“Um não sei quê, que nasce não sei onde,/Vem não sei como, e dói não sei porquê.” Luís de Camões

"Na dor lida sentem bem,/Não as duas que êle teve,/Mas só a que êles não têm." Fernando Pessoa

"Lividos astros,/Soidões lacustres.../Lemes e mastros.../E os alabastros/Dos balaustres!" Camilo Pessanha

"E eu estou feliz ainda./Mas faz-se tarde/e sei que é tempo de continuar." Helder Macedo

"Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos..." Camilo Pessanha

“Vem, vagamente,/Vem, levemente,/Vem sozinha, solene, com as mãos caídas/Ao teu lado, vem” Álvaro de Campos

"Chove nela graça tanta/que dá graça à fermosura;/vai fermosa, e não segura." Luís de Camões

sexta-feira, 30 de março de 2012

Mosaico vivo

        De Paul Thomas Anderson, de quem conhecíamos "Jogos de Prazer"/"Boogie Nights" (1997), uma segunda longa-metragem sobre o mundo do cinema porno em Hollywood do final dos anos 70 e início dos anos 80, que fora uma boa surpresa e uma obra promissora, chegou-nos agora "Magnólia"/"Magnolia" (1999). Ora, com este filme o cineasta passou de boa surpresa a excelente surpresa, de promessa a certeza.
       Construindo-o a partir das histórias de diversas personagens que de alguma forma se relacionam entre si, o realizador (como no filme anterior também argumentista) compõe uma sinfonia visual e auditiva extremamente estimulante, por nos oferecer um retrato surpreendente e cativante do nosso tempo em diversas idades, em diferentes gerações. Como num supremo movimento de criação e de revelação, "Magnólia" procede por um processo de decantação, em que uma análise mais fina de cada personagem, proporcinada pelo decurso do tempo, conduz cada uma delas ao encontro consigo mesmo ou ao reencontro com outros de quem andava afastada. E como lida com personagens plenas de actualidade, transmite-nos como que o pulsar da América contemporânea a partir de uma reflexão de fim de século sobre o século que termina.
                                 
            Algo de tremendamente sintomático acontece, porém, neste filme: em algum momento, a maior parte das personagens sente a necessidade de pedir perdão. Estamos longe, portanto, dos heróis sem culpa e sem mácula a que o cinema clássico americano nos habituou, longe dos heróis sans peur et sans reproche que nos tentaram transmitir de modo ingénuo o prosseguimento da epopeia de um país, identificado como terra do leite e do mel. Mas também não estamos apenas perante a crítica do sistema, a que alguns dos maiores cineastas americanos procederam e procedem ao longo de obras poderosas e admiráveis.             
          Aquilo de que aqui se trata é simultaneamente isso e mais do que isso, pois estamos perante uma obra que desconstrói personagens que se apresentam como símbolos e figuras fortes de um imaginário dominante, e desse modo desmonta, peça por peça, a própria estrutura da narrativa clássica e da narrativa moderna (processo que o cineasta encetara já no seu filme anterior).
                                                          
        Em "Magnólia" todos são ou pais ou mães, ou filhos ou filhas, ou esposos ou amantes, e todos, de uma maneira geral, têm algo que censurar no seu próprio passado, de que chegou o tempo de não poderem adiar mais o pedido de perdão.                                                         
       Algo de sintomático, dir-se-á, neste final de século em que vimos assistindo, um pouco por todo o mundo, a atitude semelhante assumida por entidades políticas e religiosas relativamente às mais diversas faltas. Mas também algo de compreensível, sobretudo para os mais velhos, que vêem em princípio encurtar-se o tempo de vida que lhes resta para viver, o que vem tornar natural que a mesma atitude seja também tomada por aqueles que os rodeiam.
     Dir-se-ia estarmos perante uma atitude religiosa de longa tradição no mundo ocidental, fundamentalmente no plano individual, como um princípio de confissão e de arrependimento que permite o perdão do mal praticado. Uma tradição que, acrescente-se, precedeu em muito a prática psicanalítica e foi de grande utilidade simbólica e prática para o convívio entre os humanos. Simplesmente, em "Magnólia" não há um arrependimento e pedido de perdão perante o sagrado ou os seus representantes, mas o muito directo e pessoal pedido de perdão àqueles que foram pessoalmente ofendidos.