“Um não sei quê, que nasce não sei onde,/Vem não sei como, e dói não sei porquê.” Luís de Camões

"Na dor lida sentem bem,/Não as duas que êle teve,/Mas só a que êles não têm." Fernando Pessoa

"Lividos astros,/Soidões lacustres.../Lemes e mastros.../E os alabastros/Dos balaustres!" Camilo Pessanha

"E eu estou feliz ainda./Mas faz-se tarde/e sei que é tempo de continuar." Helder Macedo

"Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos..." Camilo Pessanha

“Vem, vagamente,/Vem, levemente,/Vem sozinha, solene, com as mãos caídas/Ao teu lado, vem” Álvaro de Campos

"Chove nela graça tanta/que dá graça à fermosura;/vai fermosa, e não segura." Luís de Camões

domingo, 17 de março de 2013

Contra a indiferença

     Devo começar por dizer que não sou especialmente adepto do Dogma 95 que, subscrito nomeadamente por Lars von Trier e Thomas Vinterberg, veio agitar as águas de um certo marasmo conformista do cinema europeu no final do Século XX. Eu sei que manifestos como esse podem ser úteis, esclarecer as coisas e as intenções, tal como sei que nisto, especialmente no cinema, a publicidade ajuda, mas considero que as promessas contidas no manifesto inicial, mais tarde acrescentado, receberam concretização escassa e em termos pelo menos de discutível utilidade. Dito isto, devo esclarecer que não tenho mais nada contra o Dogma 95 e que reconheço mesmo que alguns dos seus membros são bons cineastas, o que provavelmente seriam mesmo sem ele.
                     
         "A Caça"/"Jagten", o mais recente filme de Thomas Vinterberg (2012), é um filme muito bom e interessante que lida com uma questão difícil de uma maneira muito segura e inteligente. Acusado por uma das crianças com que lida no jardim-de-infância onde trabalha de algo que não cometeu - e sabemos desde o início que a acusação é falsa -, Lucas/Mads Mikkelsen, um homem com uma vida normal e corrente, divorciado e com o qual o filho, Marcus/Lasse Fogelstrom, quer ir viver, tem de fazer frente ao inesperado, que vai crescendo de proporções com a reacção da comunidade local e o alastrar das acusações.     
       O filme tem o seu melhor nesse fazer frente do protagonista, que passa de uma posição passiva e expectante a uma atitude activa, com a qual desafia e pede contas àqueles que o acusam, especialmente depois de ter sido recusada a sua prisão por motivos óbvios. Amigo do pai de Klara/Annika Wedderkopp, a pequena que inicialmente insinuara um comportamento ofensivo da sua parte, Lucas tem de se defender da hostilidade da comunidade, naquelas condições em certa medida compreensível, e procura chamar o seu amigo à razão.
                    
         Um ano depois depois daquele Natal tudo terá sido devidamente esclarecido, e Lucas pode passar a espingarda de caça simbólica a Marcus, no meio do grupo de amigos em que todos se conhecem há muitos anos. Mas é também pela sua construção formal, com largo recurso aos planos aproximados, um tratamento muito bom do espaço em interiores e em exteriores, com oportunas panorâmicas horizontais, um trabalho muito seguro e em contenção dos actores, com destaque para Mads Mikkelsen, que "A Caça" se impõe como um filme muito bom, que não brinca com o seu tema, tratado de maneira inteligente e não especulativa, oferecendo um bom retrato de uma pequena comunidade em que todos se conhecem e em que, contudo, a suspeita surge e se instala. Um retrato de tal maneira maneira justo que podemos ser levados a pensar que o conflito se tornou indispensável para a consolidação daquela comunidade e compreender perfeitamente a alucinação final do protagonista durante a nova caçada.
                     <p> Cena do filme 'A Caça', de Thomas Vinterberg</p>
         Por tudo isto, mais a espantosa floresta dinamarquesa em que vivem corças e alces, este é um filme muito actual e belíssimo, que transmite uma imagem muito percuciente de uma sociedade dita de abundância, em que todo o tipo de problemas pode, contudo, surgir, e com eles as pessoas comuns atingidas, tal como as acusadoras, têm que lidar, aprendendo a conhecerem-se melhor. Contra a indiferença, "A Caça" de Thomas Vinterberg é um filme que não nos deixa indiferentes - e a indiferença é um mal em si, foi contra ela que o Dogma 95 surgiu e nessa medida estou com ele -, que apresenta uma outra face da sociedade dinamarquesa em relação a "A Festa"/"Festen" (1998) do mesmo cineasta, o filme que para o seu nome começou por chamar a atenção. O que vem provar que, no seu melhor, o Dogma 95 ainda hoje não desilude.

Vamos ao teatro

      Por uma destas perfeitas casualidades do quotidiano, a que todos estamos sujeitos, tenho-me cruzado nos últimos meses no espaço público com o Luís Miguel Cintra, encenador e actor de teatro, actor de cinema e, fundamentalmente, um grande homem de teatro. Estes encontros inesperados fizeram-me despertar duas questões, uma pessoal a outra não.
       A questão pessoal é que há muitos anos não vou ao teatro, nem sequer ao Teatro da Cornucópia, a cujos primeiros espectáculos, "O Misantropo", de Molière, e "A Ilha dos Escravos", de Marivaux, assisti em 1973 (1), e que continuei a acompanhar nos anos seguintes. E não vou ao teatro há muito tempo porque, pura e simplesmente, não tenho tempo. Contudo, sei o que tenho perdido nas diferentes companhias de teatro portuguesas, que têm, de uma maneira geral, feito um trabalho muito importante na encenação de autores antigos e modernos, portugueses e estrangeiros. Para citar mais uma outra companhia que aprecio, menciono o Teatro Aberto, também em Lisboa. Mas, quanto a isso, o melhor que tenho a fazer é nem sequer pensar no que tenho perdido e continuar em frente.
                     
       Mas a questão pessoal, embora muito embaraçosa para mim não é em si mesma importante, uma vez que apenas me afecta a mim, e não é por causa dela que aqui venho. O que é importante é o alerta lançado pelo próprio Luís Miguel Cintra aquando da comemoração dos 40 anos do Teatro de Cornucópia, que admitia a possibilidade de acabar. Ora, se isto acontecesse, seria muito grave e muito mau não só para o teatro mas para a própria cultura portuguesa.
      O Teatro da Cornucópia é conhecido, direi mesmo famoso, pela exigência da sua programação, pela qualidade dos seus textos, das suas encenações, cenografias, iluminações, figurinos e actores, ou seja, por ser notável em todas as questões fundamentais no teatro, e estas qualidades são permanentemente acompanhadas por uma efectiva independência, intransigentemente afirmada e defendida por uma companhia que foi uma das pioneiras do teatro moderno em Portugal. Não me parece que uma companhia de teatro com as características desta, que, além do mais, ocupa há muitos anos o mesmo espaço, no Teatro do Bairro Alto, possa sequer colocar a possibilidade de acabar.
       Num espaço próximo funciona, desde o ano passado, o Teatro da Politécnica, onde trabalham os Artistas Unidos do Jorge Silva Melo, co-fundador com o Luís Miguel do Teatro da Cornucópia, e esse é um factor novo e muito positivo, pois corresponde (finalmente) ao esforço e à persistência de um outro grande senhor do teatro português, também realizador e actor de cinema, que em vez de concorrência vem trazer um maior enriquecimento ao teatro em Portugal.
                    
       Vamos, pois, todos ao teatro, uma arte antiga, milenar, que nos tem dado do melhor em textos e encenações, que nos diverte e faz pensar por meios próprios, com desassombro e inteligência, mesmo, e direi até que especialmente quando nos inquieta e desafia. Quanto ao cinema, talvez que o senhor Antoine Lumière, pai dos irmãos Louis e Auguste Lumière, tivesse, afinal, razão ao considerá-lo, no final da sua primeira sessão pública com entradas pagas (28 de Dezembro de 1895), como um invento sem futuro. Sem ironizar, recordo mesmo que Jacques Rivette defendeu que a verdade do cinema está no teatro, o que Manoel de Oliveira viria reiterar de modo enfático. Vamos todos ao teatro, que não estamos em tempo de acabarem grandes companhias de teatro, como o Teatro da Cornucópia indubitavelmente é.
        Não esperem pelos sapatos de mais este defunto, porque se a Cornucópia acabasse todos morreríamos descalços. Quanto ao Luís Miguel Cintra, que trabalhou, entre muitos outros, em filmes de João César Monteiro, Paulo Rocha e Manoel de Oliveira, sempre em grande nível como actor, conferindo a cada personagem interpretada o seu inconfundível tom pessoal, a sua arte de que faz parte uma voz com a qual faz o que quer, espero poder continuar a vê-lo no cinema, para bem do próprio cinema, e desejo sinceramente que não esmoreça no seu excelente trabalho na Cornucópia, que é um ponto de referência imprescindível do teatro e da cultura portuguesa. Ao Teatro do Bairro Alto - ainda para mais situado numa zona de Lisboa a que me ligam profundas raízes pessoais, familiares e afectivas, e que talvez por isso considero ainda hoje muito bonita (2) - eu regressarei, pela minha parte, e em continuidade, logo que possível.

Nota
(1) Estes dois primeiros espectáculos encenados pela Teatro da Cornucópia decorreram no espaço do antigo Cinema Rex, na Rua da Palma, em Lisboa, sala em que vi pela primeira vez, por exemplo, "O Último Ano em Marienbad", de Alain Resnais. Mas isso são contos largos, de um tempo em que me sobrava o que há mais de 20 anos me escasseia: tempo livre.
(2) Lembro-me, por exemplo, de num Café da Rua da Escola Politécnica, em frente da Faculdade de Ciências e do Jardim Botânico de Lisboa, ter lido no "Diário de Lisboa" uma crítica severa do exigente crítico teatral Carlos Porto (1930-2008) a uma das primeiras encenações do Teatro da Cornucópia.

Controverso

     Um biopic político seria algo que não esperaríamos de Clint Eastwood, um grande cineasta, o clássico ou neo-clássico que ficou no cinema americano. Pelo menos, "J. Edgar" (2011) não é, de modo algum, uma biografia convencional ou académica de J. Edgar Hoover, o famoso fundador do FBI, que o dirigiu ao longo de várias décadas, até à sua morte, de tal modo que nem sequer parece justo tratá-lo como simples biopic.
    O filme que pode, na obra de Eastwood, antecipar este seu último trabalho é "Poder Absoluto"/"Absolute Power" (1997), em que já despontava uma desconfiança em relação ao poder, nomeadamente o poder central, encarnado na figura de um presidente. Mas aí ele tinha do seu lado o escudo da ficção e uma actualidade de época que podia explicar a sua desconfiança e a sua crítica. Ora em "J. Edgar" está em causa a história real, ou presumivelmente verdadeira (a partir de argumento de Dustin Lance Black) de uma personagem autêntica, que se impôs na América como uma figura controversa. 
        Devo dizer que, apesar de muito bom, o último filme de Clint Eastwood é, quanto a mim, um filme ambicioso mas falhado, pois pretende abarcar toda uma época a partir de uma personagem e do ponto de vista que sobre si própria ela constrói, que está na origem da lenda que sobre si J. Edgar/Leonardo DiCaprio cria e que só no final Clyde Tolson/Armie Hammer vem desmentir. Considero muito arriscado assumir o ponto de vista do biografado, embora compreenda que é através do ponto de vista dele que podemos ter melhor acesso à intimidade da personagem, à sua relação com a mãe, Annie/Judi Dench, com Clyde e com Helen Gandy/Naomi Watts, a secretária, que tão importantes terão sido para ele - e efectivamente é a partir da cena em que Edgar admite que não sabe dançar que o filme entra no seu melhor, mais pessoal e subjectivo.                    
        Quanto ao filme em si mesmo, como um todo, ele constitui-se como um retrato crítico mas humano de um homem que se afirmou pela sua integridade e clarividência, antecipando os métodos de investigação policial modernos, embora, convicto da razão que lhe assistia e da sua interpretação do interesse nacional, tenha também cometido atropelos e abusos. A própria fotogafia, de Tom Stern, remete para um passado, uma memória - como em "Cartas de Iwo Jima"/"Letters from Iwo Jima" (2006) - que é expressamente convocada pelo dispositivo narrativo adoptado, com recurso ao flash back, que se percebe em vários momentos ser um tanto forçado. Mas, dentro de certos limites, "J. Edgar" é um bom retrato dos Estados Unidos durante décadas, do final dos anos 10 ao início dos 70 do Século XX, vistos a partir de um ponto de vista privilegiado e exigente. 
        Todavia, a meu ver é uma inspiração semelhante à de Orson Welles em "O Mundo a Seus Pés"/"Citizen Kane" (1941), com um protagonista inspirado numa conhecida personalidade da vida real, William Randolph Hearst, a partir do qual ele criou a ficção do seu filme, que faz o melhor de "J. Edgar", em que a própria composição de Leonardo DiCaprio como J. Edgar Hoover aponta para o conhecido perfil wellesiano, sobretudo quando mais velho. Mas essa inspiração gera também o seu principal limite, decorrente de não ser adoptado um ponto de vista exterior à personagem, o que constituiu o segredo de Welles no seu filme de estreia. Em vez de criar o mistério de J. Edgar, Eastwood prefere deixá-lo criar a sua própria lenda, no final desfeita, o que como tal funciona de um modo mais convencional e cinematograficamente menos conseguido. A caracterização exagerada das cabeças de Edgar e Clyde quando mais velhos, embora possa ter um significado simbólico vem contribuir para que mais se acentuem os limites, desta vez figurativos, visuais do filme.  
     Essencialmente por estas razões, considero "J. Edgar" um filme falhado de Clint Eastwood, acrescentando de imediato que todos os grandes cineastas têm o direito de falhar um ou outro filme que, embora falhado ou com limites, deve ser visto na parte que tem, e compreendido no que significa numa obra vista como um todo. E sem dúvida que este é um filme com abundantes traços eastwoodianos, que permitem reconhecê-lo como obra do seu autor - relizador, produtor e compositor. Devo acrescentar ainda que, perante este falhanço honesto me parece que a América, em geral, e Hollywood em especial, não gostou do filme pelo retrato que ele traça da sua personagem, como já acontecera com "O Mundo a Seus Pés", cujo protagonista não escondia a personalidade da vida real em que se inspirava. E quanto a isso estamos todos do lado de Clint Eastwood, como estávamos do lado de Orson Welles (ver "Sabedoria", 11 de Fevereiro de 2012).
                  
Nota
Existe neste momento uma vasta e importante bibliografia sobre Clint Eastwood, em inglês e em francês, de que neste momento destaco o nº 66-67-68-69 da revista L'art du cinéma, Primavera-Verão de 2010 - e esta é uma revista muito boa, fundadada em 1993 por Alain Badiou e Denis Levy, que muito raramente chega a Portugal -, com uma perspectiva muito completa e um estudo exaustivo, e o livro "Fucking Eastwood", de Stéphane Bouquet (Paris, Capricci, 2012), com uma abordagem mais moderna, embora igualmente exaustiva e fascinante, numa edição muito interessante.

domingo, 10 de março de 2013

Jogo fatal

       Steven Soderbergh está de regresso com "Efeitos Secundários"/"Side Effects" (2013), um filme surpreendente por começar como um estudo psicológico das suas principais personagens, evoluir para uma crítica implícita do sistema e se resolver como filme negro, em que as responsabilidades de quem é responsável por um jogo duplo acabam por ser descobertas e reveladas.
        Adoptando um estilo sóbrio e seguro, elíptico e veloz, como costuma fazer no seu melhor, e responsabilizando-se pessoalmente, sob pseudónimo, pela direcção de fotografia e pela montagem, o cineasta parte de um argumento de Scott Z. Burns com contornos actuais e originais para fazer mais uma obra pessoal, em que tudo se joga no desenrolar duma narrativa fílmica intrigante, em que pouco a pouco se vai descobrindo que o que parecia ser uma coisa era, afinal, uma outra, muito diferente. Por momentos, esse lado de falso do filme faz pensar em Orson Welles, mas só por momentos, já que o que nele está em causa é puro Soderbergh no seu melhor.
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       "Efeitos Secundários" assume, desse modo, um lado de jogo, de jogo perigoso, mesmo mortal, mas apesar de tudo de jogo, que permite que se estabeleça como filme que se define sobre os géneros para depois sobre eles introduzir e fazer operar todas as variações originais. Assim, uma jovem mulher deprimida e sob tratamento, que mata o marido numa crise, eventualmente sem consciência do que faz, revela-se como sendo outra coisa, tal como sucede com a médica que a tinha tratado antes, e o jogo entre a aparência, a encenação e a realidade está muito bem dado em termos fílmicos e de trabalho dos actores, todos notáveis, com destaque para Rooney Mara, muito bem como Emily Taylor, Channing Tatum como Martin Taylor, Jude Law como Jonathan Banks e Catherine Zeta-Jones como Victoria Siebert. 
      Por si mesma, surge como interessante a questão da possibilidade da intenção sem consciência, o que anoto de passagem por ser episodicamente importante em "Efeitos Secundários".   
                     
         Há momentos em que o filme, para estabelecer e firmar a sua credibilidade narrativa, parece rondar um estatismo institucional, que contudo serve para proporcionar um quadro seguro ao desenrolar da intriga, transmitindo ao espectador elementos de reconhecimento sólidos e credíveis, tanto mais necessários quanto o comportamento da protagonista se apresenta como para além das barreiras da normalidade clínica. Ao descobrir-se o que se escondia sob as aparências clínicas - e o percurso até aí ocupa a parte mais extensa e importante do filme, então clarificada -, pode, contudo, verificar-se como a saída da normalidade pode ser aproveitada para os mais escabrosos e lucrativos negócios, maiores e menores, mas também suspeitar-se que Em pode estar, de facto, do lado da pura psicopatia, o que tudo permite ao cineasta remeter para filmes que trataram expressamente a loucura e o asilo psiquiátrico, como "Shock Corridor", de Sam Fuller (1963), ou "Shutter Island", de Martin Scorsese (2010), fazendo embora obra pessoal e muito interessante.
        Depois de "Magic Mike" (2012), Steven Spoderbergh está, pois, de regresso ao seu melhor nível, mesmo de ambiguidade, para que o final deste notável "Efeitos Secundários" remete. Ele é, indiscutivelmente, um dos melhores cineastas americanos da actualidade, o que neste filme, em que a uma sociedade lúdica e hedonista oferece o negro da culpa e o cinzento da suspeita e da dúvida, se percebe melhor, devido à complexidade e subtileza narrativa e ao correspondente apuro fílmico.

Revivalismo

       A terceira longa-metragem de Ruben Fleischer, "Força Anti-Crime"/"Gangster Squad" (2013), é o primeiro filme dele que vejo e revela-se muito interessante por proceder a uma recuperação muito curiosa do filme negro da Série B do pós-guerra, época em que, aliás, a sua acção se situa. A minha curiosidade tinha sido suscitada por ser anunciado que se baseia em factos reais e a expectativa não foi defraudada.
    Com argumento de Will Beall baseado no livro de Paul Lieberman, o filme assume uma narrativa clara na Califórnia do pós-guerra, em que uma força especial da polícia de Los Angeles assume o objectivo de dar caça a um conhecido e tolerado gangster local, Mickey Cohen/Sean Penn. Sem assumir uma posição nem explicitamente moralizante nem actual, "Força Anti-Crime" inscreve no seu programa narrativo e estético ser um filme de acção em que tudo é claro e está no seu lugar entre um gang criminal e a polícia, incapaz de pelos meios comuns chegar apanhá-lo e prendê-lo.
                       GANGSTER SQUAD
       Simplesmente, o estilo da acção e a estética do filme, clara e contrastada uma como a outra, apontam para uma recuperação de meios e métodos narrativos da Série B que, nomeadamente no filme policial e no filme negro, tão boa conta de si deu no pós-guerra. Nessa conformidade, não interessa a "Força Anti-Crime" a especificidade ou a complexidade psicológica própria das personagens mas a clareza, até a simplicidade, do esquema narrativo em que estão envolvidas e o papel que nele desmpenham. Assim, as personagens são inteiramente tipificadas, como eram na Série B e sobre o modelo desta, e portanto como tal reconhecíveis numa América que emergira da Guerra Mundial, em que triunfara, com uma acentuada crise de confiança interna, em si própria.
     Trata-se, pura e simplesmente, de constituir o grupo que, como tal (como gang) se vai encarregar de tentar apanhar o conhecido gangster, que se escapa aos métodos de investigação convencionais devido às cumplicidades estabelecidas dentro do próprio sistema. Temos, assim, o polícia casado, aquele que se apaixona por uma ruiva que está sob as ordens de Mickey Cohen (o Rato Mickey, como a certa altura lhe chamam), o polícia negro, o atirador, o especialista de escutas e até um voluntário desconhecido, que todos juntos vão descrever o percurso que vai conduzir ao objectivo em vista.            
                     101212-gangster-squad
        Só que o filme assume, da realização à caracterização das personagens, dos cenários à montagem, a revisitação de uma época precisa, em termos de tal modo fiéis e convincentes que a própria interpretação dos actores e actrizes aponta para uma tipificação irredutível, que convoca o distanciamento ao mesmo tempo que remete para os clássicos da Série B, como Anthony Mann nos anos 40, Sam Fuller ou Don Siegel nos anos 50 e 60. E "Força Anti-Crime" tem mesmo um certo tom gratificante, na medida em que os maus são punidos - Cohen é preso em circunstâncias muito originais -, num filme que não pretende mais do que assumir-se como típico filme de época e de género. 
       As cenas de acção são muitas e muito boas (O'Mara chega a perguntar se não existirá identidade entre o seu grupo e aquele que persegue...), os actores estão todos no registo certo, a própria fotografia, de Dion Beebe, embora sem enjeitar a cor tem momentos em que joga sobre a quebra de contrastes enquanto noutros os acentua, como num filme a preto e branco, a música de Steve Jablonsky assume, ela também, tons de época. E é gratificante assistir ao regresso de Nick Nolte, como Chief Parker, ao lado de grandes nomes mais novos: Josh Brolin como John O'Mara, Ryan Gosling como Jerry Wooters e o próprio Sean Penn, um actor que hoje em dia é capaz de interpretar qualquer personagem ao melhor nível, num filme que também ironiza sobre Hollywood com toda a pertinência. E o genérico final é muito bom, participando do tom revivalista do filme.

quinta-feira, 7 de março de 2013

Mestres de pensar

       João Bénard da Costa (1935-2009) e Eduardo Prado Coelho (1944-2007) foram dois grandes "maîtres à penser" da segunda metade do século XX e do início do XXI em Portugal. Em geral, é muito mau sinal que sejam publicadas as obras completas de alguém, porque, salvo excepções que não as deles, é sinal de que se passou para o outro lado, mas pelo significado e a importância de ambos na cultura e no cinema em Portugal devo aqui chamar a devida atenção para a publicação de tais obras completas no caso deles.
       Fui aluno, de Filosofia e de Cinema, de Bénard da Costa, nos (literalmente) idos de sessenta, e pude assim, com alguns outros, usufruir do pensamento e da personalidade dele enquanto jovem, do que guardo viva memória. Foi num curso de cinema, dado por ele como actividade extra-curricular no Liceu Camões, em Lisboa, que, depois de ter frequentado os Cahiers du Cinéma de capa amarela da década anterior, comecei a abrir mais e melhor os olhos para o cinema e para os filmes da "nouvelle vague" francesa, que então começavam a chegar a Portugal. Mas isto são memórias pessoais que partilho com alguns outros, como eu também alunos de Mário Dionísio (1916-1993), um outro grande "maître à penser".
       Mas com muitos mais partilho a organização pelo João Bénard de grandes ciclos de cinema na Fundação Calouste Gulbenkian - onde ele esteve na origem da Secção de Cinema do Serviço de Belas-Artes, que dirigiu - durante os anos 70, a começar pelo dedicado a Roberto Rossellini em 1973, com a presença do próprio cineasta. Por essa altura publicava-se a segunda série da revista "Cinéfilo", com Fernando Lopes como Director e António-Pedtro Vasconcelos como Chefe de Redacção, onde de tudo é dado testemunho coetâneo. Depois foi a programação da Cinemateca Portuguesa, primeiro como subdirector de Luís de Pina (1931-1991), mais tarde, e a partir da morte deste, como Director. Aí, com muitos outros, fiquei a conhecer a sério a História do Cinema - de que ele foi professor na Escola Superior de Cinema do Conservatório Nacional entre 1973 e 1980, com evidente benefício para os seus alunos de então -, pelo contacto directo com os filmes dos grandes cineastas e das grandes cinematografias, acompanhados por comentários dele e por catálogos de que ele era o coordenador e o principal autor. É extensa e muito relevante a lista de nomes de cineastas e assuntos que ele programou e divulgou na Gulbenkian e na Cinemateca. Entretanto, com o nome de Duarte de Almeida começara a participar como actor em filmes de diversos cineastas, nomeadamente de Manoel de Oliveira desde 1972, passando assim mais para dentro do cinema.
                                      http://2.bp.blogspot.com/_CC-vLBgsOHw/S_ZwQxL-g6I/AAAAAAAACNA/alH8u_HY0wk/s200/Jo%C3%A3o+B%C3%A9nard.jpg
         Mas a relação do João Bénard com o cinema tinha começado na década de 50, no Centro Cultural de Cinema, de que foi Director entre 1957 e 1960, e prosseguira nas páginas de "O Tempo e o Modo", importante e influente revista cultural dos anos 60, de que foi co-fundador com António Alçada Baptista (1927-2008) e subdirector, primeiro, Director depois. Sem prejuízo das suas outras actividades, voltou a escrever regularmente na imprensa, a partir da segunda metade dos anos 80 no semanário "O Independente", mais tarde no jornal "Público".
       São todos esses fabulosos, eruditos e apaixonados artigos finais, que não se limitavam ao cinema, de um homem de imensa cultura, visual, cinematográfica, literária, filosófica e artística, que a Assírio & Alvim, que o começou a editar em vida, tem estado a publicar com o título "Crónicas: Imagens Proféticas e Outras", para o que aqui quero chamar a atenção de todos, em especial das gerações seguintes. Todos temos, ainda hoje, muito a aprender com ele, nomeadamente em amor e saber do cinema, de um homem que foi também um grande programador, escritor e pensador.
        Eduardo Prado Coelho era mais novo, provavelmente meu contemporâneo no Liceu Camões, onde concluí o curso do liceu, embora eu só me lembre dele dos tempos da Universidade de Lisboa, na segunda metade dos anos sessenta - os tais dos idos, que foram muito importantes também em Portugal. Sem estar circunscrito ao cinema, o Eduardo praticou a crítica de cinema nomeadamente no "Diário de Lisboa", nos anos sessenta, e no semanário "Expresso", e o primeiro grande livro dele que li foi "Os Universos da Crítica" (Lisboa, Edições 70, 1982), a sua tese de doutoramento - livro que que ainda hoje tenho, marcado com um postal anunciando a programação do ciclo que a Cinemateca Portuguesa dedicou a Eric Rohmer em Junho/Julho de 1983.
        Além de ter sido director-geral da Acção Cultural em 1975-76 e conselheiro cultural junto da Embaixada de Portugal em Paris entre 1987 e 1998, funções que desempenhou, como outras, com todo o brilhantismo que conferia a tudo o que fazia, foi crítico e cronista de referência na imprensa portuguesa, nomeadamente em o "Jornal", no "Jornal de Letras" e no "Público", continuando sempre a escrever sobre cinema, e especificamente sobre o cinema português, do que aqui recordo "Vinte anos de cinema português - 1962-1982", publicado na Biblioteca Breve do Instituto de Cultura e Língua Portuguesa em 1983, ainda hoje uma obra de referência pela sua lucidez e ousadia - um primeiro volume, "Breve história do cinema português - 1896-1962", da autoria de Alves Costa (1910-1988), tinha sido publicado na mesma colecção em 1978.
           Nessa obra e em escritos avulsos, ele foi em Portugal, justamente com Bénard da Costa, um grande defensor de Manoel de Oliveira e de António Reis e Margarida Cordeiro, quando a generalidade da crítica portuguesa os denegria, contra o que já então escrevia alguma da mais relevante crítica de cinema internacional, nomeadamente francesa. O Eduardo viu, concretamente nos filmes de Oliveira, o que mais ninguém até hoje viu. Distinto professor universitário, aí os seus alunos colheram um benefício excepcional do convívio com ele e do ensino dele - e eu sei que ele foi um professor universitário absolutamente excepcional.
          A obra de Eduardo Prado Coelho que, agora infelizmente completa, a Imprensa Nacional - Casa da Moeda está a publicar é por tudo isso de importância capital para todos, e em especial para os mais novos, pois ele foi um pensador da filosofia, da cultura, da comunicação, da arte e do cinema absolutamente fora de série e um grande escritor, de uma grande curiosidade e abertura para o mundo e de uma enorme erudição, cujo pensamento deve ser conhecido e transmitido.
         Eu sei que a vida continua, logo a partir da segunda-feira seguinte à nossa morte, como lembrava José Manuel Rodrigues da Silva (1939-2009), outro grande crítico de cinema precocemente desaparecido - e deste lembro-me, como do João Bénard e do Eduardo, da última vez que o vi, numa livraria de Lisboa. O grande desafio que eles lançam para o futuro é o de um pensamento crítico culto, inteligente e bem informado, capaz de pensar e de compreender em termos de história da cultura, da arte e do cinema, bem como em função da história geral, da actualidade e da própria experiência.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Direcção: Suécia

          Sempre tive uma grande curiosidade pela Suécia e a sua cultura, com a qual travei contacto precoce através dos primeiros filmes de Ingmar Bergman que pude ver e me despertaram a curiosidade. Depois conheci August Strindberg, Selma Lagerlöf e um pouco Pär Lagerkvist, mais tarde o cinema sueco, que foi tão importante em especial no tempo do mudo: Victor Sjöström, Mauritz Stiller e Greta Garbo, Gustaf Molander e Ingrid Bergman, Alf Sjöberg, Bo Widerberg, os filmes iniciais de Vilgot Sjöman, dos anos 60, além do próprio Ingmar Bergman, que continuei a acompanhar, sempre e até ao fim (ver "Eles, os modernos", 22 de Janeiro de 2012). Mais recentemente, são muito conhecidos os livros da trilogia "Milleninum", de Stieg Larsson (1954-2004) e os filmes, suecos e em língua inglesa, nela inspirados (ver "O tempo outra vez", 22 de Abril de 2012).
              Desde o final do ano passado que a minha curiosidade pela Suécia foi acicatada de novo pela leitura de Henning Mankell, grande escritor de literatura policial mas cujo talento, como o dos verdadeiramente grandes, se expande melhor fora do género - ou, para ser mais preciso, nos romances sem Kurt Wallander - embora o que me despertou a curiosidade tenha sido o título do seu último livro, "Um Homem Inquieto" (Lisboa, Presença, 2012), e agora mesmo pela leitura, em francês, de Tomas Tranströmer, Prémio Nobel da Literatura em 2011 e que é um poeta extraordinário. Fico sempre muito divertido quando este prémio apanha desprevenidas as editoras portugueses, que apostam nas suas edições correntes nos nomes considerados mais famosos e mais falados e depois são apanhadas descalças, como aconteceu neste caso - para mais o de um poeta.
                            
            Depois do Nobel foi já feita uma edição bilingue de "50 Poemas" de Tranströmer (Lisboa, Relógio d'Água, 2012, com tradução e nota introdutória de Alexandre Pastor), e traduzido «"As minhas lembranças observam-me", seguido de "Primeiros Poemas (inéditos)"» (Lisboa, Sextante, 2012, com pósfácio de Pedro Mexia), mas só agora consegui chegar à edição francesa de "Baltiques - Oeuvres complètes 1954-2004" (Paris, Gallimard, 2004/2011, com tradução e prefácio de Jacques Outin, nota prévia de Kjell Espmark e posfácio de Renaud Ego) e assim dar-me conta da verdadeira dimensão deste poeta.
            No prefácio desta edição, Tranströmer é qualificado como "poeta do silêncio", mas há que compreender que esse silêncio é, na sua poesia, captado a partir do exterior, da vida e do mundo, para o que se torna necessária uma grande disponibilidade, uma muito especial sensibilidade e uma inteligência aguda. Um poeta que ouve esse silêncio e sobre ele escreve, um silêncio, múltiplos silêncios no meio do ruído, dos ruídos do mundo, pode, como é o caso, pressentir e entrever o que ao comum dos mortais escapa e, ao dizê-lo ou confessar-se incapaz de o dizer, surpreender, intrigar e fascinar.
          Ora esse silêncio povoado ele vai procurá-lo e encontrá-lo na sua terra e no mundo pelo qual viajou, estabelecendo relações preferenciais e privilegiadas com a neve, a montanha, a floresta, os fiordes e o mar, mas também com a arte, a arquitectura, a pintura e, especialmente, a música, na busca de um outro lado das coisas que elas, na sua comum aparência, escondem. Tomas Tranströmer é, de facto, um dos maiores poetas da segunda metade do Século XX e do início do XXI, uma voz de uma limpidez cristalina e inequívoca, que não engana nem se engana na procura de um outro lado escondido no tempo e no espaço. Perseguido pelo sonho e acompanhado pela ideia da morte, com recurso a palavras secas e a construção de uma linguagem precisa, um domínio pleno da metáfora e da elipse, ele cria uma poesia exacta e luminosa, que enuncia e anuncia uma perspectiva original, metafísica e cósmica, a partir do sensível. Depurados, e com o decorrer do tempo cada mais reduzidos ao essencial, os seus poemas são uma verdadeira maravilha.
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       Tendo chegado a ele depois de ter descoberto o melhor de Mankell, que é um grande conhecedor da natureza humana, do seu país e do mundo actual, e um grande escritor, aumentou o meu interesse e a minha curiosidade pelo Norte da Europa, por essa paisagem natural e urbana da Suécia, pelo seu povo e pela sua cultura que, distantes embora, nos conhecem e não nos são estranhos. Depois de ter lido Tranströmer na língua de Paul Éluard e Yves Bonnefoy, preciso de conhecer a Suécia, um país que tem escritores e artistas que não brincam com a vida nem com o que fazem, descobrem um mundo em que se descobrem e que nos revela, dizem coisas que me interessam e não encontro em mais lado nenhum.uma mundivivência especial, uma atitude própria perante a vida e o mundo, uma história, lendas, mitos e sagas, uma notória seriedade, uma integridade intelectual escandinava, em geral, e sueca, em especial, que não teme, antes enfrenta o lado mais sombrio da vida e do mundo e que não devo deixar escapar-me por mais tempo. 
       Entretanto, vou continuar a ler Henning Mankell, em português, nos intervalos e reler Tranströmer, em francês, logo que possa, enquanto tento indagar mais sobre a cultura sueca, incluindo o seu cinema actual, do qual, assim de repente, só tenho presentes Lukas Moodysson - "Lilya Para Sempre"/"Lilya 4-ever" (2002) - e o muito interessante Tomas Alfredson - "Deixa-me entrar"/"Let The Right One In"/"Lât den rätte komme in" (2008) e "A Toupeira"/"Tinker Tailor Soldier Spy" (2011). Ficarei deliciado por continuar a ser ainda hoje surpreendido por um país cuja cultura me atrai, e que, por isso, como país chama por mim e quero conhecer. E mesmo ao lado fica a Finlândia de Aki Kaurismäki.