas alemães e europeus da actualidade, de novo com Nina Hoss, provavelmente a melhor actriz europeia de hoje.
    Com argumento da sua autoria e de Harun Farocki (1944-2014), baseado em "Le Retour des cendres" de Hubert Monteilhet, o filme desenrola-se de forma enigmática até sabermos por Lene Winter/Nina Kuzendorf que Esther, cujo rosto destruído teve que ser reconstruído, é de facto Nelly Lenz/Nina Hoss, no desconhecimento deste levada pelo seu ex-marido, Johannes/Ronald Zehrfeld, a fazer-se passar por quem efectivamente é, depois do final da II Guerra Mundial e da passagem dela por um campo de concentração nazi.
                     Phoenix Ronald Zehrfeld Nina Hoss
      Um novo longo percurso em comum é descrito pelo par, na ignorância dele de que Esther é de facto Nelly (repito), no intuito da parte dele, que a terá denunciado aos nazis, de se apoderar da herança a que ela teria direito.
      Tudo de uma grande clareza mas também de uma grande subtileza, pois o ponto de vista que nos é dado seguir é, desde o início, o de Esther/Lenny, o que permite acompanhar as oscilações dela naquele renovado e hesitante convívio, com a confidente Lene, personagem instrumental plenamente justificada, até certo momento. Até à assombrosa cena final em que ela canta "Speak Low", no final sem acompanhamento de Johannes ao piano, em que Nina Hoss culmina uma interpretação notável.
                      Still shot from "Phoenix"
      Existe em "Phoenix" a ideia de uma encenação e de um encenador, Johannes evidentemente, que volta a funcionar em pleno, superlativamente na obra de Christian Petzold (ver "O encenador", de 21 de Setembro de 2012, e "A fuga", de 7 de Fevereiro de 2013). Só que, desta vez de forma clara o encenador é ele próprio vítima da encenação daquela que quis encenar, que no plano final muito apropriadamente desaparece pela janela no desfocado da imagem. Para ela viver três vezes.
     Perfeito em termos cinematográficos, este é um filme com o mérito especial de evocar a II Guerra Mundial e o pós-guerra, questão que ainda hoje, já depois da reunificação do seu país, assombra (e ainda bem) os alemães. Com música muito evocativa.

O relógio roubado

    "Pela Rainha"/"Queen and Country" (2014) joga na obra de John Boorman com "Esperança e Glória"/"Hope and Glory" (1987), passado durante a II Guerra Mundial em Londres durante os bombardeamentos alemães. Nele encontramos o seu jovem protagonista, Bill Rohan/Callum Turner nove anos depois, durante os treinos militares para a Guerra da Coreia. 
                      Caleb Landry Jones and Tamsin Egerton is Queen and Country.
    Com uma parte militar muito longa e importante, em que se estabelece o centro narrativo à volta do desaparecimento do relógio do regimento, o filme encontra o seu melhor na parte que decorre em casa de Bill, que vem estabelecer um contraponto para ela. Aí, acompanhado pelo seu camarada Percy Habgood/Caleb Landry Jones, ele vai reencotrar a irmã, Dawn/Vanessa Kirby, e receber Ophelia/Tamsin Egerton, o que juntamente com os segredos da sua mãe, Grace/Sinéad Cusack, dá um tom diferente à narrativa.
     O apontamento sobre a morte do rei e a coroação da rainha é apenas curioso e o regresso da parte castrense inevitável mas em tom morno, apenas para resolver o enigma do roubo do relógio.
                     
     Eu percebo o sentido que o filme faz na obra do cineasta, reconheço-lhe mesmo algum mérito, mas o tom quase caricatural suprime o que de maior interesse se podia apesar de tudo encontrar em "Esperança e Glória". Com argumento do próprio John Boorman, "Pela Rainha" não desmerece na sua obra, vasta e multifacetada, em que o melhor continua, contudo, a estar no seu início americano: "À Queima Roupa"/"Point Blank" (1967), com Lee Marvin e Angie Dickinson, "Duelo no Pacífico"/"Hell in the Pacific", com Lee Marvin e Toshirô Mifune" (1968), "Fim-de-Semana Alucinante"/"Deliverance" (1972).
     E é claro que em comparação com "King & Country", de Joseph Losey (1964), filme inglês de um cineasta americano, nem por sombras.