“Um não sei quê, que nasce não sei onde,/Vem não sei como, e dói não sei porquê.” Luís de Camões

"Na dor lida sentem bem,/Não as duas que êle teve,/Mas só a que êles não têm." Fernando Pessoa

"Lividos astros,/Soidões lacustres.../Lemes e mastros.../E os alabastros/Dos balaustres!" Camilo Pessanha

"E eu estou feliz ainda./Mas faz-se tarde/e sei que é tempo de continuar." Helder Macedo

"Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos..." Camilo Pessanha

“Vem, vagamente,/Vem, levemente,/Vem sozinha, solene, com as mãos caídas/Ao teu lado, vem” Álvaro de Campos

"Chove nela graça tanta/que dá graça à fermosura;/vai fermosa, e não segura." Luís de Camões

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Sólveig Anspach (1960-2015)

    De origem islandesa e americana, Sólveig Anspach, que nos deixou em 7 de Agosto de 2015, apesar de ser uma cineasta apreciável não é conhecida em Portugal. Com o seu último filme, póstumo, "L'effet aquatique" (2016), a estrear até ao fim do mês, passou esta semana no Arte o seu penúltimo filme, "Lulu femme nue" (2013).   
                        C'est important de savoir bien faire le mort dans la vie
   Com argumento seu e de Jean-Luc Gaget, a partir da banda-desenhada homónima de Étienne Davodeau, o filme conta com uma excelente interpretação de Karin Viard como Lucie, uma mulher de quarenta anos, casada e com filhos, que após uma entrevista de emprego mal sucedida parte à aventura sem destino certo. Sem o estardalhaço do cinema americano e das suas vedetas, o filme desenrola-se calmamente confrontando a protagonista com um homem mais velho, que vive numa caravana, mas também com outras mulheres, de todas as idades.
   Graças ao percurso aberto da protagonista, o filme de Sólveig Anspach dá-nos os problemas de mulheres em todas as idades e condições, numa perspectiva feminina inteligente e com um final, depois do regresso a casa de Lulu, muito bem resolvido em termos fílmicos. Como sublinhou a crítica francesa aquando da estreia do filme, a cineasta encena aqui a sua própria morte.
                     Lulu femme nue - Solveig Anspach                  
    Pois estas coisas não chegam a Portugal por não interessarem distribuídores apenas movidos pelos nomes mais conhecidos e pelos sucessos de bilheteira. Felizmente existe o Arte que nos permite conhecer tudo o que de mais relevante é feito em toda a Europa e em todo o mundo.
    Na despedida tardia, a minha homenagem a Sólveig Anspach, uma boa cineasta que faz falta.    

Bill Douglas (1934-1991)

    O Arte transmitu na passada segunda-feira, 30 de Maio, a trilogia do escocês Bill Douglas composta por "My Childhood" (1972), "My Ain Folk" (1973) e "My Way Home" (1978), que marcou uma época.
                     Bill Douglas Trilogy
      Inédita em Portugal, salvo na Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema, esta é uma trilogia que todos devem conhecer, uma referência fundamental do cinema dos anos 70. O seu autor, também argumentista, que morreu precocemente, traça aí o retrato de Jamie/Stephen Archibald, desde os anos da Guerra até à sua ida para o serviço militar, empurrado entre pais e avós e procurando aguentar-se mesmo assim com a cumplicidade de Tommy/Hughie Restorick, nos dois primeiros filmes, acompanhado por Robert/Joseph Blatchley no último.
     Passado numa aldeia mineira na Escócia, a Newcraighall natal do cineasta, com o final rodado no Cairo, e filmada num intransigente preto e branco, esta trilogia tem, em especial nos dois primeiros filmes, um uso quase fotográfico da fotografia e toda ela uma excelente construção narrativa e fílmica, elíptica e convocando permanentemente o fora-de-campo. Ao exigir a participação do espectador Bill Douglas é aqui profundamente moderno.
                     Image for The Bill Douglas Trilogy
    Bill Douglas, que fez ainda "Comrades" (1986), é uma referência fundamental graças a esta trilogia em especial, com um estilo que tira todo o partido da linguagem do cinema para tratar uma época e um local pouco vistos no cinema.
     É por causa de coisas como esta que eu continuo a ver e recomendar o Arte, uma verdadeira alternativa a uma boa cinemateca.

domingo, 29 de maio de 2016

Feira do Livro

    Continuo sem ver televisão portuguesa e sem ler jornais portugueses, salvo o Público à sexta-feira por causa do Ípsilon. Nem sequer é por causa da coisa Ípsilon, que é estimável e me permite manter actualizado na informação e crítica cultural, mas por causa da "Estação Meteorológica" em que, semanalmente, o António Guerreiro me dá motivos para pensar neste país dado a uma actualidade sempre passada e perdida depois de selvaticamente explorada. 
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    Leio quando posso e quanto posso os livros que me interessam, sempre com uma grande limitação por causa do pouco tempo livre que tenho - estou a acabar "Conquistadores - Como Portugal Criou o Primeiro Império Global", de Roger Crowley (Lisboa: Presença, 2016) e "Uma Causa Improcedente", de Claudio Magris (Lisboa: Quetzal, 2016), que vos aconselho -, e vou por isso à Feira do Livro de Lisboa comprar o que, interessando-me, é problemático que tenha tempo para ler - o costume há muitos anos. Vou comprar, por exemplo, o último livro traduzido em português do irlandês John Banville, "A Guitarra Azul" (Porto Editora, 2016), porque é um escritor que me interessa há muito, e os livros da Ana Margarida de Carvalho, que dizem ser mais do que um mero fenómeno genético ("filha de peixe...", rebéubéu...). E vou continuar a dedicar-me às literaturas nórdicas e bálticas, que são muito boas e me interessam cada vez mais.  
                                  * 
   Num tempo em que o visual substituiu o escrito, continuo a ler por prazer e por dever, e a ver coisas de que nem sempre gosto. O mundo vai como vai, o país também, e na "zona de protecção" que para mim próprio tenho de criar assim vou indo. Façam como eu: leiam o António Guerreiro à sexta-feira (de caminho, também o Miguel Esteves Cardoso e o Bartoon, pelo menos - o Público é um bom jornal) e vão à Feira do Livro. 
   Mas aqui devo neste momento felicitar calorosamente o Manuel Alegre pelos três importantes prémios literários que lhe foram recentemente atribuídos com a maior justiça, o que me sinto autorizado a dizer porque, numa cumplicidade antiga, com ele mantenho sempre a leitura em dia.

Por mim não

    "Exterminador: Genesys"/"Terminator Genesys", de Alan Taylor (2015), agarra nas personagens e nas narrativas dos filmes de James Cameron, feitos há mais de 25 anos ("O Exterminador Implacável"/"The Terminator", 1984, e "Exterminador Implacável 2: O Dia do Julgamento"/"Terminator 2: Judgement Day", 1991), para os recuperar numa nova narrativa partindo dos mesmos princípios. O resultado é uma inanidade grotesca.                      
                     terminator genisys
      Exagerando os dados narrativos de base, o filme caracteriza-se por usar planos muito curtos, 5-10 segundos no máximo, o que faz dele um fraco vídeo-clip de que não tem o ritmo nem a inspiração dos melhores. E é assim que os paradoxos temporais resultantes da viagem no tempo nos chegam, sem interesse, quase caricaturais na sua reciclagem infeliz mesmo se em função do "dia do julgamento".
      Arnold Schwarzenegger empresta a sua figura no cinema, muito ligada a estes filmes, àquilo que de aproveitável existir nas personagens apanhadas na vertigem da viagem no tempo. Mas apesar dele e da ironia que a sua personagem introduz o resultado é muito fraco, confrangedor.
                     Terminator Genisys (36)
       A mim, "Exterminador: Genesys" chegou-me como uma sucessão de clarões luminosos que visam cativar e paralisar o espectador. Talvez esteja na moda mas comigo, não. Nem por sombras. E é mesmo por causa de coisas como esta que o cinema americano continua muito em baixo em prestígio e qualidade: pirotecnia e efeitos especiais sem ideias de cinema. Talvez como jogo de vídeo, o que já foi feito. 
       Pelo menos James Cameron era, na altura dos seus dois filmes, um cineasta estimável. Se me quiserem procurar, não, não estou aqui.

sábado, 21 de maio de 2016

Astuciosamente, as ilhas

     O mais recente filme de Luís Filipe Rocha, "Cinzento e Negro" (2015), é uma nova demonstração do talento deste realizador que, sem dar nas vistas, vem traçando um rumo pessoal e definido no cinema português.
                      Luís Filipe Rocha’s Cinzento e Negro to compete at Montreal
    Agarrando em alguns lugares-comuns - o polícia de "competência implícita" e que fuma tabaco português, a açoreana de "acesso fácil" para viajantes -, Luís Filipe Rocha constrói o seu filme com base em cinco personagens, quatro na actualidade a quinta no regresso ao continente que explica depois o que aconteceu antes.
    Pouco dado a artifícios formais mas sem temer a complexidade nem a subtileza, o cineasta, também argumentista, trabalha a narrativa e as personagens intensivamente, sobretudo o inspector Lucas/Filipe Duarte e Maria/Joana Bárcia, num grande trabalho da actriz como mulher com pé boto que retém e recorda cheiros. Todas as situações espacial ou temporalmente mais complicadas são resolvidas de forma desenvolta e certeira  
                    
      Pelo meio são esboçadas algumas, muito claras citações cinematográficas só para iniciados, mas o que verdadeiramente interessa são a narrativa retorcida mas no fim de contas muito simples e as personagens reduzidas a esboços que excedem sempre a simples caricatura - mesmo David Justo/Miguel Borges, o homem do dinheiro, em fuga e que troca de par, e Marina/Monica Calle. O final está muito bem resolvido entre Maria e David: "Já passou".
      Mal habituados pelas alarvidades que chegam às salas de cinema com sucesso comercial, os espectadores portugueses podem, mas não devem passar ao lado deste filme muito bom de um cineasta sério cuja obra merece, quanto mais não seja a partir deste filme, ser melhor conhecida. Este é, a meu ver, o seu melhor filme desde "Adeus, Pai" (1996), curiosamente também passado nos Açores, embora tenha achado o som demasiado volumoso, o que pelo menos permite ouvir e perceber tudo o que é dito e prescindir das tantas vezes necessárias legendas em portugs.   
                   
       Mais uma vez, os Açores, desta feita o Faial e o Pico, ficam muito bem vistos no cinema português. Que isso aconteça pela mão de um bom cineasta, que para mais se abona em Raul Brandão para o título, num filme de amor, traição e morte não é certamente fruto do acaso.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Alexandre Astruc (1923-2016)

    Foi uma personalidade fundamental do moderno cinema francês, em que é provavelmente mais conhecido pelo seu manifesto "Naissance d’une nouvelle avant-garde: la caméra-stylo", (l’Ecran français, 1948), que preludiou a nouvelle vague e em que expressou um novo, autorial pensamento sobre o cinema.
                                           La camera-stylo de Astruc
     Os filmes que realizou, entre os quais "Le rideau cramoisi" (1953), "Les mauvaises rencontres" (1955), "Uma vida"/"Une vie", baseado em Guy de Maupassant (1958), "La proie por l'ombre", baseado em Françoise Sagan " (1961), "Éducation sentimentale", baseado em Gustave Flaubert (1962), foram grandes filmes pessoais e originais que marcaram uma época.
     É preciso conhecer dele "Le plaisir en toutes choses - Entretiens avec Noel Simsolo" (Paris: Éditions Neige Écriture, 2015). Aqui o homenageio muito sentidamente porque sei quem foi, a importância que teve no cinema e conheço os seus escritos e os seus filmes.

Um vagabundo americano

   "Viver à Margem"/"Time Out of Mind" é a primeira longa-metragem de Oren Moverman (2014) a que me é dado assistir deste conhecido argumentista, produtor e realizador israelo-americano e é um filme muito bom que, em volta de um vagabundo sem-abrigo de New York, George/Richard Gere, constrói fragmentariamente o mundo à sua volta.
   Esse mundo que o rodeia é povoado por gente que lhe é hostil, lhe é alheia ou o tenta ajudar, numa mistura bem vista em que os que lhe poderiam ser mais próximos se tornam mais distantes e em que o sistema faz o que pode numa situação de isolamento devido à defecção de todos os que lhe foram próximos, incluindo a filha, Maggie/Jena Malone. 
                    Richard Gere and Ben Vereen are homeless men in 'Time Out of Mind,' directed by Oren Moverman
   O melhor do filme está num Richard Gere mediúnico, que de rosto fechado, inexpressivo, e olhos que piscam se apaga perante os pormenores que lhe vão chegando da vida a que chega em volta de si. Embora ele também evidentemente interesse porque toda a sua história, exemplar, serve de fio condutor ao filme.
   Trabalhando sobre argumento seu, Oren Moverman mantém a câmara próxima dos actores de maneira a tornar estes os seres fantomáticos que são, solitários abandonados ("idiotas", "palhaços", "marionetas" - como Dixie/Ben Vereen e George se identificam a si próprios) a que ninguém liga verdadeiramente enquanto prosseguem as suas próprias vidas.  
                    
    "Viver à Margem" é especialmente interessante no percurso de marginal que faz inteiramente sentido, enquanto a necessidade de lhe dar um termo narrativo, sem estar mal o minimiza um pouco. Permanecem um homem só e com rivais mais do que amigos, com os fragmentos dispersos da cidade que lhe chegam.
    Sem os vícios nem as pretensões do João de Deus de João César Monteiro em "Recordações da Casa Amarela" (1989), este um vagabundo americano ao qual chegam apenas pontas soltas do mundo, que é o que, do seu ponto de vista (o que é importante), o liga ao que o rodeia e mais interessa num filme em que Richard Gere actua com brio e humor e a música extra-diegética está ausente, o que lhe fica muito bem.