“Um não sei quê, que nasce não sei onde,/Vem não sei como, e dói não sei porquê.” Luís de Camões

"Na dor lida sentem bem,/Não as duas que êle teve,/Mas só a que êles não têm." Fernando Pessoa

"Lividos astros,/Soidões lacustres.../Lemes e mastros.../E os alabastros/Dos balaustres!" Camilo Pessanha

"E eu estou feliz ainda./Mas faz-se tarde/e sei que é tempo de continuar." Helder Macedo

"Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos..." Camilo Pessanha

“Vem, vagamente,/Vem, levemente,/Vem sozinha, solene, com as mãos caídas/Ao teu lado, vem” Álvaro de Campos

"Chove nela graça tanta/que dá graça à fermosura;/vai fermosa, e não segura." Luís de Camões

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Continuar a respirar

   Baseado na novela homónima, publicada em português, de Michael Punke, o mais recente e muito bem acolhido filme de Alejandro González Iñárritu, "The Revenant: O Renascido"/"The Revenant" (2015), não deixa de ser surpreendente numa obra toda ela recheada de sucessos.
   Surpeende em primeiro lugar pela época em que se situa, no início do Século XIX (1820), ainda uma época de pioneiros, poucas décadas depois da independência americana,  que torna compreensíveis as personagens (exploradores americanos e franceses, índios de diferentes tribus) e as situações conflituais. A partir daqui, surpreende em segundo lugar que o cineasta, também co-autor do argumento com Mark L. Smith, acolha com dignidade a narrativa canónica americana sobre os pioneiros, estabelecida por James Fenimore Cooper (1789-1851) no próprio Século XIX, o que se compreende melhor por se basear em factos reais.
                    The Revenant
    História de sobrevivência num meio agreste e adverso, em que a maior adversidade são os outros humanos e que termina com a vingança de um pai, desde o início que em "The Revenant: O Renascido" o protagonista, Hugh Glass/Leonardo DiCaprio, diz que é preciso continuar a respirar, o que em acto passa no final para o genérico de fim. 
   Não vou louvar os actores, em especial DiCaprio e Tom Hardy como John Fitzgerald, evidentemente excelentes, em especial o primeiro que se submete às provas muito duras que a sua personagem atravessa em especial a partir do momento em que é abandonado por morto. Vou sim dizer que não gostei dos excessivos de movimentos de câmara, que à maioria surgirão como sinais de mestria de Iñarritu, utilizados em momentos dramáticos fundamentais, salvo no caso do aparecimento da manada de bisontes. Chamem-lhe "mestria", "trabalho superior", o que quiserem: apesar de o duelo final estar bem resolvido nada daquilo tem a ver com o género western ou com o subgénero filme de pioneiros.
                    The Revenant
      Em contrapartida, o uso da natureza e dos seus elementos está muito bem tratado, com clara predonância da água, e os flashes do passado de Glass estão justa e parcimoniosamente utilizados. Claro que a narrativa, as personagens e situações se sobrepõem ao mais, e que globalmente o filme cumpre de maneira vistosa (a luta com o urso é sobretudo isso) o seu projecto narrativo e fílmico, o que o torna um favorito para os Oscars deste ano, em que pelo menos o destinado ao actor principal será sobejamente merecido. 
     A seu favor poderá jogar mesmo o paralelo com o "Derzu Uzala" de Akira Kurosawa (1975), passado ele também num meio difícil de sobrevivência, a Sibéria, mas bem melhor. Contra ele jogará o filme de Richard Serafian (1930-2013) "Um Homem na Solidão"/"Man in the Wilderness" (1971), com Richard Harris e John Huston, muito mais económico e melhor sobre o mesmo episódio verídico, como estará contra, além do desatino dos movimentos de câmara, uma música inutilmente solene e excessiva. Mas os tempos vão de feição para trabalhos do tipo deste no cinema (sobre Alejandro González Iñárritu, ver "Excesso de subtileza", de 4 de Fevereiro de 2015).

Sombras fugidias

   Baseado na novela de Patricia Highsmith "The Price of Salt", de 1952 e com várias edições em português, "Carol", de Todd Haynes (2015), vem demonstrar que os livros da famosa escritora americana (1921-1995) são especialmente apetecíveis para grandes cineastas - "O Desconhecido do Norte-Expresso/""Strangers on a Train", de Alfred Hitchcock (1951), "O Amigo Americano"/"Der Amerikanische Freund", de Wim Wenders (1977), "O Grito do Mocho"/Le cri du hibou", de Claude Chabrol (1987), "O Talentoso Mr. Ripley"/"The Talented Mr. Ripley", de Anthony Minghella (1999). 
                     Review: Cate Blanchett masters all the signals for Todd Haynes' 'Carol'
   De facto, o filme de Todd Haynes tem uma segurança e elegância de estilo que se coaduna muito bem com o seu ponto de partida literário, evoluindo no início dos anos 50 do Século XX sem qualquer embaraço ou escolho na descrição e narração da vida da protagonista, Carol Aird/Cate Blanchett, enquanto decorre o seu processo de divórcio do marido, Harge Aird/Kyle Chandler, e de entrega da guarda da filha de ambos, Rindy Aird/Sadie e Kk Heim. A relação de Carol com Therese Belivet/Rooney Mara, na sequência da anterior com Abby Gerhard/Sarah Paulson, vai no sentido da natureza dela mas é explorada pelo marido em vias de deixar de o ser.
   Os actores são, como se impumha, muito bons, com destaque para a beleza e elegância de Cate Blanchett e a espontaneidade sensível de Rooney Mara, a adaptação de Phyllis Nagy muito boa, a fotografia de Edward Lachman (1) excelente, ao que responde uma música muito variada orquestrada e dirigida por Carter Burwell e a montagem simples e sempre justa de Affonso Gonçalves.               
                     Carol
   E haverá aqui que notar a subtileza da construção narrativa, em que só o final retoma o início onde fora deixado, depois de se ter aberto e fechado o cristal do tempo, que é pretexto para uma excelente reconstituição de época. Mas o feito mais notável é a confirmação de Todd Haynes como grande cineasta actual do melodrama no cinema americano - ele realizou também a mini-série "Mildred Pierce", em cinco episódios, para a televisão (2011).

   Nota
   (1) Consultar a entrevista de Edward Lachman aos Cahiers du Cinéma, nº 719, de Fevereiro de 2016 (páginas 20-22), integrada no excelente Dossier Spécial Caméras que permite desmentir mais uma vez o lugar-comum de que no cinema "a técnica não é importante".

domingo, 7 de fevereiro de 2016

Um sonho mudo

    Datado de 1938, "Demasiado Johnson"/"Too Much Johnson" de Orson Welles, resgatado do esquecimento em 2013 e que só agora vi em edição dvd, terá sido feito para, em fórmula de três prólogos, passar com a peça de teatro com o mesmo título de William Gillette, de que desconheço tudo. Atenho-me por isso ao filme.
                     Joseph Cotten in "Too Much Johnson"
      Com a forma notável para a época de filme mudo, "Demasiado Johnson" conta com argumento do próprio Welles, embora a sua narrativa seja dificilmente perceptível fora dos desastres dignos do burlesco mudo em que se vê envolvido um muito jovem Joseph Cotten como Augustus Billings, perseguido por amante de uma mulher casada. Mas o que é mais curioso é que tudo neste filme remete para o tempo do mudo, anos 10/20 do Século XX, do vestuário aos adereços. Como num Chaplin ou num Buñuel mudo, com rasto visível dos keystone cops, um dos quais interpretado pelo próprio Orson.
        Na primeira parte, passada na cidade, há referências retidas para o futuro, da profundidade de campo em exteriores ao plongé/contra-plongé funcional, passando pelos montes de caixas, caixotes e gaiolas, mas o que aí surpreende mais é uma arquitectónica excepcional e excepcionalmente aproveitada. Na segunda parte tudo se passa noutros locais, entre o mar e o porto, o deserto e a montanha, notando-se pelo meio um singular jogo de chapéus e no final o regresso de Cotten com um chapéu de chuva.
                   
       Feitas as contas, este filme felizmente redescoberto mostra bem, pelo seu ano de produção, ser anterior a "Cavalgada Heróica"/"Stagecoach", de John Ford (1939), que o génio aqui em incubação dizia ter visto inúmeras vezes antes de fazer "O Mundo a Seus Pés"/"Citizen Kane" (1941), que também interpretou e foi a sua estreia oficial no cinema. É mesmo isso que me leva a escrever isto, embora tudo o que seja de Orson Welles me interesse (ver Génio de Orson Welles", de 10 de Julho de 2015, e "Poética de Orson Welles", de 30 de Outubro de 2015).
      Aproveito para chamar a vossa atenção para o que, em contexto, escreve com toda a razão Marie-José Mondzain sobre "O Mundo a Seus Pés" e Orson Welles no final do seu "Homo spectator - ver, fazer ver" (edição portuguesa Lisboa: Orfeu Negro, 2015, páginas 335-366), que aqui de novo aconselho. O filme dizem-me estar disponível na internet, tal como a curta "The Hearts of Age", também muda, que sobre argumento próprio ele co-realizou com Wlliam Vance em 1934.
                   
      Que os filmes que jovem prodígio fez antes do célebre "Citizen Kane" fossem mudos deve ser igualmente atendido e sublinhado, pois o faz recuar no tempo e faz o cinema mudo avançar mais 10 anos, como Jean-Luc Godard disse já teria sido preferível acontecer para o próprio cinema.

A carta de Abe ou o teatro do oeste

    O oitavo, e anunciado como antepenúltimo filme de Quentin Tarantino, "Os Oito Odiosos"/"Hard Eight" (2015), traz-nos de regresso um grande cineasta, de novo, como no anterior "Django Libertado"/"Django Unchained" (2012), às voltas com o oeste americano do século XIX, na sequência da Guerra Civil (1861-1865).
                     hateful-eight-bruce-dern-kurt-russell-jennifer-jason-leigh
    Sobre o modelo de "Cavalgada Heróica"/"Stagecoach", de John Ford (1939), diligência + estalagem, mas sem chegada ao destino, Tarantino, também autor do argumento, introduz pela insistência no mesmo cenário uma teatralidade que talvez não estivesse presente na sua obra desde "Cães Danados"/"Reservoir Dogs" (1989), o seu filme para que este mais proximamente remete. Claro que em Portugal não podemos ver o filme nos 70mm para que foi feito, mas por mim fico com uma boa ideia pela exploração do espaço na horizontal.
    Com os movimentos de câmara indispensáveis e uma variação de planos reduzida ao essencial, primeiro o espaço da diligência, com enquadramentos frontais, depois o da estalagem, e este especialmente, são tratados como um palco em que os actores evoluem em profundidade e lateralmente, presos eles também pela abundância e importância do diálogo. Simultaneamente, a descontinuidade da narrativa favorece o interesse do espectador, que renasce quando poderia ameaçar esmorecer.
                     hateful-eight-samuel-l-jackson-walton-goggins
    Tipificadas embora, as personagens, os "oito odiosos", não têm apesar de tudo uma construção fixa como estereótipos, que era o lado mais fraco do filme anterior do cineasta, e evoluem ao sabor de uma intriga que só ao fim de quase duas horas começa a desvendar os seus meandros a partir de um dispositivo eminentemente teatral: um alçapão. E deve mesmo ter-se presente que os "caçadores de prémios", centrais no filme, foram figuras muito importantes no western.
      Tenho para mim que um dos aspectos mais importantes do cinema de Quentin Tarantino é o tom jubilatório dos seus filmes, que com um humor truculento próprio aqui está de novo presente: como na carta de Abe Lincoln, nada é verdadeiro naquela história, como pouco seria verdadeiro na história do western - o mítico "A Desaparecida"/"The Searchers", de John Ford (1956) passava-se também a seguir ao fim da Guerra Civil. A questão é que, como neste género e nessa carta em favor do mito, nos faz acreditar no que nos mostra, no que nos diz, incluindo a questão racial que aqui regressa. 
                     Quentin Tarantino, The Hateful Eight
     Depois de Sergio Leone e Sam Peckinpah, a fotografia de Robert Richardson, a música de Ennio Morricone (sim, ele mesmo) e grandes actores no registo certo e muito bem caracterizados e dirigidos fazem o resto. Porque como poucos nos tira do tédio generalizado do actual cinema americano, estamos todos à espera dos seus filmes seguintes, Quentin Tarantino! (Sobre ele ver "Devastador", 21 de Fevereiro de 2012, e "Puro Tarantino", de 31 de Janeiro de 2013.)

     Nota
    Sobre este cineasta, cf. "Quentin Tarantino - Un cinéma déchainé", dirigido por Emmanuel Burdeau e Nicholas Vieillescazes (Paris: Les Prairies ordinaires - Capricci, 2013). Mas chamo também a atenção para o "John Ford" de Ted Gallagher, reescrito pelo autor para a edição francesa (Paris: Capricci, 2014).

domingo, 31 de janeiro de 2016

O senhor do segredo

   Jacques Rivette (1928-2016) foi a consciência crítica e teórica da nouvelle vague francesa durante os anos 50 e início dos 60 nomeadamente nas páginas dos Cahiers du Cinéma, e tornou-se com a sua estreia no cinema, depois de preliminares, com a curta "Le Coup du Berger" (1956) e a longa-metragem "Paris nous appartient" (1960) a sua consciência prática. Cada um dos seus textos críticos era também teórico, cada um dos seus filmes uma experiência e um ensaio no cinema.
    Os filmes que entre 1966 e 1967 realizou para a série "Cinéastes de notre temps" sobre Jean Renoir deixavam falar eloquentemente sobre o seu segredo, que toda a sua obra, incluindo o seu segmento para "Lumière et compagnie" (1995), confirmou. 
                             
    Depois de "A Religiosa"/"Suzanne Simonin, la Religieuse de Diderot"(1966), baseado em Denis Diderot e que, censurado, levantou uma enorme celeuma e polémica em França, e de "L'amour fou" (1968) os seus filmes foram-se fechando num crescente hermetismo, que era também um caminho de ascese pessoal. Mais longos, estabeleciam rimas com a cultura, nomeadamente a literatura francesa (Honoré de Balzac) e com o próprio cinema, nomeadamente o seu.
    Foi o tempo de "Out 1: Noli me tangere" (1970) e de "Out 1: Spectre" (1971), versão curta de 4 horas e 20 minutos do anterior que tinha 12 horas e 30 minutos, que alguns consideram a sua obra-prima, a que se seguiu "Céline et Julie vont en bateau" (1974). Da tetralogia "Les filles du feu" ou "Scènes de la vie paralèle" fez apenas "Duelle"  e "Noroit"  (1976), mais tarde "História de Marie e Julien"/"Histoire de Marie et Julien" (2003), filmes abissais sobre a vida e os vivos, a morte e os mortos, fantasmas.
                               Jacques Rivette à Cannes, en 2001.
     Sempre longe dos holofotes da ribalta e do cinema comercial, tornou-se aparentemente "mais acessível" em "Merry-Go-Round" (1978) e "Pont do Nort" (1981), "Amor de Rastos"/"L'amour par terre" (1983), "Hurlevent" (1985) baseado em Emily Brontë" e "O Bando das Quatro"/"La Bande des quatre" (1988). Com "A Bela Impertinente"/"La Belle Noiseuse" (1991), filme de ficção insuperável sobre a criação pictórica, e "Joana D'Arc, a Donzela I. As Batalhas e II. As Prisões"/"Jeanne La Pucelle I. Les Batailles et II. Les Prisons" (1994), filme em duas partes imprescindível sobre a história, houve quem admitisse a fama e glória do cineasta, que em "Alto Baixo Frágil"/"Haut Bas Fragile" (1995), "Secret Défense" (1997), "Sabe-se Lá"/"Va Savoir" (2001), "Não Toquem no Machado"/"Ne touchez pas la hache" (2007) ele se apressou a desmentir ao sublimar, confirmando em inteligência e depuração a sua fama pessoal de cineasta excepcional para sua honra pessoal.
     Despediu-se com "36 Vistas do Monte Saint-Loup"/"36 vues du pic Saint Loup" em 2009, uma despedida em beleza e comovedora de quem viveu do cinema e para o cinema, que enriqueceu de forma decisiva pelos seus mestres confessos como hitchcock-hawksiano, a sua intransigência crítica e o seu excepcional cinema em que avulta o respeito pelo trabalho dos actores, que filmava como actores ao trabalho mais do que como personagens - um filme como o documentário da sua filmagem.
                   
    Denunciou lapidarmente o abjecto no cinema nos anos 50 e a partir daí tornou-se a grande referência de uma ética do cinema, em que Jean-Luc Godard e Serge Daney pegaram. Nunca transigiu no seu gosto pessoal, mesmo com os seus companheiros da nouvelle vague, o que está patente nos seus filmes de um génio pessoal incomparável, em que a sua estética cinematográfica transparece a sua ética como em mais ninguém, o que constitui a sua poética pessoal.
     É por causa dele que eu não posso baixar a guarda em tudo aquilo que escrevo. E lembro aqui que os seus escritos não estão publicados, salvo os seus inéditos de então em "Trois films fantômes de Jacques Rivette - Phénix suivi de L'An II et Marie et Julien, Précédé d'un Mode d'emploie par Hélène Frappat et Jacques Rivette (Paris: Cahiers du Cinéma, 2002). Sobre ele é decisivo "Jacques Rivette, secret compris", de Hélène Frappat (Paris: Cahiers du Cinéma, 2001). Para vossa confusão, acrescento que quem, longe dele, esteve mais próximo dele foi Manoel de Oliveira. Não preciso de mencionar aqui todos os que trabalharam com ele, com os quais, Jean-Luc e os Cahiers incluídos, emocionado partilho neste momento o luto mais carregado.

sábado, 30 de janeiro de 2016

Indecisa

   Com argumento de Nick Hornby baseado no romance de Colm Tóibin (1), "Brooklyn" de John Crowley (2015) revisita em termos pessoais a emigração irlandesa para os Estados Unidos, que marcou o Século XX e ficou famosa.
   Situado no início dos anos 50, dá-nos a perspectiva da protagonista, Eilis/Saoirsi Ronan que, deixando a sua terra, a mãe e a irmã, por mediação clerical ruma a Brooklyn para aí, no Novo Mundo, começar uma nova vida. Ela é nova e naturalmente dela se aproxima no destino um canalizador italiano, que com ela casa antes de ela regressar à sua terra na sequência da morte da sua irmã, Rose/Fiona Glascott. 
                     Saoirse Ronan and Domhnall Gleeson in Brooklyn
   Com a mãe visita a campa do pai e da irmã, e durante a sua permanência conhece um outro jovem conterrâneo que... E aí se delineia o dilema, a indecisão de Eilis entre regressar a Brooklyn ou na Irlanda com novo emprego permanecer. 
   Porque não se afasta de Eilis de princípio a fim, "Brooklyn" de John Crowley apresenta um retrato verídico de época muito bom, da pequena cidade irlandesa à grande metrópole americana, com regresso que se afigura entre o temporário e o definitivo até que o parlatório feminino da pequena comunidade impõe a sua lei.
                     BROOKLYN Not pictured: Emory Cohen
    Cativante na indecisão da protagonista, que não se sabe se regressa para o marido rápido por opção ou por exclusão de partes, o filme faz a escolha certa de deixar o espectador perante os factos, para que ele procure a sua explicação compreensiva. Mas o sabor da Irlanda percorre todo o filme, das suas canções populares aos emigrantes que construíram parte da América, passando pelo clero católico. Entre mortos e casamentos, a sombra de John Ford e John Huston paira por ali.

    Nota
    (1) Edição portuguesa Bertrand Editora, 2010.

domingo, 24 de janeiro de 2016

A continuação da saga

    Acossadas agora pela temível Jeanine/Kate Winslet, a partir de 200 anos depois as personagens de Veronica Roth regressam no segundo filme da saga, "Insurgente/"Insurgent" (2015), realizado por Robert Schwentke (ver "O início da saga", de 31 de Agosto de 2015).        
                    
      Com o cerco montado e a separação de Tris/Shailene Woodley e Four/Theo James contra os seus próprios familiares e o passado respectivo consumada, Tris vai ter de superar as cinco provas dos cinco círculos que lhe é imposta por Jeanine, o que ninguém antes dela conseguira.
      No final a ajuda vem de onde eles a não esperam, mas o percurso para aí chegar é pejado de ciladas e armadilhas, mudanças e contra-mudanças de facção, e em tudo se tornam fundamentais os efeitos visuais. Bem imaginadas, as provas a que Tris é submetida relevam da procura do mais fundo da sua identidade.   
                     insurgent_trailer_still
     E é por ela ser ela própria desde o início, com todos os seus erros e fracassos passados assumidos, que Tris, Divergente, consegue superar com êxito as provas mais duras e selvagens a que é submetida pessoalmente pela tirana. Finalmente vencida, Jeanine remete-se à sua posição de dominadora vencida.   
   Com actores sempre excelentes e reviravoltas narrativas estarrecedoras, esta saga especialmente vocacionada para os mais novos continua como uma saga de referência, muito boa e muito bem feita. Do caos até à luz, estaremos atentos à sua continuação em duas partes e conclusão, até porque ali, sob o rosto do futuro, como na melhor ficção científica está o presente e estamos todos nós.