“O Estranho Caso
de Angélica” (2010) é um filme estranho
e belíssimo de Manoel de Oliveira, que aproveita um argumento seu dos anos 50 que nunca antes
tinha podido concretizar, na época por motivos conhecidos, e que na obra dele rima com “Vale Abraão”, de
que forma como que um contraponto masculino.
Passado e rodado na Régua, na margem direita do Rio Douro, narra a
história misteriosa de um fotógrafo assombrado, possuído por uma morta, Angélica/Pilár Lopez de Ayala, que é
convocado para fotografar. Desde esse primeiro contacto que, através da máquina fotográfica,
ele a vê sorrir-lhe, de olhos abertos, e depois disso, durante o sono ou acordado, a
presença dela persegue-o ao ponto de ele se interrogar se se tratará de
alucinação ou se não terá enlouquecido. Ora este estado estranho, estranhíssimo
do protagonista contrasta, em cada momento, com a normalidade da vida que decorre
a seu lado, no meio em que habita. Ele é que começa por mostrar interessar-se por
coisas que não interessam aos outros, como por aqueles que cavam a terra
enquanto cantam, o que vai dar pretexto para que o realizador enriqueça a sua
obra com esse tipo de imagens e sons.
Mas o que, além do tema, singulariza
este filme, que se segue a “Singularidades de uma Rapariga Loira” (2009) na obra
do cineasta, é o portentoso trabalho formal sobre o espaço, desde o plano de
abertura, fixo e muito longo, até aos espaços da pensão, o quarto e a sala do
protagonista, onde o contracampo absoluto, com a passagem para o lado do fotógrafo - o espaço em que ele, perturbado, estivera entre a janela e as provas fotográficas penduradas -, dá a plena
dimensão da solidão e do abandono a si mesmo de Isaac/Ricardo
Trepa, que os ruídos provenientes do exterior, ouvidos através da janela sem que nunca seja mostrada a sua origem, para
desnorte da própria personagem vêm sublinhar. Por sua vez, quando na sala de
jantar, ele surge como estranho para os outros hóspedes da pensão e sobretudo
para a respectiva dona, que não esconde o fraquinho que tem por ele. E de facto
nesse espaço ele entra como um estranho, aí vai encontrar um periquito,
primeiro vivo e mais tarde morto, como que numa estranha premonição do que a
ele próprio lhe vai acontecer.
O outro espaço importante do filme é a casa da mãe de Angélica, onde ele começa por se dirigir e de onde sai da última vez em estado de extrema perturbação, esquecendo as fotografias que ali o tinham levado e berrando por Angélica – plano assombroso em que a criada/Isabel Ruth se aproxima dele, em primeiro plano, proveniente das escadas ao fundo. Também a primeira conversa na sala de jantar da pensão tinha sido dada em plano fixo e longo, e durante ela houvera pretexto para alusões que despertam o protagonista para outros, estranhos universos, assim o confirmando naquele que habita e no que o habita.
O outro espaço importante do filme é a casa da mãe de Angélica, onde ele começa por se dirigir e de onde sai da última vez em estado de extrema perturbação, esquecendo as fotografias que ali o tinham levado e berrando por Angélica – plano assombroso em que a criada/Isabel Ruth se aproxima dele, em primeiro plano, proveniente das escadas ao fundo. Também a primeira conversa na sala de jantar da pensão tinha sido dada em plano fixo e longo, e durante ela houvera pretexto para alusões que despertam o protagonista para outros, estranhos universos, assim o confirmando naquele que habita e no que o habita.
No final, como em “Vampyr”
de Carl Th. Dreyer (1932), o protagonista desdobra-se para partir com Angélica, como
tinha acontecido aquando do seu primeiro contacto com ela, durante o sono,
durante um sonho – e este é, fora dos seus filmes históricos, o filme em que o
cineasta mais declaradamente entra no mundo dos sonhos. Aliás, Isaac surge
desde o início como um duplo do próprio Manoel de Oliveira, desde logo pela sua profissão
mas também por uma impressionante semelhança física e fisionómica de Ricardo
Trepa com o seu avô, que este explora e trabalha enquanto cineasta. E depois da estranha
morte do fotógrafo e da partida do seu fantasma (da sua alma?) com Angélica,
somos deixados no escuro no quarto do morto, demonstração cristalina de que
Oliveira não brinca, aqui como noutros casos, com os seus filmes nem com os seus
espectadores: o mistério, o inexplicável como tal deve ficar, permanecer intacto.
Se Manoel de Oliveira é um génio original e único do
cinema português e do cinema tout-court
é pelo que ele se arrisca a fazer de forma solitária e persistente, com grande coerência e sem atenção
por modas ou conveniências, antes perseguindo a sua própria ideia, aquilo que em
si, nos outros e no mundo o assombra e o desafia – a facilidade não é com ele. E
que estranho é ser-se deixado no escuro no final de um filme estranhíssimo… O
que morre e o que daquele que morre permanece não coincidem para os que ficam,
e isso faz com que “O Estranho Caso de Angélica” seja o estranho caso do
fotógrafo, que a dona da pensão dizia que trabalhava demais.
Cada vez mais ele próprio, fiel a si
mesmo até nos seus projectos, Manoel de Oliveira prossegue o seu percurso
imparável indiferente ao que se passa em volta, sem, contudo, esquecer o mundo
em que vive, com os seus novos problemas e novos conhecimentos, o que nele persiste ainda embora tenda a perder-se. Ora é da
desadequação entre Isaac e o mundo que o rodeia a todos os níveis, do contraste que ele com este estabelece, que o
cineasta tira aqui o melhor partido e o melhor proveito. De há muito que
sabemos que o caso dele é entre ele e ele próprio, como é bom que aconteça em
primeiro lugar em qualquer arte com qualquer grande artista, como ele
indubitavelmente é.
Num filme sobre a paixão por uma
morta a música é de Chopin, interpretada por Maria João Pires e com um papel
relevante na criação do mistério, do estranho segredo do filme.
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