“Um não sei quê, que nasce não sei onde,/Vem não sei como, e dói não sei porquê.” Luís de Camões

"Na dor lida sentem bem,/Não as duas que êle teve,/Mas só a que êles não têm." Fernando Pessoa

"Lividos astros,/Soidões lacustres.../Lemes e mastros.../E os alabastros/Dos balaustres!" Camilo Pessanha

"E eu estou feliz ainda./Mas faz-se tarde/e sei que é tempo de continuar." Helder Macedo

"Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos..." Camilo Pessanha

“Vem, vagamente,/Vem, levemente,/Vem sozinha, solene, com as mãos caídas/Ao teu lado, vem” Álvaro de Campos

"Chove nela graça tanta/que dá graça à fermosura;/vai fermosa, e não segura." Luís de Camões

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Está tudo certo

    Quando se estreou "Que Horas Ela Volta?", da paulista Anna Muylaert (2015), perante os resumos promocionais não tive pressa em ver o filme. Com aquela descrição só havia uma boa hipótese de duas, o que confirmei agora ao ver o filme. 
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     De facto, perante a chegada de Jéssica/Camila Márdila à casa em que a sua mãe, Val/Regina Cassé, trabalha como empregada domésica, ida para São Paulo para estudar arquitectura, só se podia esperar que ela viesse mexer com a família abastada, Bárbara/Karine Teles, Carlos/Lourenço Mutarelli e o filho de ambos, Fabinho/Michel Choelsas. Restava saber se o filme seguia um rumo buñueliano, definido nos seus melodramas feitos no México nos anos 50, ou um rumo pasoliniano, segundo o modelo de "Teorema" (1968), que talvez não se oponham um ao outro tanto como isso.
    O filme escolhe muito claramente o modelo pulsional de Luis Buñuel, de que apresenta alguns sinais inequívocos: a recorrência de uma escada e de um cão, as águas paradas da piscina, que acaba por ser esvaziada por causa de um rato morto, os assomos de Carlos e de Fabinho - que Val conhece desde criança e confia mais nela do que na mãe -, a queda acidental de Bárbara.
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   Relativamente cedo no filme Jéssica tenta sair daquela casa em que a mãe é simples empregada, reduzida a esse estatuto, antes que seja tarde demais, mas da primeira vez não consegue e vê-se obrigada a regressar. Entretanto o melodrama faz a sua entrada com a descoberta de Val de uma fotografia de criança pequena, o que abre a porta para o final familiar e contra a prepotência dos senhores, em que o fracasso escolar de Fabinho contrasta com o sucesso de Jéssica.
    Mas o esquema pulsional de Luis Buñuel implicava, entre outras coisas, uma queda e um declive enquanto Anna Muylaert prefere um final moralizador e feminista, que é também de inconformismo social, com a subida e a independência de quem estava submetido e a partida para longe do filho da família. Apesar do seu compromisso final com o melodrama, que Buñuel também adoptava, "Que Horas Ela Volta?" é perfeitamente claro e inequívoco nos sinais que deixa, até demasiado ostensivamente. "Está tudo certo", como Jéssica diz ao telefone.
                     Que horas ela volta - Jessica ante la piscina y los chicos dentro
   Segundo entendi, no Brasil foi destacado o filme adoptar o ponto de vista de Jéssica e o seu significado sociológico, o que se compreende mas é meramente resultante da construção certeira da realizadora, também argumentista, e relativo ao seu circunstancial politicamente correcto. A mim fica-me o pano de fundo pulsional como grande mancha que muito pertinentemente singulariza este filme. De resto, todos sabemos que o Brasil conta com grandes actrizes e actores.
    Em  resumo, "Que Horas Ela Volta?" é um filme inteligente mas limitado, feito sobretudo para o consumo interno, que nos faz desejar de novo que nos chegue mais do melhor que o cinema brasileiro está a fazer neste momento. No Brasil o realismo psico-social passa melhor na telenovela.

domingo, 11 de setembro de 2016

José Rodrigues (1936-2016)

     Escultor e artista plástico, desenhador e pintor de grande mérito, foi um dos fundadores em 1963 da Cooperativa Árvore, no Porto, que desde o seu início desenvolveu intensa actividade na criação e na divulgação artística com uma dimensão crítica que fez dela uma referência de intervenção cultural que se mantém até hoje. Autor de obras monumentais importantes, teve exposições individuais de obras suas em Portugal e em vários outros pontos do globo. 
                      
     Foi também um dos impulsionadores da Bienal de Vila Nova de Cerveira e deixou uma fundação com o seu nome, a Fundação Escultor José Rodrigues. Recebeu distinções relevantes pela sua obra, de que se destaca a parte dedicada à arte sacra, e foi uma figura muito importante da vida cultural portuguesa, em especial no norte do país. Aqui me despeço do autor do famoso Cubo da Praça da Ribeira, no Porto, apresentando à família e à Cooperativa Árvore, de que foi Presidente, a expressão do meu muito sentido pesar.

Um exercício inteligente

     "11 Minutos"/"11 minut", o mais recente filme do polaco Jerzy Skolimovski (2015), não acresecenta nada de especialmente importante à sua já vasta obra, embora também nada lhe retire nem a diminua. De facto, percorre um caminho anteriormente seguido por "Amor Cão"/"Amores perros", de Alejandro Gonzalez Iñarritu (2000), e por "Colisão"/"Crash", de Paul Haggis (2004), o de um acidente simultâneo com diversos intervenientes, apenas com a originalidade de colocar o acidente no final do filme e de não haver relação aparente entre todos os envolvidos
                      
     Ao descrever os onze minutos finais de cada um deles, o cineasta joga com a simultaneidade de diferentes circunstâncias pessoais com o ponto comum da passagem de um avião e de um ponto não revelado no espaço para alguns deles. Mesmo assim, aqueles breves minutos dilatam-se graças à montagem e acabam por nos interessar por cada uma das personagens, que desconhecem todas elas o que num brevíssimo lapso de tempo as espera.
    Para quem conhece o talento deste contemporâneo de Roman Polanski, que como ele procurou os caminhos do exílio do seu país nos anos 60 para a ele regressar mais recentemente e onde fez "Quatro Noites com Ana"/"Cztery nori z Anna" (2008) seguido do mais internacional "Essential Killing - Matar para Viver"/"Essential Killing" (2010), à primeira vista a presente é uma obra a atribuir a simples divertimento e prova de engenho como um "exercício de estilo".     
                     
        Se se entender "11 Minutos" como tal, penso que ele pode ser visto como uma fantasia sagaz de quem quer manter-se em actividade. E nessa medida é um exercício de estilo inteligente e conseguido. Mas também se lhe pode chamar mestria, considerando especialmente que é também um filme sobre o cinema, sobre o olhar e a sonegação de ver, e que Jerzy Skolimovski continua a ser argumentista dos seus próprios filmes que realiza um a um com apuro técnico e grande pertinência narrativa e estética. Ou de como um pequeno filme pode ser tão importante como qualquer outro bom filme.

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Uma boa equipa

     Com os filmes anteriores datados de 1996 (Brian De Palma), 2000 (John Woo), 2006 (J. J. Abrams) e 2011 (Brad Bird), "Missão Impossível: Nação Secreta"/"Mission: Impossible - Rogue Nation", de Christopher McQuarrie (2015), o mais recente desta série, devolve-nos Ethan Hunt/Tom Cruise e a sua equipa em plena acção perigosa, permanentemente à beira da catástrofe.    
                      mission impossible rogue nation rebecca ferguson review Mission: Impossible   Rogue Nation Review
     Desta vez é o seu chefe que afinal liderava a força inimiga, denominada Syndicate, e a equipa percorre um triângulo geográfico, entre Viena, Marrocos e Londres, cada um dos locais marcado por acção intensa: a ópera em que se representa "Turandot" de Giacomo Puccini, os subterrâneos e subaquáticos segredos e a perseguição de automóvel e de mota, o desenlace que envolve o primeiro-ministro inglês.
     Está tudo muito bem concebido e conseguido num filme em que o realizador é também autor da história, com Drew Pearce (a partir da série televisiva criada por Bruce Geller), e argumentista, actividade pela qual é mais conhecido - esta é apenas a terceira experiência na realização Christopher McQuarrie e sai-se muito bem. Mas rapidamente percebemos estar perante um lugar comum do filme de espionagem - cada um dos agentes secretos  do cinema enfrentou ou vai enfrentar situações semelhantes -, muito embora a ideia da equipa, do team seja original  e esteja bem aproveitada narrativa e filmicamente, como é hábito .
                      Mission: Impossible - Rogue Nation (2015) by The Critical Movie Critics
       O humor e o amor vêm condimentar este "Missão Impossível: Nação Secreta", com a equipa completa: Jeremy Renner como Brandt, Simon Pegg como Benji, Ving Rhames como Luther funcionam bem em conjunto, uns com os outros e com Ethan Hunt. Alan HunleyAlec Baldwin como director da CIA e Ilsa Faust/Rebecca Ferguson como espia inglesa por quem passa um equilíbrio difícil e a resolução de situações decisivas, Lane/Sean Harris como supervilão fazem o resto.
      Percebendo embora o interesse deste tipo de filmes, sou invadido por algum cansaço e alguma saturação perante eles, que acabam por se citar uns aos outros, como se seguindo todos um itinerário muito definido para o filme de espionagem. Mas gostei especialmente da fotografia de Robert Elswit e da sequência na ópera. E anuncia-se o sexto filme. Louve-se a iniciativa de Tom Cruise como produtor e o seu carisma pessoal como actor, aqui especialmente bem aproveitado.

Evocar/Invocar

     "O Astrágalo"/"L'astragale" é a segunda longa-metragem da acriz Brigitte Sy (2014), baseada no livro homónimo de Albertine Sarrazin (1937-1967), com adaptação e diálogos seus e de Serge Le Péron. Vi-o agora, entendi (não é difícil) e gostei. Aliás, o livro autobiográfico tinha já sido adaptado ao cinema por Guy Casaril em 1968.
                      En présence de la réalisatrice et de la comédienne Leïla Bekhti
     Não tem, aliás, nada de difícil de perceber para quem conhecer os primeiros filmes de Jean-Luc Godard, nomeadamente "Viver a Sua Vida"/"Vivre sa vie" (1962), a que faz alusão expressa na figura da protagonista, Albertine/Leila Bekhti, que parte um osso do pé ao fugir da prisão e é ajudada por Julien/Reda Kateb, por quem se apaixona. É um filme garreliano, com os seus filhos Esther como Marie e Louis Garrel como fotógrafo parisiense e a própria realizadora, a mãe deles, como Rita (sobre Philippe Garrel, ver "Sair depressa", de 4 de Agosto de 2014, e "Sair devagar", de 4 de Abril de 2016).
      Albertine prostitui-se e vai à igreja onde Nana/Anna Karina se prostituía e ia ao cinema ver um filme sobre a paixão e morte de uma santa, e está bem vista uma coisa pela outra. O final cita expressamente o final do mesmo filme de Godard, como este fazia no seu início com o cinema americano dos anos 50, que "O Astrágalo" cita também - por exemplo aqueles passos sonoros de mulher. O preto e branco da fotografia de Frédéric Serve é igualmente alusivo e está muito bem utilizado.           
                     http://www.lepublicsystemecinema.fr/wp-content/uploads/2015/03/3.jpg
  Passado nos anos 50, é um excelente filme lírico, elíptico e evocativo, por vezes quase bressoniano. O meio marginal está muito bem construído e são especialmente boas as personagens femininas, em primeiro lugar a protagonista: os seus sentimentos são sentimentos comuns, a sua vida uma vida comum, aquela que lhe coube viver. Leila Bekhti está muito bem, morena e loura.
    Respeitar e convocar a memória é um propósito inteiramennte conseguido neste "O Astrágalo", em que são evocadas e invocadas a memória da vida e a memória do cinema no que têm de melhor, o que fica muito bem a Brigitte Sy. Agora tenho de ver o filme do Louis, "Os Dois Amigos"/"Les deux amis" (2015), que ainda não vi.

terça-feira, 6 de setembro de 2016

O passado congelado

    "45 Anos"/"45 Years" é a terceira longa-metragem do inglês Andrew Haigh (2015), com argumento seu a partir do conto "In Another Country", de David Constantine. Concentrado numa semana entre um casal, Kate/Charlotte Rampling e Geoff Mercer/Tom Courtnay, que termina com a festa dos seus 45 anos de casados, encontra o seu motivo e razão de ser na notícia que ele recebe por carta logo no início. 
                      45-years-tom-courtenay-rampling-haigh
     Encontrado o corpo congelado de uma antiga namorada dele que se tinha despenhado nos Alpes 50 anos antes, a notícia afecta-o e vai desestabilizar a vida de ambos. Geoff conta a Kate o que aconteceu, o que o ligava à morta agora encontrada, e responde às perguntas dela. Enquanto ele se perde entre recordações do mais distante e do mais próximo, ela procura satisfazer a sua curiosidade com fotografias antigas. Ciúmes de uma morta?
     O casal discute e reencontra-se até ao dia da festa, com o qual, e muito bem, o filme acaba. Com interpretações sóbrias e superiores de dois grandes actores, excelente fotografia de Lol Crawley e uma realização sempre justa e precisa, que constrói o espaço, o tempo e a evolução das personagens, "45 Anos" é uma pequena obra-prima de economia de meios, de contensão e de rigor, muito expressiva e sugestiva       
                     
     Na Suíça, onde Geoff talvez ainda vá, espera-o morto e congelado, intacto o seu passado - o passado de um hipotético futuro alternativo. O passado e os mortos podem actualizar-se como fantasmas, tanto mais quanto preservados como eram, como foram. Alfred Hitchcock tinha passado por aqui do lado do morto congelado num glaciar num dos seus filmes curtos para a televisão: "A Vala da Cristal"/"The Chrystal Trench" (1959). Além de "A Mulher Que Viveu Duas Vezes"/"Vertigo" (1958), evidentemente.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Até ao fim do mundo

    "Cartas da Guerra", de Ivo M. Ferreira (2016), sobre a correspondência de António Lobo Antunes com sua mulher enquanto ele estava em Angola, durante a guerra colonial, e ela em Lisboa, no seu exigente e justificado preto e branco é um filme invulgar e muito bom sobre uma época pouco visitada pelo cinema português. As cartas em causa foram publicadas com organização das filhas de ambos, Maria José e Joana Lobo Antunes, em "D'este viver aqui neste papel descripto - Cartas da guerra" (Lisboa: Dom Quixote, 2005).           
                    
     O facto de as cartas, dramáticas e belíssimas, serem lidas torna-as outras, e serem lidas por uma voz feminina, correspondente a quem elas eram destinadas e as leu, confere-lhes um carácter muito especial, devolve-as ao seu original do mesmo modo que as torna quase abstractas.
    Mas Ivo M. Ferreira não se limita a elas, pois reconstitui o meio e o ambiente, incluindo brancos e negros e sem esquecer a soberba paisagem, em que o autor das cartas vivia quando as escreveu, o que torna este "Cartas de Guerra" um retrato do Lobo enquanto jovem inteiramente conseguido. Mesmo os elementos radiofónicos, televisivos e cinematográficos estão perfeitamente utilizados (até à máquina de projectar), tal como o espectáculo ao vivo, enquanto as representações de actores predominantemente jovens são sempre justas e seguras - Miguel Nunes como António está bem na sua concentração, Margarida Vile-Nova como Maria José vê-se menos mas é sobretudo a voz, e fiquei surpreendido com um Francisco Hestnes Ferreira entre eles.
                     Já estreou o filme Cartas de Guerra de Ivo M. Ferreira
     Claro que nessa altura, 1971-1973, a diferença passava já pelos oficiais, mas entre trabalho, conversas e perigo a vida do António estava toda focalizada naquele grande amor, de que a guerra o separara, e no que entretanto ia escrevendo já enquanto amadurecia politicamente. Muito bem, "Cartas da Guerra" reprime o acto de escrever, mesmo as cartas, que assim, apenas ouvidas, como que adquirem vida própria e tornam mais abstracto o próprio meio de guerra mostrado.
     Com argumento de Ivo M. Ferreira e Edgar Medina, "Cartas da Guerra" conta com excelente fotografia de João Ribeiro e montagem de Sandro Aguilar. Por uma qualquer coincidência alquímica de talentos, resulta um belo filme de memórias, que prescinde de um narrador diegético no presente, mais do que um filme meramente epistolar. Perfeito no seu cristal do tempo, honra todos aqueles que nele participaram e dignifica o escritor.