“Um não sei quê, que nasce não sei onde,/Vem não sei como, e dói não sei porquê.” Luís de Camões

"Na dor lida sentem bem,/Não as duas que êle teve,/Mas só a que êles não têm." Fernando Pessoa

"Lividos astros,/Soidões lacustres.../Lemes e mastros.../E os alabastros/Dos balaustres!" Camilo Pessanha

"E eu estou feliz ainda./Mas faz-se tarde/e sei que é tempo de continuar." Helder Macedo

"Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos..." Camilo Pessanha

“Vem, vagamente,/Vem, levemente,/Vem sozinha, solene, com as mãos caídas/Ao teu lado, vem” Álvaro de Campos

"Chove nela graça tanta/que dá graça à fermosura;/vai fermosa, e não segura." Luís de Camões

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Poética de Wes Craven

      Autor de filmes de terror de Série B que o tornaram uma referência no cinema da Nova Hollywood, Wes Craven (1939-2015), que hoje nos deixou, deixa um lugar definido por preencher na história do cinema.
                                  
     Com os diferentes episódios de "Pesadelo em Elm Street"/"A Nightmare on Elm Street", que também escreveu, a partir de 1984 e os de "Gritos"/Scream" a partir de 1996, Craven impôs um novo modelo de filme de terror que excede a herança de clássicos e modernos do cinema para situar numa exacerbação narrativa de métodos e processos visuais e sonoros um género em que foi incomparável e se tornou paradigmático.  
     O seu estilo de Série B ressuscitada em novos termos foi muito importante e de tal modo influente que deu origem a séries televisivas e jogos de vídeo. O seu maior mérito foi confrontar os espectadores com os seus maiores terrores, o medo radical do outro, em filmes marcados por uma elegância de estilo que foi própria dos grandes mestres da fórmula nos seus inícios (Jacques Tourneur, Anthony Mann).
                     
       A sua foi uma poética do filme de terror da Série B, superlativamente aterrorizador  na sua soberba, superior mestria técnica e estética ao confrontar-nos com a aproximação, a iminência do outro como ameaça mortal. A máscara de Freddy Krueger e os gritos dos filmes com o mesmo nome continuam a assombrar a nossa memória como o trabalho da morte - a morte em trabalho. 
      Continuar a ver os filmes de Wes Craven, todos os seus filmes, mesmo os que, como "Melodia do Coração"/"Music of the Heart" (1999), não são filmes de terror, é a melhor homenagem que se lhe pode prestar - os seus últimos filmes foram "A Sétima Alma"/"My Soul to Take" (2010) e "Gritos 4"/"Scream 4" (2011). Para conhecermos bem uma parte significativa do melhor do cinema contemporãneo e continuarmos a aprender com ele a não ter medo do medo.

O início da saga

     Baseada em novelas e personagens de Veronica Roth, a saga de ficção-científica distópica começou com "Divergente"/"Divergent", de Neil Burger (2014), que, atrasado como me costuma acontecer, só agora consegui ver, numa altura em que já se estreou o segundo filme, "Insurgente/"Insurgent" (2015), realizado por Robert Schwentke, e se prepara o terceiro, dividido em duas partes, com o mesmo realizador do anterior, "Convergente"/"Convergent".
    Sabe-se como a ficção-científica foi, além da animação, o género cinematográfico mais beneficiado pela revolução digital no cinema, para o que já "2001: Odisseia no Espaço"/"2001: A Space Odyssey", de Stanley Kubrick (1968) apontava e "Blade Runner: Perigo Iminente"/"Blade Runner", de Ridley Scott (1982), além da saga "A Guerra das Estrelas"/"Star Wars", de George Lucas, confirmara. Sabe-se também como, em termos cinematográficos, a ideia de distopia é mais apelativa do que a de utopia.  
                     
    Com argumento de Evan Daugherty e Vanessa Taylor, "Divergente" lança esta saga no cinema de forma inteiramente convincente, com a proposta de uma sociedade dividida em facções só a nível dos seus dirigentes, uma divisão relativamente à qual a protagonista, Tris/Shailene Woodley, porque inclassificável funciona como divergente. Apesar dos lugares comuns, como "apanhar o comboio" ou "atirar-se de cabeça", mas integrando-os bem, as ideias de retirar o livre-arbítrio para garantir obediência total e dos maiores medos de cada um na prova final de iniciação, que cada um tem de ultrapassar com base na própria facção a que pertence, a contraposição das alturas e das profundidades ou as tatuagens que contam uma história são muito bem exploradas.
     Narrativamente paira sobre este "Divergente" a manipulação por manipuladores invisíveis, mas a credibilidade de um pós-humano passa pela permanência do ainda humano em Tris e em Four/Theo James. E esta é a parte fundamental, ainda que subliminar de um filme que se resolve entre grupos, facções diferentes, cada uma delas sujeita às suas próprias regras de comportamento: só passa à fase seguinte, se impõe e triunfa quem consegue, na multiplicidade instalada, permanecer humano, um ser humano reconhecível e reconhecente - condição necessária nem sempre suficiente.
                       Divergente 5
     Mas é nas interpretações notáveis de justeza - além dos mencionados Ashley Judd como Natalie, Jai Courtney como Eric, Zoë Kravitz como Christina, Kate Winslet como Jeanine nomeadamente - que assenta o sucesso deste filme, um sucesso de que a música de Junkie XL faz parte integrante. Muito importante também, decisivo mesmo, é o filme ter sido rodado em Chicago, que funciona muito bem como cenárrio primário sobre o qual se abatem os efeitos digitais, como Ridley Scott fizera em "Blade Runner: Perigo Iminente" relativamente a Los Angeles.
      Num momento em que se vive a nível planetário uma hipótese distópica, com fomes, guerras, terrorismo, a tragédia dos refugiados, catástrofes provocadas por mão humana, intotolerância, violência indiscriminada em expansão, é saudável e muito oportuna uma saga que se apresenta como ficção-científica e nos desafia nos nossos maiores pesadelos presentes: tudo pode ainda piorar.  Aconselho sem restrições, pois tornou-se uma saga de referência no cinema de ficção-científica que, sob o rótulo de adolescente, é verdadeiramente para todas as idades. (Veronica Roth está publicada em português pela Porto Editora.)  

sábado, 29 de agosto de 2015

Para o ano, à mesma hora

     Soube-se pelo jornal Público de hoje que o Cinema Ideal, em Lisboa, reaberto há um ano, poderá não cumprir um segundo ano de existência. O aviso soa, na voz de Pedro Borges, director da Midas Filmes, responsável pela sua programação, como um alarme.
    A mais antiga sala de cinema da capital foi integralmente recuperada com projecto do arquitecto José Neves, Prémio Secil de Arquitectura 2012, e tem apresentado desde a sua reabertura a melhor programação de cinema, português e internacional, a que pudemos assistir no último ano em condições incomparáveis. Com a sua história muito bem contada por Maria do Carmo Piçarra em "O Cinema Ideal e a Casa da Imprensa - 110 Anos de Filmes" (Lisboa: Guerra & Paz, 2014), é a única sala actualmente existente no centro da cidade, com acessos fantásticos num quadro urbano ele também histórico.
                    festa do cinema
    Não foi de maneira nenhuma indiferente o primeiro ano de existência do reaberto Cinema Ideal, com uma programação muito boa em exclusivo ou não, fazendo-nos lembrar que o cinema não é só o filme, que hoje podemos ver em qualquer outro local, ecrã ou suporte, mas as condições em que a ele assistimos, o que não é uma evidência para todos neste tempo de shoppings, internet e crescimento desmesurado dos subúrbios.   
   É absolutamente indispensável que todos nós frequentemos o Cinema Ideal sempre que possível e de preferência a outros espaços que eventualmente apresentem os mesmos filmes, tanto mais quanto aí passam pelo menos dois filmes diferentes (por vezes quatro ou cinco) por dia, sempre filmes de referência e em horários diversificados. E aproveitem a ida ao cinema para passear, ir a livrarias, cafés e restaurantes, lojas e outras salas de espectáculos que na zona abundam (mesmo ao lado a Fyodor Books, agora com cafetaria), porque a vida não é só cinema nem é um filme.
                    Cinema Ideal
     De todos nós - e também de todas as entidades a ele ligadas, que devem aqui como noutros sectores cumprir a sua função cultural - depende o futuro desta sala. Vamos, pois, todos ao Cinema Ideal, agora em especial na comemoração do seu 1º aniversário, a que me associo, e apoiemos pelo menos dessa maneira a continuação da sua existência como sala de referência. 

     Nota 
     Para o enquadramento e outros desenvolvimentos desta questão, que é muito importante, cf. "Os Cinemas de Lisboa - Um fenómeno urbano do século XX", de Margarida Acciaiuoli (Lisboa: Bizâncio, 2012).

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Hermínio Martins (1934-2015)

     Foi o mais importante sociólogo da ciência, filósofo das ciências sociais, filósofo e sociólogo da tecnologia e sociólogo da história de Portugal e do Brasil de origem portuguesa, um homem de um vigor intelectual sem compromissos cujo trabalho foi profundamente influente em termos internacionais. Tendo feito a maior parte do seu percurso académico e de investigação fora de Portugal, veio a falecer em Oxford, Inglaterra, país onde trabalhou durante a maior parte da sua vida, justamente no St. Anthony's College da Universidade de Oxford.
    Apesar dos discípulos que deixou em todo o mundo - também em Portugal, onde colaborou no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa -, a sua morte significa uma perda irreparável não só da ciência como da humanidade. Desde que conheci a sua escassa obra publicada aprendi a distinguir entre aqueles que a conheciam e aqueles que não a conheciam como uma distinção fundamental na apreciação dos seres humanos de qualquer nacionalidade, credo, condição social, formação académica ou profissão. 
                    
    Embora fiquemos ainda mais sós sem ele, tenho a notícia pelo único jornal português que noticiou a sua morte de que nos deixou um livro inédito, sobre Portugal no Século XX. 
     A consternação em que a notícia da sua morte me deixou não me impede de, antes me impele a incitar os que trabalharam com a ele a prosseguir a sua obra e o seu exemplo. (Continuo, como vêem, mais do lado dos mortos, que se vão acumulando, que dos vivos - é o meu "museu imaginário", o meu "quarto verde" que se amplia.)

domingo, 23 de agosto de 2015

Mais vale tarde...

    Saiu há pouco "Os Filmes da Minha Vida", de François Truffaut (Lisboa: Orfeu Negro, 2015), que é um livro muito bom sobre cinema pois recolhe os artigos publicados pelo seu autor entre 1955 e 1974 (a data da edição original francesa é 1975, o que é mportante referir pois significa que foi organizado ainda por Truffaut, que morreu em 1984).
    Além de ter sido um dos nomes fundadores da nouvelle vague francesa, François Truffaut foi também, e antes de o ser, um apaixonado crítico de cinema com um gosto selectivo e muito apurado, o que este livro agora editado em português permite apreciar.
    Será especialmente estimulante tomar contacto com o pensamento vivaz sobre o cinema de alguém que conhecia bem a sua história, e outras histórias, e se exprimia de forma sincera e aberta, sem constrangimentos e com ideias claras. Ler o que ele escreveu sobre Jean Vigo, Jean Renoir, Carl Dreyer, Ernst Lubitsch, Chaplin, John Ford, Fritz Lang, Frank Capra, Howard Hawks, Sternberg ou Hitchcock; sobre Robert Aldrich, Sam Fuller, Kazan, Kubrick, Charles Laughton, Joseph Mankiewicz, Anthony Mann, Otto Preminger, Nicholas Ray, Douglas  Sirk, Edgar Ulmer ou Billy Wilder; sobre Jacques Becker, Robert Bresson, Clouzot, Cocteau, Max Ophuls, Jacques Tati, Bergman, Buñuel, Norman MacLaren, Fellini, Rossellini, Orson Welles, Humphrey Bogart ou James Dean; sobre Alain Resnais, Alexandre Astruc, Agnès Varda, Roger Vadim, Chabrol, Malle, Godard, Rivette, Jacques Rozier, Claude Berri, Gérard Blain, Sautet, Doillon ou André Bazin (que serviu de prefácio a uma recolha póstuma de textos seus, "Le cinéma de la cruauté" - Paris: Flammarion, 1987) é ainda hoje uma perfeita maravilha e uma excepcional lição de cinema, parte de um segredo  esquecido que seria muito bom que, mesmo se parcialmente, fosse passado aos mais novos.
     Para poder apreciar na sua totalidade o contributo de François Truffaut para o cinema foi muito importante a exposição que esteve na Cinemateca Francesa de 8 de Outubro de 2014 a 25 de Janeiro de 2015, que deu origem a um importante catálogo sob a direcção de Serge Toubiana (Paris: Flammarion/La Cinémathèque française, 2014). E se vos digo para lerem este livro do cineasta é sempre sem prejuízo de verem os filmes dos cineastas sobre os quais ele aí escreve, que devem ver, e também os filmes dele próprio, que devem evidentemente não se esquecer de ver também.
                                       livro                                
     Enquanto felicito novamente a editora por mais este excelente livro, permito-me complementar as escolhas de Truffaut para os seus artigos publicando abaixo uma lista dos 100 melhores filmes de sempre que elaborei para o centenário do cinema (sobre os 10 primeiros filmes desta lista ver "Aos meus amores", de 11 de Julho de 2012), que permanece inédita.
1. Aurora ("Sunrise: A Song of Two Humans"), de Friedrich W. Murnau (1927);
2. A Regra do Jogo ("La règle du jeu"), de Jean Renoir (1939); 
3. A Mulher Que Viveu Duas Vezes ("Vertigo"), de Alfred Hitchcock (1958); 
4. O Mundo a Seus Pés ("Citizen Kane"), de Orson Welles (1941);
5. Gertrud ("Gertrud"), de Carl Th. Dreyer (1964);
6. O Atalante ("L'Atalante"), de Jean Vigo (1934);
7. Os Contos da Lua Vaga ("Ugetsu Monogatari"), de Kenji Mizoguchi (1953);
8. A Terra ("Zemlia"), de Alexandr Dovjenko (1930);
9. Aves de Rapina ("Greed"), de Eric von Stroheim (1923-1925);
10. Libertação ("Paisà"), de Roberto Rossellini (1946);
11. A Desaparecida ("The Searchers"), de John Ford (1956);
12. Intolerância ("Intolerance"), de David W. Griffith (1916);
13. O Anjo Exterminador ("El angel exterminador"), de Luis Buñuel (1962);
14. Os Pássaros ("The Birds"), de Alfred Hitchcock (1963);
15. Viagem a Tóquio ("Tokio Monogatari"), de Yasujirô Ozu (1953);
16. Nosferatu, O Vampiro ("Nosferatu, eine Symphonie des Grauens"), de Friedrich W.
Murnau (1922);
17. Roma, Cidade Aberta ("Roma città aperta"), de Roberto Rossellini (1945);
18. The Saga of Anatahan, de Joseph von Sternberg (1953);
19. O Couraçado Potemkin ("Brenenósets Potiomkine"), de Sergei M. Eisenstein (1925);
20. Matou ("M"), de Fritz Lang (1931);
21. La ronde, de Max Ophuls (1950);
22. Ladrões de Bicicletas ("Ladri di biciclette"), de Vittorio De Sica (1948);
23. A Paixão de Joana d'Arc ("La passion de Jeanne d'Arc"), de Carl Th. Dreyer (1928);
24. Tabu ("Tabu: A Story of the South Seas"), de Friedrich W. Murnau (e Robert Flaherty) (1931);
25. Este Obscuro Objecto do Desejo ("Cet obscur objet du desir"), de Luis Buñuel (1977);
26. O Nascimento de uma Nação ("The Birth of a Nation"), de David W. Griffith (1915);
27. Metropolis ("Metropolis"), de Fritz Lang (1927);
28. O Quarto Mandamento ("The Magnificent Ambersons"), de Orson Welles (1942);
29. A Comédia e a Vida ("Le carrosse d'or"), de Jean Renoir (1952);
30. A Linha Geral ("Gueneralnaia Linia"), de Sergei M. Eisenstein (1926-1929);
31. A Palavra ("Ordet"), de Carl Th. Dreyer (1955);
32. O Intendente Sansho ("Sansho Dayu"), de Kenji Mizoguchi (1954);
33. O Último Ano em Marienbad ("L'année dernière à Marienbad"), de Alain Resnais (1961);
34. O Mundo de Apu ("Apur Sansar"), de Satyajit Ray (1959);
35. O Homem da Câmara de Filmar ("Tchelovek s Kinoapparatom"), de Dziga Vertov (1929);
36. Viagem a Itália ("Viaggio in Italia"), de Roberto Rossellini (1954);
37. Sentimento ("Senso"), de Luchino Visconti (1954);
38. A Máscara ("Persona"), de Ingmar Bergman (1966);
39. Sherlock Holmes Jr. ("Sherlock Junior"), de Buster Keaton (1924);
40. O Carteirista ("Pickpocket"), de Robert Bresson (1959);
41. Paraíso Infernal ("Only Angels Have Wings"), de Howard Hawks (1939);
42. As Duas Tormentas ("Way down East"), de David W: Griffith (1920);
43. Zvenigora ("Zvenigora"), de Alexandr Dovjenko (1928);
44. A Estrela Escondida ("Meghe Dhaka Tara"), de Ritwik Ghatak (1960);
45. A Casa e o Mundo ("Ghare Baire"), de Satyajit Ray (1984);
46. O Vento ("The Wind"), de Victor Sjöström (1928);
47. Alexandre Nevsky ("Alexandr Nevskii"), de Sergei M. Eisenstein (1938);
48. Duelo ao Sol ("Duel in the Sun"), de King Vidor (1946);
49. Johnny Guitar ("Johnny Guitar"), de Nicholas Ray (1954);
50. Serenata à Chuva ("Singin' in the Rain"), de Stanley Donen e Gene Kelly (1952);
                      
51. Pamplinas Maquinista ("The General"), de Buster Keaton (1926);
52. 2001: Odisseia no Espaço ("2001: A Space Odissey"), de Stanley Kubrick (1968);
53. Opinião Pública ("A Woman of Paris"), de Charles Chaplin (1923);
54. Aquela Loira ("Casque d'or"), de Jacques Becker (1952);
55. Ser ou Não Ser ("To Be or Not To Be"), de Ernst Lubitsch (1942);
56. A Paixão dos Fortes ("My darling Clementine"), de John Ford (1946);
57. Nanuk, o Esquimó ("Nanook of the North"), de Robert Flaherty (1922);
58. Morangos Silvestres ("Smulstronstallet"), de Ingmar Bergman (1957);
59. A Passageira ("Pasazerka"), de Andrzej Munk (1963);
60. Scarface, o Homem da Cicatriz ("Scarface, Shame of the Nation"), de Howard Hawks (1932);
61. Peregrinação Exemplar ("Au hasard Balthazar"), de Robert Bresson  (1966);
62. A Marca do Fogo ("The Cheat"), de Cecil B. De Mille (1915);
63. O Ditador ("The Great Dictator"), de Charles Chaplin (1940);
64. Os Amantes Crucificados ("Chikamatsu Monogatari"), de Kenji Mizoguchi (1954);
65. Corrupção ("The Big Heat"), de Fritz Lang (1953);
66. Lola ("Lola"), de Jacques Demy (1961);
67. Muriel ("Muriel ou Le temps d'un retour"), de Alain Resnais (1963);
68. Deus Sabe Quanto Amei ("Some Came Running"), de Vincente Minnelli (1958);
69. Vida Moderna ("Playtime"), de Jacques Tati (1967);
70. O Quarto Verde ("La chambre verte"), de François Truffaut (1978);
71. América, América ("America, America"), de Elia Kazan (1963);
72. Francisca, de Manoel de Oliveira (1981);
73. Ivan o Terrível ("Ivan Grosny"), de Sergei M. Eisenstein (1944-1946);
74. Nuvens Flutuantes ("Ukigumo"), de Mikio Naruse (1955);
75. Amarcord ("Amarcord"), de Federico Fellini (1973);
76. A Multidão ("The Crowd"), de King Vidor (1928);
77. O Homem do Oeste ("Man of the West"), de Anthony Mann (1958);
78. A Vítima do Medo ("Peeping Tom"), de Michael Powell (1960);
79. O Crepúsculo dos Deuses ("Sunset Boulevard"), de Billy Wilder (1950);
80. Laura ("Laura"), de Otto Preminger (1944);
81. Relíquia Macabra ("The Maltese Falcon"), de John Huston (1941);
82. A Condessa Descalça ("The Barefoot Countess"), de Joseph L. Mankiewicz (1954);
83. O Tesouro de Arne ("Herr Arnes Pengar"), de Mauritz Stiller (1919);
84. Rio Bravo ("Rio Bravo"), de Howard Hawks (1959);
85. Sete Mulheres ("Seven Women"), de John Ford (1966);
86. Intriga Internacional ("North by Northwest"), de Alfred Hitchcock (1959);
87. O Carro Fantasma ("Körkarlen"), de Victor Sjöström (1921);
88. A Hora Suprema ("The Seventh Heaven"), de Frank Borzage (1927);
89. O Último Refúgio ("High Sierra"), de Raoul Walsh (1941);
90. A Aventura ("L'Avventura"), de Michelangelo Antonioni (1960);
91. Andrei Rubliev ("Andrey Rublyov"), de Andrei Tarkovski (1966);
92. António das Mortes, de Glauber Rocha (1969); 
93. A Floresta Interdita ("Wind Across the Everglades"), de Nicholas Ray (1958);
94. A Noiva de Frankenstein ("The Bride of Frankenstein"), de James Whale (1935);
95. O Gosto do Saké ("Samma No Aji"), de Yasujirô Ozu (1962);
96. O Leopardo ("Il Gattopardo"), de Luchino Visconti (1963);
97. Le trou, de Jacques Becker (1960);
98. O Silêncio ("Tystnaden"), de Ingmar Bergman (1963);
99. O Desprezo ("Le mépris"), de Jean-Luc Godard (1963);
100. O Prazer ("Le Plaisir"), de Max Ophuls (1952). 
Além desta fiz na mesma ocasião mais duas listas de 100 melhores filmes a seguir a estes, em que surgem já cineastas mais recentes, a partir dos anos 70 e da Nova Hollywood, a que vos poupo porque significa um total de 300 filmes. E não tendo por agora tempo para actualizar uma escolha para os 120 anos do cinema, que seria certamente diferente desta como fiz aqui há poucos anos para os dez primeiros (ver "O melhor de sempre", de 31 de Dezembro de 2012), deixo-vos pelo menos mais alguns elementos de reflexão para a vossa abordagem do cinema.  

Saber sempre

    A austríaca Barbara Albert é apenas conhecida entre nós como co-produtora de alguns filmes, de que se destaca "O Pesdelo de Darwin"/"Darwin's Nightmare", de Hubert Sauper (2004), apesar de já ter realizado sete longas-metragens de ficção - a primeira, "Der andern eine Grube gräbt" (1991), a mais recente "Die Lebenden"/"Les vivants" (2012), que esta semana passou no Arte - um documentário e quatro curtas.
   Com argumento e produção, além da realização, seus, "Die Lebenden" narra uma história de memória, do passado de um homem que durante a II Guerra Mundial integrou as SS em Auschwitz, Gerhard Weiss/Hanns Schuschnig, que a sua neta, Sita/Anna Fischer, de 25 anos, não conhecia e vai justamente tentar averiguar.  
                     Die Lebenden : Bild
    Numa altura em que o jornal Público está a publicar uma série de importantes documentários sobre a II Grande Guerra e o Holocausto na passagem de 70 anos sobre o seu termo, que vivamente aconselho, torna-se muito interessante ver como o filme de ficção pode agarrar ainda na mesma questão com um trabalho fílmica e narrativamente muito bom.
    Com o aparecimento do primo do seu pai, Michael Weiss/Winfried Glatzeder, a permitir assistir às gravações que ele próprio fez do seu avô, depois da morte deste Sita acede até ao fim ao desvelar do seu segredo até então oculto e que apenas por documentos escritos e fotográficos chegara a conhecer. Coloca-se-lhe, então, a questão de como julgá-lo, sobretudo depois do encontro em Auschwitz com a filha de uma resistente deportada, uma questão que se transfere para o espectador.  
                   
     De princípio a fim que a vida de Sita se desenvolve sentimentalmente e evolui também ao sabor das deslocações que faz pela Europa, em que acaba por deparar com as questões do presente ao vivo. E em termos de tal felicidade este presente se desenvolve que não deixa de referir momentos cruciais da Europa dos últmos 40 anos, não se dispensa da doença cardíaca que surge na protagonista  e a coloca no final perante a opção do seu futuro.
    De resto a realização é muito boa, com uma montagem segura e animada, uma fotografia a cores muito boa, música contemporânea e excelentes intérpretes. Mas o que fica é a ideia excelente que resulta do filme no seu todo, em que os vivos têm de conviver com os mortos, o presente com o passado.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Exposição única

     A exposição "António Cruz 1907-1983" que está na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, até ao próximo dia 18 de Outubro, é uma ocasião única e imperdível de conhecer um grande artista português que a coincidência espacial e temporal fez com que tivesse sido o protagonista não acidental de um filme mítico, "O Pintor e a Cidade", de Manoel de Oliveira (1956).
      Grande pintor de aguarela do Século XX português, na tradição do romantismo internacional contra o moderno e o modernismo português, António Cruz é um grande artista invisível pois os seu quadros que resistiram à devastação da sua obra se encontram todos em colecções particulares, o que torna esta exposição uma ocasião única para todos de ficarem a conhecê-la no que dela restou. 
                                  Fotografia de António Cruz
       Resguardado na sua modéstia e na sua falta de vedetismo, muito bem o pintor deixou na sua obra o testemunho exuberante de uma vida dedicada à pintura, que honrou com uma dignidade e um brio inigualáveis. Especialmente a cidade do Porto aí encontra a sua imagem fiel e comovente, em quadros que a documentam num tempo que foi também o de Manoel de Oliveira.
      Promovida pela Árvore - Cooperativa de Actividades Artísticas, C. R. L., e comissariada por Laura Soutinho, esta é provavelmente a melhor exposição do ano em Portugal. O que precisam de saber sobre o artista está em "Um desenho de luz", o prefácio luminoso de Bernardo Pinto de Almeida do catálogo respectivo, que reproduz mais quadros dele do que os expostos. 
       Não tendo conhecido pessoalmente António Cruz, o que lamento, não quero neste momento de uma exposição única deixar de referir que fui professor de uma bisneta sua, Luísa Mesquita Cruz, que daqui saúdo afectuosamente. In memoriam memoriae.