“Um não sei quê, que nasce não sei onde,/Vem não sei como, e dói não sei porquê.” Luís de Camões

"Na dor lida sentem bem,/Não as duas que êle teve,/Mas só a que êles não têm." Fernando Pessoa

"Lividos astros,/Soidões lacustres.../Lemes e mastros.../E os alabastros/Dos balaustres!" Camilo Pessanha

"E eu estou feliz ainda./Mas faz-se tarde/e sei que é tempo de continuar." Helder Macedo

"Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos..." Camilo Pessanha

“Vem, vagamente,/Vem, levemente,/Vem sozinha, solene, com as mãos caídas/Ao teu lado, vem” Álvaro de Campos

"Chove nela graça tanta/que dá graça à fermosura;/vai fermosa, e não segura." Luís de Camões

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Love

     "Tesouro"/"Comoara" é o mais recente filme de Corneliu Porumboiu (2015) e com ele o cinema novo romeno continua em evidência.
     Argumentista e realizador, o cineasta constrói um filme minimal sobre personagens perdidas no espaço e no tempo de uma crise persistente que os atinge também. Adrian/Adrian Purcarescu, em dificuldades para cumprir os seus compromissos, desafia Costi/Toma Cuzin, pai de uma criança com cuja vida escolar se preocupa e a quem lê histórias do Robin dos Bosques, a que juntos procurem o tesouro que, ele está certo, se esconde na antiga casa da sua família.
                      Cena od filme O Tesouro (2015)
     Com a ajuda de Cornel/Corneliu Cozmei, com os seus detectores de metais, durante um longo dia procuram e durante uma longa noite escavam, e essa parte central está muito bem filmada em planos longos. Depois não vos conto mais nada mas atenção ao final.
    Nesta quarta longa-metragem de ficção de Corneliu Poromboiu destaque para a fotografia de Tudor Mircea, que colabora com ele desde o seu filme anterior, "Quando a Noite Cai em Bucareste ou Metabolismo"/"Când se lasã seara peste Bucaresti sau metabolism" (2013), os actores em sobriedade justa e a ausência de música, que rebenta no final: "Love".
    Atenção a estes cineastas romenos mais novos que há alguns anos estão a fazer muito bom trabalho em filmes que merecem ser conhecidos - sobre  Corneliu Poromboiu ver "Uma relação condenada", de 14 de Agosto de 2014, sobre o cinema novo romeno ver também "Percurso exemplar", de 14 de Abril de 2012, "Gente comum", de 26 de Janeiro de 2013, e "Sufocante", de 10 de Junho de 2013.

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Bichos estranhos

    "Ma Loute", o mais recente filme de Bruno Dumont (2016), prossegue a inspiração do anterior "O Pequeno Quinquin"/"P'tit Quinquin" (2014) de uma distorção que esclarece a narrativa, agora situada no início do Século XX na Costa do Canal, em Slack Bay, e as suas personagens, ricos aristocratas e pobretanas que trabalham.
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    Dois polícias, Alfred Machin/Didier Després e Malfoy/Cyril Rigaud, encarregados de investigar desaparecimentos, acham os ricos bichos estranhos mesmo sem saberem quão estranhas são as suas relações familiares - de André Van Peteghem/Fabrice Luchini e Aude Van Peteghem/Juliette Binoche, os dois irmãos, Isabelle Van Petteghem/Valeria Bruni Tedeschi, a mulher do primeiro, e Christian Van Petteghem/Jean-Luc Vincent, um primo - e concentrando-se neles o cineasta traça um retrato de época conseguido em distorção, exagero expressivo que atinge a desfiguração. 
    Do outro lado, contudo, as sugestões são não menos estranhas, com o Eterno Brufort/Thierry Lavieville e a Mãe Brufort/Caroline Carbonnier, com Nadège/Laura Dupré como criada dos primeiros, por isso em circulação entre os dois mundos e deslocada.
                    http://www.eyeforfilm.co.uk/images/newsite/slack2_600.jpeg
    Com a paixão cruzada de Ma Loute Brufort/Brandon Lavieville e Billie Van Peteghem/Raph são os dois mundos que se cruzam para se virem a descruzar outra vez, mas este "Ma Loute" é sobretudo um filme pictórico, visualmente impressionista na magnífica fotografia de Guillaume Deffontaines, que colabora com o cineasta desde "Camille Claudel 1915" (2013).
    No novo rumo que imprimiu à sua obra, em que o satírico se alia ao poético, com este filme em que Isabelle levita, há na praia um carro à vela e Machin incha como um balão, de que é argumentista, autor dos diálogos e realizador, Bruno Dumont continua a destacar-se no panorama do cinema francês e europeu pela sua originalidade e inteligência - sobre o cineasta ver  "A dignidade do cinema", de 30 de Julho de 2012, "Filme de programa", de 30 de Junho de 2013 e "Pedra de toque", de 15 de Fevereiro de 2015.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Por Jim Jarmusch

    Em "Paterson" (2016) o americano Jim Jarmusch regressa às suas origens para filmar sem estrelas e sem rede uma vida humilde, a de um motorista de autocarro chamado Paterson - título de um poema longo célebre de William Carlos Williams (1883-1963), poeta maior do modernismo americano, editado em português pela Relógio d'Água (1998) - em Paterson, New Jersey.
                      
    Com Adam Driver como Paterson e Golshifteh Farahani com Laura, a mulher dele, sobre argumento seu o autor mais importante do novo cinema independente americano cria um filme de quotidiano laborioso de um americano que tem a característica especial de escrever poesia. Aí entra a poesia de Ron Padgett, poeta amigo de Jarmusch, com um poema final do próprio Williams, "This Is Just to Say". E a presença das palavras dos poemas que são escritos na imagem e no som confere plena visibilidade ao acto de as escrever, assim vivel e auditivamente poético, tanto mais quanto Paterson não usa computador, telemóvel ou o mais e escreve à mão.
    Acompanhando os rituais diários do protagonista, o filme segue-o entre casa e o trabalho, deste para o bar e de regresso a casa onde o esperam Laura e Marvin, o cão, durante uma semana, de segunda-feira a domingo, para regressar a uma/a mesma segunda-feira. Com pormenores deliciosos, como as conversas dos passageiros do autocarro e de Paterson com o encarregado, as conversas do bar (fantástica a noite do xadrês e da mesa de bilhar), o diálogo dos anarquistas, as conversas do casal em casa a que o outro casal, Everett/William Jackson Harper e Marie/Chasten Harmon, faz contraponto no bar.
                      
   Jarmusch tem a ciência certa de onde colocar a câmara, como dirigir os actores, onde fazer entrar a música dos SQÜRL, a sua própria banda, composta e interpretada por si próprio e Carter Logan, e Paterson é uma maravilhosa pequena cidade americana, imaginada desta maneira pelo cineasta, onde se recorda Bud Abbott e Lou Costello e até existe um centro comercial que passa filmes de terror antigos, a preto e branco, que o casal vai ver.
  "Paterson" é, assim, um filme fantástico, poético, de humor subtil que esconde os grandes dramas familiares e amorosos. Reconduzidos ao início depois de Marvin ter destruído o caderno do protagonista e um misterioso japonês lhe ter oferecido um caderno em branco, o filme fecha de forma perfeita, circular.  
                       Paterson 7
   Por sua vez "Gimme Danger" (2016), escrito e dirigido pelo mesmo Jim Jarmusch, é um documentário que celebra os The Stooges, banda rock dirigida por Iggy Pop, com origem nos anos 60 do Século XX e cuja história é evocada pelos sobreviventes respectivos.
    Com imagens de arquivo da banda e o comentário de Iggy que esclarece cada circunstância, mas também com recurso imaginativo à animação, da responsabilidade de James Kerr, e a imagens dos filmes e programas televisivos antigos mais banais, sem se questionar nem questionar os músicos de um grupo que ele especialmente aprecia é também um pouco a história da América, com especial atenção aos anos 60 e 70, que o cineasta aqui recorda.                          
                      the-stooges-gimme-danger-documentary-trailer                    
   No final contam-se quatro mortos de The Stoorges originais e adquiridos, mas é a loucura jubilatória dos seus concertos que marca este filme, com o comentário sempre pertinente e esclarecedor de Iggy, de quem é adoptado o ponto de vista, sobre cada situação evocada, de tal maneira que mesmo quem não apreciar o rock fica cativado, siderado com imagens e sons
    Enquanto em "Paterson" temos a cores a pura arte do cineasta, em "Gimme Danger" temos a preto e branco e a cores a arte impura da música e do cinema. Em comum os dois filmes têm, além do realizador, Affonso Gonçalves na montagem - sobre Jim Jarmusch, um dos melhores cineastas contemporâneos, ver "Um cineasta de culto", de 16 de Junho de 2014. 

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Laços de sangue

  "Norskov" (2015), a série policial dinamarquesa que o Arte transmite há duas semanas à quinta-feira, não se limita a repetir com variações modelos anteriores do policial escandinavo tal como ele está estabelecido e estabilizado na literatura, no cinema e na televisão.         
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     Criada por Dunja Gry Jensen, experimentada e premiada argumentista de cinema e televisão que participa no argumento, envolve em torno de alguns crimes três amigos de infância e algumas relações de sangue que neste momento, em que passaram seis dos dez episódios, não se sabe ainda onde conduzirão.
   Com realização, fotografia, música, montagem e interpretações exemplares, "Norskov" alonga-se no tempo para enredar e desenredar uma narrativa que envolve, além das relações pessoais numa pequena cidade, o tráfico de drogas e a construção de uma escola como pistas talvez acessórias. Ou não.     
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   Uma série passada numa cidade com estaleiros navais e que envolve um jovem praticante de hóquei no gelo. Repete na noite de sábado. Não vos digo mais. Vejam porque é muito bom.

sábado, 12 de novembro de 2016

Alfredo Bruto da Costa (1938-2016)

   Foi um homem notável que escolheu estudar a pobreza em Portugal, o que não é, convenhamos, uma escolha evidente nos nossos dias. Estudou a pobreza e escreveu sobre ela com grande pertinência e lucidez. O seu nome assinala uma causa pouco comum e um trabalho aturado em seu favor.
                     Alfredo Bruto da Costa: ?Um sonhador que nunca perdeu a esperança de viver num mundo sem pobreza? ? Cáritas Portuguesa
  Com lugar na política portuguesa democrática na área social, era licenciado em engenharia pelo IST/UTL e doutorado em ciências sociais pela Universidade de Bath, Reino Unido. Professor universitário,  destacou-se nas áreas social, da pobreza, da exclusão e da política social.
  Aqui me despeço com emoção de um homem que, sem dar nas vistas, se destacou numa direcção muito importante e pouco frequentada em que é preciso continuar a trabalhar. Fazem muita falta homens como ele. As minhas profundas condolências à sua família.

Leonard Cohen (1934-2016)

    Foi o bardo inspirado e inspirador de mais de muitos em diferentes gerações. Com os seus poemas e canções ajudou-nos a viver os momentos mais difíceis com uma integridade pessoal e uma qualidade musical inultrapassáveis.
    Mestre dos actuais mestres da música popular, era conhecido de todos, admirado por todos, que sentem agora a sua partida. A sua musicalidade melancólica e o seu intenso lirismo perduram no presente e permanecem para o futuro.
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    Um dos poetas, compositores e cantores maiores do seu e nosso tempo, talvez aquele que melhor soube expressar na sua voz um sentimento profundo da vida que todos partilhámos com ele. Cantou, trabalhou até ao fim. Cabe-nos agora prosseguir no seu caminho.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Em que língua?

    "Terceiro Andar" é um díptico de Luciana Fina (2016) em dois ecrãs afastados um do outro ao mesmo tempo, filmado no Bairro da Colónias, em Lisboa, com duas mulheres africanas, Fatumata e Aissato, que se interrogam em fula e em português.
    Em primeiro lugar noto que enquanto as imagens se sucedem sobre os dois ecrãs se escutam vozes femininas não síncronas com as imagens das duas mulheres que, entretanto, assumem expressões e olhares diferentes. Em segundo lugar observo que o diálogo que se ouve, que não provém nem do espaço do plano nem do seu fora de campo mas pertence à banda sonora, respeita às dificuldades de escolher uma língua para comunicar a tradição respectiva ou para uma simples declaração de amor.
                    
      Em looping, este díptico funciona como instalação e permite a Luciana Fina experiências muito curiosas com o tempo, a imagem e o som, além de colocar de forma poética questões muito interessantes entre mãe e filha. 
       A raiz aérea de uma planta tropical atravessa o vão da escada do prédio, que estabelece a vertical na horizontal dos ecrãs. E há um outro som, um ruído de proveniência indeterminada. Até 23 de Janeiro de 2017 no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian (estreou durante o Doclisboa 2016).