“Um não sei quê, que nasce não sei onde,/Vem não sei como, e dói não sei porquê.” Luís de Camões

"Na dor lida sentem bem,/Não as duas que êle teve,/Mas só a que êles não têm." Fernando Pessoa

"Lividos astros,/Soidões lacustres.../Lemes e mastros.../E os alabastros/Dos balaustres!" Camilo Pessanha

"E eu estou feliz ainda./Mas faz-se tarde/e sei que é tempo de continuar." Helder Macedo

"Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos..." Camilo Pessanha

“Vem, vagamente,/Vem, levemente,/Vem sozinha, solene, com as mãos caídas/Ao teu lado, vem” Álvaro de Campos

"Chove nela graça tanta/que dá graça à fermosura;/vai fermosa, e não segura." Luís de Camões

sábado, 17 de março de 2012

Fatalidades


       Com uma já longa obra atrás de si, Brian De Palma é, hoje em dia, um dos cineastas mais conceituados da geração dos "movie brats" do cinema americano, o que não é necessariamente sinónomo de popularidade. Com efeito, se comparado com Steven Spielberg, Martin Scorsese ou Francis Ford Coppola, embora a qualidade dos seus melhores filmes não fique atrás da dos deles, De Palma não goza nem do prestígio nem do sucesso comercial que aqueles, nos melhores casos, alcançaram, embora a sua carreira não tenha sido atingida pelo fracasso comercial, como (injustamente) aconteceu com Michael Cimino, nem pela aparente impopularidade no seu próprio país que parece ter atingido (injustamente) John Carpenter, contudo um cineasta de raro fulgor criativo.
                              
      Desde há bastante tempo que o cliché que o identificava como um "imitador" de Alfred Hitchcock foi posto em causa, quer pela variação de tons e registos que ele soube introduzir nos seus filmes, quer pelo trabalho produzido em alguns dos melhores de entre eles sobre a narrativa, a imagem (e o som) e o estatuto respectivo. O seu mais recente trabalho, "Mulher Fatal"/"Femme Fatale" (2002), vem justamente corroborar esta ideia, na medida em que consegue introduzir variações originais em temas hitchcockianos, de uma forma, aliás, consistente, com a sua obra anterior, nomeadamente com "Corações de Aço"/"Casualties of War" (1989). Ao dizê-lo não quero sugerir que a inspiração em Hitchcock esteja ausente, mas que De Palme soube já agarrar nela como pretexto para pastiches em que assentam obras pessoais e, nos melhores casos, com numerosos motivos de interesse.                         
     "Mulher Fatal" é uma estimulante confirmação do que digo, quer pela introdução da personagem do fotógrafo, Nicolas Bardo/António Banderas, que permite insinuar uma reflexão sobre o estatuto da imagem semelhante à produzida em "Blow Out - Explosão"/"Blow Out" (1981) sobre o som, quer pelo carácter intrigante da narrativa, que parte de um audacioso assalto. Mas isto não é tudo. O esquema narrativo, ao decalcar o de "Corações de Aço", não se queda pela mera sugestão onírica, antes dela retira consequências ao nível da narrativa fílmica, de uma forma que remete parcialmente para "Jogos Perigosos"/"Funny Games", de Michael Haneke (1997), ao sugerir um mapeamento da narrativa como base de uma possível interactividade básica.
                              
      Dir-se-á que o esquema não é mais do que isso mesmo, um "esquema", e que como tal Brian De Palma o adopta e se serve dele, que outros usos estratégicos com maior interesse poderia ter (poderia com certeza), tanto mais quanto esse "esquema" pode surgir como "truque" quando no passado do cinema encontrou justificações bem mais originais. Ora se poderá haver razões para o dizer, não se deve, todavia, esquecer que o dito esquema funciona de forma estruturante em "Mulher Fatal" e se impõe do interior à própria lógica do filme de uma forma original, pois o sonho da protagonista é um sonho do futuro - durante o qual ela não perde nunca o comando das operações e que lhe vai permitir alterar o curso dos acontecimentos depois de despertar -, além de ser consistente, como se disse, com a obra anterior do cineasta desde "Irmãs Diabólicas"/"Sisters" (1973), pelo menos.            
      Se as derivas de Brian De Palma pelas adaptações cinematográficas de séries históricas da televisão  - "Os Intocáveis"/"The Untouchables" (1987) e "Missão Impossível"/"Mission: Impossible" (1996) - davam conta simultaneamente da sua versatilidade e do seu progressivo cansaço no seio da produção de Hollywood, este filme feito na Europa e passado em França remete para o melhor da sua inspiração cinematográfica, de que é exemplo recente "Olhos de Serpente"/"Snake Eyes" (1998), do mesmo modo que recorda outras revisitações do thriller hitchcockiano na cidade-luz, Paris, pela via do mistério, de que o antecedente mais interessante será "Frenético"/"Frantic", de Roman Polanski (1988). Que o cineasta tenha escolhido a França como cenário do seu filme e um título original em francês, embora seja uma expressão universal, com uso específico no filme negro que o cineasta aqui aborda de forma feliz, pode significar que ele procurou as terras em que os seus filmes e o seu talento melhor têm sido reconhecidos, estabelecendo uma espécie de cumplicidade intelectual com aqueles que melhor o têm defendido como autor.