“Um não sei quê, que nasce não sei onde,/Vem não sei como, e dói não sei porquê.” Luís de Camões

"Na dor lida sentem bem,/Não as duas que êle teve,/Mas só a que êles não têm." Fernando Pessoa

"Lividos astros,/Soidões lacustres.../Lemes e mastros.../E os alabastros/Dos balaustres!" Camilo Pessanha

"E eu estou feliz ainda./Mas faz-se tarde/e sei que é tempo de continuar." Helder Macedo

"Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos..." Camilo Pessanha

“Vem, vagamente,/Vem, levemente,/Vem sozinha, solene, com as mãos caídas/Ao teu lado, vem” Álvaro de Campos

"Chove nela graça tanta/que dá graça à fermosura;/vai fermosa, e não segura." Luís de Camões

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Quinta-feira, à mesma hora

    O Arte começou transmitir há três semanas a série policial sueca "Meurtres à Sandhamn"/"Morden i Sandhamn", baseada em "La reine du Baltique" e noutros livros de Viveca Sten, que tanto quanto sei não está traduzida em português. A série começou em 2010 e já foram transmitidas as duas primeiras épocas, com três episódios cada.
                     Meurtres à Sandhamn Saisons 2 à 5 sur Arte
       Falo disto porque sou fã do policial escandinavo também na televisão e porque esta série, que não conhecia, tem narrativas aliciantes - com Camilla Ahlgren e Hans Rosenfeldt como argumentistas -, grandes intérpretes - com Jakob Cedergren e Alexandra Rapaport nos protagonistas e outros grandes actores e actrizes em "papéis secundários" -, e conta com uma realização sempre superior, direi mesmo invulgar em televisão - maioritariamente a cargo de Niklas Ohlson e Mattias Ohlsson.
     Como é de uso neste tipo de narrativas, os crimes são hediondos e sucedem-se, as dificuldades para descobrir o autor deles avolumam-se acompanhadas por um suspense muito bem gerido, enquanto, na belíssima paisagem da ilha em que se situa Sandhamn e da Suécia, a sociedade sueca é minuciosamente escalpelizada.
                          
      "Meurtres à Sandhamn" é do melhor que tenho visto nos últimos anos para o pequeno ecrã. E anunciam-se episódios inéditos para Setembro.
       À quinta-feira no Arte, às 19H 55M (hora portuguesa).   

O vício dos livros

   A RTP2 começou a transmitir em 22 de Agosto uma série açoriana, "O Livreiro de Santiago" (2015), sobre Manuel Carlos George Nascimento (1885-1966), um natural do Corvo que no Chile se tornou editor de Gabriela Mistral e Pablo Neruda, entre muitos outros.
Gabriela MistralPablo Neruda entre muitos outros. 
                      http://diariodalagoa.com/wp-content/uploads/2016/07/filme-livreiro-Santiago.jpg
   Com música, argumento e realização do incontornável Zeca Medeiros, está muito bem feita, num exigente preto e branco, o que nem sequer espanta naquele que é o melhor realizador português de séries televisivas, que anteriormente adaptara com grande sucesso "Mau Tempo no Canal", de Vitorino Nemésio (1992), e "Gente Feliz com Lágrimas", de João de Melo (2002).
   Segundo esta série, Carlos Nascimento terá partido em 1905 do seu Corvo natal para os Estados Unidos, onde teve as primeiras notícias do cinematógrafo e onde estava quando do terramoto de 1906 em S. Francisco, seguindo depois para o Chile, onde se fixou, veio a saber do regicídio, da implantação da República e da I Guerra Mundial, e onde recebeu parte de uma livraria como herança do seu tio João Nascimento.
Gabriela Mistralpara os Estados Unidos, onde teve as primeiras notícias do cinematógrafo, rumou depois para o Chile, de onde acompanhou à distância o regicídio, a implantação da República e a I Guerra Mundial. Considerava-se a si próprio "um tímido aventureiro".                
                      livreiro 2
   Zeca Medeiros requinta na qualidade da realização, com um tratamento surpreendente dos cenários. O primeiro episódio começa como documentário que introduz a narrativa ficcional e no segundo episódio cita expressamente sequências célebres de filmes de Eisenstein, Jean Vigo e Orson Welles. Claro que ele abusa, como sempre, do insuportável "choradinho lusitano", mas é mesmo o único que sabe lidar com ele para equilibrar e calibrar cada um dos seus filmes.
    O terceiro episódio passa na próxima segunda-feira, 5 de Setembro, às 23H 30M na RTP2.

terça-feira, 30 de agosto de 2016

O diário de Cristina

      "Amor Impossível", o mais recente filme de António-Pedro Vasconcelos (2015), com argumento de Tiago Santos inspirado em factos reais, é cru e violento sobre o amor português tomado em personagens jovens. E é um dos seus melhores filmes pela precisão com que é construído e dirigido, revelando mais uma vez a mestria do cineasta.      
                       amorimpossivel
     A história localizada em Viseu é banal e telenovelesca, como um lugar comum das vidas portuguesas, mas transforma-se em tragédia, uma tragédia portuguesa com ressonância universal, nas mãos de um cineasta inteligente e culto que aqui volta ao seu melhor - "Os Imortais" (2003), por exemplo, aqui convocado pela sua semelhante construção formal, agora aperfeiçoada. 
   Desdobrada em dois tempos pelo diário de Cristina/Victoria Guerra que a agente Madalena/Soraia Chaves lê, a narrativa mantém o seu mistério intacto até ao fim, sem qualquer contemporização com as expectativas do espectador. Como um novelo que se desenrola, a história contada no diário é uma história de amores juvenis que se querem absolutos, mas vai ser Tiago/José Mata quem no final vai revelar o que de facto aconteceu depois do diário de Cristina.
                            
      Demasiado jovens para criarem um projecto de futuro para os seus amores, só ela escutara a conversa de Jacinto/José Martins sobre a morte da mulher, como só ela, que alimentava suspeitas sobre as circunstâncias da morte do pai, levara uma tareia da mãe, Amélia/Maria D'Aires, enquanto a ele lhe calhara as restrições do pai, a porrada durante um concerto, o vício do jogo e o ciúme. A morte do canário prenuncia o final.
     Não existe um plano a mais no último filme de António-Pedro Vasconcelos, já que tudo é minuciosamente preparado para resultar daquela maneira. O recurso ao fait divers, que por exemplo François Truffaut utilizou com grande felicidade ("La femme d'à côté", 1981), torna tudo mais impiedoso e sem sentido. A música dispersa tem um tom melancólico e desesperado, ela também. As referências literárias são justas e o cruzamento de Madalena com Cristina está bem visto. Sobre o cineasta ver "Lugar incomum", de 6 de Junho de 2015.
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         Nota
      Para conhecer melhor o António-Pedro são fundamentais dois livros saídos este ano: "António-Pedro Vasconcelos: Um Cineasta Condenado a Ser Livre - Diálogo com José Jorge Letria" (Lisboa: Guerra & Paz, 2016) e "A Companhia dos Livros", de António-Pedro Vasconcelos (Lisboa: Sociedade Portuguesa de Autores Edições, 2016), este uma recolha de artigos seus.

O passo seguinte

   Depois do filme que Jorge António lhe dedicou, "Kuduro - Fogo no Museke" (2007), que introduziu a questão, "I Love Kuduro - From Angola to the World", de Mário Patrocínio (2014), dá o passo seguinte sobre esta música e dança angolana, mostrando a evolução entretanto verificada.
   Mais longo e com maior vivacidade que o anterior, este novo filme que só agora vi mostra-nos como essa mistura de house, techno e ritmos tradicionais angolanos, com uma parte de intervenção, uma parte de cultura e uma parte de sentimento, como diz uma das personagens, evoluiu para novas formas. Mas o kuduro é também alegria jubilatória, contagiante.
                       http://www.berlinda.org/pt/wp-content/uploads/2014/08/Jump-Kuduro-_Cr%C3%A9ditos_BRO.jpg
    Além de Luanda, onde no musseque nasceu o kuduro e que continua a ser a sua base, o documentário de Mário Patrocínio leva-nos também a Malange. A aparicão das mininas, passada mais de uma hora do filme, é curta mas significativa e culmina com um travesti.
    Mas o grande trunfo inicial do filme é acompanhar os kuduristas enquanto caminham no seu bairro, o que, juntamente com os depoimentos e os excertos de danças, aponta um caminho em frente, sempre em frente, em marcha acelerada. O que permite que o final muito bem visto, com retardador e acelerado, surja como contrastante.
                      
    Por sua vez, a inserção de imagens de vídeo neste "I Love Kuduro" está muito bem feita, estabelecendo a diferença e impedindo qualquer confusão.
    A internacionalização desta dança tem-se verificado sobretudo em África, do que nos são mostradas imagens de arquivo, o que se compreende embora fosse desejável que ela se verificasse também noutros continentes, pois neste momento é uma excelente apresentação dos angolanos a todo o mundo. Agora o desafio que se coloca é mesmo um filme musical com o kuduro.

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Contra ideias feitas

    Com data de 25 de Agosto, o artigo de Manolha Dargis "The Race to Save the Films We Love", publicado na edição do The New York Times de 28 de Agosto e acessível no site do mesmo jornal em 
www.nytimes.com
a partir da experiência americana ocupa-se da importantíssima questão da preservação e recuperação do património cinematográfico.
                     TheFrontPage28
     Contra ideias feitas, a partir de casos concretos e do trabalho concreto de especialistas americanos, depois de fornecer informação relevante e proceder a reflexões importantes, nomeadamente ao perguntar-se "what is film?" ecoando o "what is cinema?" de André Bazin, a autora afirma nesse artigo que a preservação da película é mais fácil, menos dispendiosa e mais duradoura do que a preservação do digital. Cito Manolha Dargis: "The upbeat platitudes that have often accompanied the shift to digital tend to obscure pragmatic considerations, including that film is easier and less expensive to preserve than digital and isn’t plagued by the same obsolescence issues."   
    Leiam, apreciem e pensem nisso, para ver se pelo menos começam a sair da vossa assustadora pasmaceira de "parolos do digital".

O declínio do amor

     "A Comuna"/"Kollektivet", o mais recente filme do dinamarquês Thomas Vinterberg (2016), conta-se entre os melhores deste cineasta original, um dos fundadores do Dogma 95 com Lars Von Trier (sobre este ver "Uma luz nas trevas", de 24 de Março de 2012, e "Implacável", de 7 de Fevereiro de 2014).
                    
    Nos anos 70 do século passado, um arquitecto abastado, Erik/Ulrich Thomsen, resolve com a mulher, Anna/Trine Dyrholm (uma interpretação notável que valeu à actriz o Urso de Prata no último Festival de Berlim), fundar uma comuna, um grupo de vida em comum, na antiga e vasta casa da sua família. As peripécias que se seguem são meras curiosidades sobre o meio assim criado, que serve de contexto, e cada um dos seus elementos, nomeadamente no que respeita à admissão de membros, à filha de ambos, Freja/Martha Sofie Wallstrom Hansen, e à vida em comum.
    A relação do casal vai, porém, mudar, com a chegada de Emma/Helene Reingaard Neumann, aluna de Erik que com ele estabelece uma relação paralela. Inicialmente, Anna parece não se opor, mas acaba por se humilhar no sonho que relata e por entrar num impasse emocional na sua profissão de apresentadora de televisão. Por fim parte, deixando o marido em lágrimas, num filme em que pelo menos um outro homem várias vezes chora. 
                    
    Com a grande escolha de duas personagens mais novas, Freja e Vilads/Sebastian Gronnegaard Milbrat, que sabe que vai morrer até aos 9 anos e efectivamente morre, Thomas Vinterberg, também argumentista com Tobias Lindholm que aqui com ele colabora pela terceira vez depois de "Submarino" (2010) e "The Hunt - A Caça"/"Jagten" (2012), juntamente com os excertos de noticiários televisivos consegue estabelecer elementos de justo distanciamento que confere uma outra dimensão ao filme.
      Diz o cineasta que se baseou em experiência da sua própria juventude, e de facto este "A Comuna" funciona como filme de época sobre um tempo ainda próximo muito feliz e conseguido porque questiona a vivência social, comunitária, o casamento e a sexualidade. Sobre Thomas Vinterberg ver "Contra a indiferença", de 17 de Março de 2013.

Estão todos bem

      Com argumento de Drew Goddard a partir do livro de Andy Weir, "Perdido em Marte"/"The Martian", o mais recente filme de Ridley Scott (2015), é uma ficção científica especulativa e aliciante que, a partir da extrapolação de conhecimentos científicos comuns, cria um ambiente de tensão e suspense ao gosto do grande público.
                     the martian
    Depois do filme histórico, com que não se dá tão bem - "Exodus: Deuses e Reis"/"Exodus: Gods and Kings" (2014), em que especulava sobre um passado bíblico - embora seja um género em que já fez bons filmes, o cineasta regressa pelo menos ao meio em que ficou conhecido com "Alien - O 8º Passageiro"/"Alien" (1979) e "Blade Runner: Perigo Iminente"/"Blade Runner" (1982), e fá-lo de modo mais feliz do que em "Prometheus" (2012) porque encara a conquista do espaço do lado do unanimismo.
    Um astronauta americano, Mark Watney/Matt Damon, é abandonado por morto em Marte pela missão comandada por Melissa Lewis/Jessica Chastain antes de regressar à Terra, e aí ele vai ter de sobreviver até que possa vir a ser resgatado - e essa é a melhor parte do filme, a experiência da solidão planetária e da resistência. Falhada a tentativa de o recuperar a partir da Terra, como cedo se antevira é a própria estação espacial em regresso que acaba por ser encarregada de o fazer a partir dos cálculos de um jovem desconhecido, Rich Purnell/Donald Glover (a propósito, não foi a Apollo 9 mas a Apollo 8 que fez o primeiro voo circunlunar, em Dezembro de 1968).
                     the martian matt damon
      Cansativo na sua longa duração, "Perdido em Marte" cumpre mesmo assim um programa aliciante e gratificante, embora Mark Watney seja uma espécie de MacGyver da exploração do espaço pelo seu engenho de astronauta e biólogo, o que é acentuado pela interpretação toda em leveza de Matt Damon. Nem sequer surpreende a mestria com que tudo é encenado, mas percebe-se que o filme está todo do lado das grandes audiências, que é o espaço preferido do cineasta (no que não existe problema nenhum), pela maneira como desenvolve a sua narrativa fílmica. E no final estão todos bem, para que a conquista do espaço possa prosseguir como todos desejam que aconteça, num filme muito americano, o que até lhe fica bem.
     Não terei dúvidas em conceder que se trata de um bom filme (Ridley Scott é sempre tecnicamente irrepreensível e muito vistoso embora com alguma tendência para a grandiloquência) sem ser um grande filme - não está ao nível de "Interstellar", de Christopher Nolan, 2014 (ver "O outro lado", de 16 de Novembro de 2014) -, mas espera-se pelo próximo anunciado "Alien: Covenant". Até lá, o melhor filme do cineasta neste século é a meu ver "Robin Hood" (2010). 
                   The Martian promotional stills (FOX)
     Mas se bem interpreto os sinais dos tempos, um destes dias os Cahiers dedicam-lhe a capa e uma extensa entrevista ou mesmo um livro, e então ele será herói independente do IndieLisboa com direito a retrospectiva integral nas cinematecas - sobre  Ridley Scott ver "Um mito das origens", de 11 de Julho de 2012, e "Luxo estéril", de 24 de Novembro de 2013.