“Um não sei quê, que nasce não sei onde,/Vem não sei como, e dói não sei porquê.” Luís de Camões

"Na dor lida sentem bem,/Não as duas que êle teve,/Mas só a que êles não têm." Fernando Pessoa

"Lividos astros,/Soidões lacustres.../Lemes e mastros.../E os alabastros/Dos balaustres!" Camilo Pessanha

"E eu estou feliz ainda./Mas faz-se tarde/e sei que é tempo de continuar." Helder Macedo

"Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos..." Camilo Pessanha

“Vem, vagamente,/Vem, levemente,/Vem sozinha, solene, com as mãos caídas/Ao teu lado, vem” Álvaro de Campos

"Chove nela graça tanta/que dá graça à fermosura;/vai fermosa, e não segura." Luís de Camões

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

O nº 100

   Saiu este Inverno o nº 100 de Trafic révue de cinéma (Paris: P.O.L., 2016), uma revista de referência criada em  1991 por Serge Daney (1944-1992) e Jean-Claude Biette (1942-2003).
   Trata-se de facto de mais do que uma simples referência, pois é o local em que cabe uma alargada e exigente análise teórica e crítica do melhor, tantas vezes também o mais esquecido, da história centenária do cinema, que tem regularmente incluído o cinema português.  
                                                                
  Como o nº 50, este é número especial, temático e comemorativo, com colaboração especialmente cuidada e numerosa, que inclui estudos de autores de referência sobre filmes, cineastas e autores de referência, sobre temas e textos de referência, com a qualidade e a pertinência crítica e reflexiva a que a revista nos habituou. Sobre "o ecrã, o escrito" é sempre sobre o cinema.
   Ao respectivo comité de direcção, actualmente composto por Raymond Bellour, Sylvie Pierre Ulmann, Patrice Rollet e Marcos Uzal, ao seu director, Paul Otchakovsky-Laurens e a todos os seus colaboradores os meus sinceros parabéns pela longevidade da Trafic e por este número em especial, com o incentivo a que prossigam sempre com a mesma qualidade, exigência e rigor, neste momento incomparáveis em revistas de cinema de periodicidade trimestral.  
   A propósito deste número, que comemora também o seu 25º aniversário, a Trafic estará na Cinemateca Francesa, 51 rue de Bercy, em Paris, no dia 9 de Janeiro de 2017 para uma sessão especial, como se pode ver aqui
http://www.cinematheque.fr/cycle/seances-speciales-74.html

Carrie Fisher (1956/2016)

   Foi acima de tudo a Princesa Leia Organa do nosso encantamento na saga "Guerra das Estrelas"/"Stars War", criada em 1977 por George Lucas, nos seus três primeiros e dois mais recentes filmes, o último ainda por estrear. Contracenando com Harrison Ford, Mark Hamill e Alec Guiness, aí ela foi a estrela feminina do seu tempo e de várias gerações.                         
                    Carrie Fisher as Princess Leia in a gold bikini
  Mas não se limitou a isso, pois trabalhou também, por exemplo, com Woody Allen em "Ana e as Suas irmãs"/"Hannah and Her Sisters" (1986) e David Cronenberg em "Mapas para as Estrelas"/"Maps to the Stars" (2014). O seu desaparecimento precoce priva-nos do convívio no cinema com uma grande actriz que se tornou mítica e era também uma mulher admirável.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Em quadro teatral

      "O Vendedor"/"Forushande", o mais recente filme de Asqar Farhadi (2016), volta a encerrar um problema familiar com resolução dilemática, como vem sucedendo na obra deste cineasta iraniano.
                     
       Enquadrado pela representação teatral de "Morte de um Caixeiro Viajante", de Arthur Miller, em que o casal protagonista, Emad Etesami/Shahab Hosseini e Rana Etesami/Taarneh Alidoosti, participa, o filme envolve o assalto à nova casa deles e a agressão de que nessa ocasião Rana é vítima. Encontrar o culpado é a principal preocupação de Emad, enquanto ela lida com a difícil situação para si própria resultante.
      A questão está bem resolvida com a identificação sucessiva do dono e do condutor da carrinha naquele dia, e o que então se passa constitui a parte decisiva do filme em que o agressor, para esclarecer o que se passou, e a agredida são colocados perante dilemas diferentes, enquanto um resto, um resíduo final dilemático fica para ser resolvido por Emad.
                     
    Este "O Vendedor" resolve-se a partir do argumento do próprio cineasta, dos actores e da realização, não ingénua e sem pressas que prolonga o interesse enquanto alarga e alonga o próprio filme e os seus diferentes mistérios. Dessa forma acontece entre as personagens aquilo que tem de acontecer, como se sem intervenção exterior, como pura adveniência de diferentes verdades em cada uma delas.
     O cineasta volta a entregar-nos um filme exemplar em que são postas em confronto diversas responsabilidades, diferentes pontos de vista e diferentes propósitos. A mediação teatral envolve um certo distanciamento sem anular a proximidade com o conflito encenado. Sobre Asqar Farhadi ver "Uma questão familiar", de 5 de Julho de 2012, e "A vida e a morte", de 31 de Dezembro de 2013.

Fazer ler

    Seguindo-se a "O cinema da poesia" (Sistema Solar/Documenta, 2012), o livro de Rosa Maria Martelo "Os nomes da obra - Herbero Helder ou o poema contínuo" (Lisboa: Sistema Solar/Documenta, 2016) prossegue o rumo temático do anterior num estudo alargado aplicado a Herberto Helder. Que eu saiba, o primeiro depois da morte do poeta após o nº36/37 da revista Relâmpago (Abril/Outubro 2015).
   Trata-se de uma temática que me diz muito: pelo enfoque e pelo poeta. A autora, porém, agarra-se à obra herbertiana com um fôlego de exegeta, com um projecto hermenêutico cerrado que envolve a comparação de textos, de poemas e de livros, que abre caminho para outros estudos futuros.
    Por aquilo que aqui nos dá Rosa Maria Martelo é credora do meu maior apreço como estudiosa e investigadora exigente. A sua leitura sistematiza, arruma e reflecte sobre uma obra magmática e proteiforme, instável e mutável, que se conta entre o mais importante que foi produzido pela poesia portuguesa ao longo da sua história.  
                                    
  O estudo exaustivo do que sai e do que entra de edição para edição, entre as recolhas de poesia toda ou de poemas completos como tal intitulados, passando pelo ofício cantante e as súmulas e abrangendo, embora em menor medida, os passos em volta e photomathom & vox, o que varia ao longo do tempo na escrita do poeta, o que ele subtrai e acrescenta está aqui encetado da melhor maneira, séria e rigorosa, que vai de par com a chamada de atenção para a relação directa dele com o cinema e  para as imagens verbais do seu "cinema da poesia".
  Retomando textos já publicados, aqui amplamente reformulados e articulados, sem se desviar do seu rumo a Autora desfaz en passant ideias menos favoráveis que surgiram em certa "crítica" a propósito dos seus últimos livros. A própria Rosa Maria Martelo se encarregará, espero, de prosseguir esta espécie de "poema contínuo" analítico e reflexivo sobre o texto poético deste poeta radicalmente diferente de todos os outros.
  Sobre Herberto Helder ver "Pessoa e o cinema", de 21 de Outubro de 2012, "Pontifex Maximus", de 30 de Maio de 2013, e "Obscuro sempre", de 27 de Março de 2015.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Diante da imagem

   Luzes, pequenas luzes no escuro atravessam lentamente um espaço negro na imagem num ecrã pequeno. Pontos luminosos indeterminados quando vistos à distância, como se fossem peixes no mar. Aproximo-me devagar e as coisas revelam-se com nitidez: são lanternas na cabeça de gente que se move no escuro. Não tão lentamente como me tinha parecido, pelo contrário.
   O que será que se movimenta no escuro em volta, no pequeno ecrã e na sala, pergunto-me.
   "A 5100 metros (16.700 ft), o extenso acampamento mineiro Andino em La Rinconada, no canto sudeste do Perú, pertíssimo da fronteira com a Bolívia, é o local mais elevado habitado no globo terrestre, albergando uma população de cerca de 30.000 indivíduos, na sua maioria desesperadamente pobres."
   Sabendo-o agora pergunto-me como será viver a tal altitude e percebo que aquela escuridão em volta é como uma pele que envolve ossos, vísceras da terra, que se acomodam a tudo em desconforto e grande privação: os seres que se movem sobre um solo irregular .
   "O plano fixo, sem som, filmado em La Compuerta, um dos principais acessos às bocas das minas, é uma assombrosa e misteriosa realidade etnográfica, onde um fluxo constante de mineiros, comerciantes e famílias, irrompem pela escuridão, desaparecendo no dentro e fora de campo. Uma ilusão que leva os homens à autodestruição, movidos pelos mesmos interesses, utilizando as mesmas ferramentas e os mesmos meios dos tempos antigos na contemporaneidade."
    As luzes e os vultos, os seres sobre cujos capacetes estão as luzes aparecem e desaparecem por todos os lados, numa caminhada sem fim que se renova, recomeça sempre como se voltasse ao princípio mas é sempre nova: em frente, subindo e descendo, surgindo para logo a seguir desaparecer.
                       
   "Mount Ananea (5853)" é uma instalação de Salomé Lamas, escrita, fotografada e realizada por ela para a Fundação de Serralves (2015), até 9 de Fevereiro de 2017 patente na Galeria Miguel Nabinho, em Lisboa, que contém excertos rodados "durante a fase de pesquisa e desenvolvimento (Setembro/Outubro 2014) da longa-metragem "Eldorado XXI" (2016)", Grande Prémio do Porto/Post/Doc de 2016, com estreia em Portugal prevista para Janeiro de 2017 - uma boa notícia.
   O plano fixo, sem som, faz-nos questionar sobre um formigar misterioso, funcionando como enigma, desafio lançado no presente ao espectador no seu conforto, também intelectual e moral. "Quase todas as minas e os mineiros lá são 'informais', um termo que os mais críticos consideram um eufemismo para ilegal. (Outros) preferem o termo 'artesanal'. As minas, ou o que quer que lhes chamemos, são pequenas, numerosas, não-regulamentadas, e, regra geral, imensamente inseguras." (William Finnegan in The New Yorker, 20 de Abril de 2015).     
   O efeito de concentração no espaço e de movimento contínuo desenrola-se  ao longo de 20 minutos, vídeo, HD transferido para  filme 16mm, cor, sem som, em loop, num ecrã pequeno, em que a concentração espacial, o movimento contínuo, o contraste das luzes que atravessam as trevas e percorrem o espaço impressionam e desconcertam, primeiro, cativam depois.  
   Que fazer com este filme em que passam diante de nós mineiros, comerciantes e famílias não identificados nem individualizados que não seja reconhecer a beleza de tudo e tentar descobrir um sentido onde ele não existe de forma patente. São formas, cores, luzes e muitas sombras com gente lá dentro. Sem narrativa, o efeito obtido é sobretudo estético. Com o conhecimento do que está em causa é também económico, social e político além de etnográfico.
   "A maioria (dos trabalhadores) não tem salários, muito menos benefícios, mas trabalham com um antigo sistema de trabalho chamado cachorreo. Este sistema é normalmente descrito como trinta dias de trabalho não remunerado, seguidos de um dia frenético em que os trabalhadores ficam com o ouro que conseguirem recolher para eles mesmos." (William Finnegan, citado).
   "Mount Ananea (5853)" está agora em Lisboa, o que me dá muito jeito porque não a vi em Serralves. Claro que Salomé Lamas é uma artista visual, performer e cineasta de quem toda gente fala, que está na moda, pelo que aqui se vê justificadamente, e vos interessa conhecer. Já responsável pelo documentário "Terra de Ninguém" (2012) e inúmeros outros trabalhos de performance e instalação, Salomé Lamas é muito definidamente um nome a reter e a seguir com toda a atenção.

Michèle Morgan (1920-2016)

    Foi uma das maiores figuras o cinema francês, uma mulher de uma grande beleza e uma grande actriz, activa entre 1935 e 1999, que se tornou uma lenda. Também actriz de teatro, foi no cinema que trabalhou mais e se tornou famosa.
                     
    Contracenou com Jean Gabin "Quai des Brumes", de Marcel Carné (1938), e em "Remorques", de Jean Gremillon (1941) - com quem fez também "L'Étrange Madame X" (1950) -, com Charles Boyer em "O Veneno"/"Orage", de Marc Allégret (1938), com Humphrey Bogart em "Passagem Para Marselha"/"Passage to Marseille", de Michael Curtiz (1944), com Ralph Richardson em "O Ídolo Caído"/"The Fallen Idol", de Carol Reed (1948), com Charles Denner e Danielle Darrieux em "Landru", de Claude Chabrol (1963), para além de ter trabalhado com os mais afamados realizadores franceses, entre os quais Jacques Feyder, René Clair e Sacha Guitry, Jean Delannoy, Claude Autant-Lara e René Clément.
    Com a sua morte é uma lenda do cinema francês e do cinema mundial que desaparece. 

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

A excepção

   Lamentavelmente, o pouco de esperança que surgiu na data da última sessão do Teatro da Cornucópia graças à intervenção pessoal do Presidente da República esfumou-se. Não está em causa, segundo declarações públicas do Ministro Castro Mendes, a criação de um regime de excepção, que no cinema existiu com Manoel de Oliveira e que a meu ver inteiramente se justificava no teatro com esta companhia de excepção. Assinado por Luís Miguel Cintra e Cristina Reis, o Teatro da Cornucópia emitiu um comunicado no seu site, aqui
http://www.teatro-cornucopia.pt/v2/ 
em que esclarece tudo. Gente de uma só palavra que até nisso é excepção.  
                      Um auto de Gil Vicente
    De posse de todos os elementos públicos sobre esta situação, cada um fará a sua apreciação e tirará a sua conclusão. Os meus respeitos ao Teatro da Cornucópia e aos seus directores neste momento final sem equívocos. Com ele é uma parte do melhor da vida de muitos, entre os quais me conto, que acaba. Acho que estes arremedos de reviravolta de última hora já estavam contidos nos autos vicentinos. Repito: até sempre meus amigos.