Último filme de uma trilogia de que foi o único a chegar-nos (1), "Mel"/"Bal" do turco Semih Kaplanoglu (2010) é um filme secreto e sereno, de uma grande beleza, sobre uma criança de seis anos, Yusuf/Bora Altas, que vive de forma interiorizada a sua convivência com o que a rodeia, que assim aprende a conhecer.
Todos tivemos infância e por isso cada um de nós sabe como nela foram vividos e depositados segredos da própria experiência subjectiva de cada um. Alguns mais do que outros conservam essas marcas de infância pela vida fora. São os mais sensíveis, por vezes os menos conviventes, os que cultivam a solidão - veja-se por todos, no cinema, o Charles Foster Kane de "O Mundo a Seus Pés"/"Citizen Kane", de Orson Welles (1941).

No convívio com o pai, Yakup/Erdal Besikçioglu, apicultor, na esplêndida floresta da Anatólia Yusuf vai-se iniciando nos segredos da actividade dele, enquanto na escola é outra a aprendizagem, a que tem dificuldade em aceder. E há na exploração visual desse tempo pleno em "Mel" um grande equilíbrio formal, de luz e sombra, de natureza e interiores. Até ao dia em que o pai dele não regressa e ele se vê remetido para o lado feminino da família - a mãe, Zehra/Tülin Özen.
Aí se vai abrir ou alargar a ferida da criança no seu mundo fascinado, e a manifestação fílmica desse acontecimento interior, que o início do filme anunciava (a queda do pai do alto de uma árvore), mantém a serenidade da câmara, como que respondendo à própria serenidade interior do seu pequeno protagonista naquele universo onírico, próprio da sua idade e da forma íntima e pessoal como ele vive a sua relação com o mundo.
Mesmo se visto com muito atraso em relação à sua estreia (esta semana no Arte), devo deixar aqui uma referência a este filme extraordinário de uma poesia secreta que connosco convive da melhor maneira, convocando também as nossas próprias memórias de infância e convidando-nos ao recolhimento interior, pessoal e intransmissível.
O recorte do espaço em interiores, com janelas ou portas ou a chama da lareira, o avanço do protagonista solitário em exteriores, os seus momentos de convívio - com o pai, com a mãe, com a escola, com a aldeia -, a imensa beleza dos locais numa floresta entre luz e sombra, tudo neste filme nos encanta, comove e atrai pelas melhores razões fílmicas. Depois de várias vezes o ecrã ter fechado a negro, o final é belíssimo.

O recorte do espaço em interiores, com janelas ou portas ou a chama da lareira, o avanço do protagonista solitário em exteriores, os seus momentos de convívio - com o pai, com a mãe, com a escola, com a aldeia -, a imensa beleza dos locais numa floresta entre luz e sombra, tudo neste filme nos encanta, comove e atrai pelas melhores razões fílmicas. Depois de várias vezes o ecrã ter fechado a negro, o final é belíssimo.

Ora isto significa que no país de Yilmaz Güney (1937-1984) há mais cineastas muito bons além de Nuri Bilge Ceylan, o que é muito bom e o Urso de Ouro atribuído a "Mel" no Festival de Berlim de 2010 claramente assinala - um filme de que, além de realizador, Semih Kaplanoglu é também co-argumentista, com Orçun Köksal, e produtor.
Nota
(1) Os dois filmes precedentes desta trilogia foram "Ovo"/"Yumurta" (2007) e "Leite"/"Süt" (2008).
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