“Um não sei quê, que nasce não sei onde,/Vem não sei como, e dói não sei porquê.” Luís de Camões

"Na dor lida sentem bem,/Não as duas que êle teve,/Mas só a que êles não têm." Fernando Pessoa

"Lividos astros,/Soidões lacustres.../Lemes e mastros.../E os alabastros/Dos balaustres!" Camilo Pessanha

"E eu estou feliz ainda./Mas faz-se tarde/e sei que é tempo de continuar." Helder Macedo

"Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos..." Camilo Pessanha

“Vem, vagamente,/Vem, levemente,/Vem sozinha, solene, com as mãos caídas/Ao teu lado, vem” Álvaro de Campos

"Chove nela graça tanta/que dá graça à fermosura;/vai fermosa, e não segura." Luís de Camões

domingo, 7 de junho de 2015

Boa memória

     Contemporâneo de Federico Fellini, de quem foi amigo, Ettore Scola - autor, entre outros, de "Feios, Porcos e Maus"/"Brutti, sporchi e cattivi" (1976), "Um Dia Inesquecícivel"/"Una giornata particolare" (1977), "A Noite de Varennes"/"La nuit de Varennes" (1982), "O Baile"/"Le bal" (1983), "Esplendor"/"Splendor" (1989) - era o homem indicado para fazer em filme uma evocação do mais famoso cineasta italiano do pós-guerra. O mais famoso e um dos melhores, que tirou o cinema italiano da sensaboria dos grandes mestres sérios e sábios, como foram Roberto Rossellini, Luchino Visconti e Michelangelo Antonioni. 
                    Que Estranho Chamar-se Federico
      "Que Estranho Chamar-se Federico - Scola sobre Fellini"/"Che strano chiamarsi Federico" (2013) começa por reconstituir os inícios de ambos quando jovens desenhadores satíricos, Ettore/Giacomo Lazotti onze anos mais novo do que Federico/Tommaso Lazotti, em pleno fascismo italiano, com brio e pertinência, para depois se dedicar à carreira daquele que cunhou o título de felliniano, que ele próprio dizia não saber o que significava, com recurso a imagens de arquivo e a uma reconstituição ficcional, vistosa mas mais discreta, com ambos mais velhos - Fellini/Maurizio De Santis, Scola/Giulio Forgis Davanzati -, sempre a partir das memórias do segundo.
      Permitindo recordar com justeza um dos nomes maiores do cinema mundial visto por um outro grande cineasta, "Que Estranho Chamar-se Federico - Fellini por Scola" não perde de vista o sorriso nem aquilo que o próprio Fellini considerava ser: um grande mentiroso. Toda a discussão sobre a arte com o pintor de rua está muito bem vista no filme, que tem argumento de Ettore, Paola e Silvia Scola e conta com Vittorio Viviani como extravagante narrador.  
                     che-strano-chiamarsi-federico-foto-dal-film-7_mid
      Com muito boas transições entre o preto e branco e a cor, Incluindo imagens pouco conhecidas de Fellini e excertos de filmes seus, além de uma reconstituição artificial mas igualmente sentida da amizade dos dois com Marcello Mastroianni/Ernesto D'Argenio, o filme de Ettore Scola constitui uma homenagem muito bem-vinda ao genial criador de "As Noites de Cabíria"/"Le notti di Cabiria" (1957), "A Doce Vida"/"La dolce vita" (1960), "Fellini Oito e Meio"/"Otto e mezzo" (1963), entre tantas outras obras-primas, e a toda uma época de ouro do cinema italiano, num momento em que o cinema precisa de recordar os grandes nomes do seu passado para não continuar a perder-se em banalidades boçais. Seria bom que os organizadores de retrospectivas de clássicos do cinema em Portugal não se esquecessem dele.

        Nota: Cf., em português, "Federico Fellini: Sou um Grande Mentiroso - Uma conversa com Damian Pettigrew" (Lisboa: Fim de Século, 2008).

A provação

     "Força maior"/"Turist" (2014) é o primeiro filme do sueco Ruben Östlund a estrear em Portugal e, com uma construção em seis partes, à semelhança de "O Cavalo de Turim", de Béla Tarr (2011), que até poderia lembrar, revela ser um bom filme. Simplesmente, aqui as personagens, o casal Tomas/Johannes Kuhnke e Ebba/Lisa Loven Konglsy e os seus dois filhos, Harry/Vincent Wettergren e Vera/Clara Wettergren, encontram-se numa estância de turismo, nos Alpes franceses, para passar alguns dias de férias na neve.                         
                    http://f.i.uol.com.br/folha/ilustrada/images/14288321.jpeg
     Com observações muito curiosas espalhadas lateralmente, vai ser o comportamento de Tomas quando de uma avalancha que vai constituir o centro do filme: ele fugiu, abandonando Ebba e os filhos, como vimos ter acontecido, ou não? Aqui se alonga a discussão entre o casal e com o casal mais novo, muito importante por fazer intervir um outro ponto de vista.
    Até à crise de choro de Tomas, o salvamento por ele de Ebba em perigo e a viagem de autocarro mal conduzido pela montanha, com a saída dos passageiros e o regresso de Tomas ao tabaco. Depois do perigo e do resgate, da provação daqueles dias, todos podem passar a ser melhores e a conviver melhor consigo próprios e com os outros, enfrentar  juntos os contratempos e perigos da vida, espera-se.
                    Cena de 'Força Maior'
     Pouco haveria a dizer não se dera o caso de o filme acompanhar permanentemente um diálogo que, sem crispações excessivas, é duro e nuclear, com repercussões naturais nos filhos do casal. Instalada a suspeita havia que esclarecê-la, e é esse percurso que "Força Maior" faz até ao fim, até ao momento em que um teleférico paira nas alturas, vertiginosamente.
     De uma grande pertinência narrativa, que integra naturalmente uma proposta moralista, este um filme muito bem feito, com actores muito bons, uma música escassa mas oportuna e uma realização sempre segura.

sábado, 6 de junho de 2015

Lugar incomum

      António-Pedro Vasconcelos é um dos cineastas saídos do Novo Cinema Português dos anos 60/70. Com uma obra não muito extensa atrás de si, o seu último filme, "Os Gatos não Têm Vertigens" (2014), vem confirmá-lo como um cineasta do "lugar-comum", que ele não deixou de ser mesmo nos seus melhores filmes: "O Lugar do Morto" (1984), "Aqui D'El Rey" (1992), "Os Imortais" (2003).
                     Os-gatos-não-têm-vertigens-Jó-destaque
     Não se veja nisto um juízo de minimização, antes o reconhecimento de que ele trabalha onde, em princípio, por uma ou outra razão, todos nos reconhecemos. Grandes cineastas de todo mundo trabalharam antes dele, ao mesmo tempo que ele e depois dele, o "lugar- comum". Em termos formais, o seu último filme tem mesmo características de melodrama com traços de telenovela, o que uma filmagem seca implica e uma música omnipresente (Luís Cília) secunda. 
    Com argumento de Tiago Santos, a narrativa tem todos os lugares-comuns da actualidade portuguesa, do casal de opositores ao antigo regime aos jovens marginais deixados entregues a si próprios. Mas, como vem fazendo desde "Call Girl" (2007) em especial, António-Pedro Vasconcelos radicaliza os contrastes, neste caso entre uma mulher de 73 anos, Rosa/Maria do Céu Guerra, cujo marido, Joaquim/Nicolau Breyner, a deixou de vez em pleno baile com sapatos de Fred Astaire, e um jovem de 18 anos, Jô/João Jesus, que, abandonado pelos pais, anda em más companhias.
                     Sophia 2015: "Os Gatos Não Têm Vertigens" domina lista de vencedores
    Aí surgem então todos os lugares-comuns possíveis e imagináveis, de filhos ingratos e oportunistas a pais tiranos e oportunistas, do fantasma de um morto a uma antiga resistente anti-fascista que bebe vinho tinto e amigos da má-vida que não são maus rapazes. Nos próprios diálogos prolifera o lugar-comum de meias palavras. Só que, inequívoco, um subtexto percorre o filme: a crise em que o país vive mergulhado há vários anos, objecto de alusões de diversas personagens, mesmo se de passagem - esse faliu, serei eu a seguir? Ora é a esse nível que "Os Gatos não Têm Vertigens" se constrói como filme político.
     Gosto especialmente do início e do final (já em "A Bela e o Paparazzo", uma comédia de 2010, apreciara sobretudo o final, inspirado na comédia americana clássica), mas é o estado de espírito reinante entre as personagens, acabrunhado e desanimado sem perder o sorriso, de continuar a manifestar-se porque não há outra coisa a fazer para que as coisas melhorem - a mensagem passada por Rosa a Jô numa passagem de testemunho a vários níveis -, que se impõe. Demasiado moralista e optimista como lugar-comum, que o fado cantado por Ana Moura no final esclarece e comenta, este um filme perfeitamente à altura de António-Pedro como "cineasta pessimista".
                    
      Se há na actualidade um clássico em plena actividade no cinema português é ele, e é bom vê-lo aqui num pequeno mas significativo papel (ver a seu respeito "Leos Carax: as versões", de 18 de Fevereiro de 2012).

       Nota: Cf., de António Pedro Vasconcelos, "O Futuro da Ficção" (Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2012).

domingo, 31 de maio de 2015

Tragédia e beleza

    "Timbuktu", de Abdelrrahmane Sissako (2014), é o primeiro filme deste cineasta da Mauritânia a estrear em Portugal. Sabia-se que ele é um cineasta importante mas nunca antes o pudéramos confirmar, o que agora acontece. Deste modo, a revelação acompanha a confirmação.
                     Timbuktu - Mundo Blá
     Passando-se nas proximidades de Timbuktu, o filme coloca frente a frente uma pacífica família, o casal Kidane/Ibrahim Ahmedi e Satima/Toulou Kiki, com a sua filha Toya/Layla Walet Mohamed e o jovem pastor Issan/Mehdi Ag Mohamed, e o grupo jiadista que domina a região e aí impõe a sua lei fundamentalista. Só que, muito inteligentemente, esse conflito, sempre presente e até de forma chocante dadas as proibições envolvidas, é tratado com ironia (a discussão sobre o futebol, o jiadista que não está à-vontade para o seu discurso perante uma câmara) e sobretudo mediado por um outro conflito, entre Kidane e o pescador que mata uma vaca sua e em seguida ele mata na mais bela cena do filme.
    No desenvolvimento dramático subsequente, que passa pelo pedido em casamento de Toya pelo chefe jiadista e pela morte de dois habitantes locais (por lapidação, nada menos), Kidane é condenado à morte e quando, no final, Satima vem ao seu encontro, são ambos mortos a tiro. 
                     Timbuktu - Mundo Blá
     O filme não se perde em grandes e rebuscadas questões cinematográficas, antes se estabelece entre a corça do início e do fim e Toya em fuga no final, numa expressão de liberdade ameaçada e ferida, o que enquadra a tragédia e prolonga o conflito em pura beleza primitiva para além da sua própria consumação.
       No pleno domínio dos meios do cinema, Abdelrrahmane Sissako é um cineasta que sabe o que quer e o que faz. Também co-argumentista de "Timbuktu", com Kessen Tall, ele sabe mostrar o lado humano de ambos os lados e a ultrapassagem dos limites de ambos os lados, sem desculpabilizar ninguém e levando o filme ao seu desfecho apropriado. Com uma realização sóbria e muito segura, este é um filme que nos faz desejar conhecer a obra anterior do cineasta - quando a distribuição cinematográfica e a edição dvd em Portugal entenderem que merecemos mais do que os clássicos mais óbvios.

Sobre arte

   O mais recente filme do documentarista americano Frederick Wiseman, "National Gallery" (2014), é mais uma obra-prima do cinema numa obra em que elas abundam com especial concentração nos anos mais recentes.
    Sem ter antes filmado a instituição museal, na sua linha de filmar as instituições americanas e, mais recentemente, também europeias o cineasta escolhe para o efeito a mítica National Gallery, em Londres, e pelas suas salas e corredores vagueia para detidamente mostrar pinturas, mas também para fazer ouvir comentários detalhados de quadros célebres. Como fizera nos anteriores "A Dança - Le Ballet de l'Opera de Paris"/"La danse" (2009) e "Crazy Horse" (2011), não deixa de incluir a discussão dos problemas de gestão da instituição, especialmente difíceis na actualidade.  
                      National Gallery - Examining Portrait of Frederick Rihel on Horseback by Rembrandt
     Mas o que mais impressiona neste filme é que ao filmar o museu Wiseman filma a arte de uma vez por todas, com um brio e um apuro que roçam a perfeição a esse nível ao alcance do cinema - só Peter Greenaway por caminhos ficcionais e Jean-Marie Straub/Danièle Huillet por caminhos documentais terão ido tão longe quanto ele aqui vai, ao nível de "A Arca Russa"/"Russkiy kovcheg", de Alexandr Sokurov (2002). De facto, ao mostrar os quadros no espaço museográfico e ao dar a palavra a curadores, guias e restauradores, "National Gallery" - sempre primorosamente iluminado, o que é uma questão essencial neste caso - oferece detalhes sobre a situação de cada quadro no tempo, na obra e na época respectivas, o que os cometários dos responsáveis do restauro situa perfeitamente em termos temporais, de degradação material e recuperação provisória.
     No filme entram também, e de forma decisiva, as outras artes - a arquitectura, a música, a poesia, a dança - além do próprio cinema (no outro filme que está a ser feito no museu durante a rodagem deste), o que constitui o seu acume em termos de perfeição e completude. Que os problemas de gestão do museu sejam aqueles não surpreende. Agora que a juventude não esteja ausente é significatico num filme que tem, muito justamente, o cuidado de mostrar sempre os visitantes.
                      national-gallery
     Frederick Wiseman não é um cineasta fácil nem nunca procurou a facilidade, tendo dedicado a sua obra cinematográfica justamente ao mais difícil, ingrato e espinhoso. Contudo, os seus filmes são sempre de uma grande beleza, como com este de novo acontece, e de uma grande justeza que na montagem finalmente se define.
   Sobre arte aconselho vivamente a série "Pallettes" do canal franco-alemão Arte, da responsabilidade de Alain Jaubert, que tem edição dvd. Mas aconselho neste momento sobretudo "Mirleos", de João Miguel Fernandes Jorge (Lisboa: Relógio d'Água, 2015), o mais recente livro de poesia de um dos melhores poetas portugueses contemporâneos, sobre o Museu Nacional Machado de Castro, em Coimbra.    
                     National Gallery exterior
       Porque estas coisas, mesmo sem que vocês dêem por isso, ligam-se todas. No Louvre está até 29 de Junho uma grande exposição sobre Nicolas Poussin (1594-1665), o grande pintor do barroco francês ao qual Louis Marin, entre outros, dedicou um estudo de referência que não está disponível em português - "Sublime Poussin" (Paris: Seuil, 1995). Embora alguns dos seus quadros estejam disponíveis on-line justamente no site da National Gallery, aqui
http://www.nationalgallery.org.uk/artists/nicolas-poussin
se puderem vão a Paris ver, porque a reprodução técnica não substitui o original.

domingo, 24 de maio de 2015

Toda uma vida

   O documetário de Manuel Mozos "João Bénard da Costa - Outros amarão as Coisas que eu amei" (2014) é um filme muito bom e importante em que, com apoio nos textos do João lidos pelo seu filho João Pedro, toda a vida dele é recordada.
    O João Bénard foi uma das grandes singularidades do primeiro século do cinema em Portugal e era importante que a sua memória fosse preservada e transmitida pelo cinema. A sua actividade de grande programador e grande crítico, a esse título grande autor e grande escritor, marcou mais do que uma geração, e urgia que pudesse ser recordada de forma fiel e sistemática pelo próprio cinema.
                    
   Ora Mozos não é um cineasta qualquer nem um documentarista acidental, tem muito boas provas dadas de persistência e amor ao cinema, o que a investigação investida neste filme e a forma como ele é construído confirma de forma exuberante. De facto, pelas imagens e palavras do próprio João Bénard da Costa é toda uma vida  apaixonada e todo um pensamento apaixonante que não se ficaram pelo cinema que nos são restituídos, com o comentário do belíssimo poema da Sophia dito pela Ana Maria.
    É urgente conhecer os escritos do João, que estão a ser sistemática embora parcialmente publicados postumamente, para bem compreender o cinema, de que ele foi um estudioso excepcional que este filme nos devolve íntegro e inteiro com imagens históricas e belas imagens, sobretudo da Arrábida e de Veneza, com a fotografia a cumprir a sua função de memória pessoal e os excertos dos filmes mais amados a entrarem no lugar certo, no momento certo.
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     Para quem, como eu, pensa que o documentário é mais impessoal do que a ficção no cinema, com a presença do próprio realizador no filme inculcando inteligentemente a ideia de diálogo "João Bénard da Costa - Outros amarão as Coisas que eu amei" de Manuel Mozos é o maior desmentido, da parte de quem conhece muito bem aquilo de que fala e ama o meio que utiliza (sobre João Bénard da Costa ver "Mestres de pensar", de 7 de Março de 2013; sobre Manuel Mozos ver "Tempo português", de 12 de Abril de 2015).
     É preciso continuar a amar o cinema e a poesia, porque a vida continua sempre. E o amor, a bondade e a beleza também.

domingo, 17 de maio de 2015

No fim o início

   O filme inédito póstumo de Paulo Rocha, "Se Eu Fosse Ladrão... Roubava" (2011), é o extraordinário testamento de um dos maiores cineastas portugueses de sempre.

                    Se Eu Fosse Ladrão, Roubava (2011) de Paulo Rocha
Aí ele reconstitui, com argumento e diálogos de Regina Guimarães, a vida de seu pai, Vitalino jovem a partir da morte dele (Chandra Malatitch e Luís Miguel Cintra), com um muito oportuno e justificado recurso a excertos de filmes seus, o que, embora ele já não tenha podido completar pessoalmente o filme, transforma este numa leitura final que o próprio Paulo Rocha propõe da sua obra.
    O mergulho no tempo assim proporcionado, com colagens fabulosas da Isabel Ruth de "Os Verdes Anos" (1963), a de "O Rio do Ouro" (1998) e a de agora, torna este um filme vertiginoso sobre o tempo e o cinema, sobre o tempo no cinema de Paulo Rocha, o tempo para os seus actores e espectadores. O diálogo castigado de Regina Guimarães, já sua cúmplice desde o filme de 1998, acrescenta um tom memorialista de época que enriquece "Se Eu Fosse Ladrão... Roubava" do lado de um verismo popular vagabundo, entre o rural e o urbano.
                   Foto 1
    Revermos os excertos escolhidos pelo cineasta de "Os Verdes Anos", "Pousada das Chagas" (1972), das duas Ilhas, a dos Amores e a de Morais (1982, 1984), de "Máscara de Aço contra Abismo Azul" (1989), "O Rio do Ouro", "A Raiz do Coração" (2000), constitui uma metaleitura com todas as ligações por ele propostas, de que destaco o recorrente "Leva-me daqui!", que rima bem com a personagem do jovem Vitalino, e a ligação de Isabel Ruth na actualidade com os bailes, o de "Os Verdes Anos" e o de "O Rio do Ouro", este com a canção que dá o título ao filme.
    Enriquecido também, e sobretudo, pelo momento em que Paulo Rocha se dirige ao espectador, "Se Eu Fosse Ladrão... Roubava" estabelece mesmo as ligações oportunas e pertinentes entre a vida do Vitalino passado e personagens e cenas-chave da obra de Paulo Rocha, que vista por ele e por ele comentada pode ser vista a uma outra luz: a da sua memória do passado familiar anterior ao seu próprio nascimento, muito bem documentada em fotografias de época.
                    pr dirigindo marcia breia
      Bem visto, este é um filme paralelo no seu propósito, embora não idêntico no seu resultado, a "Visita ou Memórias e Confissões" (1982), o filme de Manoel de Oliveira para ser mostrado apenas depois da sua morte. Em qualquer caso eloquente e esclarecedor, o que juntamente com a sua beleza visual, que alterna, mesmo na reconstituição, o preto e branco e a cor, constitui o seu mérito maior, na afirmação de uma pureza pessoal que Oliveira ali também para si reivindicava.
       A operação Paulo Rocha agora em curso (e já não era sem tempo), juntando o início e o final da sua obra, está apenas no princípio daquilo que lhe é devido: a sua obra toda disponibilizada em sala e em dvd. Às distribuídoras e editoras cabe cumprirem a sua obrigação (sobre o cineasta ver "Sob o mesmo signo", de 12 de Fevereiro de 2012, e "Dois cineastas maiores", de 31 de Dezembro de 2012).