“Um não sei quê, que nasce não sei onde,/Vem não sei como, e dói não sei porquê.” Luís de Camões

"Na dor lida sentem bem,/Não as duas que êle teve,/Mas só a que êles não têm." Fernando Pessoa

"Lividos astros,/Soidões lacustres.../Lemes e mastros.../E os alabastros/Dos balaustres!" Camilo Pessanha

"E eu estou feliz ainda./Mas faz-se tarde/e sei que é tempo de continuar." Helder Macedo

"Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos..." Camilo Pessanha

“Vem, vagamente,/Vem, levemente,/Vem sozinha, solene, com as mãos caídas/Ao teu lado, vem” Álvaro de Campos

"Chove nela graça tanta/que dá graça à fermosura;/vai fermosa, e não segura." Luís de Camões

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Estilhaçados

   "Une déflagration"/"A Blast" é a segunda longa-metragem do grego Syllas Tzoumerkas (2014) e um filme muito bom e directo sobre o seu país em crise, que o Arte emitiu na semana passada. 
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    Decorre com um casal, Maria/Angeliki Papoulia e Yannis/Vassilis Doganis, entre o início dos seus amores em jovens e a actualidade, em que os envolve a eles e aos seus filhos, à irmã dela, Gogo/Maria Filini, e ao marido desta, Costas/Makis Papadimitriou, e aos pais das duas irmãs.
    Tudo começa pelo princípio, com Maria e Gogo ainda solteiras, mas depois da explosão de amor entre Maria estudante de direito e Yannis cadete da marinha em 2004, aquando da preparação dos Jogos Olímpicos, passamos rapidamente ao presente com o drama instalado que os envolve aos dois e a todos em sua volta.
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    Com vida de marinheiro, Yannis parte deixando Maria a braços com as dívidas e a necessidade de as pagar, com uma mãe inválida/Themis Bazaka e um pai impotente/Giorgos Biniaris. Entretanto ele encontra as suas distracções.
   E o que então acontece corresponde ao estilhaçar de uma família e culmina com a fuga desesperada e sem destino de Maria. O argumento é do realizador e de Youla Boudali e a realização é sempre justa e precisa, com actores à altura, sem esconder o filme atrás de lugares-comuns estilísticos do cinema e mantendo uma dominante visual - os problemas dos pais de Maria, dela própria e de Yannis, a posição política de Costas.
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    O que eu aprecio neste "A Blast" é ele ir direito ao assunto, aos problemas individuais e familiares que mostra e expõe, superando o melodrama em favor de uma realidade crua que é também social - sobre o cinema grego ver "Uma despedida", de 29 de Agosto de 2013.

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Novidade no Arte

      Na nova programação do Arte destaco desde Outubro, ao Domingo de manhã, os novos programas "Streetphilosophy" e "Square Idée", que depois do magazine cultural "Metropolis" vêm apresentar a discussão filosófica e política.
    Embora ambos substituam o anterior "Philosophy", de Raphaël Enthoven, emitido semanalmente ao longo de oito anos, sempre com grande qualidade, destaco aqui o primeiro que, na mesma duração e no mesmo horário, acompanha um entrevistador mais novo, Jonas Bosslet, que nas ruas, nos bares, nos seus locais de trabalho fala com diferentes entrevistados novos, uns filósofos outros não, sobre a colocação actual de questões filosóficas e as respectivas novas respostas. 
                     Jonas Bosslet
     Com a característica original de ser a preto e branco, "Streetphilosophy" é uma nova maneira de encarar a filosofia em televisão com inventiva e actualidade, que dá a palavra aos mais novos sempre com grande qualidade e pertinência. Feito para a geração Y, faz transitar a programação sobre filosofia da parte francesa para a parte alemã do Arte.
   Aos entrevistados conhecidos do anterior "Philosophy" sucedem entrevistados menos conhecidos ou de todo desconhecidos, que respondem a preocupações actuais em "Streeetphilosophy". Desempoeirado e novo, vou continuar a acompanhar com atenção e interesse. E aconselho.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Os cartazes do cinema

    Organizada pela Academia Portuguesa de Cinema, em parceria com o ICA e a Cinemateca Portuguesa, está a decorre a 1ª Exposição de Cartazes do Cinema Português. Na Cinemateca Portuguesa cartazes do cinema mudo e de filmes de Manoel de Oliveira, na Sociedade Nacional de Belas-Artes, mesmo em frente, cartazes do início do cinema sonoro a 2000 e no Hotel Tivoli cartazes dos filmes de José Fonseca e Costa.
    Trata-se de uma boa iniciativa, pois os cartazes de cinema descrevem sobre a história deste uma outra história, que envolve artistas plásticos e designers gráficos. Os cartazes expostos são de Almada Negreiros, Manuel Guimarães, João Abel Manta, Manuel Lapa, Judite Cília, Henrique Cayate, entre outros.
                                     
      Numa exposição atraente e muito oportuna, pela qual felicito aqui a Academia Portuguesa de Cinema, os cartazes expostos prolongam-se entre a Cinemateca, na Rua Barata Salgueiro, e o Cinema São Jorge, já ao longo da Avenida da Liberdade, com o cinema contemporâneo e merecem todos eles uma visita atenta e descontraída (a entrada é gratuita em todos os locais). 
      A arte do cartaz, que tem uma vida efémera aquando da estreia de cada filme para depois sair da circulação, é uma arte autónoma, que tem, ela própria, a sua história, a sua evolução, os seus estilos que é muito curioso aqui conhecer nos seus exemplos mais icónicos no cinema português. Até ao dia 30 deste mês de Novembro.

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Fuga épica

     Ao acompanhar, junto deles, com eles, os refugiados birmaneses da guerra civil no seu país, hoje Myanmar, que caminham a pé para a vizinha China, em "Ta'ang" (2016) Wang Bing faz a epopeia da minoria étnica que tem esse nome, um povo que, com os seus bens e pertences reduzidos ao essencial, percorre os caminhos mais inóspitos e agrestes da fronteira em busca de refúgio. E acompanha esses refugiados de muito perto durante a Primavera de 2015.
                      ta'ang doclisboa wang bing
  Habituados que estamos a epopeias bélicas de descoberta e conquista, surpreende-nos encontrar um equivalente desse sopro  de aventura e perigos na caminhada de um povo que foge da guerra que o ameaça. Com avanços e recuos no percurso, o cineasta demora-se na fronteira sino-birmanesa ou já em território chinês na companhia de grupos em que os membros respectivos se interessam uns pelos outros e praticam a entre-ajuda.
  Depois de uma abertura belíssima num acampamento de barracas, numa longa sequência nocturna só com mulheres em volta da fogueira ou à luz de uma simples vela, em plano médio elas falam longamente do seu passado, do seu presente e dos que lhes são próximos, com uma iluminação fabulosa resultante do fogo que arde ou da vela - e eu nunca vi noite assim.  
                      ta'ang doclisboa wang bing
    No dia que se segue estão de regresso os homens que medem e discutem o melhor rumo a seguir perante as ameaças de tiroteio próximo, e então os caminhos perdem-se montanha acima. Somos assim colocados perante a evidência do duríssimo mas solidário percurso, em diferentes momentos e espaços, desse povo, dos seus problemas e preocupações, frequentemente familiares.
   Daquele que é provavelmente o melhor documentarista vivo, pelo menos aquele que tem trabalhado condições humanas mais duras e penosas desde "West of the Tracks"/"Tie Xi Ou" (2003), este filme é uma absoluta obra-prima cinematográfica, do sopro épico dos humildes despojados de tudo que ele sabe filmar nos seus momentos de convívio, de palavra e de incerteza mas também de caminhada. Sem nos poupar nem se poupar a si próprio, Wang Bing trabalha na violência e na beleza do esforço humano, de cada um e do grupo, a vibração do pulsar humano. 
                      ta'ang doclisboa wang bing
      Sem nunca abandonar os refugiados e sem qualquer contraponto, o cineasta move-se com eles, entre eles, como se fosse um deles, que do mundo exterior apenas identificam a ameaça da guerra que se aproxima. Longe da civilização, perdidos na montanha, rumo a um destino em que esperam encontrar a segurança e a paz que não têm na sua terra. 
      Wang Bing só me tem chegado em sessões do DocLisboa, como este ano aconteceu, ou então no Arte. A estreia em Portugal de "A Fossa"/"Jiabiangou" (2010), o seu único filme de ficção até à data, que não é fácil, e de "Três Imãs"/"San zimei" (2012) no final do ano passado foi um desastre comercial. Ambos os filmes estão agora disponíveis em dvd - sobre este cineasta ver "Documentário épico", de 4 de Novembro de 2012.     

domingo, 30 de outubro de 2016

Escavar até ao fundo

     Num panorama cinematográfico pletórico de acontecimentos e iniciativas importantes em Lisboa, optei por um filme do sul-coreano Hong Sang-soo, "A nossa Sunhi"/"Our Sunhi"/"U ri Sunhi" (2013), inédito comercialmente em Portugal, porque é um cineasta que me interessa.
                      Our Sunhi (image 1)
    Trata-se de mais uma surpresa de um dos mais importantes cineastas actuais, um filme com poucas personagens que se vão encontrando sucessivamente umas com as outras nos mesmos locais: Sunhi/Yu-mi Jeong, que estuda cinema, Moon-soo/Sun-kyun Lee, seu antigo namorado que já fez um filme, Choi/Sang Jung Kim, antigo professor deles a quem a primeira pede uma carta de recomendação, e Jae-hak/Jae-yeong Jeong, um amigo comum.
    Tudo gira em volta da protagonista, como é bom de ver. O antigo namorado quer que ela volte para ele, o antigo professor quer que ela o aceite depois de o ter feito redigir uma segunda carta de recomendação (sempre em meia-hora), enquanto o amigo comum serve de ponto de contacto de todos, a quem faz as mesmas recomendações.
                      Our Sunhi (image 2)
    Dito assim parece um filme já conhecido de Hong-Sang-soo mas são as repetições dentro do mesmo filme e as variações em relação a outros que constituem o cerne e o mistério deste "A nossa Sunhi", enquanto o regresso da mesma música acompanha as recorrências da conversa num mesmo local. Embora pareça ser sempre o mesmo filme sobre o mesmo tema, são sempre filmes diferentes que o cineasta faz em volta das suas obsessões pessoais, simples e elementares.
    E o mistério maior continua a ser aqui o estilo seco e consistente do cineasta, centrado em planos longos e fixos, levados até à sua saturação, ao seu limite. E um elegante movimento de câmara, mesmo se longo e até ascendente, permite ocasionalmente manter a lógica do plano-sequência de forma original.
                      Our Sunhi (image 3)
    No fundo o cineasta permanece fiel a dois ou três motivos narrativos, a um ou dois princípios formais, e assim nos vai deslumbrando com os seus filmes, que era importante nos chegassem com maior regularidade e frequência pois ele é o melhor cineasta sul-coreano contemporâneo - sobre ele ver "Pintor de nuvens", 4 de Novembro de 2012, "Três vezes Anne", 10 de Junho de 2013, "O sonho inquieto", de 30 de Abril de 2014, e "De um dia para o outro", de 17 de Janeiro de 2016.      

sábado, 29 de outubro de 2016

O rio sem regresso

   Com "O Ornitólogo" (2016) João Pedro Rodrigues constrói um filme primitivo e belíssimo, que dá a melhor continuidade a uma obra cinematográfica já longa e de grande relevo entre curtas e longas-metragens, documentário e ficção.                
                      (Imagem: Divulgação)
   O início remete para "Rio Sem Regresso"/"River of No Return", de Otto Preminger (1954), para o que o cineasta chamava a atenção há tempos nos Cahiers du Cinéma, quando Fernando/Paul Hamy desce o rio numa canoa, no início de um percurso solitário em que vai encontrar primeiro duas chinesas, que o deixam amarrado e pendurado numa árvore.
   Mas o melhor de "O Ornitólogo" chega a partir do momento em que a sombra móvel das nuvens se desloca sobre a terra, na floresta com os mascarados que falam mirandês e o encontro fatal do protagonista com o pastor surdo-mudo, porque a partir daí sente-se também a presença de "A Sombra do Caçador"/"The Night of the Hunter", de Charles Laughton (1955), com o seu proposto bestiário simbólico.
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   Depois da estatuária religiosa, das amazonas que o atingem e o acordam, dos animais estáticos e deslocados e de Fernando se ter despojado dos seus escassos pertences, o final, com os duplos, é inesperado, justo e bem visto, levando-os a caminho de Pádua, onde se cruzam com as duas  chinesas do início, num percurso que tinha começado sob a égide de Santo António e no Caminho de Santiago.
    Com uma fotografia soberba de Rui Poças, um grande trabalho sobre os ruídos (a floresta, a natureza) e um grande actor, as referências de um erotismo religioso percebem-se e são inteiramente conseguidas, mesmo quando forçadas - a pomba branca que afinal não tinha partido uma asa.  
                      O Ornitólogo : Foto
   Escrito com João Rui Guerra da Mata, "O Ornitólogo" de João Pedro Rodrigues será o seu melhor filme até agora, com o seu percurso iniciático extravagante e fantástico, que junta o sexo e a morte com o despertar e o ressurgir. São assim inteiramente merecidos o reconhecimento e a divulgação internacionais que a sua obra está a merecer - sobre o cineasta, ver "Encruzilhada", de 30 de Março de 2013.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Risco assumido

    "Talvez deserto, talvez universo", de Miguel Seabra Lopes e Karen Akerman (2015), é filmado na Unidade de Internamento Forense do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa que funciona no antigo Hospital Júlio de Matos, com homens que sofrem de doenças do foro psíquico que levaram os tribunais a considerá-los inimputáveis.
    Também prisão, este estabelecimento hospitalar faz lembrar o Bridgewater State Hospital de  "Titicut Follies", o mítico e pouco visto filme de estreia de Fred Wiseman (1967), embora a intervenção do cineasta altere os dados do documentário, tornando-o excessivamente interactivo. Eu explico-me.
                    
     No seu citado filme de estreia à semelhança dos seguintes, Wiseman limita-se a observar com a sua câmara o que se passa diante de si, entre os guardas e os internados nesse caso, sem minimamente interferir. Ora neste filme português e brasileiro de Seabra Lopes e Akerman, que remete mesmo explicitamente para aquele precedente, algumas vezes uma voz masculina proveniente do espaço fora de campo dialoga insistentemente com alguns dos internados para os levar a falar.
    Com o seu ar estranhamente fechado, ausente, parado, entorpecido, os doentes aqui em causa, filmados com a maior atenção e o maior respeito pelos cineastas, por si próprios não dizem nada. Na sua aproximação cautelosa, os documentaristas ter-se-ão deparado com os limites do seu trabalho fílmico e, para os exceder, dialogaram pessoal ou vicariamente com alguns dos doentes.
                    Talvez Deserto Talvez Universo : Foto
    O dispositivo de vídeo-vigilância e os  manuscritos mostrados são sem problema e as imagens falam por si. Mas uma vez assumido o risco do diálogo com um interlocutor invisível, o que é em si um mau princípio, o filme lida com o seu resultado, que a meu ver nem sempre é o melhor. Duvido que o que se ganha compense o que se perde. Há casos que, também no cinema, exigem pensar não duas mas várias vezes. 
   Salvo esta objecção, "Talvez deserto, talvez universo" é um bom documentário sobre o mais árido e mudo dos mundos humanos.