“Um não sei quê, que nasce não sei onde,/Vem não sei como, e dói não sei porquê.” Luís de Camões

"Na dor lida sentem bem,/Não as duas que êle teve,/Mas só a que êles não têm." Fernando Pessoa

"Lividos astros,/Soidões lacustres.../Lemes e mastros.../E os alabastros/Dos balaustres!" Camilo Pessanha

"E eu estou feliz ainda./Mas faz-se tarde/e sei que é tempo de continuar." Helder Macedo

"Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos..." Camilo Pessanha

“Vem, vagamente,/Vem, levemente,/Vem sozinha, solene, com as mãos caídas/Ao teu lado, vem” Álvaro de Campos

"Chove nela graça tanta/que dá graça à fermosura;/vai fermosa, e não segura." Luís de Camões

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Génio de Orson Welles

      Como vem sendo internacionalmente assinalado, passa este ano o centenário do nascimento de Orson Welles (1915-1985), o imenso e mítico cineasta e actor que foi o único a poder, em termos diferentes, rivalizar com Charles Chaplin já em tempos de cinema sonoro. E ele foi, com Sergei M. Eisenstein, um dos raros génios que o cinema enquanto arte conheceu no seu primeiro século de existência.
      Nascido em 6 de Maio de 1915 em Kenosha, no Wisconsin, desde muito cedo revela a sua preferência pelo teatro e se inicia na prestidigitação. Frequenta a Washington School de Madison e a Todd School, viaja pela Europa e o Extremo Oriente (China e Japão). Em 1931/1932 está  em Dublin, na Irlanda, onde trabalha como actor e encenador na Dublin Gate Company. De regresso aos Estados Unidos, estreia-sa na rádio e realiza o seu primeiro filme, "Hearts of Age", mudo e com 5 minutos de duração, em 1934. É responsável pela edição comentada por si das obras de William Shakespeare, "Mercury Shakespeare", encena e interpreta para o teatro os grandes nomes do teatro europeu e americano, trabalha para o Federal Theatre e está na fundação do Mercury Theatre em 1937. Com a emissão radiofónica de "A Guerra dos Mundos"/"The War of the Worlds" a partir de H. G. Wells torna-se famoso nos Estados Unidos em 1938.
                     citizen-kane-1941-08-g
     Após alguns projectos não concluídos, agora recuperados, estreia-se estrondosamente no cinema como realizador, co-argumentista (com Herbert J. Mankiewicz) e actor com "O Mundo a Seus Pés"/"Citizen Kane" (1941), que apenas ganharia o Óscar do melhor argumento original - e a esse nível ele nunca iria além disso, como Alfred Hitchcock nunca foi além do Óscar para o melhor filme por "Rebecca" (1940), que está longe de ter sido o seu melhor filme - nem um nem o outro receberam alguma vez o Óscar do melhor realizador. Ora "O Mundo a Seus Pés" tinha vários "segredos de fabrico": a construção temporal, com recurso ao flash-back; o uso do plano-sequência com profundidade de campo, graças à grande-angular utilizada pelo director de fotografia Gregg Toland; as vozes e os sons.
      Logo no ano seguinte começaram os seus problemas com a RKO, que não o deixou terminar "O Quarto Mandamento"/"The Magnificent Ambersons", embora sem a sua montagem os últimos vinte minutos do filme funcionem muito bem em termos de recordação, portanto de tempo, não expressamente evocado em flash-back, como em "Citizen Kane" acontecera. Segue-se o documentário "It's all True" (1942), filmado no Brasil em réplica a "Que viva México!", de Eisenstein (1932), que como a este aconteceu não pôde terminar, filmar tudo o que queria e montar.  
                   
     Depois de "O Estrangeiro"/"The Stranger" (1946), de que reconheceu apenas uma autoria partilhada embora tenha marcado como actor, em 1948 realiza "A Dama de Xangai"/"The Lady from Shanghai" em que o esquema narrativo de filme policial é acompanhado por uma voz-off narrativa omnisciente e ele exerce a crueldade necessária com a sua então já ex-mulher, a belíssima Rita Hayworth, estabelecendo o modelo do homem verídico e do homem falsificante e culminando na mítica cena da sala dos espelhos. Do mesmo ano de 1948 é "Macbeth", a sua primeira incursão shakespeariana no cinema e um filme notável.       
      Tendo prosseguido entretanto uma carreira excepcional, também ela, como actor de cinema em "A Jornada do Medo"/"Journey into Fear", de Norman Foster (!942) e "A Paixão de Jane Eyre"/"Jane Eyre" (1944), de Robert Stevenson, nomeadamente, Orson Welles, que tinha sido Cagliostro em "Magia Negra"/"Cagliostro", de Gregory Ratoff (1947), interpreta Harry Lime em "O Terceiro Homem"/"The Third Man", de Carol Reed, marcando decisivamente o filme, e vem para a Europa nos anos 50, onde realiza o seu segundo filme shakespeariano, "Otelo"/"Othello" (1952), resultado possível de condições de produção penosas e difíceis. De 1955 data "Relatório Confidencial"/"Confidential Report" ou "Mr. Arkadin", que relança o tema do verídico e do falsificante com este interpretado por ele próprio em termos perturbadores. Em 1954 interpretara  Benjamin Franklin em "Se Versailles Falasse"/"Si Versailles m'était conté", de Sacha Guitry.
                   
       Regressa a seguir à América e a Hollywood para ser o pastor no início de "Moby Dick" de John Huston (1956), para o qual interpreta também "Raízes do Céu"/"The Roots of Heaven" (1958), e para "A Sede do Mal"/"Touch of Evil", mítico pelo novo uso do plano-sequência com profundidade de campo na cena inicial, que o restauro com supervisão de Jonathan Rosenbaum desmontou em 1998 na recuperação da versão do autor, pelo retomar do homem verídico e do homem falsificante depois de Shakespeare, de novo com ele próprio como argumentista e interpretando o segundo, e mítico também pelo seu final. Do seu trabalho como actor nesta época destacam-se ainda "Paixões Que Escaldam"/"The Long, Hot Summer" (1958), de Martin Ritt e baseado em William Faulkner, "O Génio do Mal"/"Compulsion" (1959) e "Drama num Espelho"/"Crack in the Mirror" (1960), ambos de Richard Fleischer.            
     De novo na Europa, dirige e interpreta nos anos 60 um histórico e memorável "O Processo"/"The Trial" (1962), segundo Franz Kafka, e "As Badaladas da Meia-Noite"/"Chimes at Midnight" (1965), em que em volta de Falstaff reúne várias peças de Shakespeare - e esse terá sido o seu mais importante filme a partir de uma tal fonte, consigo próprio a interpretar o homem da generosidade e da dádiva. Termina a década com "História Imortal"/"The Immortal Story", filme enigmático passado em Macau baseado em Isak Dinesen/Karen Blixen, que foi o seu primeiro filme a cores.
                   
      Nos anos 70 prossegue a actividade que vinha desenvolvendo no documentário de curta-metragem baseado no seu nome e na sua fama e realiza ainda o fundamental "F for Fake" (1973) e o assombroso documentário "Filming Othello" (1978). Já depois da morte de Orson Welles de um ataque cardíaco em 10 de Outubro de 1985 são estreados o esclarecedor "Dom Quixote de Orson Welles"/"Don Quijote de Orson Welles", deixado inacabado e inédito, com montagem (discutível) do espanhol Jesus Franco (1992), e a montagem de "It's all true" feita pelo seu assistente Richard Wilson, por Myron Meisel e por Bill Krohn (1993), e é apresentado "The Other Side of the Wind" (1), pelo que dele conheço talvez a sua obra-prima absoluta, com John Huston como actor. Como actor, destaque para "La riccotta", episódio de ROGOPAG dirigido por Pier Paolo Pasolini (1964), "Casino Royal", de John Huston (1967), e "A Década Prodigiosa"/"La décade prodigieuse", de Claude Chabrol (1971), num actor imenso que financiava os filmes que realizava com o que ganhava como actor e que fez a narração off de "Directed by John Ford", feito para a televisão por Peter Bogdanovich (1971). 
     Responsável, com William Wyler e John Huston, pelo lançamento do cinema moderno americano, simultâneo com o neo-realismo italiano, que foi extremamente influente no futuro do cinema americano nos anos 50 e 60, nomeadamente para Robert Aldrich e Stanley Kubrick, Orson Welles excedeu-o de forma manifesta num rumo pessoal e moderno em que, além de explorar o homem verídico e o homem falsificante de forma original, explorou a própria generosidade, a "bondade" da vida em si própria (Falstaff, Dom Quixote), e rasgou os caminhos do falso na arte, na pintura e no cinema de forma decisiva (o escorpião, uma vida esgotada, degenescerescente desde "A Dama de Xangai"), colocando assim em causa a faculdade de julgamento, como nota Gilles Deleuze (2).
                      John Huston, Orson Welles and Peter Bogdanovich
     Salvo Chaplin, seu igual, não sei de outro como ele, mais importante do que ele - que confessava ter visto dezenas de vezes "Cavalgada Heróica"/"Stagecoach", de John Ford (1939), antes do seu primeiro filme oficial - no cinema americano. Puro génio em perda sem nunca se deixar abater, que namoriscou a Série B com o maior sucesso e exigência: "A Dama de Xangai", "Macbeth", "Relatório Confidencial", "A Sede do Mal". Só Alfred Hitchcock, que nem sequer era americano mas inglês. E para melhor cineasta mundial de sempre é o mais forte candidato com Eisenstein, Fritz Lang, Friedrich Murnau, Hitchcock, Jean Renoir e Kenji Mizoguchi. Se souberem de alguém ao seu nível depois dele digam-me (3).

     Notas
    (1) Filme mostrado por Oja Kodar há alguns anos na Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema, sobre o qual se pode consultar "The Other Side of the Wind - Scénario/Screenplay", concebido e dirigido por Giorgio Gosetti (Cahiers du Cinéma/Festival International du Film de Locarno, 2005).
     (2) Cf. Gilles Deleuze, "L'image-temps" (Paris: Les Éditions de Minuit, 1985, Capítulo 6, pág. 165).
     (3) Em português, cf. "Orson Welles", de Maurice Bessy (Lisboa: Editorial Presença, 1965); "Orson Welles", de André Bazin (Lisboa: Livros Horizonte, 1991); "As Folhas da Cinemateca: Orson Welles", com organização literária de António Rodrigues (Lisboa: Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema, 2004); "O Livro Orson Welles", de Paolo Mereghetti, com Mário Augusto como consultor para a edição portuguesa (Colecção Grandes Realizadores Cahiers do Cinéma - Público, 2008); "Temas de Cinema: David Griffith, Orson Welles, Stanley Kubrick", de Lauro António (Lisboa: Dinalivro, 2010).                   

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Maria Barroso (1925-2015)

    Acabou de nos deixar uma mulher notável que foi grande actriz de teatro e de cinema. 
   Natural da Fuseta, Maria Barroso fez  o curso de Arte Dramática na Escola de Teatro do Conservatório Nacional e licenciou-se em Ciências Histórico-Filosóficas pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Começou por trabalhar como actriz no teatro, nomeadamente na Companhia Amélia Rey Colaço-Robles Monteiro do Teatro Nacional entre 1944 e 1948, ano em que atrabiliariamente o regime fascista a afastou por razões políticas.
                                
      Figura destacada do movimento anti-fascista português, casou com o então líder oposicionista e futuro Presidente da  República Mário Soares e esteve entre os fundadores do Partido Socialista em 1973. Para além de regressos esporádicos ao teatro e de uma importante actividade como declamadora de poesia, a sua actividade de actriz passou também para o cinema, com interpretações de muito mérito em "Mudar de Vida", de Paulo Rocha (1966), um dos filmes fundadores do Novo Cinema Português do anos 60, e "Benilde ou A Virgem-Mãe", de Manoel de Oliveira (1974), baseado em peça de José Régio que ela interpretara para o teatro. Nesses dois filmes, e nas suas outras breves aparições no cinema, tivemos o privilégio de assistir ao trabalho de extraordinária subtileza, inteligência e riqueza expressiva desta grande actriz, que merecia ter tido uma outra vida no teatro e ter sido mais requestada pelo cinema.
                    
       Com uma vida pública e intelectual do maior relevo, nomeadamente no ensino, Maria Barroso viria entretanto a marcar fundamente a sociedade portuguesa, tendo-se tornado uma figura muito conhecida pelos seus méritos pessoais, pelas suas actividades sociais e políticas e pelas suas convicções, admirada por todos. 
       Na hora da partida desta grande senhora, activista de grandes causas, actriz de teatro e de cinema e professora, curvo-me respeitosamente perante a sua memória e deixo aqui expresso o meu muito sentido pesar à família - Mário Soares, os seus filhos João Soares e Isabel Soares, e os seus netos, bem como os seus sobrinhos Mário, Eduardo e Alfredo Barroso.

domingo, 5 de julho de 2015

O rapto

     Poderá dizer-se para começar que os factos mereciam um filme: em Dezembro de 1977 morre Charles Chaplin na Suiça, onde é enterrado. Pouco depois, o seu caixão com o seu cadáver foi "raptado" do cemitério. Escândalo, mistério.
     Baseando-se em factos reais e públicos, o francês Xavier Beauvois, sobretudo conhecido por "Dos Homens e dos Deuses"/"Des hommes et des dieux" (2010), constrói "O Preço da Fama"/"La rançon de la gloire" (2014) com argumento, adaptação e diálogos seus, Benoît Poelvoorde como Eddy Ricaart, Rocshdy Zem como Osman Bricha (os dois "raptores"), fotografia de Caroline Champetier e música de Michel Legrand, enfim, a nata do melhor do cinema francês. 
                   Imagem do filme "La rançon de la gloire", de Xavier Beauvois
     O primeiro, e decisivo, factor de sucesso do filme é a forma como os dois actores principais encarnam os respectivos papéis, no limite entre a irrisão e o burlesco, numa continuação muito bem vista do próprio "raptado enquanto actor". Tudo se joga durante a preparação até à consumação do rapto, após o qual, e enquanto eles fogem, a música de Michel Legrand como que enlouquece. Mas a partir daí o duo mantém-se como tal no mesmo registo, cada um deles com as suas características próprias, durante o confronto com a família do "raptado" a que um dispositivo circense liderado por Rosa/Chiara Mastroianni faz um contraponto muito apropriado.
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      E a homenagem a Chaplin é tanto mais justa quanto levada para o seu próprio campo expressivo por dois grandes actores, enquanto inclui excertos de pelo menos um filme seu, que o faz aparecer vivo e novo, e a música agarra repetidamente no tema de "As Luzes da Ribalta"/"Limelight" (1952), o que torna este "O Preço de Fama" um filme sobre o próprio cinema, que com um pretexto narrativo minimal continua a ser grande cinema sem qualquer tipo de concessão que lhe seja exterior, contra o negócio baratucho e o espectáculo ocioso em que ele se transformou.
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       Mesmo que Xavier Beauvois tenha tomado liberdades em relação aos factos e personagens, o seu filme coloca-nos permanentemente do lado dos dois "raptores" como pobres diabos, seres humanos, e esse facto confere-lhe um peso próprio e uma densidade original que fazem contrapeso à fama justa do morto "raptado", muito bem representado pela sua neta Dolores Chaplin. Prolongando a candura que a presença da filha de Osman, Samira/Séli Gmach, inculca desde o início, o final em termos de melodrama e de circo torna-se perfeitamente justificado porque vem dizer que, nos seus dois "raptores", Charlot continua. Mesmo mais, que é preciso continuar a raptá-lo, como na justa imagem pós-genérico final do filme (sobre este grande homem do cinema ver "Génio de Chaplin", de 7 de Fevereiro de 2014, e "Poética de Chaplin", de 28 de Fevereiro de 2014).

         Nota 
        Acaba de sair em português a nova biografia escrita por Peter Ackroyd, "Charlie Chaplin" (Lisboa: Teodolito, 2015), que obviamente aconselho.

Mulher enquanto actriz

    O mais recente filme de Olivier Assayas, "As Nuvens de Sils Maria"/"Clouds of Sils Maria" (2014), é uma obra surpreendente e muito boa tanto em termos narrativos como em termos fílmicos, em que o cineasta se acrescenta a si próprio enquanto continua a demarcar um perrcurso pessoal muito bom e extremamente interessante..
                  
    Definidamente centrado numa actriz, Maria Enders/Juliette Binoche, que 20 anos depois regressa ao mesmo texto teatral para representar, já não a personagem mais nova, mas a personagem mais velha, muito justamente o filme começa com a morte do autor da peça. Embora ele tenha deixado uma continuação desta, Maria está entregue a si própria para criar uma personagem, Helena, que primitivamente conheceu interpretada por uma outra actriz, já falecida.
     Os ensaios entre ela e a sua assistente, Valentine/Kristen Stewart, que decorrem nos Alpes suíços, permitem-lhe confrontar-se com os seus fantasmas pessoais, nomeadamente os decorrentes do seu próprio envelhecimento a que Juliette Binoche confere a espantosa dignidade da maturidade
                  
     Durante os ensaios, lembrando Ingmar Bergman - "Depois do Ensaio"/"Efter repetitionen", 1984, mas também, e até sobretudo, "A Máscara"/Persona", 1966 (1) - decorre o mais importante de "As Nuvens de Sils Maria", sem embargo do esclarecimento que o epílogo, passado em Londres com a jovem actriz americana que vai interpretar a personagem anterior de Maria, Jo-Ann Ellis/Chloë Grace Moretz, vem trazer: esta nem a mínima pausa de segundos lhe vai permitir à saída de cena. Entretanto, Valentine, talvez o duplo da actriz enquanto jovem, desaparecera sem deixar rasto nem margem de manobra para Maria como actriz e como mulher.
      Com o decisivo contributo de Juliette Binoche numa interpretação excepcional (2), muito bem acompanhada por Kristen Stewart, Olivier Assayas, de novo também argumentista, consegue aqui o feito notável de mostrar as duas faces da mesma personagem, como mulher e como actriz, em função de dois momentos da sua vida distantes no tempo. Quando na actualidade a personagem que interpretara primitivamente lhe é recordada por outra, por outras diferentes dela (sobre Olivier Assayas ver "Outra dimensão", de 19 de Maio de 2014).
                   

      Notas
     (1) Cf. "Conversation avec Bergman", de Olivier Assayas e Stig Björkman (Paris; Éditions de l'Étoile/Cahiers du Cinéma, 1990). 
     (2) Esta é a segunda aparicipação da actriz em filmes do cineasta, depois de "Tempos de Verão"/"L'heure d'été" (2008).

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Original e surpreendente

      Com o último filme do sueco Roy Andersson, "Um Pombo Pousou Num Ramo a Reflectir na Existência"/"En duva satt pa en gren och funderade pa tillvaron" (2014), Leão de Ouro do Festival de Veneza do ano passado, foi-nos possível assistir aos anteriores filme da denominada "trilogia dos vivos", "Canções do Segundo Andar"/"Sanger fran andra vaningen" (2000) e "Tu, que Vives"/"Du levande" (2007), e desse modo ficar a perceber o significado e o alcance destas três obras, invulgares, originais e surpreendentes.
                  "canções do segundo andar" - um personagem entra no bar e fala "não é fácil ser humano". A garçonete concorda. <BR> <BR> <BR> <BR> <BR>direção: Roy Anderson <BR>um pedaço: <A HREF="http://www.youtube.com/watch?v=j9mUx4EgLEg" TARGET=_top>http://www.youtube.com/watch?v=j9mUx4EgLEg</A> - Fotolog
      Começo por esclarecer que Roy Andersson, cujos filmes até agora desconhecia, dedicou-se ao filme publicitário depois do mau acolhimento que tiveram os seus primeiros filmes de ficção, nos anos 70, e só pensou em completar uma trilogia quando trabalhava na preparação do seu último filme. E devo assinalar que, desde o primeiro, os filmes desta trilogia têm como traços marcantes a construção fragmentária, apenas dentro de certos limites minimizada no último, e a adopção de planos fixos e longos com profundidade de campo.
    Se a construção fragmentária permite que cada filme funcione como um caderno de apontamentos, soltos, de que se terá que tirar o sentido passo a passo e resolver só no final, a construção narrativa guia-se por situações grotescas, no limite do absurdo, que vivem personagens com as quais é escasso o contacto que nos é proporcionado - dois ou três planos, algumas nem isso.
                   «Tu, que Vives» (Foto Divulgação Alambique)
     Contudo, é na construção do plano, de cada plano, frequentemente sem palavras ou então com conversas banais em situações insólitas, que surge o que de mais radical caracteriza a proposta do cineasta nesta trilogia. De facto, pela distribuição dos corpos nesse espaço, que inclui recortes dentro do espaço (portas, janelas, espelhos) pelos quais se tornam visíveis aspectos inesperados e por vezes contraditórios, passa a clara visibildade do todo que força a concentração da atenção no que acontece a cada um  - e estão quase sempre a acontecer-lhes coisas, quotidianas, banais, entediantes, absurdas: engarrafamentos gigantes, negócios que não funcionaram, execuções inexplicáveis no primeiro, que parte de uma citação do peruano César Vallejo; uma pena capital contada pelo condenado depois de cumprida, um casamento em casa rolante, a confissão de admiração de uma jovem fã por um jovem músico no segundo, em que surge um lado mais onírico; uma aula de flamenco, um rei do século XVIII que entra num bar antes e depois de um combate perdido, dois vendedores de divertimento mal sucedidos, uma criança que diz dizer um poema que dá o título ao filme no terceiro, em que há um maior acompanhamento dos dois vendedores e um enveredar pela história, apenas como exemplos.
      A isto deve acrescentar-se a representação, também ela original e surpreendente dos actores, em geral sem ênfase, quase inexpressiva, no limite da indiferença, que traz ao filme um outro limiar de significação e o arrasta, com o anteriormente referido, para os limites do pictórico com tons de surrealismo, embora os seus traços de absurdo e de falta de sentido tenham também inspiração beckettiana.
                    
     Explica Roy Andersson em entrevista à Positif nº 651, de Maio de 2015, ter grande admiração pelos pintores surrealistas e pelo próprio Luis Buñuel ("Viridiana", 1961), e que essa foi uma fonte de inspiração importante para o seu trabalho nestes filmes, feitos os dois primeiros em película, o último em suporte digital com excelente fotografia dos húngaros István Borbás (que tinha sido um dos responsáveis da fotografia do primeiro, com Jesper Klevenas e Robert Komarek) e Gergely Pálos. E há alguma coisa mais que caracteriza estes filmes, que é o esforço de evitar os contrastes de cores mais garridas rumo a um certo sentimento de indiferenciação, que corresponda à própria indiferença dos seres que não sabem o que fazer dela e da sua própria solidão. (Na mesma entrevista o cineasta confessa que a sua obra literária preferida, que terá mesmo em vão tentado levar ao cinema, é "Viagem ao Fim da Noite", de Céline.)
      Fora dos caminhos batidos do cinema corrente mesmo no seu país, o cineasta consegue aqui chamar a atenção de forma inteligente e continuado, arriscando o fastio de alguns, a indiferença de outros, a incompreensão também. Mas por esta trilogia passa uma tristeza, uma sensação de vazio e de absurdo que consegue agarrar-nos e mesmo comover-nos na sua própria existência fílmica. Semelhante a um filme de Jacques Tati mas sem humor, sem riso, antes com uma enorme tristeza não isenta de crueldade e ironia. Uma tristeza nórdica, sueca, suponho.

9 dias no Haiti

   "Meurtre à Pacot" é uma co-produção haitiano-franco-norueguesa realizada pelo haitiano Raoul Peck (2014), também produtor e co-argumentista com Pascal Bonitzer e Lyonel Trouillot, que passou a semana passada no Arte.
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    Trata-se de um filme muito bom, centrado num casal que perdeu o filho na sequência do terramoto de 2010 no Haiti, perda de que a mulher/Joy Olasunmibo Ogunmakin culpa o marido/Alex Descas, e que aluga a sua casa ameaçada a um outro casal de ocasião, Alex/Thibault Vinçon e Adrémise-Jennifer/Lovely Kermonde Fifi, ele francês em ajuda humanitária, ela nativa do Sul do país. Com a casa em perigo e em recuperação, o primeiro casal recolhe-se a um anexo modesto, enquanto, cada um seguindo a sua vida, os caminhos dos quatro se cruzam sucessivamente em situações diferentes.
     Revelando ser cental naquela situação, depois de ter desinquietado a mulher e resistido às investidas do homem, Adrémise-Jennie, a mulher de dois nomes, ao pretender partir é esperada por um Alex armado e perseguida pelo homem até uma luta corpo a corpo na lama. Ao nono dia apenas chegam os outros três.
                      Meurtre à Pacot - © Raoul Peck
    O argumento é muito bom e também a realização de Raoul Peck, sempre atenta ao estado precário da casa e à fluidez das relações entre personagens acossadas pela situação e que se põem umas às outras em causa, personagens todas elas interpretadas por excelentes actores - Joy é Ayo, a conhecida cantora. Entre a natureza (o formigueiro, os cães) e o poder em estado de emergência. Claramente pasoliniano ("Teorema", 1968), o esquema narrativo funciona muito bem no huis-clos daquele espaço, transformado em arena de conflitos cruzados que combinam ressentimentos, anseios, decepções e o desejo indizível de fazer outra coisa sem cada um deles - mesmo Jennie que no final quer regressar ao seu nome primitivo - deixar de ser quem é.
     Pois é, eu não tenho as vossas prioridades e por isso continuo a ver o melhor do cinema no Arte - e então com a participação de Pascal Bonitzer (ver "O prazer do cinema, de 24 de Outubro de 2013) vejo sempre. Raoul Peck, que deixa aqui excelente impressão, tinha já feito um documentário sobre a reconstrução após o terramoto de 2010 no Haiti, "Assistance mortelle" (2013), obviamente também ele inédito em Portugal.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

A hora e a vez

     Com o muito trabalho que tenho e o pouco tempo livre de que posso dispor (sem ócios do ofício), à semelhança do que me aconteceu com o sueco Henning Mankell (ver "Direcção: Suécia", de 28 de Fevereiro de 2013) foi o título do último livro editado em Portugal do cubano Leonardo Padura, "Hereges" (Porto Editora, 2015), que finalmente me moveu a ler este afamado escritor.
                  
    Céptico e crítico em relação a todas as crenças de qualquer natureza, herético eu próprio por isso, o título chamou-me para um escritor que há muito vem sido traduzido para português mas por cujos livros tenho passado sempre com o comentário interior de que "ainda não tenho tempo nem é prioritário". Pois agora vou ter de arranjá-lo (o tempo) para ler Padura todo como entretanto fiz com Mankell, pois trata-se efectivamente de um grande escritor de uma área que sempre me interessou: o romance policial.
    Mas claro que o cubano, como o sueco ou, por exemplo, a inglesa Ruth Rendell (1930-2015), que há pouco nos deixou, não é apenas um grande escritor de policiais, é um excelente escritor tout court, que tem alargado a temática dos seus mais recentes livros à história. E agora, à semelhança do que me acontece sempre com os grandes escritores que mais aprecio, vou tentar conhecer toda a sua obra, como ele merece. Espero ter ainda chegado a tempo de mais este grande escritor, um dos melhores da actualidade, no seu melhor superior ao melhor do catalão Manuel Vásquez Montalbán (1939-2003), que teve o mau gosto de nos deixar também ele há alguns anos.
                                       
     Como nos grandes excritores acontece, aliam-se em Leonardo Padura o conhecimento da vida e dos homens, o conhecimento do presente e da história, um grande desassombro e referências literárias muito boas, que com ele partilho - "Hereges" é um dos melhores romances que me foi dado ler nos últimos anos. Se quiserem saber de mim, nos próximos tempos estou em Havana - e nem vos digo nem vos conto quantos nem quais (grandes escritores) tenho neste momento em "lista de espera". Aos editores portugueses, sempre atrás do último prémio literário e do último best-seller, lembro que o irlandês John Banville enquanto Benjamin Black tem apenas um livro traduzido em português.