“Um não sei quê, que nasce não sei onde,/Vem não sei como, e dói não sei porquê.” Luís de Camões

"Na dor lida sentem bem,/Não as duas que êle teve,/Mas só a que êles não têm." Fernando Pessoa

"Lividos astros,/Soidões lacustres.../Lemes e mastros.../E os alabastros/Dos balaustres!" Camilo Pessanha

"E eu estou feliz ainda./Mas faz-se tarde/e sei que é tempo de continuar." Helder Macedo

"Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos..." Camilo Pessanha

“Vem, vagamente,/Vem, levemente,/Vem sozinha, solene, com as mãos caídas/Ao teu lado, vem” Álvaro de Campos

"Chove nela graça tanta/que dá graça à fermosura;/vai fermosa, e não segura." Luís de Camões

domingo, 12 de junho de 2016

José Paquete de Oliveira (1936-2016)

    Foi uma referência maior do jornalismo português, no estudo e análise da comunicação social e na sua intervenção, que vai fazer muita falta e deve permanecer como grande exemplo de integridade, rigor e independência.
   Com um percurso notável que, a partir da sua Madeira natal, o levou a diversos meios de comunicação, imprensa, rádio e televisão, sempre se destacou como um profissional probo e com grande poder de comunicação. 
                                                                               
   Sociólogo, professor universitário destacado, homem de grande inteligência e cultura, a sua intransigência com os princípios e a sua abertura de espírito permanecem como o seu maior legado
   Do mesmo passo que lhe presto homenagem neste momento, apresento a expressão do meu muito sentido pesar à família e aos amigos, assim como ao jornal Público, de que era provedor do leitor.

quinta-feira, 9 de junho de 2016

8 dias em Roma

     Baseado no romance de Giancarlo De Cataldo e Carlo Bonini, "Suburra" é a segunda longa-metragem para cinema de Stefano Sollima (2015), também realizador da série televisiva "Gomorra" (2014-2016) que passou há uns meses no Arte.
     Tudo é dirigido por um gangster poderoso, Samurai/Claudio Amendola, que está interessado em transformar Óstia numa nova Las Vegas e para o conseguir recorre a todos os estratagemas, incluindo a compra de um deputado, Filippo Malgradi/Pierfrancesco Favini, e relações privilegiadas com o Banco do Vaticano, Cardeal Berchet/Jean-Hugues Anglade, enquanto decorre uma guerra de gangs em que ele assegura protecção ao seu grado.
                    
     Sucedem-se mortes e vinganças, chantagens num mundo de sexo e drogas em que o dito deputado sai chamuscado pela morte de uma prostituta menor. O filme de Stefano Sollima tem o mérito de não poupar nada nem ninguém, personagens menores e maiores, todas elas envolvidas num mesmo imbrógleo mesmo se lateralmente, por medo, fraqueza ou compromissos sórdidos.
     Mas ao contar tudo o que decorre entre 5 e 12 de Novembro de 2011, quando no Vaticano o Papa se apresta para resignar, "Suburra" explora os factos sem qualquer contraponto, o que o torna um filme sem reflexão para além de factos que, ficcionados embora, hoje em dia não espantam ninguém. Na teia de cumplicidades criminais vigora o princípio de que "todo o homem tem um preço", como dizem os portugueses que percebem do assunto - e é mesmo isso que mais odeio neles -, pelo que tudo e todos se compram e vendem como num típico filme de gangsters.     
                     Suburra: a Roman western between politics and criminality
     Apostando na estrutura clássica do filme de gangsters, todos os crimes são punidos durante o próprio filme, salvo o de Malgradi, peça eminentemente substituível no parlamento que vier a ser eleito a seguir. Em bruto, sem qualquer recuo ou distância o filme vale pelos seus elementos técnicos e artísticos, com fotografia de Paolo Carnera, música de Pasquale Catalano e montagem de Patrizio Marone, e actores todos eles muito bons. 
     Mas para além da "denúncia" não fica nada, o que faz com que saiba a pouco mais do que o seu próprio espectáculo - um bom espectáculo apesar de tudo num filme mais de género do que político que não deve ser tomado por mais do que aquilo que tem para dar.

sábado, 4 de junho de 2016

O maior

   Muhammad Ali (1942-2016) foi não só o maior pugilista, pesos-pesados, de todos os tempos como o maior desportista profissional da era moderna.
   Com uma carreira de vitórias imcomparável - venceu 56 em 61 combates -, ele foi também um homem notável fora do desporto, na luta pelos direitos cívicos nos anos 60 e como homem generoso e mediático.
                     Muhammad Ali derruba Foreman em confronto na África
    Humilde e de grande humor, Muhammad Ali tinha orgulho em si mesmo como pugilista, de estilo elegante e contundente, e como homem. Foi popular pelas melhores razões e aqui lhe deixo a minha memória e sentida homenagem, apontando-o como um exemplo a seguir no desporto e na vida.
     Recordo neste momento o filme que Michael Mann lhe dedicou, "Ali" (2001), com Will Smith, que é um filme muito bom com uma grande interpretação.

Subir

    "Evereste"/"Everest", de  Baltasar Kormákur (2015), com argumento de William Nicholson e Simon Beaufoy a partir do relato de Beck Weathers, é um bom espectáculo e um filme muito apreciável sobre uma expedição ao pico do mundo em 1996 que, bem sucedida na ascenção, decorreu desastrosamente no regresso. 
                       evereste-Filme
    A primeira parte, a da subida, é muito boa por nos dar a motivação, o desejo de cada um dos intervenientes de chegar ao topo do mundo, e acompanhar detidamente a escalada. Pensado e feito como grande espectáculo, torna-se especialmente interessante por as coisas não terem corrido como previsto no regresso, com um alpinista a seguir a outro a não conseguir regressar e sobreviver.
    Rodado nos próprios locais, esse facto valoriza o filme e confere-lhe uma maior verdade que os factos reais em que se baseia por si próprios exigiam. O grande dramatismo de "Evereste" decorre também desse facto e das grandes interpretações.               
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     Num tempo em que o grande espectáculo está em moda sobretudo no cinema americano - e a grande aposta do actual cinema americano é no grande espectáculo - devemos ser capazes de o apreciar quando ele é bom espectáculo, como aqui acontece. O drama dos alpinistas deste filme é o drama de todos nós: ter um sonho na vida e cumpri-lo, mesmo se no regresso não se sobrevive. 
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     Desde que não se exija de "Evereste" o que ela não pretende ser, pode admirar-se neste filme uma máquina de produção de emoções que funciona bem, em pleno. Dramática e visualmente, com um sopro clássico.  
     A lição de cooperação entre seres humanos com um objectivo comum é uma bela lição para um mundo em que se vive de espezinhar uns aos outros. Feito para 3D e Imax, "Evereste" é como um "Titanic" do alpinismo sem atingir o seu nível - sem James Cameron.

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Sólveig Anspach (1960-2015)

    De origem islandesa e americana, Sólveig Anspach, que nos deixou em 7 de Agosto de 2015, apesar de ser uma cineasta apreciável não é conhecida em Portugal. Com o seu último filme, póstumo, "L'effet aquatique" (2016), a estrear até ao fim do mês, passou esta semana no Arte o seu penúltimo filme, "Lulu femme nue" (2013).   
                        C'est important de savoir bien faire le mort dans la vie
   Com argumento seu e de Jean-Luc Gaget, a partir da banda-desenhada homónima de Étienne Davodeau, o filme conta com uma excelente interpretação de Karin Viard como Lucie, uma mulher de quarenta anos, casada e com filhos, que após uma entrevista de emprego mal sucedida parte à aventura sem destino certo. Sem o estardalhaço do cinema americano e das suas vedetas, o filme desenrola-se calmamente confrontando a protagonista com um homem mais velho, que vive numa caravana, mas também com outras mulheres, de todas as idades.
   Graças ao percurso aberto da protagonista, o filme de Sólveig Anspach dá-nos os problemas de mulheres em todas as idades e condições, numa perspectiva feminina inteligente e com um final, depois do regresso a casa de Lulu, muito bem resolvido em termos fílmicos. Como sublinhou a crítica francesa aquando da estreia do filme, a cineasta encena aqui a sua própria morte.
                     Lulu femme nue - Solveig Anspach                  
    Pois estas coisas não chegam a Portugal por não interessarem distribuídores apenas movidos pelos nomes mais conhecidos e pelos sucessos de bilheteira. Felizmente existe o Arte que nos permite conhecer tudo o que de mais relevante é feito em toda a Europa e em todo o mundo.
    Na despedida tardia, a minha homenagem a Sólveig Anspach, uma boa cineasta que faz falta.    

Bill Douglas (1934-1991)

    O Arte transmitu na passada segunda-feira, 30 de Maio, a trilogia do escocês Bill Douglas composta por "My Childhood" (1972), "My Ain Folk" (1973) e "My Way Home" (1978), que marcou uma época.
                     Bill Douglas Trilogy
      Inédita em Portugal, salvo na Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema, esta é uma trilogia que todos devem conhecer, uma referência fundamental do cinema dos anos 70. O seu autor, também argumentista, que morreu precocemente, traça aí o retrato de Jamie/Stephen Archibald, desde os anos da Guerra até à sua ida para o serviço militar, empurrado entre pais e avós e procurando aguentar-se mesmo assim com a cumplicidade de Tommy/Hughie Restorick, nos dois primeiros filmes, acompanhado por Robert/Joseph Blatchley no último.
     Passado numa aldeia mineira na Escócia, a Newcraighall natal do cineasta, com o final rodado no Cairo, e filmada num intransigente preto e branco, esta trilogia tem, em especial nos dois primeiros filmes, um uso quase fotográfico da fotografia e toda ela uma excelente construção narrativa e fílmica, elíptica e convocando permanentemente o fora-de-campo. Ao exigir a participação do espectador Bill Douglas é aqui profundamente moderno.
                     Image for The Bill Douglas Trilogy
    Bill Douglas, que fez ainda "Comrades" (1986), é uma referência fundamental graças a esta trilogia em especial, com um estilo que tira todo o partido da linguagem do cinema para tratar uma época e um local pouco vistos no cinema.
     É por causa de coisas como esta que eu continuo a ver e recomendar o Arte, uma verdadeira alternativa a uma boa cinemateca.

domingo, 29 de maio de 2016

Feira do Livro

    Continuo sem ver televisão portuguesa e sem ler jornais portugueses, salvo o Público à sexta-feira por causa do Ípsilon. Nem sequer é por causa da coisa Ípsilon, que é estimável e me permite manter actualizado na informação e crítica cultural, mas por causa da "Estação Meteorológica" em que, semanalmente, o António Guerreiro me dá motivos para pensar neste país dado a uma actualidade sempre passada e perdida depois de selvaticamente explorada. 
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    Leio quando posso e quanto posso os livros que me interessam, sempre com uma grande limitação por causa do pouco tempo livre que tenho - estou a acabar "Conquistadores - Como Portugal Criou o Primeiro Império Global", de Roger Crowley (Lisboa: Presença, 2016) e "Uma Causa Improcedente", de Claudio Magris (Lisboa: Quetzal, 2016), que vos aconselho -, e vou por isso à Feira do Livro de Lisboa comprar o que, interessando-me, é problemático que tenha tempo para ler - o costume há muitos anos. Vou comprar, por exemplo, o último livro traduzido em português do irlandês John Banville, "A Guitarra Azul" (Porto Editora, 2016), porque é um escritor que me interessa há muito, e os livros da Ana Margarida de Carvalho, que dizem ser mais do que um mero fenómeno genético ("filha de peixe...", rebéubéu...). E vou continuar a dedicar-me às literaturas nórdicas e bálticas, que são muito boas e me interessam cada vez mais.  
                                  * 
   Num tempo em que o visual substituiu o escrito, continuo a ler por prazer e por dever, e a ver coisas de que nem sempre gosto. O mundo vai como vai, o país também, e na "zona de protecção" que para mim próprio tenho de criar assim vou indo. Façam como eu: leiam o António Guerreiro à sexta-feira (de caminho, também o Miguel Esteves Cardoso e o Bartoon, pelo menos - o Público é um bom jornal) e vão à Feira do Livro. 
   Mas aqui devo neste momento felicitar calorosamente o Manuel Alegre pelos três importantes prémios literários que lhe foram recentemente atribuídos com a maior justiça, o que me sinto autorizado a dizer porque, numa cumplicidade antiga, com ele mantenho sempre a leitura em dia.