“Um não sei quê, que nasce não sei onde,/Vem não sei como, e dói não sei porquê.” Luís de Camões

"Na dor lida sentem bem,/Não as duas que êle teve,/Mas só a que êles não têm." Fernando Pessoa

"Lividos astros,/Soidões lacustres.../Lemes e mastros.../E os alabastros/Dos balaustres!" Camilo Pessanha

"E eu estou feliz ainda./Mas faz-se tarde/e sei que é tempo de continuar." Helder Macedo

"Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos..." Camilo Pessanha

“Vem, vagamente,/Vem, levemente,/Vem sozinha, solene, com as mãos caídas/Ao teu lado, vem” Álvaro de Campos

"Chove nela graça tanta/que dá graça à fermosura;/vai fermosa, e não segura." Luís de Camões

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Fuga épica

     Ao acompanhar, junto deles, com eles, os refugiados birmaneses da guerra civil no seu país, hoje Myanmar, que caminham a pé para a vizinha China, em "Ta'ang" (2016) Wang Bing faz a epopeia da minoria étnica que tem esse nome, um povo que, com os seus bens e pertences reduzidos ao essencial, percorre os caminhos mais inóspitos e agrestes da fronteira em busca de refúgio. E acompanha esses refugiados de muito perto durante a Primavera de 2015.
                      ta'ang doclisboa wang bing
  Habituados que estamos a epopeias bélicas de descoberta e conquista, surpreende-nos encontrar um equivalente desse sopro  de aventura e perigos na caminhada de um povo que foge da guerra que o ameaça. Com avanços e recuos no percurso, o cineasta demora-se na fronteira sino-birmanesa ou já em território chinês na companhia de grupos em que os membros respectivos se interessam uns pelos outros e praticam a entre-ajuda.
  Depois de uma abertura belíssima num acampamento de barracas, numa longa sequência nocturna só com mulheres em volta da fogueira ou à luz de uma simples vela, em plano médio elas falam longamente do seu passado, do seu presente e dos que lhes são próximos, com uma iluminação fabulosa resultante do fogo que arde ou da vela - e eu nunca vi noite assim.  
                      ta'ang doclisboa wang bing
    No dia que se segue estão de regresso os homens que medem e discutem o melhor rumo a seguir perante as ameaças de tiroteio próximo, e então os caminhos perdem-se montanha acima. Somos assim colocados perante a evidência do duríssimo mas solidário percurso, em diferentes momentos e espaços, desse povo, dos seus problemas e preocupações, frequentemente familiares.
   Daquele que é provavelmente o melhor documentarista vivo, pelo menos aquele que tem trabalhado condições humanas mais duras e penosas desde "West of the Tracks"/"Tie Xi Ou" (2003), este filme é uma absoluta obra-prima cinematográfica, do sopro épico dos humildes despojados de tudo que ele sabe filmar nos seus momentos de convívio, de palavra e de incerteza mas também de caminhada. Sem nos poupar nem se poupar a si próprio, Wang Bing trabalha na violência e na beleza do esforço humano, de cada um e do grupo, a vibração do pulsar humano. 
                      ta'ang doclisboa wang bing
      Sem nunca abandonar os refugiados e sem qualquer contraponto, o cineasta move-se com eles, entre eles, como se fosse um deles, que do mundo exterior apenas identificam a ameaça da guerra que se aproxima. Longe da civilização, perdidos na montanha, rumo a um destino em que esperam encontrar a segurança e a paz que não têm na sua terra. 
      Wang Bing só me tem chegado em sessões do DocLisboa, como este ano aconteceu, ou então no Arte. A estreia em Portugal de "A Fossa"/"Jiabiangou" (2010), o seu único filme de ficção até à data, que não é fácil, e de "Três Imãs"/"San zimei" (2012) no final do ano passado foi um desastre comercial. Ambos os filmes estão agora disponíveis em dvd - sobre este cineasta ver "Documentário épico", de 4 de Novembro de 2012.     

domingo, 30 de outubro de 2016

Escavar até ao fundo

     Num panorama cinematográfico pletórico de acontecimentos e iniciativas importantes em Lisboa, optei por um filme do sul-coreano Hong Sang-soo, "A nossa Sunhi"/"Our Sunhi"/"U ri Sunhi" (2013), inédito comercialmente em Portugal, porque é um cineasta que me interessa.
                      Our Sunhi (image 1)
    Trata-se de mais uma surpresa de um dos mais importantes cineastas actuais, um filme com poucas personagens que se vão encontrando sucessivamente umas com as outras nos mesmos locais: Sunhi/Yu-mi Jeong, que estuda cinema, Moon-soo/Sun-kyun Lee, seu antigo namorado que já fez um filme, Choi/Sang Jung Kim, antigo professor deles a quem a primeira pede uma carta de recomendação, e Jae-hak/Jae-yeong Jeong, um amigo comum.
    Tudo gira em volta da protagonista, como é bom de ver. O antigo namorado quer que ela volte para ele, o antigo professor quer que ela o aceite depois de o ter feito redigir uma segunda carta de recomendação (sempre em meia-hora), enquanto o amigo comum serve de ponto de contacto de todos, a quem faz as mesmas recomendações.
                      Our Sunhi (image 2)
    Dito assim parece um filme já conhecido de Hong-Sang-soo mas são as repetições dentro do mesmo filme e as variações em relação a outros que constituem o cerne e o mistério deste "A nossa Sunhi", enquanto o regresso da mesma música acompanha as recorrências da conversa num mesmo local. Embora pareça ser sempre o mesmo filme sobre o mesmo tema, são sempre filmes diferentes que o cineasta faz em volta das suas obsessões pessoais, simples e elementares.
    E o mistério maior continua a ser aqui o estilo seco e consistente do cineasta, centrado em planos longos e fixos, levados até à sua saturação, ao seu limite. E um elegante movimento de câmara, mesmo se longo e até ascendente, permite ocasionalmente manter a lógica do plano-sequência de forma original.
                      Our Sunhi (image 3)
    No fundo o cineasta permanece fiel a dois ou três motivos narrativos, a um ou dois princípios formais, e assim nos vai deslumbrando com os seus filmes, que era importante nos chegassem com maior regularidade e frequência pois ele é o melhor cineasta sul-coreano contemporâneo - sobre ele ver "Pintor de nuvens", 4 de Novembro de 2012, "Três vezes Anne", 10 de Junho de 2013, "O sonho inquieto", de 30 de Abril de 2014, e "De um dia para o outro", de 17 de Janeiro de 2016.      

sábado, 29 de outubro de 2016

O rio sem regresso

   Com "O Ornitólogo" (2016) João Pedro Rodrigues constrói um filme primitivo e belíssimo, que dá a melhor continuidade a uma obra cinematográfica já longa e de grande relevo entre curtas e longas-metragens, documentário e ficção.                
                      (Imagem: Divulgação)
   O início remete para "Rio Sem Regresso"/"River of No Return", de Otto Preminger (1954), para o que o cineasta chamava a atenção há tempos nos Cahiers du Cinéma, quando Fernando/Paul Hamy desce o rio numa canoa, no início de um percurso solitário em que vai encontrar primeiro duas chinesas, que o deixam amarrado e pendurado numa árvore.
   Mas o melhor de "O Ornitólogo" chega a partir do momento em que a sombra móvel das nuvens se desloca sobre a terra, na floresta com os mascarados que falam mirandês e o encontro fatal do protagonista com o pastor surdo-mudo, porque a partir daí sente-se também a presença de "A Sombra do Caçador"/"The Night of the Hunter", de Charles Laughton (1955), com o seu proposto bestiário simbólico.
                      ornit4
   Depois da estatuária religiosa, das amazonas que o atingem e o acordam, dos animais estáticos e deslocados e de Fernando se ter despojado dos seus escassos pertences, o final, com os duplos, é inesperado, justo e bem visto, levando-os a caminho de Pádua, onde se cruzam com as duas  chinesas do início, num percurso que tinha começado sob a égide de Santo António e no Caminho de Santiago.
    Com uma fotografia soberba de Rui Poças, um grande trabalho sobre os ruídos (a floresta, a natureza) e um grande actor, as referências de um erotismo religioso percebem-se e são inteiramente conseguidas, mesmo quando forçadas - a pomba branca que afinal não tinha partido uma asa.  
                      O Ornitólogo : Foto
   Escrito com João Rui Guerra da Mata, "O Ornitólogo" de João Pedro Rodrigues será o seu melhor filme até agora, com o seu percurso iniciático extravagante e fantástico, que junta o sexo e a morte com o despertar e o ressurgir. São assim inteiramente merecidos o reconhecimento e a divulgação internacionais que a sua obra está a merecer - sobre o cineasta, ver "Encruzilhada", de 30 de Março de 2013.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Risco assumido

    "Talvez deserto, talvez universo", de Miguel Seabra Lopes e Karen Akerman (2015), é filmado na Unidade de Internamento Forense do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa que funciona no antigo Hospital Júlio de Matos, com homens que sofrem de doenças do foro psíquico que levaram os tribunais a considerá-los inimputáveis.
    Também prisão, este estabelecimento hospitalar faz lembrar o Bridgewater State Hospital de  "Titicut Follies", o mítico e pouco visto filme de estreia de Fred Wiseman (1967), embora a intervenção do cineasta altere os dados do documentário, tornando-o excessivamente interactivo. Eu explico-me.
                    
     No seu citado filme de estreia à semelhança dos seguintes, Wiseman limita-se a observar com a sua câmara o que se passa diante de si, entre os guardas e os internados nesse caso, sem minimamente interferir. Ora neste filme português e brasileiro de Seabra Lopes e Akerman, que remete mesmo explicitamente para aquele precedente, algumas vezes uma voz masculina proveniente do espaço fora de campo dialoga insistentemente com alguns dos internados para os levar a falar.
    Com o seu ar estranhamente fechado, ausente, parado, entorpecido, os doentes aqui em causa, filmados com a maior atenção e o maior respeito pelos cineastas, por si próprios não dizem nada. Na sua aproximação cautelosa, os documentaristas ter-se-ão deparado com os limites do seu trabalho fílmico e, para os exceder, dialogaram pessoal ou vicariamente com alguns dos doentes.
                    Talvez Deserto Talvez Universo : Foto
    O dispositivo de vídeo-vigilância e os  manuscritos mostrados são sem problema e as imagens falam por si. Mas uma vez assumido o risco do diálogo com um interlocutor invisível, o que é em si um mau princípio, o filme lida com o seu resultado, que a meu ver nem sempre é o melhor. Duvido que o que se ganha compense o que se perde. Há casos que, também no cinema, exigem pensar não duas mas várias vezes. 
   Salvo esta objecção, "Talvez deserto, talvez universo" é um bom documentário sobre o mais árido e mudo dos mundos humanos.

O príncipe perfeito

    Neurocirurgião e professor catedrático de neurocirurgia, director do serviço de neurocirurgia do Hospital de Santa Maria, João Lobo Antunes (1944-2016) foi um dos fundadores da bioética como ciência em Portugal. Membro e depois presidente do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida e presidente da Sociedade Europeia de Neurocirurgia, foram-lhe atribuídos o Prémio Pessoa em 1996, o Prémio da Universidade de Lisboa em 2013 e o Prémio  Nacional de Saúde em 2015 entre outras distinções.
    Foi distinto em tudo o que fez, incluindo a escrita, em que se centrou na sua profissão, na sua experiência da vida e da morte, na ética e na arte. Com uma vastíssima cultura, nomeadamente literária, filosófica e artística, que enquadrava o seu saber especializado da neurocirurgia em que se doutorara em New York, sabia distinguir o bem e o mal, o certo e o errado com uma grande e rara inteligência. Era superiormente competente na sua profissão, sabia olhar, escutar e sentir o sofrimento dos outros e tinha um exigente sentido do dever.     
                    João Lobo Antunes 
   Figura maior da sua geração, o legado que deixa como neurocirurgião, cientista, professor, escritor e pensador é enorme e não deve de maneira nenhuma ser esquecido. Quando pensava nele pensava num homem sábio e bondoso, e quando penso hoje num homem sábio e bondoso continuo a pensar nele, surpreendido que fui agora pela notícia da sua morte.
   Sinto-me honrado por ter coincidido espacial e temporalmente com ele. Em momento da maior consternação, apresento a expressão sincera do meu muito sentido pesar à sua mulher, Maria do Céu Machado, filhas e netos, aos seus irmãos e restante família, enquanto me curvo respeitosamente perante a sua memória.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Dilemas

   Argumentista de "The Hunt - A Caça"/"Jagten" (2012) e de "A Comuna"/"Kollectivet" (2016) de Thomas Vinterberg (ver "Contra a indiferença", de 17 de Março de 2013, e "O declínio do amor", de 29 de Agosto de 2016), o dinamarquês Tobias Lindholm é também realizador de cinema e autor do argumento dos seus próprios filmes. Dele estreou este ano em Portugal "Uma Guerra"/"Krigen" (2015), um filme curioso e interessante pelas questões que equaciona, se coloca e nos coloca.
                     
   Durante a guerra no Afeganistão, um comandante dinamarquês, Claus Michael Pedersen/Pilou Asbaek, dá ordem de fogo aos seus homens para os proteger, lhes permitir a retirada, com um ferido, e assim lhes salvar a vida. Sem saber que dentro do edifício alvejado estavam crianças.
   Acusado, passada uma hora de filme na frente, de ser responsável pela morte de civis, é submetido a julgamento por tribunal militar no seu regresso à Dinamarca, onde o esperam a mulher, Maria/Tuva Novotny, e os seus três filhos. 
                     
   A primeira questão que o filme levanta é se, com o conhecimento que tinha, o comandante Pedersen tinha legitimidade para naquele momento ordenar fogo sobre aquele edifício. Absolvido por causa do depoimento de uma testemunha, um dos seus homens que inventa o que diz para salvaguarda do seu comandante, a legitimidade dessa mentira é uma segunda questão interessante do filme.
   Cinematograficamente escorreito e sem complicações formais, com uma primeira hora quase toda ela desprovida de música no teatro de operações "Uma Guerra" confronta-nos com factos que o tribunal desconhece (que a verdade perante ele afirmada é uma mentira) além daquilo que ele vai apreciar, que inclui fotografias que o protagonista desconhecia. Como em Alfred Hitchcock, o espectador sabe mais que algumas personagens, tanto como outras. Sozinho no escuro, no final Pedersen pensa. 
                     
     Desçam das cómodas alturas cinéfilas em que se movem, da duração dos planos e dos movimentos de câmara aos actores sublimes, e vejam este filme e como ele, com ele pensem nas questões que em termos dilemáticos demonstrativamente coloca. Morrem na mesma, mas morrerão menos estúpidos.

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Um problema complexo

    Imparável no seu ritmo de um filme por ano, Woody Allen realizou e escreveu "Café Society" (2016), filme situado nos anos 30 do Século XX entre Hollywood e New York que agora estreou entre nós.
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    Percebia-se melhor se situasse o seu filme no seu próprio tempo, os anos 60/70, mas a sua "mania das grandezas" leva-o para a mítica "época de ouro" do cinema americano, fundadora de uma ideia importante do cinema, o que até faz sentido em quem já revisitou os anos 20 em "Meia-Noite em Paris"/" Midnight in Paris" (2011) com sucesso assinalável. Assim, a reconstituição a que procede envolve os grandes realizadores, produtores, actores e actrizes e os grandes estúdios pioneiros do cinema sonoro.
    Um sobrinho jovem, Bobby/Jesse Eisenberg, parte de New York para Hollywood onde está bem estabelecido o seu tio Phil Stern/Steve Carell, casado e que tem uma secretária, Vonnie/Kristen Stewart, que vai estar na origem de um problema complexo.
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   Numa família judia, o que tem mais graça são as piadas de judeus que envolvem Evelyn/Sari Lennick, irmã de Bobby, e Ben/Corey Stoll, o seu irmão mais velho (é pior ser assassino ou ser cristão? pergunta no final a primeira sobre o segundo, para o qual nenhum problema apresentara qualquer complexidade), bem tratados em termos de situações e de diálogos, secos e elípticos. O mais é melodrama xaroposo e previsível revisitação de uma época através de lugares-comuns, que confirma o espectador que pretende edificar sem minimamente o inquietar.
   O lugar-comum chega até ao pôr-do sol em Central Park, uns anos depois do regresso de Bobby a New York, que se salva, como todo o filme, graças à fotografia de Vittorio Storaro na sua primeira colaboração com o cineasta.
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   A propósito do cinema americano poderíamos esperar e desejar mais e melhor do que o mero folclore hollywoodiano e judeu de época que o cineasta, arquitectura incluída, achou por bem aqui nos servir, mostrando que já conheceu melhores dias e melhores filmes.
   Sobre Woody Allen ver "Um americano em Paris", de 12 de Agosto de 2012, "Blue Moon", de 21 de Setembro de 2013, "O dom e o sinal", de 13 de Setembro de 2014, e "Um homem sombrio", de 21 de Setembro de 2015.