“Um não sei quê, que nasce não sei onde,/Vem não sei como, e dói não sei porquê.” Luís de Camões

"Na dor lida sentem bem,/Não as duas que êle teve,/Mas só a que êles não têm." Fernando Pessoa

"Lividos astros,/Soidões lacustres.../Lemes e mastros.../E os alabastros/Dos balaustres!" Camilo Pessanha

"E eu estou feliz ainda./Mas faz-se tarde/e sei que é tempo de continuar." Helder Macedo

"Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos..." Camilo Pessanha

“Vem, vagamente,/Vem, levemente,/Vem sozinha, solene, com as mãos caídas/Ao teu lado, vem” Álvaro de Campos

"Chove nela graça tanta/que dá graça à fermosura;/vai fermosa, e não segura." Luís de Camões

domingo, 10 de janeiro de 2016

A expansão do presente

    Eleanor Rigby é o título de uma canção dos Beatles de 1966, que serviu de inspiração para lhe dar um nome aos pais da protagonista de "O Desaparecimento de Eleanor Rigby/"The Desappearance of Eleanor Rigby", a trilogia de estreia escrita e realizada por Ned Benson, constituída por "Ele"/"Him", "Ela"/"Her" (2013) e "Eles"/"Them" (2014).
                    The Disappearance of Eleanor Rigby - screenshot 4
    Ao desdobrar os pontos de vista de El/Jessica Chastain e Conor Ludlow/James McAvoy, o casal perante uma "estrela cadente" de filho, o cineasta expande o presente que é dado num único filme no terceiro capítulo por forma a aproveitar a relação dela com os seus pais, Mary Rigby/Isabelle Huppert e Julian RigbyWilliam Hurt, e dele com o seu pai, Spencer Ludlow/Ciarán Hinds, além de outros detalhes respeitantes às suas actividades respectivas (ela retoma os estudos, ele continua a explorar um restaurante), à relação deles.
    Sobressaem o diálogo único dos pais sobre o filho perdido, no final, o diálogo dela com o pai em que este conta o momento mais difícil da sua vida, quando ela era criança, e o diálogo dele com o pai em que este lhe fala sobre o neto que perdeu, num todo que tem de mais atraente tentar captar um dia a dia comum na grande cidade, New York, onde foi rodado.
                     THE DISAPPEARANCE OF ELEANOR RIGBY 
     De resto, ao procurar a vida dos pais quase sem referência à morte do filho Ned Benson segue o caminho certo para mostrar no presente o não mostrado do passado como rasto que deixou, perene e simbólico. Sem ser comédia romântica, que por vezes aflora, "O Desaparecimento de Eleanor Rigby" é um melodrama inteligente e bem gerido em que "Ele" é o capítulo mais bem construído, "Ela" o mais sugestivo e "Eles" o menos convincente na sua maior duração (e com alguns desacertos técnicos).
     Sem se perder em efeitos formais, com dois grandes actores e grandes secundários esta uma estreia auspiciosa em que o novo cineasta mostra ao que vem e saber o que faz, como demonstra a construção dramática de cada filme e o seu comum final. Redondo. Claro que a repetição de imagens e cenas entre filmes, que os fazem funcionar como um puzzle, embora deliberada é redundante, e que um único filme poderia muito bem resolver a questão. A ambição do projecto compreende-se no seu excesso melodramático, que envolve, porém, os seus inelutáveis limites - experimentem ver esta trilogia na ordem inversa que percebem melhor a escassa utilidade do exercício.   

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Os melhores de 2015

    No ano da morte de Manoel de Oliveira e Herberto Helder, Chantal Akerman e Penelope Houston, um ano marcado por acontecimentos internacionais muito importantes, como a crise dos refugiados na Europa, além das outras que aqui assinalei em devido tempo marcaram-me especialmente as mortes do realizador italiano Francesco Rosi (1922-2015) e da actriz irlandesa Maureen O'Hara (1920-2015).
     Estrearam muitos filmes, incluindo muito lixo, mas vários dos anunciados não chegaram, pelo menos por enquanto, a estrear, confirmando o atraso crónico da distribuição comercial portuguesa. A ideia com que se fica é a de um cada vez maior espectáculo e de uma cada vez menor arte do cinema, o que, contra saudosismos, é mesmo assim nos dias que correm - já não é apenas a "sociedade do espectáculo" de Guy Debord, mas a "civilização do espectáculo" de que fala Mario Vargas Llosa. De tal modo que nos permite questionar, reconhecendo embora que todo o cinema está a mudar, se, com honrosas excepções, o melhor do cinema não estará no seu passado, na sua história. Mas isto digo eu, que sou pessimista.
    Com a precaução de avisar de que não vi tudo (nunca se vê tudo), aqui fica a minha lista dos melhores filmes de 2015. Sempre para que discordem e façam as vossas próprias listas de preferências.

                      visitamemoriasconfissoes_02                     

1º. Visita ou Memórias e Confissões, Manoel de Oliveira (1982).
2º. Minha Mãe/Mia madre, Nanni Moretti (2015).
3º. O Último dos Injustos/Le Dernier des injustes, Claude Lanzmann (2013).
4º. Vício Intrinseco/Inherent Vice, Paul Thomas Anderson (2014).
5º. O Pequeno Quinquin/P'tit Quinquin, Bruno Dumont (2014).
6º. Três irmãs/San zimei, Wang Bing (2012).
7º. Adeus à Linguagem/Adieu au langage, Jean-Luc Godard (2014).
8º. National Gallery, Frederick Wiseman (2014).
9º. As Mil e Uma Noites, Miguel Gomes (2015).
10º. Blackhat: Ameaça na Rede/Blackhat, Michael Mann (2015).
      
       Desejo que o próximo ano possa ser melhor do que este que agora acaba, em todos os aspectos incluindo no que respeita ao cinema. 

                Com os meus melhores votos de um Feliz Ano Novo de 2016 para todos.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Os livros de 2015

     Em 2015 saíram em Portugal livros importantes sobre cinema e as artes visuais próximas para os quais aqui me cumpre chamar a atenção. Começo por "Obra Escrita - Volume 2", de João César Monteiro (Lisboa: Letra Livre, 2015), que publica os guiões de "À Flor do Mar" (1986) e "Recordações da Casa Amarela" (1989), e "Crónicas: Imagens, Proféticas e Outras - 4º Volume (2007)", de João Bénard da Costa, com edição de Lúcia Guedes Vaz (Lisboa: Sistema Solar/Documenta, 2015), ambos devidos e absolutamente indispensáveis.
     Contudo, a surpresa do ano foi desta vez "A culpa no cinema de Alfred Hitchcock", de Renato Barroso (Letras Encantadas, 2014), totalmente inesperado e muito bom, fazendo justiça ao génio britânico. Mas também merecem especial atenção "Charlie Chaplin", de Peter Ackroyd (Lisboa: Teodolito, 2015), nova biografia do outro génio inglês, "O Essencial sobre Charles Chaplin", de José-Augusto França (Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 2015), que partindo do grande especialista português no "self-made-myth" deve ser visto como uma preciosidade, e "Cinefilia e Cinefobia no Modernismo Português (vias e desvios)", de Joana Matos Frias (Porto: Edições Afrontamento e Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa, 2015), muito curioso e bem documentado.
                                            A Culpa no Cinema de Alfred Hitchcock                              
    Saíram mais "Os Filmes da Minha Vida", de François Truffaut (Lisboa: Orfeu Negro, 2015 - o original francês é de 1975), e "Homo spectator: ver, fazer ver", de Marie-José Mondzain (Lisboa: Orfeu Negro, 2015 - o original francês é de 2007), que com méritos diversos merecem a nossa melhor atenção. 
    "Eu Animal - argumentos para um novo paradigma - cinema e ecologia", de Ilda Teresa Castro (Sintra: Zéfiro, 2015), que parte de um trabalho académico para ir além dele com grande pertinência e actualidade, e "Manoel de Oliveira 3/3" (Porto: Fundação de Serralves, 2014), o volume que faltava do catálogo dedicado ao cineasta aquando da exposição e retrospectiva que lhe foi dedicada em 2008, constituem outras publicações assinaláveis do ano que agora finda. Com coordenação de Maria do Carmo Piçarra e Jorge Anónio saiu "Angola. O Nascimento de Uma Nação - Volume III: O Cinema da Independência" (Lisboa: Guerra e Paz, 2015), que conclui da melhor maneira um projecto ambicioso.
                                               
     Integrado no Projecto de Investigação Ruptura Silenciosa, da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, coordenado por Alexandre Alves Costa e Luís Urbano, que já o ano passado tive aqui a oportunidade de mencionar, saiu o importante "Histórias Simples - Textos sobre Arquitectura e Cinema", de Luís Urbano (Porto: AMDJAC, 2013), enquanto "Manoel de Oliveira - O Homem da Máquina de Filmar", de Rute Silva Correia (Oficina do Livro, 2015), não passa de um equívoco oportunista mal alinhavado que o defunto grande cineasta não merecia, o que aqui não deve ser passado em silêncio.
     Em áreas próximas e afins destacaram-se "O Negro Teatro de Jorge Molder", de Alberto Ruiz Samaniego (Lisboa: Sistema Solar/Documenta, 2015), e "Enxúvia, Gelo e Morte - A arte de Rui Chafes depois do fim da arte", de Luís Quintais (Lisboa: Sistema Solar/Documenta, 2015).
                                       LISBOA, CIDADE TRISTE E ALEGRE by Victor Palla and Costa Martins
     Já no final do ano, "Fotografia: Modo de Usar", com edição de Delfim Sardo (Lisboa: Sistema Solar/Documenta, 2015) é um belo livro muito importante e esclarecedor sobre a fotografia que se pratica em Portugal na actualidade. Mas o livro do ano foi, para mim, de novo "Lisboa, Cidade Triste e Alegre", de Victor Palla e Costa Martins (Pierre von Kleist Editions, 2015), um livro fundamental ainda hoje surpreendente e indispensável na sua terceira edição (ver Mítico e mágico", de 6 de Dezembro de 2015).

domingo, 27 de dezembro de 2015

A cidade de ficção

   Só agora tive ocasião de ver "O Último dos Injustos"/"Le Dernier des injustes", de Claude Lanzmann (2013), cineasta de referência sobre a II Guerra Mundial e o Holocausto desde o monumental "Shoah" (1985), numa obra em que é também destacado especialmente "Sobibór, 14 octobre 1943, 16 heures" (2001), que permanece inédito em Portugal. 
   Centrado num judeu que interveio do lado das vítimas judaicas em todo o processo que conduziu à chamada Solução Final e mesmo durante esta, Benjamin Murmelstein, que foi Rabino em Viena e Presidente do Conselho Judaico no "gueto modelo", de facto campo de concentração e de extermínio selectivo, de Theresienstadt e, como tal, desempenhou funções de intermediário entre os algozes e as vítimas que se têm prestado a diversas interpretações, este é um filme fundamental e que não pode deixar indiferente.
                    O último dos injustos
   Ouvindo-o longamente em Roma em 1975 em imagens e entrevistas nunca antes reveladas, o documentarista disponibiliza para todos um testemunho fundamental de quem, podendo ter escapado à situação atroz, preferiu, como ele diz por espírito de aventura, ficar para ajudar no que ele designa como uma missão. Todo o depoimento Murmelstein, feito a partir da memória, viva e fresca, de quem esteve presente, é impressionante, e deita abaixo verdades que a história tinha estabelecido sem o levar em consideração - por exemplo sobre Eichmann, entre outras questões e personalidades de que fornece pormenores até agora desconhecidos.
   Mas não apenas isso. Claude Lanzmann mostra os locais na actualidade e algumas imagens, fotografias e até um excerto de um filme nazi da época, mas também revela ao mundo desenhos e pinturas feitos por prisioneiros durante o Holocausto. Com uma persistência e argúcia notáveis, questiona o seu interlocutor sem lhe dar tréguas nem facilidades, o que, com a colaboração sem restrições deste, homem inteligente e culto, conduz a um documento excepcional, absolutamente indispensável.
                   O último dos injustos
    Claude Lanzmann é o grande historiador da II Guerra Mundial e do Holocausto no cinema e este era um filme que ele devia e cumpre com toda a justeza histórica e cinematográfica, para nosso conhecimento e completa dilucidação da magna questão do Século XX.  
     Durante "O Último dos Injustos" ele recupera a imagem de Benjamin Murmelstein dando-lhe a palavra e a oportunidade de prestar todos os esclarecimentos e todas as explicações enquanto recorda o que viveu, o que muito justamento nos leva a compreender que nesta matéria, como noutras, nada nem ninguém deve ser esquecido para que a verdade surja em toda a sua crueza, como aqui de novo acontece a partir da imagem e da palavra dita e lida.

A saga das sagas

    "Star Wars: O Despertar da Força"/"Star Wars: The Force Awakens", de J. J. Abrams (2015), representa o muito aguardado e desejado regresso de personagens e de uma narrativa múltipla que nos são familiares. Baseado nas personagens criadas por George Lucas, este VII episódio tem argumento de Lawrence Kasdan, também co-produtor, Michael Arndt e do próprio realizador, também produtor, embora aqui seja fundamental referir a produção da Disney e a composição digital, de novo a cargo da Industrial Light and Magic.                        
                      
     Claro que esta saga de ficção científica no passado se destina sobretudo a um público juvenil - mas haverá que observar que a juventude de agora não é a mesma dos anteriores episódios -, claro que a ela estão associados um grande negócio de gadgets e memorabilia (expostos em Lisboa no 7º Piso do El Corte Ingles) e sobretudo múltiplos jogos de vídeo, o que, desde que surgiu, embora original não tem nada de especial. O que aqui importa realçar é que o tempo passou também para Han Solo/Harrison Ford e a Princesa Leia/Carrie Fisher, o que é muito bem explorado narrativamente pelo filme.
     De facto, agora é o filho de ambos que, invocando o avô, lidera as forças do Primeiro Círculo, sob o nome de Kylo Ren/Adam Driver, o que mantém o lado familiar da saga, que nela é muito importante. As novas personagens, nomeadamente Rey/Daisy Ridler, Finn/John Boyega e Poe/Oscar Isaac, são, por isso, todas elas mais novas, e vão ter de ser eles a liderar o combate. De novo também um robot, BB-8, além dos anteriores robots e criaturas, que ele porém excede em importância narrativa.
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    Toda a parte de animação digital está, como de costume, muito bem, e nela reside um dos maiores motivos de interesse cinematográfico de cada um dos episódios desta saga. A evolução aqui registada é muito importante (não, não vou revelar nada mais do filme) e vem permitir relançar a saga para próximos episódios, ainda com Luke Skywalker/Mike Hamill que, motor da narrativa, só fugazmente surge no final.
     Por mim esta é a melhor saga de ficção científica, atendendo às suas implicações temporais ao situar-se num passado remoto, às características do combate mitológico que encena e à panóplia de efeitos visuais e digitais que mobiliza, muito embora "Star Treck", que Abrams já dirigiu para cinema em 2009 e 2013, seja um rival à sua altura, mas mais preso à possível actualidade futura da exploração do espaço. A invenção desta saga terá sido mesmo o maior contributo de George Lucas para o cinema.   
                     star wars
      A referência a J. J. Abrams não deve passar sem mencionar que ele, que aqui se sai naturalmente muito bem como realizador ainda que "Star Wars: O Despertar da Força" tenha uma carga mítica atenuada em relação aos episódios anteriores, foi o criador da série televisiva "Perdidos"/"Lost", que marcou uma época entre 2004 e 2010. E se puderem vejam o filme em 3D.

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Hitchcock outra vez

    O Arte retransmitiu hoje "Hitchcock/Truffaut", de Kent Jones (2015), sobre o célebre livro "Le cinéma selon Hitchcock" (Paris: Robert Laffont, 1966), em que o então ainda jovem cineasta francês, com a colaboração de Helen Scott, conversa longamente com o grande e famoso mestre do cinema. Um livro que marcou uma época.
    Graças à recuperação de trechos do diálogo e de trechos de filmes do entrevistado, com comentários pessoais como esclarecimentos de alguns dos grandes nomes do cinema actual - Martin Scorsese, Wes Anderson, David Fincher, Olivier Assayas, Peter Bogdanovich, Arnaud Desplechin, James Gray, Kiyoshi Kurosawa, Richard Linklater e Paul Schrader  -, este filme escrito por Kent Jones e Serge Toubiana, montado por Rachel Reichman e com a voz de Mahieu Amalric, constitui um ensaio exuberante, explicativo e demonstrativo, sobre um dos maiores cineastas da história do cinema. 
                                    Hitchcock/Truffaut Documentary
     A arte de Alfred Hitchcock resultou de ele se ter iniciado no cinema no tempo do mudo, de que preservou o segredo  depois do advento do sonoro no que ele considerava o "cinema puro". Ver os seus principais filmes detalhadamente analisados por novos e destacados cineastas que conhecem bem a sua obra e o admiram constitui simultaneamente uma homenagem e uma lição. Reter da sua conversa inicial com Truffaut, que se prolongou durante quatro anos, fragmentos sonoros e momentos visuais confere a este filme de Kent Jones um carácter de documento de época que ele também tem.
    As análises nomeadamente da culpa, da troca de crimes, do medo, do erotismo, do fetichismo, mas também, e até em especial, a análise formal em filmes fundamentais como "A Mulher Que Viveu Duas Vezes/"Vertigo" (1958), "Psico"/"Psycho" (1962), "Os Pássaros"/"The Birds" (1964), vistos à lupa, plano a plano, excerto a excerto, e os exemplos retirados de muitos outros filmes fazem deste filme um ensaio modelar e fascinante, pedagógico e comemorativo, que muito justamente a Hitchcock associa François Truffaut, recordando que ele morreu com 52 anos, quatro anos depois do seu ilustre interlocutor e amigo.  
                    
        Como nenhum outro cineasta, Alfred Hitchcock soube, em favor do dispositivo de projecção do cinema, trabalhar o lado fantomático do filme com calculado envolvimento emocional do espectador, sempre com um uso superior da linguagem cinematográfica que não afastou a experimentação e sem evitar o dilema moral, que justamente perseguiu e procurou.
      Em português, devo assinalar a publicação este ano de "A culpa no cinema de Alfred Hitchcock", de Renato Barroso (Letras Encantadas, 2014), um livro em que, revelando grande saber do cinema e do direito, com grande dignidade o autor esgota este tema fundamental na obra cinematográfica e televisiva do cineasta, o que o torna uma obra a partir de agora indispensável na bibliografia sobre cinema e sobre o seu maior, mais inventivo criador.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Canção simples

   Embora não se afaste muito dos seus trabalhos anteriores, "A Juventude"/"Youth" de Paolo Sorrentino (2015) surpreende pela audácia com que enfrenta o cinema e a velhice.
  Dois velhos amigos, o compositor e maestro Fred Ballinger/Michael Caine e o realizador de cinema Mick Boyle/Harvey Keitel, passam uma temporada num hotel de luxo na Suíça, ocupando o seu tempo em conversas banais sobre um e o outro, sobre os filhos respectivos, sobre os outros hóspedes. Ambos são célebres - o primeiro recusa um convite para tocar perante a Rainha de Inglaterra, o segundo vai receber uma negativa da sua actriz de há muito, a mítica Brenda Morel/Jane Fonda, para participar no novo filme, o seu "filme-testamento" como lhe dizem, que ele está a preparar.                     
                     YOUTH International Red Band Trailer (2015) - Paolo Sorrentino
   Numa situação que, com o risco do pretensioso, poderia permitir enveredar pelos caminhos da reflexão sobre a criação artística em cada um dos sectores, a opção do realizador, também argumentista, passa pela banalidade quotidiana vivida por dois homens com mais passado que futuro, o que confere especial interesse ao que dizem, ao que pensam, ao que fazem. Com notações avulsas, como o monge budista, o futebolista famoso no seu tempo, o casal que não fala, o montanhista, o para-quedista, sem deixar de lembrar no seu melhor "As Férias do Sr. Hulot"/"Les vacances de Monsieur Hulot", de Jacques Tati (1953), "A Juventude" deixa todo o espaço para a o diálogo e a recriação verbal.
   Muito centrado em sexo e mulheres, como era expectável atendendo à idade dos protagonistas, o filme acaba por se encaminhar para uma reflexão comparada, em termos práticos, sobre a intemporalidade da música e a caducidade do cinema que, substituído pela televisão que o suplanta, já passou. E as memórias de tempos felizes não impedem de encarar um presente em que a mulher de Fred está internada em Veneza e a nova namorada do filho de Mick, que suplantou a filha de Fred, Lena/Rachel Weisz, junto dele, é uma cantora pop, Paloma Faith, que surge em sonhos num vídeo-clip.
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    Confrontado com a recusa de Brenda Morel e os seus fantasmas, as personagens que terá criado, Mick opta por sair pela janela, enquanto Fred, depois de indicações sumárias a uma criança que aprende a tocar e do encontro de ambos com a nova Miss Universo, acaba por aceitar o convite da Rainha, uma vez esclarecido o que estava por trás de "aprender a andar de bicicleta" para o outro.
     Num filme inesperado e convincente, em que o diálogo revelador entre Fred e Lena está, tal como a saída final de Mick, muito bem encenado e a conclusão dos mais jovens vai no sentido do desejo contra o sentido do poder, a dedicatória final a Francesco Rosi (1922-2015) fica muito bem (sobre Paolo Sorrentino, ver "Evocativo", de 15 de Março de 2014).