“Um não sei quê, que nasce não sei onde,/Vem não sei como, e dói não sei porquê.” Luís de Camões

"Na dor lida sentem bem,/Não as duas que êle teve,/Mas só a que êles não têm." Fernando Pessoa

"Lividos astros,/Soidões lacustres.../Lemes e mastros.../E os alabastros/Dos balaustres!" Camilo Pessanha

"E eu estou feliz ainda./Mas faz-se tarde/e sei que é tempo de continuar." Helder Macedo

"Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos..." Camilo Pessanha

“Vem, vagamente,/Vem, levemente,/Vem sozinha, solene, com as mãos caídas/Ao teu lado, vem” Álvaro de Campos

"Chove nela graça tanta/que dá graça à fermosura;/vai fermosa, e não segura." Luís de Camões

sábado, 12 de setembro de 2015

Entre o temor e o amor

   "A Vingança de Michael Koolhaas"/"Michael Kohlhaas", de Arnaud des Pallières (2013), é o primeiro filme desta cineasta francês a estrear entre nós e, portanto, o seu primeiro filme que conheço.
   Embora baseado na mesma novela de Heinrich von Kleist, não se trata propriamente de um remake de "Michael Kohlhaast, O Rebelde"/"Michael Koolhaas - Der Rebell" de Volker Schlöndorff (1969) mas de uma nova leitura do mesmo texto, sem deixar nada a dever à anterior.
                      Michael Kohlhaas - Justiça e Honra : Foto David Kross, Mads Mikkelsen
   Num ambiente muito bem reconstituído, o protagonista/Mads Mikkelsen debate-se com a sua revolta, transformada em revolta camponesa, contra a injustiça da aristocracia dominante, não por causa da não devolução de dois cavalos negros nem por causa da morte da sua mulher e mãe da sua filha, Judith/Delphine Chuillot, como ele explica a esta, Lisbeth/Mélusine Mayance, mas porque...
    Em contexto de época muito bem reconstituída e com excelentes interpretações, com recurso regular e judicioso ao grande-plano e ao plano de pormenor em contraste com planos gerais o cineasta não desdanha os diálogos, neste caso essenciais, em que avultam os que Kohlhaas trava com a filha, com o Pastor/Denis Lavant e com a Princesa/Roxane Duran, este último com o precioso esclarecimeno de que ele se debate entre o amor dos que o seguem e o temor dos inimigos.  
                      Mads Mikkelsen. © Les Films du Losange
    O tom de tragédia do texto kleistiano é respeitado e o abismar-se do protagoniata perante o seu destino ainda hoje, apesar da ausência sistemática de individualiazação suficiente dos seus seguidires, na realização de Arnaud des Pallières nos comove. E aqui é preciso ler no rosto de Michael Kohlhass e de Lisbeth, a sua filha, o enigma deste filme.
     "A Vingança de Michael Kohlhass" é, pois, um filme muito bom, que revela um cineasta que vale a pena conhecer.

Uma ficção australiana

     Foi desta maneira seca que o Arte apresentou ontem "Mes garçons sont de retour"/"The Boys Are Back", de Scott Hicks (2009), um melodrama exemplar baseado em factos reais. Sobretudo conhecido por "Simplesmente Genial"/"Shine" (1996) e "A Neve Caindo Sobre os Cedros"/"Snow Falling on Cedars" (1999), o cineasta desenvolve neste filme mais recente um trabalho dramático e cinematográfico muito bom, que volta a chamar a atenção para o seu nome pelas melhores razões.
                    
       De facto, com uma narrativa dilatada no tempo baseada na relação entre um pai, o jornalista desportivo Joe Warr/Clive Owen, e os seus filhos depois da morte da mãe da sua filha mais nova, Katy/Laura Fraser, o filme tem um desenvolvimento dramático sereno, em que avultam o aparecimento recorrente da mãe morta e a relação difícil de Joe com o filho mais velho, de uma mãe diferente, Artie/Nicholas McAnulty, o que uma montagem tensa, baseada em planos curtos, por vezes no limite do vídeo-clip, contraria, instaurando um novo dramatismo onde ele parece quase afastado.
     Além disso, ao tratar de problemas de famílias modernas, transversais (e neste caso monoparental), Scott Hicks faz, em termos de realização cinematográfica, o "cerco" ao seu actor principal, Clive Owen, que aqui mostra todo o seu talento com sobriedade física e expressividade fisionómica, mostrando ser um actor perfeitamente à altura dos papéis mais exigentes.
                     https://blackboxblue.files.wordpress.com/2010/09/the-boys-are-back-16.jpg
        Com o desporto australiano (natação, ténis) muito bem incluído na televisão, na sombra física da presença fantomática de Katy paira o fantasma de "Rebecca", de Daphne Du Maurier e Alfred Hitchcock (1940), tanto mais significativo quanto no final, depois de uma separação rápida entre pai e filho e uma vez recuperado este em duas cenas muito bem encenadas, ela aconselha a Joe que compre um descapotável, com o qual ele desaparece no final, acompanhado pelos filhos, no flanco da montanha - como num filme de Abbas Kiarostami que segue princípios técnicos e estéticos opostos aos deste, embora trate no fundo de questões semelhantes.
         Não vi na estreia - chamou-se em português "Só Eles" -, vi agora e gostei, eu que, sempre nos antípodas de tudo isto, gosto do cinema australiano (ver "Um regresso significativo", de 18 de Novembro de 2012) e da televisão australiana (ver "A Austrália, evidentemente", de 29 de Setembro de 2013) e não aprecio em especial o melodrama como género cinematográfico.

sábado, 5 de setembro de 2015

Adaptação livre

    Passou ontem no Arte "Três Irmãs"/"Les trois soeurs", de Valeria Bruni Tedeschi (2015), adaptação livre da peça homónima de Anton Tchékhov feita pela realizadora, Noémie Lvovsky e Caroline Leruas e com interpretação de actores e actrizes da Comédie-Française.
                     http://backoffice.telecablesat.fr/business/img/photos/biz/news/trois_soeurs2.jpg
     Feito embora para televisão, o filme nada perde graças à excelente adaptação, às grandes interpretações e a uma realização inteligente, que deixa a câmara perder-se e divagar entre aquele punhado de personagens, seguindo-as e deixando-as para frequentemente deixar quem fala fora de campo, num filme todo ele construído sobre esta figura da linguagem cinematográfica.
     Tenho em grande apreço Valeria Bruni Tedeschi como actriz e como realizadora de cinema ("É Mais Fácil Um Camelo..."/"Il est plus facile pour un chameau...", 2003, "Actrizes"/"Actrices", 2007, "Um Castelo em Itália",/"Un château en Italie", 2013), qualidade esta em que ela aqui volta a mostrar todos os seu dotes de uma forma superior com um material narrativo superior.
                     http://cdn3-elle.ladmedia.fr/var/plain_site/storage/images/loisirs/television/on-ne-rate-pas-les-trois-soeurs-de-valeria-bruni-tedeschi-2979963/55969273-1-fre-FR/On-ne-rate-pas-Les-Trois-soeurs-de-Valeria-Bruni-Tedeschi.jpg
      Paradas num tempo indeciso, entre o final do Século XIX e o início do XX, as personagens de "Três Irmãs" desenvolvem no espaço de uma mansão de província uma teia cerrada de relações com diálogos fabulosos em que as palavras breves falam tanto como os grandes arroubos dramáticos, de forma a nunca juntar o que se aproxima e ir afastando o que estava próximo, com inevitável insatisfação e perspectiva de solidão revelando a modernidade do texto. 
      A justa inclusão da máquina de projectar do cinema, do ecrã e de filmes, um dispositivo muito bem utilizado visual e narrativamente, e um curto filme de Georges Méliès no final valorizam este grande filme. (Anton Tchékhov está publicado em português pela Relógio D'Água.)

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Um caso muito sério - 1

     O primeiro volume de "As Mil e Uma Noites", de Miguel Gomes (2015), intitulado "O Inquieto", introduz-nos numa saga de que não conheço ainda os dois volumes seguintes. Perplexo e expectante perante a vastidão do projecto, apesar do bom cruzamento entre documentário e ficção, já utilizado pelo autor em "Aquele Querido Mês de Agosto" (2008), este início deixa-me também apreensivo e insatisfeito, o que me leva a colocar-lhe algumas questões.
     Embora a introdução do cineasta em fuga seja muito boa e fundamental para entender o que se segue, filmar portugueses em crise durante o auge dela surge como um projecto generoso mas com o seu quê de diletante: porquê aqueles e não outros? sobretudo porquê aflorar questões avulsas sem aprofundar nenhuma delas? porquê um retrato tão inócuo dos governantes e outros responsáveis - embora eu reconheça que a caricatura que deles traça se destina a tornar-se compreensível para o comum dos espectadores? 
    As questões podiam suceder-se, pois o tom de encantamento que percorre este primeiro volume de "As Mil e Uma Noites" não ilude que há naquele material pontas de iceberg que interessaria trazer à superfície mesmo que em muito menos tempo que o total deste primeiro volume, o que o realizador, também argumentista com Telmo Churro e Mariana Ricardo, porque não é ingénuo sabe e faz com que fiquem como alertas para os espectadores e outros cineastas portugueses eventualmente interessados.
                    Miguel Gomes entre o vivido e o imaginado
        Mas o projecto de Miguel Gomes não foi esse, antes o de apresentar apesar de tudo uma imagem aceitável, diria mesmo patriótica do país e uma imagem ainda mais melhorada de si próprio como cineasta, para consumo interno e sobretudo externo - propósito legítimo, a que nada tenho a objectar e que, pelo que tenho podido apreciar, parece ter sido atingido, e ainda bem.
       Colocadas liminarmente estas objecções, o filme em si mesmo desenrola-se em termos acessíveis e com algum encanto que a fantasia ajuda a estabelecer, em que o episódio menor dos políticos e afins, na sua malícia a traço grosso mais eficiente, se integra bem. Ali está gente que foi explorada toda a vida e no momento das filmagens, 2013-2014, mais o foi ainda, ali está gente que sofreu, lutou, se debateu, e a amostra escolhida revela-se significativa. Uma vez introduzido o registo de Sherazade havia lugar para isso e para muito mais, para o que teremos que esperar pelos filmes seguintes da trilogia. 
        Não se nega, pois, antes se reconhece a este primeiro volume de "As Mil e Uma Noites" o mérito de dar rostos e vozes à crise, tirando-a do espaço quase abstracto para que o discurso político e a comunicção social a remeteram. Se esse era o objectivo principal é muito louvável e plenamente atingido, com dignidade e um enquadramento que o torna compreensível, num tom que chega a todos, o que no caso se impunha - também com a participação de grandes actores, como Adriano Luz, Rogério Samora, Maria Rueff, Diogo Dória. 
                   
      Mas no seu todo este "Volume 1, O Inquieto" deixa tudo como estava: não belisca seriamente ninguém ao nível que seria exigível (o que também permite compreender o unanimismo estabelecido a seu respeito), é superficial e mundano ("já viste o último filme do Miguel Gomes?"), o que se compreende e não lhe fica mal.      
     Agora deixar de fora ou definir por exclusão de partes os responsáveis pela crise parece-me leviandade, não usar de uma maior malícia uma oportunidade também ela perdida - o tom de encantamento estabelecido esquece a malandragem que impunemente há muito parasita e encrava o sistema de que se alimenta, sem assumir o tom abertamente malicioso que, por exemplo, João César Monteiro, que contudo penso teria apreciado pelo menos "a beleza do gesto", tinha, mas revelando-se devedor dele: tudo é fruto da imaginação de um cineasta em fuga. Mas esperemos pelos filmes seguintes.
                   Quando o cinema fala do nosso aqui e agora
       Evidentemente que aconselho sem restrições este filme e reservo a minha opinião final para o seu todo, quando o tiver visto: "Volume 2, O Desolado"; "Volume 3, O Encantado". Às minhas objecções supra poderá dar-se a resposta de que "o que é preciso animar a malta" e perante ela eu posso concordar que esse é um objectivo atingido por este "O Inquieto" - em excesso mesmo, com multidão, bandeira e hino no final. 
       Apesar de tudo mantenho a confiança - no filme no seu todo, entenda-se - porque o seu autor é um cineasta em crescimento, não apaziguado e inventivo, com muito boas provas dadas e que não se deixa abater (sobre Miguel Gomes ver "Festas de Verão", de 15 de Janeiro de 2012, e "Amores perfeitos", de 29 de Abril de 2012).     

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Poética de Wes Craven

      Autor de filmes de terror de Série B que o tornaram uma referência no cinema da Nova Hollywood, Wes Craven (1939-2015), que hoje nos deixou, deixa um lugar definido por preencher na história do cinema.
                                  
     Com os diferentes episódios de "Pesadelo em Elm Street"/"A Nightmare on Elm Street", que também escreveu, a partir de 1984 e os de "Gritos"/Scream" a partir de 1996, Craven impôs um novo modelo de filme de terror que excede a herança de clássicos e modernos do cinema para situar numa exacerbação narrativa de métodos e processos visuais e sonoros um género em que foi incomparável e se tornou paradigmático.  
     O seu estilo de Série B ressuscitada em novos termos foi muito importante e de tal modo influente que deu origem a séries televisivas e jogos de vídeo. O seu maior mérito foi confrontar os espectadores com os seus maiores terrores, o medo radical do outro, em filmes marcados por uma elegância de estilo que foi própria dos grandes mestres da fórmula nos seus inícios (Jacques Tourneur, Anthony Mann).
                     
       A sua foi uma poética do filme de terror da Série B, superlativamente aterrorizador  na sua soberba, superior mestria técnica e estética ao confrontar-nos com a aproximação, a iminência do outro como ameaça mortal. A máscara de Freddy Krueger e os gritos dos filmes com o mesmo nome continuam a assombrar a nossa memória como o trabalho da morte - a morte em trabalho. 
      Continuar a ver os filmes de Wes Craven, todos os seus filmes, mesmo os que, como "Melodia do Coração"/"Music of the Heart" (1999), não são filmes de terror, é a melhor homenagem que se lhe pode prestar - os seus últimos filmes foram "A Sétima Alma"/"My Soul to Take" (2010) e "Gritos 4"/"Scream 4" (2011). Para conhecermos bem uma parte significativa do melhor do cinema contemporãneo e continuarmos a aprender com ele a não ter medo do medo.

O início da saga

     Baseada em novelas e personagens de Veronica Roth, a saga de ficção-científica distópica começou com "Divergente"/"Divergent", de Neil Burger (2014), que, atrasado como me costuma acontecer, só agora consegui ver, numa altura em que já se estreou o segundo filme, "Insurgente/"Insurgent" (2015), realizado por Robert Schwentke, e se prepara o terceiro, dividido em duas partes, com o mesmo realizador do anterior, "Convergente"/"Convergent".
    Sabe-se como a ficção-científica foi, além da animação, o género cinematográfico mais beneficiado pela revolução digital no cinema, para o que já "2001: Odisseia no Espaço"/"2001: A Space Odyssey", de Stanley Kubrick (1968) apontava e "Blade Runner: Perigo Iminente"/"Blade Runner", de Ridley Scott (1982), além da saga "A Guerra das Estrelas"/"Star Wars", de George Lucas, confirmara. Sabe-se também como, em termos cinematográficos, a ideia de distopia é mais apelativa do que a de utopia.  
                     
    Com argumento de Evan Daugherty e Vanessa Taylor, "Divergente" lança esta saga no cinema de forma inteiramente convincente, com a proposta de uma sociedade dividida em facções só a nível dos seus dirigentes, uma divisão relativamente à qual a protagonista, Tris/Shailene Woodley, porque inclassificável funciona como divergente. Apesar dos lugares comuns, como "apanhar o comboio" ou "atirar-se de cabeça", mas integrando-os bem, as ideias de retirar o livre-arbítrio para garantir obediência total e dos maiores medos de cada um na prova final de iniciação, que cada um tem de ultrapassar com base na própria facção a que pertence, a contraposição das alturas e das profundidades ou as tatuagens que contam uma história são muito bem exploradas.
     Narrativamente paira sobre este "Divergente" a manipulação por manipuladores invisíveis, mas a credibilidade de um pós-humano passa pela permanência do ainda humano em Tris e em Four/Theo James. E esta é a parte fundamental, ainda que subliminar de um filme que se resolve entre grupos, facções diferentes, cada uma delas sujeita às suas próprias regras de comportamento: só passa à fase seguinte, se impõe e triunfa quem consegue, na multiplicidade instalada, permanecer humano, um ser humano reconhecível e reconhecente - condição necessária nem sempre suficiente.
                       Divergente 5
     Mas é nas interpretações notáveis de justeza - além dos mencionados Ashley Judd como Natalie, Jai Courtney como Eric, Zoë Kravitz como Christina, Kate Winslet como Jeanine nomeadamente - que assenta o sucesso deste filme, um sucesso de que a música de Junkie XL faz parte integrante. Muito importante também, decisivo mesmo, é o filme ter sido rodado em Chicago, que funciona muito bem como cenárrio primário sobre o qual se abatem os efeitos digitais, como Ridley Scott fizera em "Blade Runner: Perigo Iminente" relativamente a Los Angeles.
      Num momento em que se vive a nível planetário uma hipótese distópica, com fomes, guerras, terrorismo, a tragédia dos refugiados, catástrofes provocadas por mão humana, intotolerância, violência indiscriminada em expansão, é saudável e muito oportuna uma saga que se apresenta como ficção-científica e nos desafia nos nossos maiores pesadelos presentes: tudo pode ainda piorar.  Aconselho sem restrições, pois tornou-se uma saga de referência no cinema de ficção-científica que, sob o rótulo de adolescente, é verdadeiramente para todas as idades. (Veronica Roth está publicada em português pela Porto Editora.)  

sábado, 29 de agosto de 2015

Para o ano, à mesma hora

     Soube-se pelo jornal Público de hoje que o Cinema Ideal, em Lisboa, reaberto há um ano, poderá não cumprir um segundo ano de existência. O aviso soa, na voz de Pedro Borges, director da Midas Filmes, responsável pela sua programação, como um alarme.
    A mais antiga sala de cinema da capital foi integralmente recuperada com projecto do arquitecto José Neves, Prémio Secil de Arquitectura 2012, e tem apresentado desde a sua reabertura a melhor programação de cinema, português e internacional, a que pudemos assistir no último ano em condições incomparáveis. Com a sua história muito bem contada por Maria do Carmo Piçarra em "O Cinema Ideal e a Casa da Imprensa - 110 Anos de Filmes" (Lisboa: Guerra & Paz, 2014), é a única sala actualmente existente no centro da cidade, com acessos fantásticos num quadro urbano ele também histórico.
                    festa do cinema
    Não foi de maneira nenhuma indiferente o primeiro ano de existência do reaberto Cinema Ideal, com uma programação muito boa em exclusivo ou não, fazendo-nos lembrar que o cinema não é só o filme, que hoje podemos ver em qualquer outro local, ecrã ou suporte, mas as condições em que a ele assistimos, o que não é uma evidência para todos neste tempo de shoppings, internet e crescimento desmesurado dos subúrbios.   
   É absolutamente indispensável que todos nós frequentemos o Cinema Ideal sempre que possível e de preferência a outros espaços que eventualmente apresentem os mesmos filmes, tanto mais quanto aí passam pelo menos dois filmes diferentes (por vezes quatro ou cinco) por dia, sempre filmes de referência e em horários diversificados. E aproveitem a ida ao cinema para passear, ir a livrarias, cafés e restaurantes, lojas e outras salas de espectáculos que na zona abundam (mesmo ao lado a Fyodor Books, agora com cafetaria), porque a vida não é só cinema nem é um filme.
                    Cinema Ideal
     De todos nós - e também de todas as entidades a ele ligadas, que devem aqui como noutros sectores cumprir a sua função cultural - depende o futuro desta sala. Vamos, pois, todos ao Cinema Ideal, agora em especial na comemoração do seu 1º aniversário, a que me associo, e apoiemos pelo menos dessa maneira a continuação da sua existência como sala de referência. 

     Nota 
     Para o enquadramento e outros desenvolvimentos desta questão, que é muito importante, cf. "Os Cinemas de Lisboa - Um fenómeno urbano do século XX", de Margarida Acciaiuoli (Lisboa: Bizâncio, 2012).