“Um não sei quê, que nasce não sei onde,/Vem não sei como, e dói não sei porquê.” Luís de Camões

"Na dor lida sentem bem,/Não as duas que êle teve,/Mas só a que êles não têm." Fernando Pessoa

"Lividos astros,/Soidões lacustres.../Lemes e mastros.../E os alabastros/Dos balaustres!" Camilo Pessanha

"E eu estou feliz ainda./Mas faz-se tarde/e sei que é tempo de continuar." Helder Macedo

"Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos..." Camilo Pessanha

“Vem, vagamente,/Vem, levemente,/Vem sozinha, solene, com as mãos caídas/Ao teu lado, vem” Álvaro de Campos

"Chove nela graça tanta/que dá graça à fermosura;/vai fermosa, e não segura." Luís de Camões

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Uma família americana, ou várias

     O mais recente filme do veterano Jonathan Demme, "Ricki e os Flash"/"Ricki and the Flash" (2015), não surpreende nem agrada em especial, embora não desmereça de todo na obra do autor de "O Silêncio dos Inocentes"/"The Silence of the Lambs" (1991) e "Filadélfia"/"Philadelphia" (1993). Veículo para uma Meryl Streep sexagenária no papel do título, conta com o aliciante da participação da filha da actriz, Mamie Gummer, no papel de Julie, a filha de Ricki.
                     Meryl Streep in 'Ricki and the Flash'

      A protagonista dedica-se com a sua banda a concertos de música rock como instrumentista e vocalista quando é chamada pelo ex-marido, Pete/Kevin Kline, por causa do divórcio de Julie e das suas consequências para ela, o que vai ser ocasião para Ricki reencontrar também os dois outros filhos, Josh/Sebastian  Stan e Adam/Nick Westrate, e para conhecer a nova mulher de Pete, Maureen/Audra McDonald.                
     Pese embora o bom trabalho dos actores principais, tudo narrativamente decorre no maior conformismo, contra o pretenso inconformismo de Ricki, que apesar de tudo por contraste se afirma. Mas torna-se previsível e por isso menos interessante a partir do momento em que os contrastes, que funcionam por clichés até nos diálogos, são estabelecidos. E o final, com o casamento de Josh, faz dela "a mãe do noivo" - alusão ao fiilme de Vincente Minnelli "O Pai da Noiva"/"The Father of the Bride" (1950), com Spencer Tracy e Elizabeth Taylor - para tornar tudo mais redondo e bem comportado.
                    Julie (Mamie Gummer) and Ricki (Meryl Streep) in TriStar Pictures' RICKI AND THE FLASH.
    Mesmo assim o filme tem o mérito de encenar vidas americanas, e desse ponto de vista torna-se um melodrama razoável embora muito aquém do melhor que no género se faz para televisão. Apesar de Greg/Rick Springfield, que a acompanha na banda e é seu namorado, mas também por causa dele, percebe-se que este "Ricki e os Flash" tinha mais hipóteses como musical, lado que, apesar das boas músicas que inclui, não explora.
     Jonathan Demme mostra mais uma vez que é um bom realizador, capaz de pegar em qualquer material sem o estragar, mas este filme fica como mera curiosidade na sua obra. E fica-se sobretudo com curiosidade quanto aos documentários que nos últimos anos ele tem feito. 

O amor da música

       O  prestigiado documentarista americano Morgan Neville ganhou o Oscar para o melhor documentário de longa-metragem em 2014 com um filme invulgar e notável, "A Dois Passos do Estrelato"/"Twenty Feet from Stardom" (2013), que só agora tive oportunidade de ver. 
                     Since Ray Charles already got an Oscar-winning biopic, "Twenty Feet from Stardom" turns our attentions to the background singers, who unusually occupy the foreground of this television shot.
     E este é um grande documentário porque é dedicado às backupsingers, maioritariamente negras, que têm acompanhado grandes cantores sem serem na maior parte dos casos individualmente conhecidas nem verem reconhecido o seu valor próprio. Ora este filme põe-nas a falar de si próprias, a contar a sua história de cantoras, acompanhadas pelo depoimento dos cantores vivos com os quais cantaram, que se contam entre os maiores nomes da música moderna dos últimos 50 anos, que fazem o seu elogio total - e são eles quem melhor as conhece.
      Mas o filme de Morgan Neville não se fica por aí - com espantosos contracampos, aliás -, pois inclui material de arquivo de concertos deles em que elas participaram por forma a permitir-nos apreciar hoje as vozes excepcionais delas, com um fundo de gospel e grande capacidade de adaptação, e o modo como valorizaram as performances dos grandes cantores conhecidos, as "estrelas" da música rock e pop. 
                   
    Embora possa surgir como tardia, esta homenagem do cinema às  backupsingers assume uma feição pouco frequente no documentário, a de musical, a que só chegam os filmes de grandes realizadores (Godard, Scorsese) sobre grandes grupos musicais. Ora tal fica a dever-se a uma excepcional montagem, que nos faz percorrer as últimas décadas sem perder a noção da cronologia.
    Com uma energia que não dispensa o humor nem a emoção, "A Dois Passos do Estrelato" cumpre uma função fundamental ao fazer justiça àquelas que mostra e ouve, deixando-se embalar pelo seu talento e pelo seu amor à música, aqui exuberantemente demonstrado. Vê-se como um sonho que passa depressa mas marca e fica. E fixem os seus nomes porque elas vão ficar.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Furar os limites

    "Mustang" é a primeira longa-metragem da franco-turca Deniz Gamze Ergüven (2015), com argumento seu e de Alice Winocour que implicou vários anos de preparação - começou a ser escrito em 2011 -, um filme de produção germano-franco-turca multipremiado que desperta a nossa atenção por diversos bons motivos.
                    Turkish actresses (clockwise from left) Tugba Sunguroglu, Ilayda Akdogan, Gunes Sensoy, Elit Iscan and Doga Zeynep Doguslu pose during a photocall for the film "Mustang" on the sidelines of the 68th Cannes Film Festival in Cannes, southeastern France, on May 19, 2015. (Loic Venance/AFP/Getty Images)
    Na Turquia os tempos não correm fáceis para ninguém, muito menos para as mulheres jovens numa aldeia perdida do interior. Cinco irmãs orfãs vêem-se acossadas pela família, a avó/Nihal G. Koldas, e um tio, Erol/Ayberk Pekcan, que as fecham em casa e lhes proíbem todos os contactos com o exterior, enquanto a primeira lhes prepara "casamentos arranjados" contra a vontade delas que a elas são supostas chegar virgens. Em poucas palavras, duas aceitam esses casamentos, Sonay/Ilayda Akdogan e Selma/Tugba Sunguroglu, uma mata-se, Ece/Elit Iscan, e as duas últimas, Nur/Doga Zeynep Doguslu e Lale/Günes Sensoy, a mais nova que é a narradora, conseguem fugir. 
    Muito bem trabalhado em termos fílmicos, este "Mustang" merece a nossa melhor atenção pelo retrato justo a partir do concreto - género e idade - de uma sociedade dividida - o discurso oficial sobre a mulher que as personagens ouvem na televisão - e por saber lidar com um momento fugidio e não esclarecido entre o tio e a sobrinha mais nova, já próximo do seu final, que Lale resolve com um copo de água na cozinha.  
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    A música é apropriada e está bem utilizada neste filme estreado este ano em Portugal que manifesta um desembaraço invejável em termos de cinema que é raro encontrar numa primeira obra, embora seja notória a influência de "As Virgens Suicidas"/"The Virgin Suicides", de Sofia Coppola (1999), que foi também um excelente primeiro filme.  
   Com a melhor construção formal e actrizes e actores sempre justos em papéis ingratos, "Mustang" de Deniz Gamze Ergüven tem o mérito especial de colocar todas as possibilidades de que a última, a fuga para Istambul liderada pela narradora, surge como a preferível e mais razoável, porque fura o cárcere e o sistema na procura de uma vida livre e melhor.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Uma noite em Havana

    Ainda hoje sobretudo conhecido por "A Turma"/"Entre les murs" (2008) embora conte outros filmes estimáveis, o francês Laurent Cantet voltou a Havana para "Regresso a Ítaca"/"Retour à Ithaque" (2014) depois de aí ter feito já um dos episódios de "7 dias em Havana"/"7 días en la Habana" (2012) - ver "Havana 2012", de 21 de Setembro de 2012.
    Para este seu último filme parte da adaptação livre de uma novela de Leonardo Padura, que com ele participa no argumento. É, assim, sem surpresa que deparamos, nos diálogos entre cinco amigos que um deles define no início como "um clube da terceira idade", com todas as referências à Cuba actual dos romances e novelas do grande escritor cubano. 
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     Sem meias tintas nem piedosas ambiguidades, aquela é a Havana contemporânea, capital de um país contemporâneo que se tornou famoso devido a uma revolução que instituiu um regime comunista que ainda hoje, passados mais de 50 anos, se mantém. Amadeo/Néstor Jiménez regressa a Havana depois de ter estado 16 anos em Espanha, e os diálogos reflectem o que foi a vida de cada um deles durante esse tempo e mesmo antes.
    Há a Miami distante mas tão próxima onde vivem os filhos de Tanía/Isabel Santos, há a vida frustrada de pintor de Rafa/Fernando Hechavarria como frustrada na literatura embora de forma diferente foi a do regressado, há o homem que acreditou, Aldo/Pedro Julio Días Ferran, que tem um filho a quem já nada daquilo diz seja o que for, e há o homem integrado, peça do sistema, Eddy/Jorge Perugorría, que se depara ele também com problemas, todos eles amigos desde sempre que se reunem uma noite, num terraço, para celebrar o regresso de Amadeo entre o final de um dia e a madrugada do dia seguinte.   
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     O que se torna muito curioso é que a realização sóbria de Laurent Cantet, com boa utilização do espaço, grande proximidade dos rostos e grandes actores, se centra em diálogos que fazem sentir um país de que revelam o passado recente e o presente - como nos livros de Padura com Mario Conde, nomeadamente. E admito mesmo que quem não conhecer os livros deste grande escritor tenha acesso menos facilitado a este filme exigente e muito bom - sobre Padura ver "A hora e a vez", de 25 de Junho de 2015.
     Por entre a frustração e o medo prevalece a amizade, que Fela/Carmen Solar, a mãe de Aldo que lhes prepara a refeição, lhes propõe e  o relato final de Amadeo demonstra, dizendo que entre eles não houve nem haverá "última ceia".

terça-feira, 16 de agosto de 2016

A poética do arquivo

    Os italianos Yervant Gianikian e Angela Ricci Lucchi são dois cineastas fundamentais dos últimos 40 anos da história do cinema que, na curta e na longa-metragem, vêm trabalhando as imagens documentais de arquivo com grade originalidade e pertinência.
    Depois da retrospectiva integral que o Centre Pompidou, em Paris, lhes dedicou entre 25 de Setembro e 15 de Novembro de 2015, o Arte transmitiu na noite passada o seu mais recente filme, "Pays barbare" (2013), que a partir de imagens do fascismo italiano, sobretudo na sua vertente colonial embora comece com a morte do ditador, nos dá um magnífico exemplo do método de trabalho deles.
                                               
   Trata-se de imagens de época, hoje de arquivo, que no seu carácter de testemunho histórico são submetidas ao retardador, à colorização, à exposição em negativo, à montagem e à sua consequente estetização, por forma a por mais tempo insistentemente permanecerem diante de nós como imagens do filme.
   E isto é exemplar do trabalho artístico e vanguardista de Gianikian e Ricci Lucchi, tanto mais interessados no mais antigo quanto ele estiver já degradado por forma que, por vezes, temos apenas fragmentos de imagem já parcialmente delidos, que o contraste, a negativização e a colorização trabalham.    
                   'Pays Barbare' Photocall - 66th Locarno Film Festival                                  
      "Pays barbare" de Yervant Gianikian e Angela Ricci Lucchi é um excelente exemplo do melhor que se pode fazer hoje em dia no documentário contra todos os seus cânones e dogmas mas respeitando sempre a regra de ouro de só usar imagens documentais. Em comentário, as vozes deles chamam a atenção para a actualidade de tudo aquilo, que não deve cair no esquecimento antes ser mostrado e recordado para nossa lição e proveito - se formos disso capazes.
      A Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema dedicou-lhes uma importante retrospectiva em 2001 que seria oportuno actualizar agora, já que a dimensão dos dois cineastas não tem parado de crescer e justifica-o.

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Para crianças, com engenho

    Pessoalmente não estava à espera de "O Amigo Gigante"/"The BFG", o mais recente filme de Steven Spielberg (2016). Feito para a Disney, conta com argumento de Melissa Mathison sobre livro de Roald Dahl (o mesmo que esteve na origem de "Charlie e a Fábrica de Chocolate"/"Charlie and the Chocolate Factory", de Tim Burton, 2005) e é declaradamente um filme para crianças.      
                     Disney's The BFG Trailer #3 Brings a Literary Giant to Life
    Aos adultos que as acompanharem numa manhã de Domingo ficará bem apreciarem o engenho cinematográfico com que tudo  - a menina, o bom gigante/Mark Rylance e os gigantes maus, até uma rainha boa/Peneelope Wilton, as ameaças e os sonhos de Sophie/Ruby Barnhill - é feito. O filme teve um grande sucesso nos Estados Unidos, o que é compreensível. 
    Sobre Steven Spielberg ver "Do lado de Agatha", de 8 de Abril de 2012, "Spielberg 2011", de 30 de Setembro de 2012, "A história e a lenda", de 12 de Fevereiro de 2013, e "Dois por um", de 10 de Janeiro de 2016.

A desmedida

    Com argumento de Aaron Sorkin a partir de livro de Walter Isaacson, "Steve Jobs" de Danny Boyle (2015) é um filme que permite aceder à vida do seu famoso protagonista (1955-2011) a partir de duas apresentações públicas suas, uma em 1988 e a outra em 1998, a do iMac, de que são mostrados os momentos anteriores sem que elas próprias, apresentações, o sejam.
                     
    Daqui resulta que o filme seja um concentrado da vida de Steve Jobs, em que se misturam elementos profissionais ligados à sua actividade febril e em concorrência na criação de novos computadores e a sua vida privada, da sua paternidade à sua filiação.
     Passa, assim, por diálogos vertiginosos nos bastidores das duas apresentações, salvo no final com a filha Lisa Brennan/Perla Haney-Jarrdine em interiores, e também por flashbacks que recuperam situações passadas entre as mesmas personagens do presente. Os diálogos tornam-se confrontos entre personagens, sempre muito bem tratados em termos espaciais por Danny Boyle e com grandes interpretações. Notável é o confronto entre Michal Fassbender como Jobs e Kate Winslet como Joanna Hoffman, a sua fiel assistente, que o acompanha de princípio a fim, cuidando dele mas sem o poupar no final. 
                     
     Personalidade muito importante e controversa, Steve Jobs foi decisivo na revolução digital que teve início no final do Século XX, mudou o mundo e a vida de todos nós  e cujos efeitos se continuam a fazer sentir mesmo depois da sua morte. 
     Com uma boa construção formal e narrativa, apesar das suas indiscutíveis qualidades penso que este filme de Danny Boyle se perde excessivamente em labirínticos conflitos de bastidores sem chegar a atingir o nível que o biografado poderia justificar, embora dos seus conflitos nasça alguma luz sobre ele enquanto ser humano, no que talvez se esgote este projecto, nessa justa medida conseguido já que preserva o génio rebelde deste americano comum.