“Um não sei quê, que nasce não sei onde,/Vem não sei como, e dói não sei porquê.” Luís de Camões

"Na dor lida sentem bem,/Não as duas que êle teve,/Mas só a que êles não têm." Fernando Pessoa

"Lividos astros,/Soidões lacustres.../Lemes e mastros.../E os alabastros/Dos balaustres!" Camilo Pessanha

"E eu estou feliz ainda./Mas faz-se tarde/e sei que é tempo de continuar." Helder Macedo

"Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos..." Camilo Pessanha

“Vem, vagamente,/Vem, levemente,/Vem sozinha, solene, com as mãos caídas/Ao teu lado, vem” Álvaro de Campos

"Chove nela graça tanta/que dá graça à fermosura;/vai fermosa, e não segura." Luís de Camões

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Sem dó nem piedade

   Inspirado em "Les salauds se portent bien"/"The Bad Sleep Well"/"Warui yatsu hodo yoku nemuru" de Akira Kurosawa (1960) - inédito comercialmente e Portugal, onde o seu título seria "O Sono Justo dos Homens Maus" - e também em William Faulkner, a francesa Claire Denis realizou "Les salauds" (2013), com argumento de Jean-Pol Fargeot e seu, que é um excelente filme.
                      Vincent Lindon dans le film français de Claire Denis, "Les Salauds".
   Chamado do navio que comanda a Paris pela sua irmã Sandra/Julie Bataille, Marco Silvestri/Vincent Lindon torna-se amante de Raphaälle/ Chiara Mastroianni, casada com Edouard Laporte/Michel Subor, de quem tem um filho. A família Laporte teria prejudicado nos negócios Sandra e o seu marido, levado ao suicídio. Entretanto, a filha de Marco, Justine/Lola Creton, foi violada e ele tem aí contas a ajustar.
     Com um ritmo alucinante, o filme torna-se por vezes confuso até na sua ordem temporal mas bate forte e fundo, sem contemplações na sua rugosidade narrativa e formal, com uma geometria rigorosa dos planos que os torna, um a um, abismais prodígios visuais do cinema.
                     Chiara Mastroianni en "Los Canallas (Les Salauds)"
    "Les salauds" tem uma construção elíptica e o recurso frequente ao muito grande-plano permite à cineasta criar um filme com a sua marca pessoal, violento e extremamente bem feito, em que o protagonista joga um jogo duro no terreno do seu poderoso adversário e acaba com uma bala nas costas da parte de quem não o esperaria para que tudo continue como antes. 
    A diferença em relação ao mestre do género policial e criminal em França, Jean-Pierre Melville (1917-1973), reside essencialmente no estilo, o dele mais clássico, o de Claire Denis essencialmente moderno.
                     Claire Denis sur le tournage des "Salauds".
     "Les salauds" tem Sharunas Bartas como armador, apoio de Olivier Assayas e Leos Carax, fotografia de Agnès Godard, música de Stuart Staples, montagem de Annette Dutertre. Embora o Le Monde tenha escrito aquando da estreia do filme que Claire Denis não faz nada para ser amada, ela é sem dúvida uma das figuras maiores do cinema francês contemporâneo e uma das que mais amo - sobre a cineasta ver "Silêncios e corpos", de 25 de Março de 2013.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Eis o homem

   "Eu, Daniel Blake"/"I, Daniel Blake", o mais recente filme de Ken Loach (2016) que foi Palma de Ouro em Cannes este ano, é um filme magnífico que representa o apogeu da arte do cineasta. 
                    I, Daniel Blake (2016)
    O protagonista, interpretado por Dave Johns é um trabalhador com uma doença cardíaca que o coloca entre a reforma por invalidez e o desemprego, que tem a maior dificuldade em entender o que lhe dizem funcionários da segurança social que se limitam a debitar a seu respeito a cartilha que sabem de cor. Sem terem minimamente em atenção o facto de que, com a sua idade e na sua situação, ele quer voltar a trabalhar mas está confuso e não sabe nada sobre a internet em que é suposto preencher formulários.
   Com as referências pertinentes ao meio local, de bairro, Ken Loach centra-se sobretudo na família monoparental de Katie/Hayley Squires que, repelida pelos serviços, se vê em dificuldades para sobreviver. Aí Daniel, viúvo, faz a figura de avô, com referências à sua mulher desaparecida.
                    I-Daniel-Blake-Film-Still-slider
  Não vos vou contar a história do filme, que merece ser visto mesmo sem se saber nada sobre a sua evolução, mas chamo a atenção para que, sobre argumento de Peter Laverty, que com ele colabora regularmente há 20 anos, o realizador não se poupa nem poupa o seu protagonista, parte de uma classe operária que de maneira nenhuma edulcora.
  Refiro, em todo o caso, o encontro entre Daniel e Katie, as repetidas dificuldades dele com os serviços, a surpresa dela na supermercado, o encontro clandestino de ambos, a exteriorização pública da sua revolta por Daniel e o final como pontos mais altos de "Eu, Daniel Blake", em larga medida filmado na rua, em cenários naturais.    
                   
    Com filme sobre ele, "Versus - A Vida e os Filmes de Ken Loach"/"Versus: The Life and Films of Ken Loach" de Louise Osmond (2016), retrospectiva na Cinemateca Portuguesa e tudo, chegou a hora de todos prestarem a atenção que ele merece a este cineasta maior do nosso tempo.
   Num tempo em que mais ninguém se preocupa com os trabalhadores, muito menos entre a reforma e o desemprego, a não ser como números e votos a sacar, nâo é apenas o gesto mas a grande qualidade dramática do filme e cinematográfica do seu autor que aqui se assinala e saúda. Nada acidental a segunda Palma de Ouro em Cannes por este filme - a primeira foi-lhe atribuída por "Brisa de Mudança"/"The Wind That Shakes the Barley" (2006) - o que o fez passar a integrar um clube muito restrito de grandes cineastas. Sobre Ken Loach ver "Boa colheita", de 29 de Agosto de 2014, e "Um belo trabalho", de 28 de Fevereiro de 2015.

Junto ao mar

    "A Quietude da Água"/"Futatsume no mado" de Naomi Kawase (2014), que só agora pude ver no Arte, é um belo filme poético sobre a iniciação de dois jovens, anterior a "Uma Pastelaria em Tóquio"/"An" (2015), que estreou este ano entre nós - ver "Conto das flores de cerejeira", de 6 de Agosto de 2016.
                      
    Depois de terem encontrado um cadáver masculino na praia, dois jovens namorados, Kaito/Nijirô Murakami e Kiôko/Jun Yoshinaga,  têm de conviver não sem dificuldades com os respectivos pais - a mãe dela, considerada uma chamã, está muito doente e o pai dele foi viver para Tóquio - enquanto eles os dois se mantêm próximos e andam na mesma bicicleta.
      Desde a morte da cabra, com que começa, o filme sinaliza uma proximidade com a natureza e a aprendizagem da vida pelo jovem par, o que se dá de uma forma suave, oriental, ao sabor do tempo e da vida, não isenta de conflitos.                                                   
                     
   No fantástico rumor da natureza, vento nas árvores e ondas do mar, sobressaem as ideias de fusão, com as ondas do mar e no amor, e de aceitação daquilo que a vida destina a cada um - à mãe dela a morte, à mãe dele as acusações do filho, a cada um deles como aos demais num mundo em que tudo o que nasce é para morrer, tal como os próprios deuses, como diz o velho pescador
   A planificação de Naomi Kawase, também autora do argumento, é excelente, respeitando os espaços e adoptando por regra o mesmo plano para os diálogos do jovem par, enquanto o tempo como que se suspende quando os cânticos e danças acompanham a mulher muito doente, Isa/Miyuki Matsuda, a mãe de Kiôko.
                     still-the-water-naomi-kawase
   Com a inclusão de cenas submarinas muito em filmadas e apropriadas dos dois jovens namorados, "A Quietude da Água" é mais um filme muito bom de Naomi Kasawe. Esta cineasta japonesa, cujos filmes nos estão agora a chegar e que começou no documentário, que não abandonou, merece de facto a nossa melhor atenção.

Jean-Loup Passek (1936 - 2016)

    Foi um cinéfilo e crítico, investigador, historiador e programador de cinema, no que envolveu uma paixão pessoal e toda uma vida. Francês de origem russa, acabou por se fixar nos últimos anos no Norte de Portugal, onde fundou o Museu do Cinema de Melgaço em 2005.      
    Em França tinha fundado e dirigido o Festival de Cinema de La Rochelle, sido responsável pela secção Un certain regard do Festival de Cannes e coordenado o serviço de cinema do Centro Georges Pompidou, em Paris.
                    
   A sua cinefilia era motivo de um grande saber do cinema, a que se ficam a dever, nomeadamente, os livros-catálogos que coordenou sobre o cinema chinês, o cinema americano, o cinema russo e soviético mas também sobre o cinema português, entre outros, editados pelo Centro Pompidou, tal como um notável "Dictionaire du Cinéma" (Paris, Larousse), que dirigiu e é ainda hoje a fonte mais completa e fiável sobre história de cinema que conheço.
    Era também um grande conhecedor do cinema português, que amava. No passado mês de Setembro tinha sido homenageado pela Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema. A sua morte significa uma grande perda para o cinema, a de uma figura maior da sua historiografia, com um tratamento sério, rigoroso e bem documentado com inteiro conhecimento da história do cinema mundial.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Abuso consentido


   "Abus de faiblesse" é o mais recente filme da francesa Catherine Breillat (2013), um filme estranho e provocador marcado por mais uma grande interpretação de Isabelle Huppert como Maud Schainberg, uma realizadora de cinema que, depois de ter tido uma hemorragia cerebral, prepara um filme.    
    A actriz tem um trabalho excelente e muito difícil, porque a sua personagem fica com partes do corpo afectadas, a perna e a mão do lado esquerdo, o que a força a um acentuado claudicar e a uma posição estranha do braço e da mão.
                    
     Maud fica presa a um homem, um escroque que viu na televisão, Viko Piran/Kool Shen (um novo actor francês prometedor), e quer fazer dele o actor do seu novo filme. Com esse pretexto passam a encontrar-se com frequência e ele vai, a pouco e pouco, estorquir-lhe avultadas somas de dinheiro. No que ela consente passando-lhe cheques sucessivos.
    Na estranha relação que entre eles se estabelece os contactos de ambos são feitos por repetido recurso ao telemóvel, com ela frequentemente deitada, mas também na rua e em casa dela, e depois de ela ter tido novos ataques ele acaba por ir dormir a casa dela. Até a um início de reembolso da sua dívida.
                   
    Há amigos e familiares de Maud que a alertam para a gravidade da situação, mas ela a ninguém dá ouvidos. Até que arranja uma pistola que não usa e acaba por, confrontada com a avultada soma entregue sem explicações, explicar o que acontecera dizendo que, ao fazê-lo, era ela e não era ela.
     O primeiro-plano final de Maud é espantosamente utilizado por Isabelle Huppert para dizer tudo por palavras e exprimir tudo com o rosto.
                   
    A realização de Catherine Breillet é segura e muito boa, com excelente aproveitamento dos espaços, composição dos planos e uso das cores e das formas. Ela é também autora do argumento que se baseia na sua experiência de um avc (ela própria se cruza com Maud no hospital, logo no início) e em factos reais Até eu, que não sou um incondicional da cineasta, apreciei.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Mérito especial

    Para além de nos mostrar uma família em desintegração, "O Exame"/"Bacalaureat", de Cristian Mungiu (2016), figura destacada do cinema novo romeno, coloca-nos perante os dilemas do seu pai de família, Romeo/Adrian Titieni, que tem de lidar com várias coisas ao mesmo tempo. 
   Antes do mais ele enfrenta a situação da filha, Eliza/Maria-Victoria Dragus, muito difícil para o objectivo de a fazer ir estudar para Inglaterra, para "a civilização", depois do seu "acidente", o que ele coloca à frente das suas preocupações com a amante, Sandra/Malina Manovici, ou com a mulher, Magda/Lia Bugnar - escassas com esta. Além disso tem o seu trabalho como médico.
                      Cristian-Mungiu 2
     Precisamente porque os métodos de que Romeo se serve são contra normas éticas e legais claras e universais, Cristian Mungiu, também autor do argumento, permite ao protagonista todas as explicações ou "justificações" do seu comportamento de modo a colocar o espectador perante a questão que ele próprio a certa altura do filme coloca: "o que fariam vocês no meu lugar?"
     Sem deixar de, na reacção final de Eliza, emitir um juízo moral, o realizador não vai ele próprio além disso, deixando para quem assiste ao filme a responsabilidade de julgar como entender aquela trama cerrada de cumplicidades sórdidas mas humanas, que envolvem responsáveis da administração e da autoridade.
                      Graduation Bacalaureat Cristian-Mungiu 1
    Claro que por ali passa a metáfora da Roménia actual, desiludida já com o seu pós-comunismo, o que não deve ser ignorado na desintegração familiar e nos diversos compromissos mútuos de "Exame", mas a meu ver em especial a figura de Romeo assume um significado mais largo e confere ao filme um mérito especial.
      Aliás, o cineasta insiste aqui no plano-sequência, o que cria um ritmo lento e deixa evoluir o trabalho dos actores e os diálogos no tempo com um bom tratamento do espaço, na senda do que tinha feito anteriormente - sobre Cristian Mungiu ver "Gente comum", de 26 de Janeiro de 2013, e "Sufocante", de 10 de Junho de 2013. Sobre o cinema novo romeno ver também "Percurso exemplar", de 14 de Abril de 2012, "Uma relação condenada", de 14 de Agosto de 2014, e "Love", de 18 de Novembro de 2016.

Uma noite comum

   Na passada segunda-feira, 28 de Novembro, depois dos filmes do festival "ARTE fait son cinéma" que tem neste momento a decorrer o Arte emitiu ainda "Sombras"/"Schatten, eine nächtichle Halluzination", filme mudo de Arthur Robison (1923), que é um dos mais célebres do expressionismo alemão. Em cópia restaurada e com as tintagens originais recuperadas.
                     
   Trata.se de um dos primeiros filmes sobre o próprio cinema, pois durante ele o "mostrador de sombras" mostra à sua distinta audiência um espectáculo de projecção de sombras que recria o que entre os membros dela está a suceder. Com traços expressionistas nítidos, o que me leva a recordar que o expressionismo não foi uma vanguarda artística dos anos 10/20 do Século XX porque não foi um movimento moderno ou modernista, antes esteve ligado ao Século XIX alemão. Sem embargo do que contribuiu para o reconhecimento do cinema como arte.
   A seguir a este filme histórico que não via há muito, o Arte transmitiu ainda duas fantásticas curtas-metragens de Charles Chaplin do período Essanay, de 1915. Uma noite comum no Arte, que costuma dedicar pelo menos uma noite por mês ao cinema mudo.   

                Carlitos empapelador.jpg                         
   Lembro a propósito que o título francês de "Sombras", "Le montreur d'ombres", inspirou o francês Jacques Aumont, que é um especialista distinto em Sergei Eisenstein, para o título de um dos seus últimos livros, "Le montreur d'ombre - Essai sur le cinéma" (Paris: Vrin, 2012), em que trata de demonstrar, contra ideias feitas, que "o cinema foi, em larga medida, uma arte da sombra e talvez mesmo a arte da sombra por excelência." Aproveito para aqui o aconselhar.

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Então como é?

   Esteve anunciado para este ano o início da publicação francesa dos escritos completos de André Bazin (1918-1958), o mais importante e influente crítico e teórico de cinema francês do pós-guerra, co-fundador e primeiro director dos Cahiers du Cinéma.   
            A. Bazin
    Já li que o início da publicação foi adiado por motivo do editor ou editores. Nem sequer é por mim, que conheço a maioria dos escritos de Bazin, que falo disto mas por todos aqueles que, mais novos do que eu, não os conhecem. Sugiro à Élisabeth Quin do Arte que convoque um responsável por esta edição para no seu "28 minutes" prestar contas públicas sobre o calendário deste importante projecto editorial, que não é apenas uma questão franco-francesa mas de interesse muito mais vasto.
   Não se percebe que a urgência (justificada) na publicação dos escritos de Serge Daney (1944-1992) não se verifique também neste caso. Então como é?

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Imprevisível

   "Eis o Admirável Mundo em Rede"/"Lo and Behold, Reveries of the Connected World" é um documentário de Werner Herzog (2016) que conta desde o seu início, ponto por ponto, a história da criação da rede e dos desenvolvimentos da robótica e da inteligência artificial.
                      eis-o-admiravel-mundo-em-rede
  Uma vez que essa é uma história que precisava de ser contada para todos é bom que tenha sido um grande cineasta a fazê-lo num documentário formalmente clássico mas que ouve os depoimentos dos envolvidos e outros interessados.
  Nas múltiplas questões que levanta em dez capítulos há aspectos muito preocupantes, como o The Dark Side da rede e outras implicações do progresso científico sobre a vida das pessoas - nomeadamente aquelas que pensam que aquela é a realidade e se esquecem do mais e do que vive em sua volta. 
                      lo-and-behold-reveries-of-the-connected-world
   À parte isso, as perspectivas de futuro são muito optimistas, a meu ver demasiado optimistas, mas pelo quadro traçado podemos perceber os contornos e a configuração daquilo que está a acontecer e do que poderá aí vir.
   Todos concordam, porém, que o futuro da rede é imprevisível. Vejam "Eis o Admirável Mundo em Rede" pois vale muito a pena a sua exploração vertiginosa conduzida pessoalmente por Werner Herzog - sobre este ver "Para doer", de 20 de Abril de 2013, e "O ruído do deserto", de 21 de Junho de 2016.

Irrepreensível

   "Sozinhos em Berlim"/"Alone in Berlin", a terceira longa-metragem de Vincent Perez (2016), conta com  argumento de Achim von Borries e do próprio realizador com a colaboração de Bettine von Borries, baseado no romance de Hans Fallada (1893-1947), um grande escritor alemão com uma vida muito difícil que é mal conhecido em Portugal, a partir de factos reais.
                     
   O casal Anna e Otto Quangel, interpretado por Emma Thompson e Brendan Gleeson, durante os anos da II Guerra Mundial reage à morte do filho na frente passando a distribuir pela cidade de Berlim postais com apelos à desobediência civil e à resistência de modo a que possam ser encontrados e lidos por outros alemães e despertá-los. Entretanto, sob pressão das SS, o inspector Escherich/Daniel Brühl dirige as operações policiais para os localizar e capturar, num dispositivo que faz lembrar o de "Matou"/"M", de Fritz Lang (1931).
   Tudo em "Sozinhos em Berlim" está muito bem construído, com sobriedade e inteligência nos sucessivos momentos em que ou Anna ou Otto estão sob ameaça de serem localizados e identificados - excelentes as cenas da suspeita de prisão dele e do elevador -, de modo a que possamos estar sempre do lado do casal e acompanhá-lo, eles que estão no centro do filme. 
                      Dogged ... Daniel Brühl in Alone in Berlin
   Numa vida de proximidade e vizinhança muito bem tratada alguns preferem morrer a sujeitarem-se à perseguição nazi. Quando apanhados e presos devido a um deslize de Otto fica a ironia de que, dos 285 postais que ele e Anna haviam distribuído, apenas 18 não terem sido entregues à polícia, numa demonstração de conformismo e de colaboração da população.
    "Sozinhos em Berlim" é um bom filme de Vincent Perez. Irrepreensível. Com fotografia de Christophe Beaucarne, música de Alexandre Desplat, montagem de François Gédigier e grandes interpretações. Apreciei e aconselho. 

domingo, 27 de novembro de 2016

75 anos de carreira

    Foi uma das minhas primeiras idas ao teatro, no caso o Teatro Avenida (onde isso vai...) para ver o "O Milagre de Anne Sullivan", de William Gibson, com Eunice Muñoz no papel que valeu um Oscar Anne Bancroft no filme de Arthur Penn "The Miracle Worker" (1962), e a partir daí nunca mais a perdi de vista.
                    https://static.noticiasaominuto.com/stockimages/320x224/naom_51ae3f03ae54d.jpg
   Com uma actividade artística que se alargou ao cinema e à televisão sempre com grande brilhantismo, foi no teatro que deu o seu melhor como actriz e em que deu toda a medida do seu enorme talento, generoso e trabalhado. Numa carreira longa e excepcional, lembro especialmente "A Voz Humana", de Jean Cocteau, que encenou, e "Mãe Coragem e os seus filhos", de Bertolt Brecht.
                    Teatro nacional vai homenagear a actriz Eunice Muñoz
     Os meus afectuosos e sinceros parabéns na passagem deste seu aniversário, Eunice Muñoz, em que desejo a recuperação da sua saúde e que continue a honrar o teatro e honrar-nos com a sua arte por muito mais tempo. Para já quero vê-la em "As Árvores morrem de Pé", de Alejandro Casona, em que me lembro muito bem de ter visto a Palmira Bastos. 
     "Jesus, Jesus, the things I have seen!"

Um homem na história

    Herói de uma revolução necessária e muito importante que introduziu novas regras e novos princípios no seu país, Fidel Castro (1927-2016) foi um dos governantes com maior longevidade política no pós-guerra. Líder amado pelos pobres e explorados de Cuba e admirado fora dela em especial na América Latina e no terceiro mundo, foi muito prejudicado por uma má colheita de cana de açúcar, que ficou muito abaixo do esperado, e por não ter sabido lidar com os direitos humanos, a liberdade de expressão e a democracia no seu país.
                      fidel castro young
   Soube criar uma imagem pessoal e encenar as suas aparições públicas, o que esteve na origem de uma relação especial não só com os cubanos mas também com os media e o mundo (a sua imagem pública) e da sua popularidade. Foi nessa medida um "político moderno".
    Depois de ter feito o mais difícil com sucesso caiu nos mesmos erros e excessos dos regimes comunistas de partido único, de que foi a mais destacada figura no pós-guerra, mas as suas ideias políticas não lhe permitiam outra coisa. Amado por muitos, odiado por outros, a história mundial do pós-guerra não pode ignorá-lo como homem que acreditou sempre naquilo que proclamava em palavras, esteve na origem de uma revolução vitoriosa e no centro de conflitos políticos internacionais decisivos. Amem-no ou odeiem-no, pelo menos como tal ele merece ser recordado
    Como é da sua própria natureza, a utopia fica por cumprir.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Dylan no Arte

     No dia 9 de Dezembro próximo, em homenagem ao Nobel da Literatura deste ano o Arte mostra o documentário de Martin Scorsese "No direction home - Bob Dylan" (2005). Trata-se de um documentário mítico feito para a televisão por um cineasta mítico sobre um poeta, compositor e cantor mítico. 
                     Bob Dylan
      Teve uma edição dvd do 10º aniversário. Na sua versão completa dura 3H 28M. Às 21H 25M, hora portuguesa, de uma sexta-feira, 9/12. Não devem perder sob nenhum pretexto, em especial se não conhecerem. E divulguem.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

O melhor cinema no Arte

   De 27 de Novembro a 6 de Dezembro o Arte apresenta a quarta edição do seu festival de cinema, agora denominado "ARTE fait son cinéma". Nesta programação especial, que daqui saúdo, passarão 18 longas-metragens co-produzidas por este canal.                                 
                      
   Conhece-se a importância da participação do Arte na produção de algum do melhor cinema actual, com assinatura de nomes maiores do cinema europeu e não só europeu. Este festival permitir-nos-á ficar a par do que dessa produção eventualmente não nos tenha chegado em tempo devido .
    Recomendo sem reservas a todos.

Por uma bicicleta

   Com argumento e realização de Haifaa Al-Mansour, "O Sonho de Wadjjda"/"Wadjda" (2012) é uma co-produção entre a Alemanha e a Arábia Saudita que é tido como o primeiro filme saudita dirigido por uma mulher. Passou esta semana no Arte.
                       Wadjda and Her Parents.
  Trata-se de um filme simples e bem feito em volta de mulheres sauditas maiores e menores e dos seus limites sociais no seu país, quer em função do sexo quer em função da idade. Mais que uma simples curiosidade, contém de forma elíptica mas clara todas as alusões que a tal respeito se impunham.
  Em Riad a protagonista, Wadida/Waad Mohammed, de 10 anos, tem o sonho de ter uma bicicleta como o seu amigo Abdullah/Abdullrahman Al Gohani, um sonho que é contrariado pela sua mãe/Reem Abdullah. Vê num concurso sobre o Corão organizado na sua escola pela professora Hussa/Ahd a oportunidade de obter o dinheiro necessário para concretizar o seu sonho.
                        The bicycle that she wanted to buy.
  Com bom domínio técnico - fotografia de Lutz Reitemeier, música de Max Richter e montagem de Andreas Wodraschke -, na sua singeleza "O Sonho de Wadjda" consegue cumprir o seu projecto narrativo de forma perfeita: a protagonista ganha o concurso mas não lhe chega o prémio respectivo porque... Mas a história da mãe dela também interessa como princípio de um outro filme.
  Para 2017 Haiffa Al-Mansour tem preparada a sua segunda longa-metragem de ficção, feita já com produção americana.

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

A longa viagem

    "American Honey" é a quarta longa-metragem da inglesa Andrea Arnold (2016) e um filme de alta qualidade que, com argumento seu, ela resolve de princípio a fim da melhor maneira.
                     american honey leffest
    Centrado em Star/Sasha Lane, oriunda do sul dos Estados Unidos, que embarca na caravana de venda de assinaturas de revistas chefiada por Krystal/Riley Keough onde conhece Jake/Shia LaBeouf, o filme desenrola-se durante a viagem que empreendem através do país para um porta-a-porta difícil e ingrato que eles resolvem como podem - e podem muito. 
    No que surge como um road movie a relação entre Star e Jake impõe-se com a sua evolução própria em que interfere a relação que ele também mantém com Krystal, esclarecida por esta no seu quarto com espelho no final. Mas a própria Star sujeita-se a outros encontros, com os três amigos primeiro, com o condutor de um camião de transporte de gado depois.
                     american honey leffest
     Este último encontro vai revelar-se decisivo pois inicia um diálogo sobre os sonhos de cada um, que Star vai alargar a Jake. E então podemos ligar os sonhos deles os dois com a vida dos americanos que eles têm vindo a contactar pessoalmente.
     Embalado pelo ambiente da viagem e pelas incidências do percurso, "American Honey" é um filme variado e até divertido sobre a juventude americana de hoje mas também sobre a própria América mostrada nas suas desigualdades sociais e na sua necessidade intrínseca de vencedores - no caso de vendas, como sucede geralmente nesse país mesmo no cinema, em que vence o que, quem vende mais.
                    american honey leffest
     A viagem empreendida pelo grupo torna-se assim uma viagem iniciática em especial para Star, o que surge de maneira clara no final com o saltar da fogueira e o mergulho dela, que não sabe nadar, na água, um mergulho de purificação e renascimento. 
    "American Honey" beneficia muito do uso que faz do 1.37, que lhe confere um rigor e uma qualidade muito própria na sua recusa do grande formato para grande ecrã - é uma escolha artística, com Robbie Ryan como director de fotografia. A música variada aumenta o speed do filme, a montagem de Joe Bini é sempre justa e precisa e os actores principais saem-se muito bem, com destaque para Sasha Lane, uma verdadeira surpresa.

terça-feira, 22 de novembro de 2016

O jardim do paraíso

  Com argumento de Ciro Guerra e Jacques Toulemonde Vidal baseado nos diários Theodor Koch-Grunberg (1872-1924) e Richard Evans Schultes (1915-2001), o primeiro, colombiano, realizou "O Abraço da Serpente"/"El abrazo de la serpiente" (2015), uma co-produção entre a Colômbia, a Venezuela e a Argentina que este ano estreou entre nós. 
                      O ABRACO DA SERPENTE03
   Como somos informados, os referidos diários, respeitantes a épocas separadas por 40 anos, são os últimos testemunhos sobre a vida primitiva na Amazónia, e ao pôr em filme duas experiências nos mesmos espaços separadas no tempo o cineasta adopta um ponto de vista muito curioso, pois além de acompanhar Theo/Jan Bijvoet e Evan/Brionne Davis, acompanha também os seus guias, Karamakate/Nilbio Torres quando jovem, Antonio Bolivar quando velho, e Manduca/Yauenkü Migue, mestiço, presente apenas durante a primeira expedição.
   O que leva o alemão Theo a embrenhar-se na Amazónia a partir do momento em que o vemos pela primeira vez é a procura de uma planta sagrada capaz de o curar da doença de que sofre, enquanto o americano Evan pretende seguir os seus traços no tempo de II Guerra Mundial para procurar outra coisa. 
                      o-abraco-da-serpente-cena-4
  Com os tempos e percursos a alternarem no filme, acompanhamos de Theo o encontro com o homem maneta e com uma tribo local, o encontro com o missionário, Padre Gaspar/Luigi Sciamanna, que cumpre a sua missão evengelizadora de forma algo insólita, e os momentos finais, enquanto de Evan seguimos a tentativa de refazer o percurso anterior, o encontro com o Messias brasileiro de uma seita, o final no verdadeiro "jardim do paraíso" e o diálogo com Karamakate antes de surgir, inesperada, a cor.
  Permanecemos espectadores atentos destes contactos civilizacionais em que no primeiro caso são afirmados objectivos científicos enquanto no segundo estes escondem já um outro propósito. Entretanto povos e a floresta da Amazónia tinham continuado a ser dizimados e os indígenas presentes no fiilme como actores são os seus descendentes vivos.   
                      O ABRACO DA SERPENTE01 
     Feito por Ciro Guerra com total domínio dos meios do cinema a preto e branco (fotografia de David Gallego), este "O Abraço da Serpente" é um belo filme sobre a eventual má consciência de brancos da Europa mas também das Américas quanto ao extermínio de populações e culturas locais - e percebe-se pela conversa final entre  Karamakate e Evan quem tem a aprender com quem, enquanto a posição do mestiço Manduca é cúmplice do estrangeiro, Theo, por causa do conhecimento.
   Trata-se da terceira longa-metragem de Ciro Guerra (a primeira que dele nos chega), um cineasta muito bom e promissor pelo que mostra neste filme em que manifesta atenção ao meio, aos objectos, aos animais, aos humanos, aos espaços e aos tempos, para além de respeitar a sua base narrativa - fabuloso o diálogo sobre a fotografia, precioso o recurso às cartas de quem não voltará à sua terra.

domingo, 20 de novembro de 2016

Lust for Life

    Do realizador de "Robocop - O Polícia do Futuro"/"Robocop" (1987), "Instinto Fatal"/Basic Instinct" (1992), "O Homem Transparente"/"Hollow Man" (2000), "Steekspel" (2012), que não nos chegou, e "Livro Negro"/"Zwartboek" (2006) entre outros, o holandês Paul Verhoeven, estreou o mais recente filme "Ela"/"Elle" (2016), como os dois anteriores rodado de novo na Europa - mais precisamente em Paris - onde regressou depois da sua longa aventura americana. O que até se explica por não ter conseguido financiamento americano para este projecto.
                                  
   Ora "Ela" é dominado por Michèle LeBlanc/Isabelle Huppert, directora de uma empresa de jogos de vídeo, vítima de sucessivas tentativas de violação no intervalo das quais se entretém com este e aquele na vida social que leva. Concentrando em si todas as atenções do realizador e do filme, depois dos espectadores, para descobrir a identidade do violador encapuçado ela explora em seu favor a situação de que é vítima.
  Com o pai preso por crimes antigos e a mãe, Irène/Judith Magre, ainda activa até ao fim, o seu filho Vincent/Jonas Bloquet não cessa de lhe causar problemas, contrariamente ao seu ex-marido, Richard LeBlanc/Charles Berling. Hiper-activa e sociável, Michèle não só não pára com as investidas do violador encapuçado como se sente por elas estimulada a prosseguir na sua busca pessoal, nomeadamente com Robert/Christian Berkel, marido da sua amiga Anna/Anne Consigny. Acaba por, depois de descoberto o violador, o seu vizinho Patrick/Laurent Lafitte, parecer que procura e aceita o prosseguimento da situação.
                    
  Tudo passa pela excepcional interpretação de Isabelle Huppert num jogo multifacetado, complexo e completo que é só seu e confere a Michèle o aspecto resistente mas também sedutor de uma mulher sem medo, pronta a tudo enfrentar e sofrer na busca do violador e de si própria, também de vingança. Não espanta que perante tão extraordinário desempenho a câmara e o realizador se demorem em pura contemplação.
  Sob a aparente amoralidade deste filme revelam-se com crueza aspectos mais verídicos da mulher, assim exteriorizados e tornados visíveis. Tirando partido da menor estatura da actriz em relação à maioria dos seus comparsas, "Ela" de Paul Verhoeven torna maior o contraste do seu ser sem medo embora ameaçado para tornar Michèle um turbilhão inesperado, que leva à descoberta de cada um dos outros/as ao mesmo tempo que à exploração dos seus limites na descoberta de si própria.
                      Elle
      A alusão ao mais depressa e à duplicação dos jogos de vídeo é pertinente e justificada pela profissão de Michèle, tal como é apropriada a conhecida referência a "A Regra do Jogo"/"La régle du jeu", de Jean Renoir (1939), para cuja sucessiva revelação de personagens, nomeadamente masculinas, "Ela" remete.  
     O argumento é de David Birke a partir de novela de Philippe Djian "Oh...", a fotografia de Stéphane Fontaine, a música de Anne Dudley inclui "Lust for Life" de Iggy Pop (ver "Por Jim Jarmusch", de 15 de Novembro de 2016) e a montagem de Job ter Burg. Este filme confirma que Paul Verhoeven é um realizador invulgar e Isabelle Huppert provavelmente a melhor actriz do nosso tempo.