“Um não sei quê, que nasce não sei onde,/Vem não sei como, e dói não sei porquê.” Luís de Camões

"Na dor lida sentem bem,/Não as duas que êle teve,/Mas só a que êles não têm." Fernando Pessoa

"Lividos astros,/Soidões lacustres.../Lemes e mastros.../E os alabastros/Dos balaustres!" Camilo Pessanha

"E eu estou feliz ainda./Mas faz-se tarde/e sei que é tempo de continuar." Helder Macedo

"Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos..." Camilo Pessanha

“Vem, vagamente,/Vem, levemente,/Vem sozinha, solene, com as mãos caídas/Ao teu lado, vem” Álvaro de Campos

"Chove nela graça tanta/que dá graça à fermosura;/vai fermosa, e não segura." Luís de Camões

sábado, 6 de agosto de 2016

Conto das flores de cerejeira

   O mais recente filme da japonesa Naomi Kawase, "Uma Pastelaria em Tóquio"/"An" (2015), reconduz-nos aos segredos culinários do fabrico de dorayakis com doce de feijão azuki que dá origem ao título original, com argumento da cineasta baseado em romance de Durian Sukegawa.
    Filme de uma grande sobriedade e sageza, põe em cena Sentarô/Masatoshi Nagase, o gerente da pastelaria, que contrata Tokue/Kirin Kiki, uma especialista idosa que teve lepra (o que ele inicialmente não sabe), graças à qual o negócio prospera. Intrometem-se a dona do estabelecimento/Miyoko Asada e sobretudo a jovem Wakana/Kyara Uchida, que tem um pássaro e acaba por ser atraída por aquele assunto de mais velhos e por eles.
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      Entre a mais velha e a mais nova, como entre a mais velha e o pasteleiro, estabelecem-se cumplicidades que passam justamente pelas cerejeiras floridas - e os momentos em que a câmara se perde na floresta constituem mais do que uma pontuação num filme em que a natureza é muito importante... e os feijões "falam" com a protagonista.
       Com uma construção formal apreciável e grandes interpretações, "Uma Pastelaria em Tóquio" de Naomi Kawase é mais do que um filme simpático e poético: é um filme muito bom sobre o saber e a passagem das estações do ano, do tempo. Depois da estreia o ano passado de "A Quietude da Água"/"Futatsume no mado" (2014), esta é agora uma cineasta a seguir com atenção.

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Um diamante

     "O Homem Que Viu o Infinito"/"The Man Who Knew Infinity", de Matthew Brown (2015), com argumento seu sobre a biografia do matemático indiano Srinivasa Ramanujan/Dev Patel escrita por Robert Kanigel, é um filme necessário para divulgar a vida e as descobertas de um homem que, faz agora cem anos, foi discriminado fora da sua terra e morreu jovem. E atinge bem o seu objectivo.
     Considerado "um diamante" na sua terra, então parte do Império Britânico, sem ter formação universitária foi aconselhado a rumar a Inglaterra, onde no Trinity College de Cambridge encontrou alguém que, prudentemente, acreditou nele e o incentivou na pessoa do Professor G. H. Hardy/Jeremy Irons. Deixara para trás a sua mulher Janaki/Devika Bhise, que não respondia às suas cartas.
                   
    Alvo do escárnio racista de alguns colegas, até à agressão, deparou com obstáculos e reticências colocados pela instituição apesar de, perante o desafio do seu protector, apresentar sempre provas de tudo aquilo que dizia, reiterando o já sabido ou afirmando novo saber. Para o corroborar terá sido também importante Littlewood/Toby Jones, amigo e cúmplice de Hardy.          
     No final de um percurso breve mas brilhante, de génio, depois de ter contraído tuberculose e de ter acabado por ser recebido pela instituição e os seus pares, conseguiu finalmente estabelecer contacto com a mulher e regressou à Índia, onde morreu com 32 anos (1887-1920). O seu trabalho, que implicou descobertas fundamentais, marcou o futuro da matemática, de que se tornou uma lenda.
                    TheManWhoKnewInfinity
    Filmado nos próprios locais em Inglaterra e sem insistir em detalhes técnicos das descobertas de Srinivasa Ramanujan, "O Homem Que Viu o Infinito" de Matthew Brown mantém-se sempre acessível a todos e tem uma realização sóbria e segura (um ou outro erro não comprometem) e interpretações todas elas à altura, em especial o duelo Jeremy Irons - Dev Patel, este mais conhecido desde "Quem Quer Ser Bilionário?"/"Slumdog Millionaire", de Danny Boyle (2008). 
   Em vez das banalidades de vários calibres que circulam neste momento no nosso circuito comercial, vejam este filme que presta merecida homenagem a um matemático fundamental do Século XX, personalidade original e fascinante que muito poucos hoje conhecem fora do circuito especializado.   

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Um príncipe do desporto

    O Professor Mário Moniz Pereira (1921-2016) foi o treinador e mentor notável dos primeiros - Carlos Lopes, Fernando Mamede, nomeadamente -, segundos e terceiros grandes campeões portugueses de atletismo de nível mundial e um grande senhor do desporto português.
                                   
   Licenciado em Educação Física, foi ele próprio praticante distinto de várias modalidades, dirigente desportivo e também compositor musical de mérito.
    Aqui o recordo neste momento como figura cimeira e emblemática do desporto e como grande exemplo de dignidade, saber, inteligência e dedicação para todos os portugueses, em especial no atletismo e no desporto.

domingo, 31 de julho de 2016

Proeza nas ruas de Berlim

     Chamei um destes dias de passagem "pirueta técnica" ao plano-sequência único em que é construído "A Arca Russa", de Alexander Sokurov, e devo aqui corrigir, pois trata-se de uma verdadeira "proeza técnica" com evidentes implicações fílmicas e estéticas. Ora a proeza de Sokurov, em interiores, é agora repetida pelo alemão Sebastian Schipper em "Victoria" (2015), um filme todo ele filmado em cenários reais e em exteriores num plano-sequência único e em tempo real.            
                       Berlin’s Two Hour Single Take Action Film ‘Victoria’ Trailer
     Nas ruas de Berlim um grupo de quatro amigos encontra uma espanhola, uma madrilena, a personagem cujo nome dá o título ao filme e que é interpretada por Laia Costa. Um deles, Sonne/Frederick Lau, enamora-se dela, enquanto a outro, Boxer/Franz Rogowski, é encomendado um assalto a um banco para pagar protecção concedida na prisão. Victoria toma o lugar do condutor e depois não vos conto a história.
     Todos eles são jovens e as personagens masculinas, berlinenses puros, conhecem-se entre si desde sempre, enquanto ela alinha porque lhe dizem ser um trabalho "sem problemas".
                       Victoria is in cinemas from the 1st April - HeadStuff.org
    Com boa caracterização das personagens e excelentes interpretações, o filme, que conta com argumento do próprio realizador com Olivia Neergaard-Holm e Eike Frederik Schulz, fica nas mãos do director de fotografia Sturla Brandth Grovlen e do seu espantoso trabalho em plano-sequência único.
    A outra grande diferença em relação ao filme de Sokurov é estarmos aqui perante um puro filme de ficção, um filme de acção em que as personagens se movem a grande velocidade, o que torna mais difícil segui-las num único plano sequência, embora a câmara de filmar esteja sempre no lugar certo, definindo o ponto de vista justo.
                       Cinematographer Sturla Brandth Grøvlen and director Sebastian Schipper.
    Há em todo este filme uma muito clara vontade de fazer bem e novo uma obra de género - trata-se de um típico filme negro -, que talvez sem a proeza técnica em causa não desse especialmente nas vistas. Filmado em continuidade entre a noite e a madrugada, "Victoria" de Sebastian Schipper apresenta-se como um filme notável pela sua ousadia e pelo seu acerto, embora a música de Nils Frahm seja por vezes um tanto redundante.
    Pelo seu brio cinematográfico nada me espanta que tenha ganho a maioria dos prémios do cinema alemão. Este é um filme que aconselho sem reservas e que marca este Verão no circuito comercial português.      

Longe da terra

      "Dheepan", de Jaccques Audiard (2015), Palma de Ouro em Cannes, enfrenta com coragem e desassombro o problema das migrações para a Europa, que tão actual se tem revelado com os refugiados que a têm procurado sobretudo a partir do Médio Oriente e do Norte de África, mas fá-lo a partir de e com um caso menos falado pois os seus refugiados partem do Sri Lanka, onde o protagonista pertenceu aos Tigres Tamil.                
                     dheepan
    Com uma família improvisada, composta por Yalini/Kalieaswari Srinivasan, a "mãe", Illayaal/Claudine Vinasithamby, a "filha", e o próprio Dheepan/Jesuthasan Antonythasan, o "pai", eles rumam a França (embora  Yalini preferisse Inglaterra, onde tem uma prima), onde se arrumam num subúrbio de Paris, ele como guarda de um bloco de prédios, ela como empregada de um velho, o senhor Habib/Faouzi Bensaïdi, enquanto Illayaal vai à escola para alunos especiais.
      Depois de nos dar a evolução da "família" nas suas relações internas, o filme detém-se na relação do "casal" e de Yalini com o filho do sr. Habib, Brahim/Vincent Rottiers, não sem que a memória da terra distante e do seu conflito deixe de se imiscuir. 
                     dheepan
    Os conflitos envolvidos são primitivos, o que confere verdade ao filme, e no seu culminar Dheepan vê-se obrigado a fazer frente a tiro ao grupo de Brahim, embora quem estava por trás nessa circunstância viesse de longe. Tudo acaba bem, com os carros a circularem pela esquerda e um filho recém-nascido do agora casal.
     Também co-argumentista e autor dos diálogos com Thomas Bidegain e Noé Debré, Jacques Audiard consegue aqui um bom filme que supera mesmo o seu melhor anterior, "Um Profeta"/"Un prophète" (2009), mostrando tudo o que vale e que se pode continuar a contar com o filho de Michel Audiard (1920-1985)

quarta-feira, 27 de julho de 2016

O céu em Santa Isabel

     Foi inaugurada poucos dias a nova pintura do teto da igreja de Santa Isabel, em Lisboa. Representa o céu, pintado segundo um projecto de Michael Biberstein (1948-2013), uma obra cuja execução contou com o apoio da Santa Casa da Misericórdia, e merece uma visita atenta, que deve ser alargada à igreja no seu todo, que tem outros motivos de interesse. 
                    
     Trata-se de uma excelente obra de arte religiosa, inventiva e notável, feita com visão e talento num edifício ele próprio recuperado. Durante a visita que vos aconselho não se esqueçam de, enquanto contemplam o céu em Santa Isabel, ter um pensamento para o padre Jacques Hamel, ontem barbaramente assassinado em Saint-Étienne-du-Rouvray, na Normandia, norte de França, no interior da igreja de que era pároco.

domingo, 24 de julho de 2016

Entre inocência e malícia

    "Maravilhoso Boccaccio"/"Maraviglioso Boccaccio", de Paolo e Vittorio Taviani (2015), tem uma inspiração feliz e uma realização superior a partir de argumento dos dois irmãos baseado no "Decameron" do famoso escritor renascentista.
                    
     O filme adopta um dispositivo narrativo simples a partir de um grupo de rapazes e raparigas que contam cada um uma história de amor, num total de cinco, no final do Século XIV, durante os anos de peste negra em Florença. Cada história resume-se a um pequeno racconto com possível proveito e exemplo, entre a inocência do primeiro, o humor do segundo, a crueldade do terceiro, a malícia do quarto e a ironia do quinto.
     Tudo se resume a muito pouco mas o mérito deste filme reside na subtileza das narrativas e na harmonia da realização que as liga umas às outras com clara consistência e inteiro espírito crítico. Então o Renascimento italiano apenas se iniciava e estavam ainda muito presentes elementos medievais, o que "Maravilhoso Boccaccio" com argúcia capta muito bem.
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     A época está irrepreensivelmente reconstituída tanto em cenários como em guarda-roupa para filmagens que decorreram na Toscana, e os actores prestam-se de bom-grado e com à-vontade ao que lhes é pedido. Desta forma, com vestuário de Lina Nerli Taviani, fotografia de Simone Zampagni, música de Giuliano Taviani e Carmelo Travia e montagem de Roberto Perpignani, "Maravilhoso Boccaccio" culmina uma das obras mais interessantes do cinema italiano dos últimos 50 anos.
     O seu sentido na obra dos irmãos Taviani poderá ser encontrado ligando-o a filmes de carácter histórico dos anos 70, como "São Miguel Tinha Um Galo"/"San Michele aveva un gallo" (1972) e "Que Viva a Revolução"/"Allonsanfàn" (1974), e até sobretudo com "Kaos" (1984), em que trabalharam sobre cinco histórias de Luigi Pirandello, "Afinidades Electivas"/"Le affinità elettive" (1996), em que adaptaram Goethe, e o próprio "César Deve Morrer"/"Cesare deve morire" (2012), o seu filme anterior, o que o torna menos inesperado do que pode parecer a alguns.
     Sobre Paolo e Vittorio Taviani ver "Jogo de espelhos", de 15 de Novembro de 2012.