“Um não sei quê, que nasce não sei onde,/Vem não sei como, e dói não sei porquê.” Luís de Camões

"Na dor lida sentem bem,/Não as duas que êle teve,/Mas só a que êles não têm." Fernando Pessoa

"Lividos astros,/Soidões lacustres.../Lemes e mastros.../E os alabastros/Dos balaustres!" Camilo Pessanha

"E eu estou feliz ainda./Mas faz-se tarde/e sei que é tempo de continuar." Helder Macedo

"Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos..." Camilo Pessanha

“Vem, vagamente,/Vem, levemente,/Vem sozinha, solene, com as mãos caídas/Ao teu lado, vem” Álvaro de Campos

"Chove nela graça tanta/que dá graça à fermosura;/vai fermosa, e não segura." Luís de Camões

sábado, 10 de outubro de 2015

Sem palavras

   Fico sempre sem palavras quando morre alguém de entre os que mais amo. Voltou a acontecer-me agora com a notícia da morte inesperada da cineasta belga Chantal Akerman (1950-2015).
    Penso conhecer a quase totalidade da sua obra, uma das mais importantes do cinema dos últimos 50 anos e, para mim, a mais importante de uma mulher-cineasta. 
                    
    Ligava-me a ela ter visto o fundamental "Jeanne Dielman: 23, Quai du Commerce: 1080 Bruxelles" (1975), um dos filmes mais importantes e influentes do primeiro século do cinema. A partir daí passei a acompanhar todos os seus filmes em festivais de cinema, em distribuição comercial ou na televisão. Sem ter gostado especialmente de "Um Divã em Nova Iorque"/"Un divan à New York" (1996) ou "Amanhã Mudamos de Casa"/"Demain on déménage" (2004), no entanto dois filmes muito bons, apreciei o seu regresso a um tom mais pessoal nos seus outros filmes, em que insistiu sempre e mesmo nesses dois filmes mais "comerciais", e por isso mais conhecidos, estava presente.
     Depois de "Jeanne Dielman", entre "Os Encontros de Anna"/"Les rendez-vous d'Anna" (1978), "Toute une nuit" (1982), "Golden Eighties"  (1986), "Letters Home" (1986), "Histoires d'Amérique" (1989), "Nuit et jour" (1991) e "A Cativa"/"La captive" (2000) Chantal Akerman construiu o melhor, que foi também o mais pessoal, da sua obra, .
                    
   Mas os seus documentários foram também sempre excepcionais - "D'Est" (1993), "Sud" (1999), "De l'autre côté" (2002), "Là-bas" (2006), nomeadamente - e a sua passagem para a vídeo-instalação, que reforçou o seu estatuto de grande artista visual, um sucesso que pude acompanhar. Aí ela pôde, sem peias narrativas, prosseguir a estética do plano fixo e longo, aberto ao espaço mas também ao tempo, que em "Jeanne Dielman" inaugurara de forma superior, sem dela fazer questão quando não lhe interessava. Fiel à sua ascendência judaica, debruçou-se em alguns dos seus filmes sobre os locais e épocas mais controversos. Praticou também a curta-metragem, em que se iniciou em 1968, e o filme para televisão. 
    Chaltal Akerman foi, com Jean Eustache (1938-1981) e Philippe Garrel, dos últimos e melhores modernos do cinema europeu, surgidos a seguir à eclosão da nouvelle vague francesa e na mesma onda. Como com eles aconteceu, assumir a subjectividade da criação cinematográfica foi para ela absolutamente de rigor. (Sobre Chantal Akerman, ver "Obsessões", de 27 de Fevereiro de 2012, "Instalações em diálogo", de 26 de Outubro de 2012, e "O sopro das origens", de 24 de Outubro de 2014.)

sábado, 3 de outubro de 2015

O coleccionador

     Na retrospectiva integral de Jacques Tati (1907-1982) que a Medeia Filmes promoveu este Verão, uma iniciativa muito importante ao nível de outras sobre grandes nomes da história do cinema realizadas em anos anteriores, dos poucos filmes do grande cineasta e actor francês limitei-me a assistir à sessão que reúne as suas curtas-metragens iniciais a preto e branco, interpretadas por si em filmes que, salvo num caso, não dirigiu, e duas outras mais recentes, já a cores, feitas com a sua filha Sophie Tatischeff (1946-2001).
      Mesmo que já tivesse podido ver um ou outro desses filmes iniciais em sessões desgarradas da Cinemateca Portuguesa, foi agora que pude olhar para eles no sentido que fazem ao esboçarem, já com o cinema sonoro, a figura e os filmes com Monsieur Hulot, que marcaram uma época e anteciparam a nouvelle vague francesa, que influenciaram.
                      
     É muito curioso não só observar os movimentos desajeitados do alto e magro jovem Tati, que procuram, ainda no escuro, uma outra coisa que só com o tempo se viria a definir em figura física, inocente e ingénua mas observadora, perturbadora e reveladora, como verificar mesmo breves momentos em que são esboçados, de forma incipente, gags que viriam a ser desenvolvidos pelo cineasta nas suas longas-metragens. 
     De resto, são patentes as influências dispersas dos que o tinham precedido no burlesco mudo: Max Linder, sobretudo Chaplin mas também Buster Keaton. As curtas-metragens iniciais com Jacques Tati são "Procura-se Brutamontes"/"On Demande une brute", de Charles Barrois (1934), "Domingo Animado"/"Gai Dimanche", de Jacques Berr (1935), em ambos dos quais ele contracena com o palhaço Rhum, "Cuida do teu Gancho Esquerdo"/"Soigne ton gauche" (1936), de René Clément, e "A Escola dos Carteiros"/"L'École des facteurs", já realizado por ele próprio (1946).
                      L'Ecole des facteurs : Photo Jacques Tati
      No final desta sessão o documentário de circunstância "Força, Bastia"/"Forza Bastia", de Jacques Tati e Sophie Tatischeff (1978), e "Especialidade da casa"/"Dégustation maison", de Sophie Tatischeff (1976), que recorda de modo breve, em interior familiar e em exterior, o universo do grande Jacques. 
        De Jacques Tati interessa ainda "O Mágico"/"L'illusionniste", de Sylvain Chomet (2010), filme de animação baseado em argumento original seu. Sempre que posso, como um coleccionador vejo todos os filmes dos cineastas que amo. E falo disto agora porque ainda vão a tempo de ver, em versões digitais restauradas, os filmes todos que passam neste ciclo dedicado a um nome maior do cinema.

Sobre o fado

    O mais recente documentário de Bruno de Almeida, que já tinha feito "Amália - Uma Estranha Forma de Vida" em vídeo (1995) e "A Arte de Amália" (2000), volta a dedicar-se ao fado, desta feita sobre aquele que é provavelmente o melhor e mais conhecido fadista da actualidade em "Fado Camané" (2014).
    Ao filmar e ouvir o fadista durante os ensaios para a gravação de um novo álbum, "Sempre de Mim", o filme de Bruno de Almeida acompanha-o enquanto, sob a direcção de José Mário Branco, vai buscando e encontrando progressivos aperfeiçoamentos das suas interpretações tendo em vista os ritmos e as vocalizações perfeitos da sua voz, seguindo a música tocada por Carlos Bica e o seu grupo mas também cada poema.
    Sem ser um apreciador do fado, posso admirá-lo quando interpretado a este nível, com perfeita articulação das palavras por uma voz pujante e própria, como neste caso acontece. Sem nunca dar um fado completo, filmando excertos o cineasta intercala-os com os diálogos do fadista com o director musical, com os músicos e com Manuela de Freitas, autora de poemas para fado, mas também com a entrevista feita a Camané por um interlocutor presente na imagem.
                      
     A preto e branco e sem sair do interior do estúdio de gravação, apoiado no grande-plano e na montagem dinâmica "Fado Camané" é um filme de grande expressividade e afecto sem cair no vídeo-clip, um filme equilibrado, quase perfeito, em que são ditas coisas fundamentais sobre o fado e sobre o próprio fadista num tom descontraído, de proximidade.
     Enquanto saúdo este filme muito bom e bem vindo, aproveito para felicitar José Mário Branco pela atribuição este ano do prémio Carlos Paredes pelo 5º festival bienal Cantar Abril, uma distinção que muito justamente liga dois nomes fundamentais da música popular portuguesa.
      (Sobre Bruno de Almeida ver "A verdadeira história", de 21 de Agosto de 2014.)

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Um caso muito sério - 2

    O segundo volume da "As Mil e Uma Noites" de Miguel Gomes, "O Desolado" esclarece melhor o filme que, no seu volume primeiro, "O Inquieto", vagabundeava entre o documentário e a ficção, sempre a partir de notícias da imprensa da época, entre 2013 e 2014, em Portugal, como se sabe porque o cineasta não se tem cansado de o dizer e repetir.
    Menos ligado a uma realidade documental, que nele só vagamente está presente, "O Desolado" constrói nas suas três partes uma realidade mais real do que a própria realidade, valendo-se da ficcionalização para mais expeditamente dar conta do que está em causa: um país em crise. E de forma de tal maneira feliz o consegue que o que nos apresenta é (acaba por ser) a crise permanente de um país que sem ela não se reconhece. 
                    "As Mil e uma Noites" (2015)_3
    O primeiro espisódio, dito de "Simão Sem Tripas", resolve-se com um homem solitário e a monte que transporta consigo a queixa generalizada dos portugueses de só arranjar mulheres que lhe dão cabo do juízo. O actor, Chico Chapas, é um achado e todo o episódio flui em espaço aberto, a montanha, e em tempo dilatado, cinematograficamente justo. 
    O segundo episódio, "As Lágrimas da Juíza", desenvolve-o muito bem ao esclarecer sobre o excesso de sentido que da falta dele resulta numa sucessão de deixas patéticas e aparentemente desligadas que, no grotesco agridoce das suas personagens, na sua falta de sentido constroem, num espaço fechado de anfiteatro ao ar livre, simultaneamente tribunal e teatro, um sentido maior a partir de dados imediatos da realidade - delicioso o "detector de mentiras" de Manuel Mozos. 
    O terceiro episódio, "Os Donos de Dixie", remete-nos para o subúrbio em que todos vivemos, entre vizinhanças que se desconhecem, problemas que se partilham, desesperos e imagens dúplices da realidade. A banalização da crise surge-nos, assim, como a crise banal de um país banal que no seu quotidiano se debate e tenta transcender-se sobrevivendo a todo o custo. 
                     "As Mil e Uma Noites, Volume 2: O Desolado" vai representar Portugal nos Oscars 2016
       Neste "O Desejado" pode estar, pois, o mais esclaredor e melhor desenvolvido de "As Mil e Uma Noites", de cujo projecto de facto não fazem senão marginalmente parte o documentário ou falar das causas e dos responsáveis da crise mas desta em vias de se desenrolar em nossa volta, connosco incluídos. Com um muito bom tratamento do plano e do fora de campo e um entendimento sagaz do tempo, este segundo volume constrói-se sobre narrativas múltiplas, três, cada uma das quais se vai subdividindo em outras, mais breves micro-narrativas.
       Se o cinema devia uma resposta à famigerada crise ela está em "As Mil e Uma Noites" de Miguel Gomes ao falar do absurdo que se agrava com ela num país de gente rude e complicada que, sem ser má, no seu orgulho é muito dada ao contrasenso, ao engano, ao diálogo de surdos e ao conflito. A plena entrega dos actores, com destaque para Margarida Carpinteiro, Luísa Cruz, de novo Adriano Luz, José Manuel Mendes, Teresa Madruga e João Pedro Bénard, estabelece num patamar de crença o que aparece como mais banal, que o jogo do cineasta com os sentidos múltiplos exponencializa e acrescenta - como o duplo Dixie no final esclarece.  
                     As Mil e Uma Noites- Volume 2, O Desolado (2015) de Miguel Gomes
    Inesperado apesar de tudo depois de "Aquele Querido Mês de Agosto" (2008) e "Tabu" (2012), este filme em forma de tríptico surge como apoteose do talento do seu autor: com todos os ingredientes banais e corriqueiros transfigurados por forma a com eles e sobre eles criar um grande filme visionário sobre um país difícil, que se desconhece a si próprio, quando atravessa dificuldades maiores que lhe permitem, talvez, conhecer-se melhor.
   A estreia por partes faz todo o sentido neste caso. Vamos ver o que nos espera em "O Encantado", o terceiro volume deste "As Mil e Uma Noites", que nos seus dois primeiros volumes nos dá grande cinema.

Sobre a fotografia

   O último filme de Anton Corbijn, "Life" (2015), é decididamente um filme sobre a fotografia e o cinema, o cinema visto por um fotógrafo, que o realizador começou por ser e também é, o que faz dele um objecto visual insólito e muito interessante.
   Corre o ano de 1955 na América e um fotógrafo em busca de trabalho e visibilidade, Dennis Stock/Robert Pattinson, persegue literalmente uma jovem revelação do cinema, James Dean/Dane DeHaan, apanhado entre dois filmes, "A Leste do Paraíso"/"East of Eden", de Elia Kazan, e "Fúria de Viver"/"Rebel Without a Cause", de Nicholas Ray, o que nos coloca no coração da última década prodigiosa da idade de ouro da Hollywood clássica.
                       LIFEHQ
    O problema, que é também a vantagem deste filme, é o seu realizador se comprazer na relação estabelecida então entre o fotógrafo, um desconhecido com problemas familiares, e o objecto das suas fotografias, que constantemente se escapa aos seus propósitos, propostas e desejos artísticos. Contudo, quem procura drama ou melodrama num filme que se desengane pois não o encontrará aqui.
   Sobre argumento de Luke Davies, "Life" de Anton Corbijn resolve-se, de facto, entre as artes visuais que a fotografia e o cinema são, na tentativa bem sucedida de paralisar os bastidores da imagem em movimento para uma arte mais séria, com uma relação directa mais imediata, se bem que instantânea, com a realidade. E escolher um mito que morreu jovem prossegue  muito bem um programa fílmico que, na obra do cineasta, vem de "Control" (2007).
   Com uma imagem cinematográfica limpa, sem efeitos mas mesmo assim uma imagem de fotografia, o cineasta consegue seguir James Dean nas suas deambulações pelo meio do cinema, entre festas (de Nicholas Ray/Peter Lucas), a namorada (Pier Angeli/Alessandra Mastronardi), agentes e produtores (Jack  Warner/Ben Kingsley) e o Actors Studio, até à festa de finalistas em que participa no seu Indiana natal, durante a visita que faz à sua família, na qual, dirigindo-se aos mais novos mas falando de si, ele fala da juventude como idade de amor e perda.
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    Contando com um grande encantamento fotográfico (direcção de fotografia de Charlotte Bruus Christensen), em que insisto, este um filme de época muito bem construído para aqueles que amam a fotografia e o cinema e prezam as histórias respectivas, muito bem simbolizadas no título, o de uma revista que foi célebre pela qualidade e oprtunidade dos trabalhos fotográficos que publicava, com os quais marcou uma época muito importante. As fotografias originais sobre o genérico de fim estão bem vistas e justificam-se plenamente
     Sem ser ainda um grande cineasta, Anton Corbijn está a construir-se no cinema de uma forma pessoal nestes já avançados anos 10 do Século XXI, pelo que se deve continuar a contar com o seu genuíno talento original (sobre ele ver "Homens de confiança", de 17 de Agosto de 2014).

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Vitor Silva Tavares (1937-2015)

    O homem que agora nos deixou foi um homem independente, radical e rebelde perante a cultura portuguesa oficial, a literatura e o gosto dominante.   
     O seu nome ficou indissoluvelmente ligado à editora & etc que, como editora independente de tudo e de todos, depois de preliminares não menores no jorrnalismo e na edição livreira fundou em 1973 e dirigiu até ao fim com o seu gosto pessoal, uma editora que marcou indelevelmente o mundo editorial em Portugal com obras trabalhadas uma a uma, peça a peça, a partir da capa, em edição única.
                      Vitor Silva Tavares Vítor Silva Tavares
       Sem ele e o & etc a literatura publicada em português (original ou tradução), prosa e poesia misturadas, não teria sido aquilo que foi até às suas margens mais extremas, também as mais vivas e esclarecedoras. A sua história está contada pelos participantes, incluindo o próprio Viítor, em "& etc - Uma Editora no Subterrâneo" (Lisboa: Letra Livre, 2013).
    Personalidade maior, embora discreta, da cultura portuguesa dos últimos 50 anos, indispensável para que os mais conhecidos tivessem onde publicar o que queriam em qualquer altura, os menos conhecidos fossem acolhidos e permanecessem (enquanto ele quisesse) e os melhores estrangeiros menos ortodoxos tivessem lugar, o Vítor Silva Tavares permanece e perdura na sua cultura invulgar, integridade pessoal, honestidade intelectual, sentido do risco e da provocação mas também do humor - esgotando o meu vocabulário num crivo pessoal em que muito poucos outros como ele (se algum) passam.
                      Vitor Silva Tavares Autor Vitor Silva Tavares
      Deixou organizada a edição em 5 (cinco) volumes da "Obra Escrita" de João César Monteiro, que coordenou e introduziu em Intróito Inaugural ao Volume I (Lisboa: Letra Livre, 2014) - e na & etc tinham sido publicados antes, e em vida dele, três livros do João César. Por ele e por causa dele a cultura portuguesa não é só uma história de gente bem comportada e politicamente correcta, de mesuras e "melhores cumprimentos" em conivência cúmplice. Honra lhe seja prestada por causa disso na hora da sua morte, em que Lisboa entristece. E que o seu exemplo continue a frutificar.
      (Torna-se para mim ainda mais agreste conviver com os vivos depois da partida de mais este. Vocês só percebem isto se compreenderem que houve um tempo do & etc, o do Herberto, como houve um tempo do Orpheu, o do Pessoa. Funesto e luminoso centenário.)

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Um homem sombrio

     Pontualmente, como num ritual destinado a matar o vício e a curiosidade dos espectadores, chegou-nos o mais recente filme de Woody Allen, "Homem Irracional"/"Irrational Man" (2015), um filme muito curioso e cheio de diálogos, com duas vozes off narrativas.
    Com a  variedade de grandes actores em pequenos ou grandes papéis nos filmes dele, pergunta-se sempre quem ainda não entrou em nenhum para criar expectativa. Calhou desta vez ser Joaquin Phoenix, uma escolha excelente para Abe, um professor de filosofia e filósofo sombrio, segundo o cliché da profissão e da actividade.  
                   
     A questão que se coloca no filme é também a do costume nessas circunstâncias, ou seja, a de uma aluna, Jill/Emma Stone (actriz que reincide depois de "Magia ao Luar", 2014), que se apaixona pelo professor que vive uma crise existencial e se entrega ao alcool. Com o seu físico e a sua expressividade, Joaquin Phoenix dá-nos um Abe que procura os limites da existência e da sua afirmação como ser humano, partindo da sombra para atingir alguma claridade a partir do momento em que consegue ter sexo com uma mulher, o que não lhe acontecia há um ano.
     Mas tudo isto rodeia a decisão de Abe de, sem ninguém saber, eliminar, envenenando-o, um homem que ele casualmente fica a saber estar a fazer mal aos outros no exercíciio da sua profissão de juiz de família. E aqui saltamos logo para "A Corda"/"Rope", de Alfred Hitchcock (1948), um filme que, justamente com um antigo professor e dois ex-alunos seus, levantava essa questão, a da "legitimidade de matar", embora seja sobretudo recordado pela sua filmagem num único cenário e num único plano-sequência. A diferença está em que aqui a aluna, Jill, quando descobre o que Abe fez e este lho confessa, ameaça denunciá-lo se ele não se entregar voluntariamente à polícia.
                     irrationalman
      Correndo ligeiro ao sabor do ritmo imposto pelos seus dois narradores off, "Homem Irracional" dedica-se a jogos filosóficos, conduzidos pelo mestre, que acaba por se deparar com os limites paradoxais dos seus actos: a fundamentação filosófica ou moral de um crime é em geral muito complicada e leva normalmente ao absurdo, o que aqui uma vez mais acontece. Que o cineasta tenha abordado esta questão neste filme, como sempre com argumento seu, revela-se muito oportuno num momento em que, nos Estados Unidos em especial, se mata tanto e com tanta facilidade.
     Sem grandes complicações formais e com boas ideias narrativas (o parque de diversões, a lanterna), Woody Allen cumpre com aprumo aquilo a que está obrigado e a que nos habituou: mais um filme por ano. Evidentemente que o mal de vivre de Abe é sem remédio, os seus actos são sem regresso e a razão, em especial quando jovem, acaba por impor-se contra ele. Ainda bem que assim acontece.
                     Emma Stone and Joaquin Phoenix in "Irrational Man"
        "Homem Irracional" é um filme bom e desembaraçado, em que Woody Allen mantém o bom gosto e a elegância a que nos habituou, uma pequena jóia, discreta e sombria, na sua obra, cumprindo bem a sua função de parábola dostoievskiana demonstrativa, excessivamente demonstrativa mesmo, para o meu gosto - e nesse excesso está o seu maior limite. Por sua vez, o encontro entre Joaquin Phoenix e Emma Stone funciona muito bem e marca uma data neste filme.   
        (Sobre o cineasta, ver "Um americano em Paris", de 12 de Agosto de 2012, "Blue Moon", de 21 de Setembro de 2013, e "O dom e o sinal", de 13 de Setembro de 2014).