“Um não sei quê, que nasce não sei onde,/Vem não sei como, e dói não sei porquê.” Luís de Camões

"Na dor lida sentem bem,/Não as duas que êle teve,/Mas só a que êles não têm." Fernando Pessoa

"Lividos astros,/Soidões lacustres.../Lemes e mastros.../E os alabastros/Dos balaustres!" Camilo Pessanha

"E eu estou feliz ainda./Mas faz-se tarde/e sei que é tempo de continuar." Helder Macedo

"Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos..." Camilo Pessanha

“Vem, vagamente,/Vem, levemente,/Vem sozinha, solene, com as mãos caídas/Ao teu lado, vem” Álvaro de Campos

"Chove nela graça tanta/que dá graça à fermosura;/vai fermosa, e não segura." Luís de Camões

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Poética straubiana

          O cinema de Jean Marie Straub e Danièle Huillet (1936-2006) é, há mais de quarenta anos, uma peça incontornável do cinema. Incomodou muita gente, e continua a incomodar depois da morte dela. E ainda bem. 
         Tenho a ideia de que a grande questão que os filmes deles levantam é a da palavra. Do texto que, dito em diálogo ou em monólogo, exige um máximo de concentração nas palavras ditas e um espaço visível, em que se situem as personagens, no plano visual. O grande desafio é esse: prender-nos à materialidade e à literalidade da palavra, para que ela advenha em toda a sua força e verdade reveladora, de si mesma e daquilo que diz, naquele espaço preciso, exacto.
          Será por isso que, salvo raras excepções, os seus filmes são muito definidos a nível visual, concentrados num espaço determinado de que a palavra emana, nasce nas vozes dos seus actores. Espaços rasgados pelo que a palavra exige, embora sempre a palavra de alguém muito definido, mesmo quando se trata de palavras míticas ou de palavras codificadas por um texto fixo anterior.  
                      Une image du programme de quatre courts métrages de Jean-Marie Straub, "L'Inconsolable".
           Negação do cinema? Julgo que não. Aviso para um cinema que se quer uma máquina de produzir imagens indiferenciadas, imagens avulsas, uma cornucópia de imagens intermutáveis. Contra o reino da incontinência da imagem, da banalidade audiovisual, a exactidão das palavras em imagens e espaços de absoluto rigor, ditas por seres concretos, precisos, mesmo quando domina o grupo.
           Tenho mesmo a ideia de que desta maneira a palavra ganha em poder sugestivo, mesmo em poder de abstracção, por partir das vozes de seres concretos caracterizados por uma certa rudeza, uma certa banalidade humana indiferenciada. Ou então caracterizados por uma certa banalidade que se torna diferenciada pela sua completa pertença a uma humanidade espessa e baça, uma humanidade inamovível, tão ignorada quanto real.
           Tenho, por isso, também a ideia de que o espaço não fala nos filmes deles fora daquilo que nele materialmente está, fora daquilo que ele, sem artifícios, é, na sua integridade, na sua integralidade sem redundâcia – o quadro é o quadro, é o quadro. Quem sabe o que está para além desse quadro, do campo que ele define? Se calhar isso não interessa, o fora de quadro, o fora de campo – ou então é isso o que, além do que se vê, mais interessa, numa ligação directa da palavra com o que se não vê, um fora de campo em que estamos todos.  
                     Film Still
            Materialidade das vozes, das palavras e dos espaços, imaterialidade da palavra em espaço rarefeito. Para além disso há sempre, irremovível e indispensável, o silêncio, como “L’inconsolable” (2011) - um conjunto de quatro curtas-metragens de que só conheço, por enquanto, a primeira, que dá o título ao programa, baseada de novo em  "Diálogos com Leucó"/"Dialoghi con Leucò", de Cesare Pavese, que já servira de base para "Da Nuvem à Resistência"/"Dalla nube alla resistenza" (1979), um dos melhores Straub/Huillet e um dos meus favoritos, "Quei loro incontri" (2006), "Le genou d'Artemisa" (2008) e " Le streghe, femmes entre elles" (2009) - exuberantemente confirma. Embora pessoalmente nem sequer procure a consolação, não lhe sou indiferente. Eu estou também aí, portanto, com Jean-Marie.
            Por falar nos melhores filmes de Jean-Marie Straub e Danièle Huillet e nos meus preferidos, recordo brevemente "A Morte de Empédocles ou Quando a Terra Voltar a Brilhar Verde Para Ti"/"Der Tod des Empedokles oder Der Erde Grün Von Neuem Euch Erglänzt" (1986), baseado na primeira versão de "A Morte de Empédocles"/"Der Tod des Empedokles", de Friederich Hölderlin, de 1798, um filme excepcional sobre o maldito, o amaldiçoado, que vibra nas vozes dos seus actores com um brio e um ímpeto raros. Em especial a parte final, com o prodigioso monólogo do protagonista contra o fundo do vulcão, o Etna, e do céu com nuvens, em que o tempo passa na paisagem escandido pelo ritmo e pela vibração das palavras, pelo sopro do vento. Nesse filme percebemos bem como os Straub respeitam o espaço e a posição de cada actor nele, cortando quando muda quem fala, por vezes para quem ouve, ou então para um espaço vazio que assiste, comovido, àquela tragédia. A profundidade de campo, embora sem aproveitamento dramático directo está aí presente para comentar, para pensar no seu espaço e na sua duração aquilo que é dito pelas vozes das personagens, como sugere Gilles Deleuze a partir da via aberta por Jean Renoir e Orson Welles (in "L'Image-temps, Les Éditions de Minuit, Paris, 1985, pág. 226) - o espaço de uma natureza não-indiferente nesse sentido.
                     Imagen
           Já em "Cézanne" (1990), que abre com panorâmicas estarrecedoras, é a voz de Danièle que, com a de Jean-Marie, comenta, enquanto em "Une visite au Louvre" (2004), que fecha com uma prodigiosa panorâmica antes do plano fixo final, estão presentes as vozes de Julie Koltaï e do próprio Jean-Marie - e estes são dois filmes fundamentais, de grande beleza e sabedoria do cinema e da pintura. Mas no excelente "Itineraire de Jean Bricard" (2008), em que o travelling domina, a voz que se ouve é a do próprio Jean Bricard. "Nada é dado de graça aos mortais" ("A Morte de Empédocles").

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