“Um não sei quê, que nasce não sei onde,/Vem não sei como, e dói não sei porquê.” Luís de Camões

"Na dor lida sentem bem,/Não as duas que êle teve,/Mas só a que êles não têm." Fernando Pessoa

"Lividos astros,/Soidões lacustres.../Lemes e mastros.../E os alabastros/Dos balaustres!" Camilo Pessanha

"E eu estou feliz ainda./Mas faz-se tarde/e sei que é tempo de continuar." Helder Macedo

"Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos..." Camilo Pessanha

“Vem, vagamente,/Vem, levemente,/Vem sozinha, solene, com as mãos caídas/Ao teu lado, vem” Álvaro de Campos

"Chove nela graça tanta/que dá graça à fermosura;/vai fermosa, e não segura." Luís de Camões

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

O desejo, o sonho, o filme

           "The Fall" (2006), do indiano Tarsem Singh, ou simplesmente Tarsem, que se estreara com "A Cela"/"The Cell" (2000) e viria a realizar "Imortais"/"Immortals" (2011) e "Espelho Meu, Espelho Meu! Há Alguém Mais Gira do Que Eu?"/"Mirror Mirror" (2012), é um filme de fantasia profundamente cinematográfico, ligado à história do cinema e à sua linguagem, que por isso me interessa muito.
       O filme é construído a partir do hospital em que um especialista acções arriscadas no cinema mudo, um duplo (em inglês, um stuntman), convalesce com alguma dificuldade de uma queda grave, situação em que trava conhecimento com uma menina emigrada, também ela em convalescença, a quem conta histórias de fantasia que são filmicamente visualizadas. Este é um esquema de fantasia partilhada e visualizada, a partir de uma situação de imobilidade motora, sobre a experiência do cinema do narrador, que o leva a conferir à história que conta e interpreta um carácter eminentemente cinematográfico e onírico, de acordo com a sua própria situação e com a expectativa da sua pequena interlocutora.  
                                        
         A queda do título original é, assim, a da própria profissão do narrador que o levou à sua situação presente e a uma consequente hipertrofia da imaginação, que trabalha sobre um terrível e temível tirano, sobre queda, falta e redenção, uma imaginação que trabalha, pois, um imaginário declaradamente infantil de maneira abertamente infantil. Ora a história narrada tem a particularidade de, com as mesmas personagens, se desenrolar em diversos pontos do mundo, o que cria uma continuidade narrativa com base numa descontinuidade espacial, mais uma vez característica do filme e do sonho. Sempre com regresso ao local e ao tempo em que a narrativa é enunciada, oferecida pelo narrador à sua por vezes impaciente e mesmo interveniente ouvinte.
          Numa afirmação onírica e cinematográfica, o narrador imagina-se a si próprio como actor e personagem da sua narrativa que está a ser derrotado, o que contraria o desejo e a expectativa da sua ouvinte mas corresponde à sua situação presente de convalescente, ainda para mais carente de alívio para as suas dores e, por isso e para isso, também dependente dela.  
                    
            Para além disto, e integrando-o, a construção cinematográfica da história narrada é baseada em princípios de animação, com recurso meios digitais, o que lhe confere uma maior irrealidade e uma maior credibilidade como sonho, como filme dentro do filme. As interferências entre personagens do filme e personagens da história de fantasia que nele é contada levam a que se crie uma relação dinâmica de identidade/alteridade que transborda do filme e das suas personagens para o espectador, que não é deixado adormecer como a pequena Alexandria/Catinca Untaru não deixa o seu interlocutor, Roy Walker/Lee Pace, esmorecer nem na realidade nem na narrativa que para ela cria e desenvolve
              O princípio de "conta-me uma história", que exprime um desejo de ficção e qualquer filme consciente de si mesmo transporta consigo, é, deste modo, explicitamente e com grande sucesso transferido para o interior do próprio filme, sob a forma mágica da história infantil, que por o ser não tem falhas, ainda que para isso tenha que dar lugar à imaginação, ao improvável, ao impossível. Ora a subtileza com que em termos fílmicos estes dois níveis são dados e articulados em "The Fall" torna o filme um objecto absolutamente fascinante e formalmente perfeito na sua fantasia procurada e muito bem construída, entre o desejo, o sonho e o filme. Perfeito como nos sonhos, como nos filmes.
                    
          Com a cedência da mãe da criança em deixá-la ficar até ao fim da história e com o final a recuperar os filmes a preto e branco em que Roy é suposto participar tudo se conjuga para um filme típico de mil e uma noites, de mil e um filmes. Perfeito como tal. 
          Quem não foi criança e não pediu que lhe contassem uma história? Quem não é adulto a quem o tenha sido pedido para contar uma história? Lembram-se da primeira vez que foram ao cinema? E da última?

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