“Um não sei quê, que nasce não sei onde,/Vem não sei como, e dói não sei porquê.” Luís de Camões

"Na dor lida sentem bem,/Não as duas que êle teve,/Mas só a que êles não têm." Fernando Pessoa

"Lividos astros,/Soidões lacustres.../Lemes e mastros.../E os alabastros/Dos balaustres!" Camilo Pessanha

"E eu estou feliz ainda./Mas faz-se tarde/e sei que é tempo de continuar." Helder Macedo

"Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos..." Camilo Pessanha

“Vem, vagamente,/Vem, levemente,/Vem sozinha, solene, com as mãos caídas/Ao teu lado, vem” Álvaro de Campos

"Chove nela graça tanta/que dá graça à fermosura;/vai fermosa, e não segura." Luís de Camões

domingo, 18 de outubro de 2015

Um caso muito sério - 3

   O terceiro volume de "As Mil e Uma Noites", de Miguel Gomes (2015), intitulado "O Encantado", fecha muito bem este tríptico, em tom diverso mas retrospectivamente esclarecedor - aliás em sentido um tanto diferente do segundo volume, "O Desolado".
   Num filme que é, no seu todo, declaradamente político, é aqui que o cineasta mostra melhor a sua estratégia de olhar para o aparentemente acessório, para as margens para, através dele, delas chamar a atenção dos espectadores para o essencial: os efeitos de um país em crise. Uma estratégia inteligente e que funciona bem, por entre claras alusões avulsas, que se entendem sempre muito bem.
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    De facto, contra um certo grau de ficcionalização que "O Desolado" implicava, depois de um prólogo que podia ser melhor sobre a própria Sherazade, este "O Encantado" trata em tom documental - tendencialmente documetal em função da maioria dos seus intérpretes, encenado com a participação dos que lhes são exteriores, ao que nada tenho a objectar - dos passarinheiros de Lisboa num capítulo intitulado "O Inebriante Cantar dos Tentilhões", que constitui a sua parte mais importante e mais longa. Pelo meio, há um curto capítulo intitulado "Floresta Quente", em que uma chinesa, que nunca se vê, conta a sua vida em Potugal enquanto é mostrada nas imagens uma manifestação de polícias, e uma manifestação política contra o Governo em que se canta "Grândola" e o hino nacional.
   Perante tanto "politicamente correcto", os passarinheiros, as suas histórias e as suas competições dadas em pormenor funcionam como centro agregador mas também de distracção - sem qualquer outra alusão profissional, durante a crise a população continuou a sua vida comum, o que serve como despertar para a realidade com crise e para além dela, e era já era sinalizado contrapontisticamente pelo curto episódio de apicultura no início do primeiro volume, "O Inquieto".
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   Não sendo, nem querendo parecer ingénuo, numa sucessão de acontecimentos sem história Miguel Gomes acompanha aqui um grupo populacional mal conhecido de que capta e transmite muito bem as práticas e os hábitos, muito característicos e largamente alusivos. Com a ideia de que os passarinheiros existem assim há muito e vão continuar a existir por muito tempo, com crise ou sem ela, sem que ninguém dê por eles e sem incomodarem ninguém.
    Para compensar do início equívoco e de circunstância, destinado a estabelecer a narradora no seu papel, no final o cineasta despede-se com uma pirueta cinematográfica, em jeito português de "ora toma e embrulha": as ervas ao vento, uma panorâmica de 360º (lembrem-se quem e quando o fez antes no cinema) e um longuíssimo travelling de acompanhamento do protagonista que caminha - tudo nos quinze minutos finais, o que por mim não era preciso, embora compreenda, e até aplauda, como necessidade de "demarcação de território" cinematográfico.
                    Miguel Gomes
     Com os reincidentes Crista Alfaiate, Carloto Cotta e Gonçalo Waddington, volta a ser Chico Chapas como passarinheiro-guia a dominar o filme, revelando de novo ter sido ele a grande descoberta e criação de Miguel Gomes neste seu tríptico.
     Como balanço, só agora possível, discute-se, por exemplo, qual dos três filmes é o melhor - eu sou pelo segundo volume, "O Desolado", apesar da grande qualidade que reconheço aos outros dois. O grande final está no primeiro volume, "O Inquieto" - e percebe-se agora melhor que, com desempregados, nem sequer era excessivo -, enquanto este terceiro volume, "O Encantado", termina em grande em termos formais sobre um homem que caminha só. 
     Sabe-se que Miguel Gomes trabalhou longamente a montagem final de "As Mil e Uma Noites" e este terceiro volume, "O Encantado", aparenta ser, dos seus três volumes, aquele em que ele terá levado mais longe uma via de compromisso e aquele que, talvez por isso, surge como menos equilibrado (sobre este tríptico, ver "Um caso muito sério - 1", de 4 de Setembro de 2015, e "Um caso muito sério - 2", de 29 de Setembro de 2015).

Sobre poesia

    "Tar"/"The Color of Time" (2012) é um curto filme inesperado, escrito e realizado por 12 estudantes da New York University sobre o conhecido e laureado poeta americano C. K. Williams (1936-2015). Vi-o quase por acaso e tenho a ideia de que muito poucos mais o terão, mesmo por acaso, visto.
    Composto como memórias do poeta, da infância até jovem adulto, transvasadas nos seus poemas, "Tar" tem a ingenuidade da juventude e de memórias felizes ou mais difíceis, que surgem dispersas em breves fragmentos, quase flashes do passado, enquanto o poeta lê e são lidos alguns dos seus poemas.
                                    C. K. Williams
     O filme interessa-me por dois motivos: primeiro porque procura traduzir poesia em filme, o que é raro e ainda mais raramente conseguido; segundo porque, composto como uma sucessão de curtas-metragens, com planos em geral curtos, por vezes bordejando o vídeo-clip, não se dispensa de recorrer ao grande-plano, ao plano de pormenor e, ocasionalmente, ao plano subjectivo, o que cria uma grande variedade expressiva.
    "Tar" tem sopro, excertos livres, ritma-se ao sabor da memória e das palavras, também da música, mudando rapidamente de espaço e de tempo devido a uma montagem veloz. Num tal gesto de amor pela poesia e pelo cinema traduzido em experimentação conseguida, todas as críticas formais me parecem perfunctórias
     Com James Franco a interpretar Williams na juventude, Jessica Chastain a interpretar a sua mãe ("os lábios da minha mãe)" e Mila Kunis como a sua jovem mulher, Catherine, com música de Garth Neustadter e Daniel Whol, "Tar" é um filme jovem, feliz e inspirado, que sem maçar enriquece e por isso aqui vivamente aconselho.

sábado, 10 de outubro de 2015

O irmão mais novo

    "O Olhar do Silêncio"/"The Look of Silence", do americano Joshua Oppenheimer (2014), é o segundo filme de um díptico sobre o genocídio cometido na Indonésia nos anos 60 do Século XX, de que o primeiro foi "O Acto de Matar"/"The Act of Kiling" (2012) - ver "O lugar do outro", de 29 de Dezembro de 2014.
    Muito justamente, este segundo filme assume expressamente a perspectiva das vítimas na pessoa do irmão mais novo de uma das vítimas do terror e do massacre de então. É através dos olhos e das palavras dele que nos aproximamos das testemunhas da época, quer os seus familiares, quer os assassinos.
                                             
    Estes, contrariamente ao que sucedia no filme anterior, não são levados a recriar na actualidade, em modo de psicodrama, o que aconteceu há meio século, antes se limitam a ouvir e a ver imagens, que o próprio inquiridor vê e mostra.
      Perante a evidência do passado e as questões colocadas, a atitude actual destes torcionários assassinos é diferente da assumida em "O Acto de Matar": obedeciam a ordens, as vítimas eram comunistas, passou muito tempo e é preferível não falar mais no assunto. E é aqui que Joshua Oppenheimer, repetidamente interpelado pelas personagens com hostilidade, se revela extremamente pertinente e muito oportuno perante o inaceitável, moralmente condenável e a negação radical de qualquer ideia de direito - por isso considerado crime contra a humanidade -, que os seus próprios perpetradores se recusam a aceitar como mal, como errado.
                    Adi Rukun and his mother, Rohani, in ‘The Look of Silence'
   "O Olhar do Silêncio" é, pois, o olhar das vítimas, nomeadamente do irmão mais velho, convocado pela memória do irmão mais novo e recordado pelos pais. Mas percebe-se que também os assassinos o recordam sem arrependimento nenhum. Silenciar o crime abominável e horrendo significaria ignorá-lo, contra o que o cineasta muito justamente constrói este seu díptico de documentários: para que não seja esquecido, nem minimizado, nem repetido.
    Para tratar de um caso concreto o dispositivo ocular é muito apropriada e oportunamente utilizado no filme pelo optometrista, criando distância mas indicando que é preciso ver bem, ver sempre melhor, qualquer que seja a idade, em todos os sentidos e tempos. E não olhar para o lado, não esquecer nem calar, até porque esta é uma história que não tem cessado de se repetir, sempre com as mesmas boçais, grotescas, odiosas explicações, para vergonha de toda a humanidade.

Sem palavras

   Fico sempre sem palavras quando morre alguém de entre os que mais amo. Voltou a acontecer-me agora com a notícia da morte inesperada da cineasta belga Chantal Akerman (1950-2015).
    Penso conhecer a quase totalidade da sua obra, uma das mais importantes do cinema dos últimos 50 anos e, para mim, a mais importante de uma mulher-cineasta. 
                    
    Ligava-me a ela ter visto o fundamental "Jeanne Dielman: 23, Quai du Commerce: 1080 Bruxelles" (1975), um dos filmes mais importantes e influentes do primeiro século do cinema. A partir daí passei a acompanhar todos os seus filmes em festivais de cinema, em distribuição comercial ou na televisão. Sem ter gostado especialmente de "Um Divã em Nova Iorque"/"Un divan à New York" (1996) ou "Amanhã Mudamos de Casa"/"Demain on déménage" (2004), no entanto dois filmes muito bons, apreciei o seu regresso a um tom mais pessoal nos seus outros filmes, em que insistiu sempre e mesmo nesses dois filmes mais "comerciais", e por isso mais conhecidos, estava presente.
     Depois de "Jeanne Dielman", entre "Os Encontros de Anna"/"Les rendez-vous d'Anna" (1978), "Toute une nuit" (1982), "Golden Eighties"  (1986), "Letters Home" (1986), "Histoires d'Amérique" (1989), "Nuit et jour" (1991) e "A Cativa"/"La captive" (2000) Chantal Akerman construiu o melhor, que foi também o mais pessoal, da sua obra, .
                    
   Mas os seus documentários foram também sempre excepcionais - "D'Est" (1993), "Sud" (1999), "De l'autre côté" (2002), "Là-bas" (2006), nomeadamente - e a sua passagem para a vídeo-instalação, que reforçou o seu estatuto de grande artista visual, um sucesso que pude acompanhar. Aí ela pôde, sem peias narrativas, prosseguir a estética do plano fixo e longo, aberto ao espaço mas também ao tempo, que em "Jeanne Dielman" inaugurara de forma superior, sem dela fazer questão quando não lhe interessava. Fiel à sua ascendência judaica, debruçou-se em alguns dos seus filmes sobre os locais e épocas mais controversos. Praticou também a curta-metragem, em que se iniciou em 1968, e o filme para televisão. 
    Chaltal Akerman foi, com Jean Eustache (1938-1981) e Philippe Garrel, dos últimos e melhores modernos do cinema europeu, surgidos a seguir à eclosão da nouvelle vague francesa e na mesma onda. Como com eles aconteceu, assumir a subjectividade da criação cinematográfica foi para ela absolutamente de rigor. (Sobre Chantal Akerman, ver "Obsessões", de 27 de Fevereiro de 2012, "Instalações em diálogo", de 26 de Outubro de 2012, e "O sopro das origens", de 24 de Outubro de 2014.)

sábado, 3 de outubro de 2015

O coleccionador

     Na retrospectiva integral de Jacques Tati (1907-1982) que a Medeia Filmes promoveu este Verão, uma iniciativa muito importante ao nível de outras sobre grandes nomes da história do cinema realizadas em anos anteriores, dos poucos filmes do grande cineasta e actor francês limitei-me a assistir à sessão que reúne as suas curtas-metragens iniciais a preto e branco, interpretadas por si em filmes que, salvo num caso, não dirigiu, e duas outras mais recentes, já a cores, feitas com a sua filha Sophie Tatischeff (1946-2001).
      Mesmo que já tivesse podido ver um ou outro desses filmes iniciais em sessões desgarradas da Cinemateca Portuguesa, foi agora que pude olhar para eles no sentido que fazem ao esboçarem, já com o cinema sonoro, a figura e os filmes com Monsieur Hulot, que marcaram uma época e anteciparam a nouvelle vague francesa, que influenciaram.
                      
     É muito curioso não só observar os movimentos desajeitados do alto e magro jovem Tati, que procuram, ainda no escuro, uma outra coisa que só com o tempo se viria a definir em figura física, inocente e ingénua mas observadora, perturbadora e reveladora, como verificar mesmo breves momentos em que são esboçados, de forma incipente, gags que viriam a ser desenvolvidos pelo cineasta nas suas longas-metragens. 
     De resto, são patentes as influências dispersas dos que o tinham precedido no burlesco mudo: Max Linder, sobretudo Chaplin mas também Buster Keaton. As curtas-metragens iniciais com Jacques Tati são "Procura-se Brutamontes"/"On Demande une brute", de Charles Barrois (1934), "Domingo Animado"/"Gai Dimanche", de Jacques Berr (1935), em ambos dos quais ele contracena com o palhaço Rhum, "Cuida do teu Gancho Esquerdo"/"Soigne ton gauche" (1936), de René Clément, e "A Escola dos Carteiros"/"L'École des facteurs", já realizado por ele próprio (1946).
                      L'Ecole des facteurs : Photo Jacques Tati
      No final desta sessão o documentário de circunstância "Força, Bastia"/"Forza Bastia", de Jacques Tati e Sophie Tatischeff (1978), e "Especialidade da casa"/"Dégustation maison", de Sophie Tatischeff (1976), que recorda de modo breve, em interior familiar e em exterior, o universo do grande Jacques. 
        De Jacques Tati interessa ainda "O Mágico"/"L'illusionniste", de Sylvain Chomet (2010), filme de animação baseado em argumento original seu. Sempre que posso, como um coleccionador vejo todos os filmes dos cineastas que amo. E falo disto agora porque ainda vão a tempo de ver, em versões digitais restauradas, os filmes todos que passam neste ciclo dedicado a um nome maior do cinema.

Sobre o fado

    O mais recente documentário de Bruno de Almeida, que já tinha feito "Amália - Uma Estranha Forma de Vida" em vídeo (1995) e "A Arte de Amália" (2000), volta a dedicar-se ao fado, desta feita sobre aquele que é provavelmente o melhor e mais conhecido fadista da actualidade em "Fado Camané" (2014).
    Ao filmar e ouvir o fadista durante os ensaios para a gravação de um novo álbum, "Sempre de Mim", o filme de Bruno de Almeida acompanha-o enquanto, sob a direcção de José Mário Branco, vai buscando e encontrando progressivos aperfeiçoamentos das suas interpretações tendo em vista os ritmos e as vocalizações perfeitos da sua voz, seguindo a música tocada por Carlos Bica e o seu grupo mas também cada poema.
    Sem ser um apreciador do fado, posso admirá-lo quando interpretado a este nível, com perfeita articulação das palavras por uma voz pujante e própria, como neste caso acontece. Sem nunca dar um fado completo, filmando excertos o cineasta intercala-os com os diálogos do fadista com o director musical, com os músicos e com Manuela de Freitas, autora de poemas para fado, mas também com a entrevista feita a Camané por um interlocutor presente na imagem.
                      
     A preto e branco e sem sair do interior do estúdio de gravação, apoiado no grande-plano e na montagem dinâmica "Fado Camané" é um filme de grande expressividade e afecto sem cair no vídeo-clip, um filme equilibrado, quase perfeito, em que são ditas coisas fundamentais sobre o fado e sobre o próprio fadista num tom descontraído, de proximidade.
     Enquanto saúdo este filme muito bom e bem vindo, aproveito para felicitar José Mário Branco pela atribuição este ano do prémio Carlos Paredes pelo 5º festival bienal Cantar Abril, uma distinção que muito justamente liga dois nomes fundamentais da música popular portuguesa.
      (Sobre Bruno de Almeida ver "A verdadeira história", de 21 de Agosto de 2014.)

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Um caso muito sério - 2

    O segundo volume da "As Mil e Uma Noites" de Miguel Gomes, "O Desolado" esclarece melhor o filme que, no seu volume primeiro, "O Inquieto", vagabundeava entre o documentário e a ficção, sempre a partir de notícias da imprensa da época, entre 2013 e 2014, em Portugal, como se sabe porque o cineasta não se tem cansado de o dizer e repetir.
    Menos ligado a uma realidade documental, que nele só vagamente está presente, "O Desolado" constrói nas suas três partes uma realidade mais real do que a própria realidade, valendo-se da ficcionalização para mais expeditamente dar conta do que está em causa: um país em crise. E de forma de tal maneira feliz o consegue que o que nos apresenta é (acaba por ser) a crise permanente de um país que sem ela não se reconhece. 
                    "As Mil e uma Noites" (2015)_3
    O primeiro espisódio, dito de "Simão Sem Tripas", resolve-se com um homem solitário e a monte que transporta consigo a queixa generalizada dos portugueses de só arranjar mulheres que lhe dão cabo do juízo. O actor, Chico Chapas, é um achado e todo o episódio flui em espaço aberto, a montanha, e em tempo dilatado, cinematograficamente justo. 
    O segundo episódio, "As Lágrimas da Juíza", desenvolve-o muito bem ao esclarecer sobre o excesso de sentido que da falta dele resulta numa sucessão de deixas patéticas e aparentemente desligadas que, no grotesco agridoce das suas personagens, na sua falta de sentido constroem, num espaço fechado de anfiteatro ao ar livre, simultaneamente tribunal e teatro, um sentido maior a partir de dados imediatos da realidade - delicioso o "detector de mentiras" de Manuel Mozos. 
    O terceiro episódio, "Os Donos de Dixie", remete-nos para o subúrbio em que todos vivemos, entre vizinhanças que se desconhecem, problemas que se partilham, desesperos e imagens dúplices da realidade. A banalização da crise surge-nos, assim, como a crise banal de um país banal que no seu quotidiano se debate e tenta transcender-se sobrevivendo a todo o custo. 
                     "As Mil e Uma Noites, Volume 2: O Desolado" vai representar Portugal nos Oscars 2016
       Neste "O Desejado" pode estar, pois, o mais esclaredor e melhor desenvolvido de "As Mil e Uma Noites", de cujo projecto de facto não fazem senão marginalmente parte o documentário ou falar das causas e dos responsáveis da crise mas desta em vias de se desenrolar em nossa volta, connosco incluídos. Com um muito bom tratamento do plano e do fora de campo e um entendimento sagaz do tempo, este segundo volume constrói-se sobre narrativas múltiplas, três, cada uma das quais se vai subdividindo em outras, mais breves micro-narrativas.
       Se o cinema devia uma resposta à famigerada crise ela está em "As Mil e Uma Noites" de Miguel Gomes ao falar do absurdo que se agrava com ela num país de gente rude e complicada que, sem ser má, no seu orgulho é muito dada ao contrasenso, ao engano, ao diálogo de surdos e ao conflito. A plena entrega dos actores, com destaque para Margarida Carpinteiro, Luísa Cruz, de novo Adriano Luz, José Manuel Mendes, Teresa Madruga e João Pedro Bénard, estabelece num patamar de crença o que aparece como mais banal, que o jogo do cineasta com os sentidos múltiplos exponencializa e acrescenta - como o duplo Dixie no final esclarece.  
                     As Mil e Uma Noites- Volume 2, O Desolado (2015) de Miguel Gomes
    Inesperado apesar de tudo depois de "Aquele Querido Mês de Agosto" (2008) e "Tabu" (2012), este filme em forma de tríptico surge como apoteose do talento do seu autor: com todos os ingredientes banais e corriqueiros transfigurados por forma a com eles e sobre eles criar um grande filme visionário sobre um país difícil, que se desconhece a si próprio, quando atravessa dificuldades maiores que lhe permitem, talvez, conhecer-se melhor.
   A estreia por partes faz todo o sentido neste caso. Vamos ver o que nos espera em "O Encantado", o terceiro volume deste "As Mil e Uma Noites", que nos seus dois primeiros volumes nos dá grande cinema.