“Um não sei quê, que nasce não sei onde,/Vem não sei como, e dói não sei porquê.” Luís de Camões

"Na dor lida sentem bem,/Não as duas que êle teve,/Mas só a que êles não têm." Fernando Pessoa

"Lividos astros,/Soidões lacustres.../Lemes e mastros.../E os alabastros/Dos balaustres!" Camilo Pessanha

"E eu estou feliz ainda./Mas faz-se tarde/e sei que é tempo de continuar." Helder Macedo

"Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos..." Camilo Pessanha

“Vem, vagamente,/Vem, levemente,/Vem sozinha, solene, com as mãos caídas/Ao teu lado, vem” Álvaro de Campos

"Chove nela graça tanta/que dá graça à fermosura;/vai fermosa, e não segura." Luís de Camões

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Sobre a arte moderna

   Com a transmissão dos dois últimos episódios, o Arte conclui hoje a apresentação de uma série notável: "Les aventuriers de l'art moderne", de Amélie Harrault e Pauline Gaillard (2015). Baseada na trilogia Bohèmes, Libertad! e Minuit, do conhecido escritor e argumentista Dan Franck, um largo e fundamental período da arte moderna e da história é percorrido nesta série, especialmente notável por recorrer a imagens de época - fixas e em movimento, documentais e de ficção - e a animação tradicional (pintura sobre vidro, papel cortado, tinta, guache).
   Desdobrada em seis episódios, esta não é uma série tradicional sobre arte e artistas, como outras que nomeadamente este canal tem apresentado ao logo dos anos sempre de grande qualidade. Nada disso, ou disso apenas a filmagem na actualidade de obras de referência da arte moderna, pois esta série obedece a um modelo inédito e original.
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   Sempre acompanhada por uma narradora omnisciente em off, Amira Casar, os seus diferentes episódios apresentam directamente imagens de época valiosas e em muitos casos desconhecidas, mas além delas recriam as personalidades autênticas e as suas vidas com o recurso à animação de uma forma artisticamente muito conseguida e extremamente pertinente em termos fílmicos.
   Deste cruzamento entre o documental e a animação resulta uma obra sedutora em si mesma, rigorosa do ponto de vista histórico e não fastidiosa, o que é sempre o risco dos filmes sobre arte e artistas. Graças a artistas actuais da imagem somos conduzidos ao coração da revolução moderna e a momentos determinantes da história do Século XX  com desembaraço, sentido da história e da arte, que nos fazem chegar vivas, transfiguradas, figuras que se tornaram lendárias.
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    Mas não são apenas as personagens, são também os lugares, nomeadamente em Paris, que o documental e a animação trazem para o presente, sempre ao melhor nível. Assistir a esta série constitui sempre uma aprendizagem ou precisão de conhecimentos com um gosto especial devido à sua excepcional criação. 
   O Arte está a concluir em grande um ano de programação excepcional, que aqui de novo assinalo e saúdo.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

O espaço e o seu uso

    Em "Família: Rui Chafes & Pedro Costa com Jean-Marie Straub & Danièle Huillet", a instalação patente no Museu Nacional Machado de Castro mesmo depois da inciativa AnoZero: Bienal de Arte Contemporânea de Coimbra durante a qual se iniciou, o que se torna decisivo é o espaço e a sua utilização. De facto, mal conhecido e pouco visto apesar da sua importância, o espaço do criptopórtico romano do Aeminium é à partida tudo menos um espaço museal. Foi, no entanto, no seu muito antigo, escuro e arruinado espaço que os artistas quiseram situar uma sua instalação.
   Não vou em pormenor comentar as imagens e objectos de cada um a não ser para demonstração da utilização do espaço. Longos e escuros, antiquíssimos corredores com salas laterais e ao fundo, sobre umas escadas, uma parede em que é projectado um filme com palavras francesas poéticas e políticas, belamente recitadas. Lateralmente, em algumas das salas imagens fixas, luminosas mas escuras, no escuro marcam e demarcam o espaço de forma insólita. As alturas são uma perspectiva que não deixa de, a partir do fundo, das profundidades ser explorada.
   Naquela família que conheço bem aprecio aqui o arrojo do desafio, que sendo artístico é também e até sobretudo político numa instalação que vista em baixo, entre ruínas, se torna mais perceptível, bela e tocante. Em imagens conformes num espaço esclarecedoramente agreste e inesperado, aquela família pareceu-me bem, muito obrigado. A instalação estará no MNMC até 31 de Janeiro de 2016.
     Neste momento os meus parabéns a Rui Chafes pela atribuição do Prémio Pessoa 2015 (sobre ele, ver "Uma antológica", de 20 de Fevereiro de 2014; sobre instalações de Pedro Costa, ver "Instalações em diálogo", de 26 de Outubro de 2012; sobre Straub/Huillet, ver "Poética straubiana", de 15 de Novembro de 2012).
      Mas, além de verem esta instalação, aproveitem para visitar o Museu Nacional Machado de Castro, que vale muito a pena conhecer - ver, a seu respeito, "Mirleos", de João Miguel Fernandes Jorge (Lisboa: Relógio d'Água, 2015).

Na noite polar

    Durante a noite polar decorre numa cidade do norte da Noruega um caso bizarro: a condutora de um carro atropela e mata, sem disso ter consciência, uma adolescente, seguindo caminho sem parar para ver o que aconteceu ou a socorrer. O marido da condutora, a quem ela conta o que percebeu do acidente, um embate, volta ao local e nada nem ninguém encontra. É o filme "La grâce"/"Gnade", do alemão Matthias Glasner (2012), um realizador que se fizera notar por "Der freie Wille" (2006) e "This Is Love" (2009), que como este não chegaram a Portugal, e trabalha também para a televisão. 
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   A paisagem gelada, belíssima na noite polar, não é indiferente, como não o é o casal Maria/Birgit Minichmayr e Niels/Jürgen Vogel e o filho deles Markus/Henry Stange serem alemães e ele, Niels, que trabalha como piloto de helicóptero, ter uma amante americana, Linda/Ane Dahl Torp. Torna-se, porém, especialmente importante que Maria trabalhe como enfermeira na assistência final a doentes terminais.
   Vai ser ela quem, depois de ter provocado involuntariamente mas com descuido e incúria uma morte acidental, se vai culpabilizar e lidar com essa culpa, que apenas ao marido, Niels, confidencia, embora o filho Markus não ande longe. O seu percurso passa pelo coro da igreja a que pertence, o que pode também não ser de todo indiferente.                  
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   Depois de muita deliberação, Maria e Niels decidem ir contar aos pais da jovem morta o que de facto aconteceu, e os minutos finais do filme são do melhor que me foi dado ver desde o final de "A Palavra"/Ordet", de Carl Th. Dreyer (1955).
   "La grâce" passou na passada semana no Arte, que continua com uma programação de cinema muito boa.

Sem salvação

      Feito no mesmo ano de "Pasolini", "Bem-Vindo a Nova Iorque"/"Wellcome to New York", de Abel Ferrara (2014), que não teve estreia comercial em sala em Portugal, é um filme melhor do que aquilo que se poderia recear do seu assunto. Baseado embora no caso que envolveu Dominique Strauss-Kahn naquela cidade antes das últimas eleições presidenciais francesas, o argumento do realizador e Christ Zois explora muito bem os cheios e vazios do caso, seguindo de início a fim o protagonista, Devereaux/Gérard Depardieu.
                   Welcome to New York
     Exemplar na sua construção dramática, o filme vai numa primeira parte até aos factos de que Devereaux é acusado, numa segunda parte segue a audiência judicial e os procedimentos policiais para numa terceira parte seguir o protagonista devolvido ao seu meio e aos que lhe são próximos. A distância e a frieza de tom do filme permite um estudo atento e pormenorizado do comportamento e do pensamento do protagonista, que se vem a revelar na parte final no diálogo com a mulher, Simone/Jacqueline Bisset, e até especialmente em monólogo.
     Imprimindo um carácter ambicioso e grosseiro até à violação a Devereaux, Ferrara e Depardieu traçam dele um retrato justo e preciso, embora eventualmente especulativo, que é também um retrato da justiça americana, que se intimida quando tem que lidar com os mais poderosos, protegidos por uma cortina de pseudo-imunidade e muito dinheiro.
                  
  Sem me escandalizar minimamente, mas também sem me surpreender que tenha escandalizado em França, "Bem-Vindo a Nova Iorque" de Abel Ferrara não assume a acusação do protagonista para além dos factos e também não o defende a não ser ao permitir-lhe explicar-se a si próprio: segundo ele, ninguém pode salvar ninguém porque ninguém quer ser salvo. E sem emenda continua.
     Mostrando não ter receio de enfrentar o mais difícil e fazendo-o com independência de espírito, com bom trabalho técnico e bons actores (a declaração inicial de Gérard Depardieu é importante e cria distância) Ferrara inicia aqui um díptico político a que não se deve permanecer indiferente (sobre o cineasta ver "O sabor do fim", de 19 de Agosto de 2012, e "O último dia", de 11 de Janeiro de 2015).   

domingo, 6 de dezembro de 2015

Medeia clássica

   Uma das mais importantes distribuidoras e exibidoras de cinema em Portugal, a Medeia Filmes de Paulo Branco não tem esquecido os clássicos do cinema, quer em ciclos sobre grandes cineastas quer na edição dvd, o que dá a medida completa da qualidade da sua programação e edição. 
                   
    Nos últimos meses a sua programação de clássicos do cinema em sentido largo tem-se estendido a matinés diárias no cinema Monumental, em Lisboa, para o que quero neste momento chamar a vossa atenção. Escolhidos pela distribuidora e exibidora, todos os filmes programados por alguma razão merecem ser vistos. A programação pode ser encontrada aqui
http://medeiafilmes.pt/release/frontend/www/index.php/
    Aconselho sem restrições, do mesmo passo que aqui felicito Paulo Branco por mais esta iniciativa em favor da independência do melhor do cinema. Também responsável pelo Lisbon & Estoril Film Festival, ele é uma referência incontornável do cinema contemporâneo, também como produtor internacional e especialmente em Portugal.

Bergman outra vez

   O Arte passou na passada semana um filme completamente inédito, "Une histoire d'âme", de Bénédicte Acolas (2014), que adapta um quase monólogo de Ingmar Bergman datado de 1972 (1), nunca por ele levado ao cinema. Com Sophie Marceau a interpretar a única personagem, Viktoria, uma mulher de 40 e poucos anos sensual e bela, somos arrastados para o universo interior dela pelas suas próprias palavras, as únicas que o filme nos dá.
                      Foto Sophie Marceau         
     Da memória ao delírio, do real ao imaginado, do desejo ao sofrimento, as metamorfoses de Viktoria são muito justamente dadas pela actriz que a realização de Acolas, aqui no seu primeiro filme, acompanha muito bem. Falta à actriz francesa o pico especial das actrizes suecas, mas aceitando-se o filme tal como ele é todo o universo atribulado de Ingmar Bergman se transmuta e nos fascina de novo. 
      O grande cineasta sueco sempre precisou das mulheres para ver bem, para ver melhor, e este filme mostra-o de novo com a personagem a dirigir-se a interlocutores imaginários com cada um dos quais as suas palavras mudam. No regozijo como na queda, no abandono como na sua superação, a Viktoria de Sophie Marceau é uma personagem que se desnuda diante da câmara até ao mais recôndito do seu ser, corpo, alma e cérebro convocados, sem sair dos interiores que se vão transformando eles também enquanto ela se desmultiplica.                                         
                     
      Feito para a televisão por quem já o tinha encenado no teatro e agora o adapta a partir de uma nova tradução sua, "Une histoire d'âme" é um filme de enorme, pungente beleza dramática e intransigente verdade, um mergulho na mente e na alma de uma mulher que não desiste de viver. Se faz lembrar alguma coisa é Anna Magnani em "Uma Voz Humana"/"Una voce umana", baseado na peça "La voix humaine" de Jean Cocteau, no filme "O Amor"/"L'amore", de Roberto Rossellini (1948), que Sophia Loren terá refeito o ano passado para Edoardo Ponti numa curta que nunca verei (Sobre Ingmar Bargman, ver "Eles, os modernos", de 22 de Janeiro de 2012).

      Nota
      (1) Cf. "Une affaire d'âme", de Ingmar Bergman (Paris: Cahiers du Ciinéma, 2002 para a edição francesa, págs. 139-172).

Mítico e mágico

     "Lisboa, Cidade Triste e Alegre", de Victor Palla e Costa Martins (Pierre von Kleist editions, 2015) era até agora um livro de fotografia mítico mas absolutamente inacessível nas suas duas singelas edições, que com esta nova edição se pode certificar também mágico e perceber seminal. Nunca lhe tinha posto a vista em cima mas agora não me escapou.
    De uma assombrosa beleza visual que resulta da sua verdade, as fotografias dos dois arquitectos são um poderoso testemunho de Lisboa nos anos 50 do Século XX, uma cidade como ninguém a tinha visto na época nem viu depois. Acompanhado por poemas de alguns dos mais conhecidos poetas portugueses de então, alguns anteriores (o título do livro vai ser procurado num poema de Álvaro de Campos), outros inéditos à data, com eles as fotografias da dupla dialogam de modo justo e muito feliz.
      Não se pode excluir o carácter poético das próprias fotografias, embora o seu enquadramento gráfico ajudado pela passagem do tempo para ele contribua. Mesmo que tal não seja posto de parte no texto introdutório de José Rodrigues Miguéis, é toda um tempo histórico que este como as fotografias convoca. A dureza e clarividência do preto e branco fazem muito pela poética de uma fotografia que se quer documental ao percorrer as diferentes questões/personagens-tipo na cidade do seu tempo, sempre presente.
                                    LISBOA, CIDADE TRISTE E ALEGRE by Victor Palla and Costa Martins
     No final, um índice exaustivo permitiu aos autores comentarem as fotografias todas, uma a uma, no seu recorte gráfico único no livro. Victor Palla e Costa Martins sofreram sem dúvida influências da fotografia do pós-guerra, como é assinalado por Gerry Badger no caderno junto ao livro, mas foram incalculáveis as influências que exerceram sobre o futuro, maiores agora que o livro se torna mais acessível. E o cinema esteve antes e depois dele, como é bem assinalado.
     Enquanto o folheio até o saber de cor, "Lisboa, Cidade Triste e Alegre" faz enevoarem-se-me no presente os olhos da memória do passado que ele actualiza de forma inédita e pungente. Vejam, leiam e aprendam como o melhor da fotografia aconteceu em Lisboa, Portugal, nos anos 50. Por mim não esperava algo de tão declaradamente bom, justo e comovente como este livro e as suas fotografias.
     Se o tempo parou para permanecer em Portugal no Século XX com a fotografia foi aqui. Parou e permanece impresso num duro e intransigente uso de um equipamento e de um dispositivo gráfico em forma de livro.