“Um não sei quê, que nasce não sei onde,/Vem não sei como, e dói não sei porquê.” Luís de Camões

"Na dor lida sentem bem,/Não as duas que êle teve,/Mas só a que êles não têm." Fernando Pessoa

"Lividos astros,/Soidões lacustres.../Lemes e mastros.../E os alabastros/Dos balaustres!" Camilo Pessanha

"E eu estou feliz ainda./Mas faz-se tarde/e sei que é tempo de continuar." Helder Macedo

"Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos..." Camilo Pessanha

“Vem, vagamente,/Vem, levemente,/Vem sozinha, solene, com as mãos caídas/Ao teu lado, vem” Álvaro de Campos

"Chove nela graça tanta/que dá graça à fermosura;/vai fermosa, e não segura." Luís de Camões

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Poéticas fílmicas

        "Vliegtuigen"/"Aviões"/"Aeroplanes" (1994) é um filme em 16 mm transferido para formato digital, a cores e com som, de Marijke van Warmerdam, que se encontra logo à entrada da exposição "De perto à distância"/"Close by in the distance" que à conhecida artista visual holandesa dedica a Fundação de Serralves, no Porto. Trata-se de um filme curto, de 7' 55', em loop, em que se vêem aviões ora a aterrar ora a levantar voo num aeroporto, em planos separados.
        O segredo de "Aviões" está na duração, no tempo em que é tratado um acontecimento trivial: a espera, desde que um avião surge na parte superior do ecrã, enquanto ele desce e se aproxima até aterrar. Ou então o inverso: o avião em terra, ao fundo, que rola pela pista em direcção à câmara até levantar voo. São movimentos que se repetem de um aparelho mecânico, o avião, dados em toda a sua dimensão espacial no tempo, em planos separados tirados, porém, do mesmo local, com o mesmo ponto de vista. Em loop, um movimento que no filme, dada a perspectiva frontal, surge como lento (a aproximação do avião que vai aterrar ou levantar voo) torna-se uma sequência vertiginosa de planos e movimentos que se repetem de um aparelho mecânico. Chamarei, por isso, a "Aviões" um estudo fílmico de poética do tempo, em que o princípio da repetição eleva a uma potência superior movimentos temporalmente expostos em contiguidade e em continuidade.                          
                        Marijke van Warmerdam - Handstand - 16mm Filmloop
         Situado na última sala da mesma exposição, um outro filme da mesma artista, "Chasing Colours"/"Caça às Cores" (1996), em 16 mm e a cores mas sem som, mais curto do que o anterior, 6' 35'', apresenta, como ele a partir do mesmo ponto de vista, o movimento de dois camiões de cores diferentes, um laranja luminoso, o outro verde forte, que se perseguem numa auto-estrada. Também em loop, este filme dá uma ideia muito clara do movimento de outros dois aparelhos mecânicos num quadro mais diversificado, pois se podem ver no mesmo plano a própria auto-estrada, outros carros, a paisagem circundante - em "Aviões" impressionava o espaço vazio em que o avião surgia e no qual se aproximava. No caso de "Caça às Cores" aquilo que interessa a artista é o puro jogo das cores presentes nos dois camiões, sempre vistos de trás a partir de um outro carro em movimento, que pela variação da sua posição relativa originam uma combinatória diferente. No loop temos tempo para nos apercebermos da multiplicidade de jogos de cores mas também do que além delas preenche o espaço do plano, na sua repetição, embora a proximidade variável a que são filmadas as traseiras coloridas dos camiões convoque a atenção do espectador sobretudo para as cores, o efeito das suas diferentes combinações ou a presença só de uma delas. Chamarei a "Caça ás Cores" um estudo fílmico da poética da cor em movimento.
          Estes são dois filmes que, projectados, fazem parte de uma significativa exposição de uma artista, Marijke van Warmerdam, que inclui pinturas e outros objectos visuais. A ausência de som no segundo filme leva a que notemos o ruído da máquina de projectar e faz-nos regressar ao primeiro para de novo o observarmos, prestando mais atenção também ao som. A ausência de som  em "Caça às Cores" faz-nos concentrar mais no seu principal motivo visual, as suas cores, na variação da sua posição recíproca, na sua combinação sem mistura. 
                              
           Em ambos os filmes está ausente a figura humana, que vai, contudo, ser o motivo para um terceiro filme na primeira das três salas desta exposição, "Rijst"/"Arroz"/"Rice", em 16 mm e a cores, com a brevíssima duração de 18'', em que num pequeno ecrã que faz parte do próprio equipamento vemos num único plano uma rapariga que despeja uma cesta de arroz por cima de si própria - num pequeno ecrã duplicado por um pequeno espelho colocado por trás dele, em que podemos ver o mesmo filme na mesma dimensão ao mesmo tempo. Ora o que nestes 18 segundos está em causa é pura e simplesmente a decomposição e a restituição, a síntese do movimento humano, o da rapariga, e do movimento da queda do arroz por cima dela. No final a rapariga sorri, num filme que regressa aos inícios do cinema, a Edison e aos Lumiére, na decomposição e síntese do movimento, ele também em loop, que vai ser o que permite, impõe mesmo fazer a decomposição do movimento na repetição consecutiva em tão breve duração. Chamar-lhe-ei um estudo fílmico de poética  do movimento.                                 
        Recordo que em loop eram apresentados os primeiros filmes de Edison e Dickson, não projectados, anteriores aos dos Lumiére, e que uns e outros constavam de planos fixos, o que aqui se repete - mesmo em "Aviões", em que há diferentes planos, eles são apenas justapostos sem qualquer ideia de continuidade do movimento através da montagem, e em "Caça ás Cores" a câmara é colocada sobre um objecto em movimento, como fizeram os Lumière. Mais recordo que o cinema começou desprovido de som síncrono, mudo, o que levava a que, inicialmente, se ouvisse na sala o ruído da máquina de projectar. Quanto ao espelho no terceiro filme, o seu uso nos equipamentos ópticos que precederam o cinema remonta à segunda metade do século XVI aplicado à câmara obscura, o que permitiu o uso desta como auxiliar da pintura, mas voltou a ser usado nos equipamentos de experimentação sobre o movimento no século XIX, primeiro por Plateau, depois por Émile Reynaud (1). Mais: um movimento que se repete é um movimento que não pára, não acaba porque recomeça, infinito, sem princípio nem fim, o que nos dois primeiros filmes se sente e impressiona.  
                      
           A exposição "De perto à distância", organizada pelo Museum Boijmans Van Beuningen, de Roterdão, com Jan Debbaut como comissário, é a maior esposição retrospectiva de Marijke van Warmerdam e está patente na Fundação de Serralves até ao próximo Domingo, 14 de Outubro. Tem outros motivos de interesse, mas mostra nestes três filmes que a arte do filme regressa aos seus inícios onde não se esperaria mais de 100 anos depois, e desse modo se olha no seu passado e toma consciência dele e de si própria enquanto se expande.   
          Ao reinventar-se, o cinema ainda agora está a começar.

         Nota
         (1) Sobre a longa série de equipamentos que precederam e prepararam o cinema, apesar da vasta bibliografia internacional posterior continua a ser indispensável, em português, o muito bem documentado "A longa caminhada para a invenção do cinematógrafo", de Henrique Alves Costa, Cineclube do Porto, 1988. Na bibliografia internacional posterior a ele é neste momento fundamental o trabalho do francês Laurent Mannoni: "Le grand art de la lumière et de l'ombre: : archéologie du cinéma", Éditions Nathan, Paris, 1995, publicado aquando da comemoração do centenário do cinema - edição brasileira "A Grande Arte da Luz e da Sombra - arqueologia do cinema", SENAC/UNESP, São Paulo, 2003.

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