O anunciado
“Lincoln” (2012) de Steven Spielberg é um filme histórico feito para a
história, em jeito de homenagem ao grande presidente americano do século XIX, o
presidente que pôs fim à escravatura e à guerra civil americana (1861-1865).
Centrado precisamente nessas questões, em especial na primeira embora elas estivessem ligadas - a abolição da escravatura foi
objecto de aceso debate político em Washington durante o mês de Janeiro de 1865, para a aprovação da 13ª Emenda constitucional numa Câmara dos Representantes
dividida, em que o Partido Republicano, o do Presidente, teve que, com ele, manobrar
habilmente na demanda dos votos que lhe faltavam para atingir a maioria
exigida, de dois terços -, o filme procura retratar o político e o homem, bem como o meio em que ele trabalhou e viveu nessa época, para
dele fazer um retrato completo e à sua altura.
O projecto
era ousado e de grande responsabilidade, mas todos sabíamos que o cineasta
estava à altura do desafio que a si próprio colocou. Apenas aguardávamos, com alguma expectativa, o resultado. A verdade histórica é
respeitada, como se impunha, e a oportunidade usada para fazer a exaltação do
Presidente nos momentos mais decisivos, mas também mais conturbados, da sua vida política, que acabaram por corresponder ao final da sua vida. Ao fechar o filme em Washington, Steven Spielberg assume uma opção
difícil, a que procura manter-se fiel, por forma a dar-nos o clima, político
mas também familiar, em
que Lincoln então se moveu. As únicas saídas desse espaço são
para ir ao encontro dos delegados da Confederação que se deslocam para
conversações. Clara e com bons resultados, até devido à extensão do filme penso
que uma tal opção faz sentir a falta de um contraponto ao Presidente e a Washington, que
permitisse aproximá-lo de nós em vez de o "embalsamar", como faz (1).
São, a meu
ver, descabidas, embora compreensíveis, as comparações com
outros filmes que trataram da figura de Lincoln, já que Spielberg trabalha
sobre eles para fazer o seu próprio filme, levando o seu respeito ao ponto de não
mostrar o assassinato do Presidente, bem cedo objecto de vinheta histórica em “O
Nascimento de uma Nação”/”The Birth of a Nation”, de David W. Griffith (1915).
E relativamente a “A Grande
Esperança”/”Young Mr. Lincoln”, de John Ford (1939), a sua opção revela-se a
oposta: em vez do jovem advogado em início de carreira, ocupar-se da fase
final da sua vida.
Toda a
parte visual do filme, a reconstituição histórica a que ele procede, está, como era
de exigir e de esperar, muito boa, e funciona muito bem devido à fotografia de Janusz Kaminski, aos cenários e aos figurinos, estes de Joanna Johnston, e graças às excelentes
interpretações, de que destaco Daniel Day Lewis como Abraham Lincoln, Sally Field
como Mary Todd Lincoln e Tommy Lee Jones como Thaddeus Stevens, este extraordinário de
expressão (os olhos), nomeadamente na cena em que tem de assumir um compromisso na Câmara dos Representantes – um
compromisso decisivo. A música, de John Williams e com escolhas surpreendentes, tem um papel muito importante no lado expressivo do filme.
Mas se "Lincoln" está à altura da biografia do 16º Presidente dos Estados Unidos da América, que pretender traçar, não deixa por isso – e talvez para isso – de
adoptar um tom excessivamente solene que, na falta de um contraponto exterior, "mumifica"
Lincoln sem alcançar os termos mais profundos da sua personalidade e dos seus
dilemas interiores, que só o exterior, as questões objectivas com que ele se debateu, poderiam claramente elucidar. Demasiado respeitador e preso à lenda, que contribui para
aumentar, este é um filme em que o cineasta se leva de novo excessivamente a
sério, para bem do cinema e da sua própria reputação - é exemplar do estilo de
Spielberg -, correndo assim o risco de transformar a personagem de Lincoln em mais um e. t., sem embargo do que este é o retrato oficial de uma geração daquele presidente.
É inegável o interesse das fotografias de escravos mostradas no filme, como a elegância das elipses do resultado da votação e do assassinato do Presidente, mas essas são questões elementares para um cineasta como Steven Spielberg. Agora o retrato que fica é aquele que resulta da interpretação, notável, de Daniel Day Lewis, que por si mesma chega para o retrato oficial de uma geração. O contraponto em falta, que poderia enriquecer este filme, terá de ser procurado em "A Conspiradora"/"The Conspirator" (2010), de Robert Redford, mas a sua falta em "Lincoln" faz lembrar o extraordinário pequeno episódio de John Ford em "A Conquista do Oeste"/"How The West Was Won", "A Guerra Civil"/"The Civil War" (1962). Todavia, para ser inteiramente justo com este filme, devo reconhecer que ele tem curiosos apontamentos fordianos (Robert Lincoln/Joseph Gordon-Levitt, o filho mais velho do Presidente; certas atitudes deste e de Stevens; os representantes hesitantes; o General Ulysses S. Grant/Jared Harris), que o cineasta não explora até ao fim, talvez com receio de alienar, se o fizesse, a sua marca pessoal. Contudo, ficam para a história a vinheta da rendição do General Robert E. Lee/Christopher Boyer em Appomattox e o leito de morte de Lincoln, seguido do discurso da sua segunda investidura, à laia de elogio fúnebre (2).
Obviamente que este é, mesmo assim, um filme que aconselho, até porque compreendo que o neo-academismo deste americano bem comportado que é Steven Spielberg vai fazer história. Vale como lição política, sobretudo por ser sobre um homem de convicções profundas cujas opções e decisões marcaram o seu tempo e o futuro, e em todo o caso foi também sobre a Bíblia de Lincoln que Barack Obama prestou juramento na tomada de posse do seu segundo mandato, e para os americanos actuais - e para o mundo - vai ser este o retrato, oficial, que dele fica.
Empenhado na hagiografia, demasiado bem comportado e em pose para a história e para o futuro, "Lincoln" de Steven Spielberg não frustra as expectativas e é um bom filme, como era de esperar e exigir. Obra digna de um cineasta respeitável, fica, mesmo assim, aquém daquilo que se poderia, apesar de tudo, desejar.
Notas
(1) O filme tem argumento de Tony Kushner, parcialmente baseado em "Team of Rivals: The Political Genius of Abraham Lincoln", de Doris Kearns Goodwin, a que se supõe tenha permanecido fiel.
(2) Sobre a história da América e este período em particular, ver "Uma História dos Estados Unidos da Amárica", de Philip Jenkins, neste momento disponível em português (Lisboa, Texto & Grafia, 2012).
É inegável o interesse das fotografias de escravos mostradas no filme, como a elegância das elipses do resultado da votação e do assassinato do Presidente, mas essas são questões elementares para um cineasta como Steven Spielberg. Agora o retrato que fica é aquele que resulta da interpretação, notável, de Daniel Day Lewis, que por si mesma chega para o retrato oficial de uma geração. O contraponto em falta, que poderia enriquecer este filme, terá de ser procurado em "A Conspiradora"/"The Conspirator" (2010), de Robert Redford, mas a sua falta em "Lincoln" faz lembrar o extraordinário pequeno episódio de John Ford em "A Conquista do Oeste"/"How The West Was Won", "A Guerra Civil"/"The Civil War" (1962). Todavia, para ser inteiramente justo com este filme, devo reconhecer que ele tem curiosos apontamentos fordianos (Robert Lincoln/Joseph Gordon-Levitt, o filho mais velho do Presidente; certas atitudes deste e de Stevens; os representantes hesitantes; o General Ulysses S. Grant/Jared Harris), que o cineasta não explora até ao fim, talvez com receio de alienar, se o fizesse, a sua marca pessoal. Contudo, ficam para a história a vinheta da rendição do General Robert E. Lee/Christopher Boyer em Appomattox e o leito de morte de Lincoln, seguido do discurso da sua segunda investidura, à laia de elogio fúnebre (2).
Obviamente que este é, mesmo assim, um filme que aconselho, até porque compreendo que o neo-academismo deste americano bem comportado que é Steven Spielberg vai fazer história. Vale como lição política, sobretudo por ser sobre um homem de convicções profundas cujas opções e decisões marcaram o seu tempo e o futuro, e em todo o caso foi também sobre a Bíblia de Lincoln que Barack Obama prestou juramento na tomada de posse do seu segundo mandato, e para os americanos actuais - e para o mundo - vai ser este o retrato, oficial, que dele fica.
Empenhado na hagiografia, demasiado bem comportado e em pose para a história e para o futuro, "Lincoln" de Steven Spielberg não frustra as expectativas e é um bom filme, como era de esperar e exigir. Obra digna de um cineasta respeitável, fica, mesmo assim, aquém daquilo que se poderia, apesar de tudo, desejar.
Notas
(1) O filme tem argumento de Tony Kushner, parcialmente baseado em "Team of Rivals: The Political Genius of Abraham Lincoln", de Doris Kearns Goodwin, a que se supõe tenha permanecido fiel.
(2) Sobre a história da América e este período em particular, ver "Uma História dos Estados Unidos da Amárica", de Philip Jenkins, neste momento disponível em português (Lisboa, Texto & Grafia, 2012).
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