“Um não sei quê, que nasce não sei onde,/Vem não sei como, e dói não sei porquê.” Luís de Camões

"Na dor lida sentem bem,/Não as duas que êle teve,/Mas só a que êles não têm." Fernando Pessoa

"Lividos astros,/Soidões lacustres.../Lemes e mastros.../E os alabastros/Dos balaustres!" Camilo Pessanha

"E eu estou feliz ainda./Mas faz-se tarde/e sei que é tempo de continuar." Helder Macedo

"Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos..." Camilo Pessanha

“Vem, vagamente,/Vem, levemente,/Vem sozinha, solene, com as mãos caídas/Ao teu lado, vem” Álvaro de Campos

"Chove nela graça tanta/que dá graça à fermosura;/vai fermosa, e não segura." Luís de Camões

domingo, 27 de dezembro de 2015

A cidade de ficção

   Só agora tive ocasião de ver "O Último dos Injustos"/"Le Dernier des injustes", de Claude Lanzmann (2013), cineasta de referência sobre a II Guerra Mundial e o Holocausto desde o monumental "Shoah" (1985), numa obra em que é também destacado especialmente "Sobibór, 14 octobre 1943, 16 heures" (2001), que permanece inédito em Portugal. 
   Centrado num judeu que interveio do lado das vítimas judaicas em todo o processo que conduziu à chamada Solução Final e mesmo durante esta, Benjamin Murmelstein, que foi Rabino em Viena e Presidente do Conselho Judaico no "gueto modelo", de facto campo de concentração e de extermínio selectivo, de Theresienstadt e, como tal, desempenhou funções de intermediário entre os algozes e as vítimas que se têm prestado a diversas interpretações, este é um filme fundamental e que não pode deixar indiferente.
                    O último dos injustos
   Ouvindo-o longamente em Roma em 1975 em imagens e entrevistas nunca antes reveladas, o documentarista disponibiliza para todos um testemunho fundamental de quem, podendo ter escapado à situação atroz, preferiu, como ele diz por espírito de aventura, ficar para ajudar no que ele designa como uma missão. Todo o depoimento Murmelstein, feito a partir da memória, viva e fresca, de quem esteve presente, é impressionante, e deita abaixo verdades que a história tinha estabelecido sem o levar em consideração - por exemplo sobre Eichmann, entre outras questões e personalidades de que fornece pormenores até agora desconhecidos.
   Mas não apenas isso. Claude Lanzmann mostra os locais na actualidade e algumas imagens, fotografias e até um excerto de um filme nazi da época, mas também revela ao mundo desenhos e pinturas feitos por prisioneiros durante o Holocausto. Com uma persistência e argúcia notáveis, questiona o seu interlocutor sem lhe dar tréguas nem facilidades, o que, com a colaboração sem restrições deste, homem inteligente e culto, conduz a um documento excepcional, absolutamente indispensável.
                   O último dos injustos
    Claude Lanzmann é o grande historiador da II Guerra Mundial e do Holocausto no cinema e este era um filme que ele devia e cumpre com toda a justeza histórica e cinematográfica, para nosso conhecimento e completa dilucidação da magna questão do Século XX.  
     Durante "O Último dos Injustos" ele recupera a imagem de Benjamin Murmelstein dando-lhe a palavra e a oportunidade de prestar todos os esclarecimentos e todas as explicações enquanto recorda o que viveu, o que muito justamento nos leva a compreender que nesta matéria, como noutras, nada nem ninguém deve ser esquecido para que a verdade surja em toda a sua crueza, como aqui de novo acontece a partir da imagem e da palavra dita e lida.

A saga das sagas

    "Star Wars: O Despertar da Força"/"Star Wars: The Force Awakens", de J. J. Abrams (2015), representa o muito aguardado e desejado regresso de personagens e de uma narrativa múltipla que nos são familiares. Baseado nas personagens criadas por George Lucas, este VII episódio tem argumento de Lawrence Kasdan, também co-produtor, Michael Arndt e do próprio realizador, também produtor, embora aqui seja fundamental referir a produção da Disney e a composição digital, de novo a cargo da Industrial Light and Magic.                        
                      
     Claro que esta saga de ficção científica no passado se destina sobretudo a um público juvenil - mas haverá que observar que a juventude de agora não é a mesma dos anteriores episódios -, claro que a ela estão associados um grande negócio de gadgets e memorabilia (expostos em Lisboa no 7º Piso do El Corte Ingles) e sobretudo múltiplos jogos de vídeo, o que, desde que surgiu, embora original não tem nada de especial. O que aqui importa realçar é que o tempo passou também para Han Solo/Harrison Ford e a Princesa Leia/Carrie Fisher, o que é muito bem explorado narrativamente pelo filme.
     De facto, agora é o filho de ambos que, invocando o avô, lidera as forças do Primeiro Círculo, sob o nome de Kylo Ren/Adam Driver, o que mantém o lado familiar da saga, que nela é muito importante. As novas personagens, nomeadamente Rey/Daisy Ridler, Finn/John Boyega e Poe/Oscar Isaac, são, por isso, todas elas mais novas, e vão ter de ser eles a liderar o combate. De novo também um robot, BB-8, além dos anteriores robots e criaturas, que ele porém excede em importância narrativa.
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    Toda a parte de animação digital está, como de costume, muito bem, e nela reside um dos maiores motivos de interesse cinematográfico de cada um dos episódios desta saga. A evolução aqui registada é muito importante (não, não vou revelar nada mais do filme) e vem permitir relançar a saga para próximos episódios, ainda com Luke Skywalker/Mike Hamill que, motor da narrativa, só fugazmente surge no final.
     Por mim esta é a melhor saga de ficção científica, atendendo às suas implicações temporais ao situar-se num passado remoto, às características do combate mitológico que encena e à panóplia de efeitos visuais e digitais que mobiliza, muito embora "Star Treck", que Abrams já dirigiu para cinema em 2009 e 2013, seja um rival à sua altura, mas mais preso à possível actualidade futura da exploração do espaço. A invenção desta saga terá sido mesmo o maior contributo de George Lucas para o cinema.   
                     star wars
      A referência a J. J. Abrams não deve passar sem mencionar que ele, que aqui se sai naturalmente muito bem como realizador ainda que "Star Wars: O Despertar da Força" tenha uma carga mítica atenuada em relação aos episódios anteriores, foi o criador da série televisiva "Perdidos"/"Lost", que marcou uma época entre 2004 e 2010. E se puderem vejam o filme em 3D.

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Hitchcock outra vez

    O Arte retransmitiu hoje "Hitchcock/Truffaut", de Kent Jones (2015), sobre o célebre livro "Le cinéma selon Hitchcock" (Paris: Robert Laffont, 1966), em que o então ainda jovem cineasta francês, com a colaboração de Helen Scott, conversa longamente com o grande e famoso mestre do cinema. Um livro que marcou uma época.
    Graças à recuperação de trechos do diálogo e de trechos de filmes do entrevistado, com comentários pessoais como esclarecimentos de alguns dos grandes nomes do cinema actual - Martin Scorsese, Wes Anderson, David Fincher, Olivier Assayas, Peter Bogdanovich, Arnaud Desplechin, James Gray, Kiyoshi Kurosawa, Richard Linklater e Paul Schrader  -, este filme escrito por Kent Jones e Serge Toubiana, montado por Rachel Reichman e com a voz de Mahieu Amalric, constitui um ensaio exuberante, explicativo e demonstrativo, sobre um dos maiores cineastas da história do cinema. 
                                    Hitchcock/Truffaut Documentary
     A arte de Alfred Hitchcock resultou de ele se ter iniciado no cinema no tempo do mudo, de que preservou o segredo  depois do advento do sonoro no que ele considerava o "cinema puro". Ver os seus principais filmes detalhadamente analisados por novos e destacados cineastas que conhecem bem a sua obra e o admiram constitui simultaneamente uma homenagem e uma lição. Reter da sua conversa inicial com Truffaut, que se prolongou durante quatro anos, fragmentos sonoros e momentos visuais confere a este filme de Kent Jones um carácter de documento de época que ele também tem.
    As análises nomeadamente da culpa, da troca de crimes, do medo, do erotismo, do fetichismo, mas também, e até em especial, a análise formal em filmes fundamentais como "A Mulher Que Viveu Duas Vezes/"Vertigo" (1958), "Psico"/"Psycho" (1962), "Os Pássaros"/"The Birds" (1964), vistos à lupa, plano a plano, excerto a excerto, e os exemplos retirados de muitos outros filmes fazem deste filme um ensaio modelar e fascinante, pedagógico e comemorativo, que muito justamente a Hitchcock associa François Truffaut, recordando que ele morreu com 52 anos, quatro anos depois do seu ilustre interlocutor e amigo.  
                    
        Como nenhum outro cineasta, Alfred Hitchcock soube, em favor do dispositivo de projecção do cinema, trabalhar o lado fantomático do filme com calculado envolvimento emocional do espectador, sempre com um uso superior da linguagem cinematográfica que não afastou a experimentação e sem evitar o dilema moral, que justamente perseguiu e procurou.
      Em português, devo assinalar a publicação este ano de "A culpa no cinema de Alfred Hitchcock", de Renato Barroso (Letras Encantadas, 2014), um livro em que, revelando grande saber do cinema e do direito, com grande dignidade o autor esgota este tema fundamental na obra cinematográfica e televisiva do cineasta, o que o torna uma obra a partir de agora indispensável na bibliografia sobre cinema e sobre o seu maior, mais inventivo criador.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Canção simples

   Embora não se afaste muito dos seus trabalhos anteriores, "A Juventude"/"Youth" de Paolo Sorrentino (2015) surpreende pela audácia com que enfrenta o cinema e a velhice.
  Dois velhos amigos, o compositor e maestro Fred Ballinger/Michael Caine e o realizador de cinema Mick Boyle/Harvey Keitel, passam uma temporada num hotel de luxo na Suíça, ocupando o seu tempo em conversas banais sobre um e o outro, sobre os filhos respectivos, sobre os outros hóspedes. Ambos são célebres - o primeiro recusa um convite para tocar perante a Rainha de Inglaterra, o segundo vai receber uma negativa da sua actriz de há muito, a mítica Brenda Morel/Jane Fonda, para participar no novo filme, o seu "filme-testamento" como lhe dizem, que ele está a preparar.                     
                     YOUTH International Red Band Trailer (2015) - Paolo Sorrentino
   Numa situação que, com o risco do pretensioso, poderia permitir enveredar pelos caminhos da reflexão sobre a criação artística em cada um dos sectores, a opção do realizador, também argumentista, passa pela banalidade quotidiana vivida por dois homens com mais passado que futuro, o que confere especial interesse ao que dizem, ao que pensam, ao que fazem. Com notações avulsas, como o monge budista, o futebolista famoso no seu tempo, o casal que não fala, o montanhista, o para-quedista, sem deixar de lembrar no seu melhor "As Férias do Sr. Hulot"/"Les vacances de Monsieur Hulot", de Jacques Tati (1953), "A Juventude" deixa todo o espaço para a o diálogo e a recriação verbal.
   Muito centrado em sexo e mulheres, como era expectável atendendo à idade dos protagonistas, o filme acaba por se encaminhar para uma reflexão comparada, em termos práticos, sobre a intemporalidade da música e a caducidade do cinema que, substituído pela televisão que o suplanta, já passou. E as memórias de tempos felizes não impedem de encarar um presente em que a mulher de Fred está internada em Veneza e a nova namorada do filho de Mick, que suplantou a filha de Fred, Lena/Rachel Weisz, junto dele, é uma cantora pop, Paloma Faith, que surge em sonhos num vídeo-clip.
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    Confrontado com a recusa de Brenda Morel e os seus fantasmas, as personagens que terá criado, Mick opta por sair pela janela, enquanto Fred, depois de indicações sumárias a uma criança que aprende a tocar e do encontro de ambos com a nova Miss Universo, acaba por aceitar o convite da Rainha, uma vez esclarecido o que estava por trás de "aprender a andar de bicicleta" para o outro.
     Num filme inesperado e convincente, em que o diálogo revelador entre Fred e Lena está, tal como a saída final de Mick, muito bem encenado e a conclusão dos mais jovens vai no sentido do desejo contra o sentido do poder, a dedicatória final a Francesco Rosi (1922-2015) fica muito bem (sobre Paolo Sorrentino, ver "Evocativo", de 15 de Março de 2014).

Penelope Houston (1927-2015)

    Foi um nome muito importante da crítica cinematográfica na viragem moderna dos anos 50/60 do Século XX. Autora de "The Contemporany Cinema" com edição da Penguin em 1963 (edição portuguesa "O Cinema Contemporâneo", com tradução de José Vaz Pereira, Lisboa, Ulisseia, s/d), um dos meus primeiros livros de cinema, aí me confirmou na importância dos clássicos e dos primeiros modernos, americanos e italianos, e na atenção aos novos, grandes modernos que então emergiam - Bresson, Antonioni, Bergman, Satjajit Ray, Anderson, Richardson e o free cinema inglês, Resnais, Godard e a nouvelle vague feancesa, Mekas, Cassavetes e o new american cinema.
                                     
    Figura fundamental da crítica cinematográfica em língua inglesa, esteve nas revistas Sequence e, como editora, na Sight & Sound, também no British Film Institute, e em tudo o que então escreveu deixou a marca pessoal de um pensamento muito atento e bem informado, independente e inteligente sobre o cinema que amava. Penelope Houston teve em Inglaterra o papel que André Bazin e Henri Langlois tiveram em França.
   Neste país por razões que me excedem muito ligado à crítica cinematográfica em língua francesa, pelo menos eu a recordo e evoco neste momento para elogiar o seu pensamento, a sua actividade e a sua influência, fecunda e muito benéfica para o cinema.    

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Sobre a arte moderna

   Com a transmissão dos dois últimos episódios, o Arte conclui hoje a apresentação de uma série notável: "Les aventuriers de l'art moderne", de Amélie Harrault e Pauline Gaillard (2015). Baseada na trilogia Bohèmes, Libertad! e Minuit, do conhecido escritor e argumentista Dan Franck, um largo e fundamental período da arte moderna e da história é percorrido nesta série, especialmente notável por recorrer a imagens de época - fixas e em movimento, documentais e de ficção - e a animação tradicional (pintura sobre vidro, papel cortado, tinta, guache).
   Desdobrada em seis episódios, esta não é uma série tradicional sobre arte e artistas, como outras que nomeadamente este canal tem apresentado ao logo dos anos sempre de grande qualidade. Nada disso, ou disso apenas a filmagem na actualidade de obras de referência da arte moderna, pois esta série obedece a um modelo inédito e original.
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   Sempre acompanhada por uma narradora omnisciente em off, Amira Casar, os seus diferentes episódios apresentam directamente imagens de época valiosas e em muitos casos desconhecidas, mas além delas recriam as personalidades autênticas e as suas vidas com o recurso à animação de uma forma artisticamente muito conseguida e extremamente pertinente em termos fílmicos.
   Deste cruzamento entre o documental e a animação resulta uma obra sedutora em si mesma, rigorosa do ponto de vista histórico e não fastidiosa, o que é sempre o risco dos filmes sobre arte e artistas. Graças a artistas actuais da imagem somos conduzidos ao coração da revolução moderna e a momentos determinantes da história do Século XX  com desembaraço, sentido da história e da arte, que nos fazem chegar vivas, transfiguradas, figuras que se tornaram lendárias.
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    Mas não são apenas as personagens, são também os lugares, nomeadamente em Paris, que o documental e a animação trazem para o presente, sempre ao melhor nível. Assistir a esta série constitui sempre uma aprendizagem ou precisão de conhecimentos com um gosto especial devido à sua excepcional criação. 
   O Arte está a concluir em grande um ano de programação excepcional, que aqui de novo assinalo e saúdo.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

O espaço e o seu uso

    Em "Família: Rui Chafes & Pedro Costa com Jean-Marie Straub & Danièle Huillet", a instalação patente no Museu Nacional Machado de Castro mesmo depois da inciativa AnoZero: Bienal de Arte Contemporânea de Coimbra durante a qual se iniciou, o que se torna decisivo é o espaço e a sua utilização. De facto, mal conhecido e pouco visto apesar da sua importância, o espaço do criptopórtico romano do Aeminium é à partida tudo menos um espaço museal. Foi, no entanto, no seu muito antigo, escuro e arruinado espaço que os artistas quiseram situar uma sua instalação.
   Não vou em pormenor comentar as imagens e objectos de cada um a não ser para demonstração da utilização do espaço. Longos e escuros, antiquíssimos corredores com salas laterais e ao fundo, sobre umas escadas, uma parede em que é projectado um filme com palavras francesas poéticas e políticas, belamente recitadas. Lateralmente, em algumas das salas imagens fixas, luminosas mas escuras, no escuro marcam e demarcam o espaço de forma insólita. As alturas são uma perspectiva que não deixa de, a partir do fundo, das profundidades ser explorada.
   Naquela família que conheço bem aprecio aqui o arrojo do desafio, que sendo artístico é também e até sobretudo político numa instalação que vista em baixo, entre ruínas, se torna mais perceptível, bela e tocante. Em imagens conformes num espaço esclarecedoramente agreste e inesperado, aquela família pareceu-me bem, muito obrigado. A instalação estará no MNMC até 31 de Janeiro de 2016.
     Neste momento os meus parabéns a Rui Chafes pela atribuição do Prémio Pessoa 2015 (sobre ele, ver "Uma antológica", de 20 de Fevereiro de 2014; sobre instalações de Pedro Costa, ver "Instalações em diálogo", de 26 de Outubro de 2012; sobre Straub/Huillet, ver "Poética straubiana", de 15 de Novembro de 2012).
      Mas, além de verem esta instalação, aproveitem para visitar o Museu Nacional Machado de Castro, que vale muito a pena conhecer - ver, a seu respeito, "Mirleos", de João Miguel Fernandes Jorge (Lisboa: Relógio d'Água, 2015).